O novo narcisista • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 03 de novembro de 2004

O novo narcisista

Estocado em Goiabas Roubadas

Christopher Lasch

Os fatos tornaram as críticas liberacionistas contra a “sociedade moderna” irremediavelmente antiquadas – bem como muito da crítica marxista original. Muitos radicais dirigem ainda a sua indignação contra a família autoritária, a moralidade sexual repressiva, a censura litéraria, a ética trabalhista e outras fundações da ordem burguesa que foram já enfraquecidas ou destruídas pelo próprio avanço do capitalismo. Esses radicais não vêem que a “personalidade autoritária” não mais representa o protótipo do Homem Econômico. O próprio Homem Econômico deu lugar ao Homem Psicológico do nosso tempo – o produto final do individualismo burguês.

Ele louva o respeito pelas regras e regulamentos, na crença secreta de que não se aplicam a ele mesmo.

O novo narcisista é assombrado não pela culpa, mas pela ansiedade. Ele não busca inflingir as suas certezas sobre os outros, mas encontrar significado para a vida. Libertado das superstições do passado, ele chega a duvidar até mesmo da própria existência. Superficialmente relaxado e tolerante, ele encontra pouca utilidade para dogmas de pureza racial ou étnica, ao mesmo tempo em que abre mão da segurança das lealdades grupais, encarando a todos como rivais dos favores conferidos por um estado paternalista.

O novo narcisista exige a gratificação imediata e vive num estado de desejo inquieto e perpetuamente insatisfeito.

Sua conduta sexual é permissiva ao invés de puritana, embora a sua emancipação dos antigos tabus não lhe traga paz sexual. Ferozmente competitivo em sua necessidade de aprovação e reconhecimento, ele desconfia da competição porque associa-a inconscientemente a uma compulsão incontrolável por destruição. Por essa razão ele deprecia as ideologias competitivas que floresciam num estágio anterior do desenvolvimento do capitalismo, e desconfia até mesmo da sua expressão limitada em jogos e esportes. Ele exalta a colaboração e o trabalho de equipe, ao mesmo tempo em que nutre profundos impulsos antisociais. Ele louva o respeito pelas regras e regulamentos, na crença secreta de que não se aplicam a ele mesmo. Aquisitivo no sentido de que suas ânsias não têm limites, ele não acumula bens ou provisões para o futuro, ao modo do individualista aquisitivo da política econômica do século dezenove, mas exige a gratificação imediata e vive num estado de desejo inquieto e perpetuamente insatisfeito.

Cultura e NarcisismoVida Norte-Americana numa Era de Expectativas Minguantes (1979)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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