O nome de Deus em mãos erradas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 17 de março de 2006

O nome de Deus em mãos erradas

Depois da breve e edificante introdução ao seu tratado contra os judeus Shem Hamphoras, Martinho Lutero se apressa em reproduzir a lenda judaica que será alvo de seus ataques no restante do livro.

A lenda e o uso dela por Lutero são curiosos em muitos sentidos. Primeiro há a história em si, breve aventura em que o Nome Secreto de Deus (o Shem Hamphoras) é utilizado sem autorização por Jesus para realizar os seus milagres e atrair as multidões. Há inúmeros detalhes memoráveis, como o fato de Jesus citar incessantemente o Antigo Testamento em seu favor (hábito que aos judeus deve ter parecido especialmente irritante), o embate aéreo, a não-mencionada tecnologia que motorizava os cães mecânicos, a reversão do papel de Judas Iscariotes e o enforcamento de Jesus num pé de repolho.

O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

A lenda parece ter sido inventada por judeus dotados de aguçado senso de humor que dispuseram-se a difamar a história de Jesus sem levar a coisa muito a sério (leia-se o último parágrafo), talvez comentando ou aproveitando-se da proverbial credulidade dos cristãos. Não temos como saber como a história foi lida pelo público judeu original; não temos nem mesmo como saber se a história foi de fato escrita por judeus, mas está claro que sua divulgação deixou os cristãos furiosos.

A pitoresca narrativa foi registrada com horror na obra Victoria (1315) de um certo Victor Porchetto de Salvatici, padre genovês a quem Lutero chama pelo nome latino de Purchetus (o título completo do livro, A Vitória sobre os ímpios Judeus, na qual a verdade da fé Católica é demonstrada a partir das Sagradas Escrituras, bem como a partir das palavras do Talmude, das obras cabalísticas e de todos os outros autores aceitos pelos Judeus, proporciona uma idéia clara do seu conteúdo). Lutero, que leu-a numa reimpressão parisiense de Victoria, datada de 1520 (seu exemplar pessoal, com notas em alemão e em latim, jaz hoje no acervo da Biblioteca Municipal de Karlsruhe) traduziu a lenda a fim de refutá-la.

Não há, portanto, como recapitular adequadamente todas as camadas de meta-intolerância ligadas à criação e incessante citação deste texto. Os judeus, perseguidos implacavelmente pelos cristãos durante um milênio inteiro, podem ter inventado a história como inofensiva retaliação; por outro lado, cristãos bem-intencionados podem muito bem ter atribuído a história aos judeus, já que testemunhar falsamente o que se considera ser verdadeiro já foi considerado atitude virtuosa; cristãos como Porchetto e Lutero, inflamados pela imorrível blasfêmia, trataram então de atiçar a já alta fogueira da perseguição aos judeus.

O prejuízo está, naturalmente, longe de terminar. Onde estão os guardiãos do Shem Hamphoras quando precisamos deles dele.


DO DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO DE PURCHETIS, TRADUZIDO PARA O ALEMÃO PELO DR. M. LUTERO

1. Todos veremos agora como os judeus foram sempre tamanhos inimigos das maravilhas de Cristo que atribuíram-nas a Belzebu, senhor dos diabos. Pois ele (Cristo) fez obras assombrosas como ninguém jamais havia feito, conforme ele mesmo afirma em João 15.

Também jamais foi alegado que qualquer outra pessoa em seu Nome tenha feito os cegos verem, os surdos ouvirem, os mancos andarem e os mudos falarem, como profetizado por Isaías nos versos de 4 a 6 do seu capítulo 35: “A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará. Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará”.

2. Além desses numerosos sinais maravilhosos ele fez muitos outros, despertou os mortos, limpou os leprosos e curou muitos outros enfermos e fez tantos outros sinais que ninguém, exceto Deus, poderia tê-los feito; ainda assim a perversidade dos judeus, sempre associada a ardis malignos, teve a desfaçatez de blasfemar e vituperar esses milagres com mentiras. Eles compuseram um livro contra os cristãos no qual escrevem o seguinte:

3. ACONTECEU NOS DIAS DE HELENA, a Rainha, a qual reinou sobre toda a terra de Israel, que Jesus, o Nazareno, veio a Jerusalém. No Templo do Senhor ele encontrou a pedra sobre a qual nos tempos antigos havia estado depositada a Arca do Senhor. O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

4. Nossos sábios preocupavam-se, no entanto, que se os Filhos de Israel viessem a aprender esse Nome, acabariam por destruir o mundo através do seu poder. Eles por essa razão construíram dois cães de bronze e fixaram-nos nos dois pilares da porta do lugar santo. Se alguém entrava e aprendia as palavras do mencionado Nome, na saída os cães de metal latiam de forma tão apavorante que, de medo, a pessoa esquecia o Nome e as letras que havia aprendido.

5. Ora, Jesus, o Nazareno, entrou e aprendeu as palavras e escreveu-as num pergaminho. Ele em seguida rasgou a carne da perna e escondeu lá dentro as anotações. E por ter pronunciado o Nome, nada o feriu, e a pele fechou-se como sempre havia estado. Quando saiu do Templo os cães de bronze latiram, de modo que ele esqueceu o Nome prontamente. Quando chegou em casa, no entanto, ele abriu a perna com uma faca, extaiu as anotações nas quais estavam escritas as letras do Shem Hamphoras e aprendeu-as novamente.

6. Depois disso ele reuniu ao redor de si 310 jovens de Israel e disse a eles: “Vejam, os sábios dizem que sou filho de uma meretriz, porque querem exercer domínio sobre Israel; mas vocês sabem o que todos os profetas profetizaram a respeito do Messias. Ele sou eu, esta é a verdade. Como Isaías profetizou a meu respeito: ‘Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e seu nome será Emanuel’ (Isaías 7:14). Foi assim que meu ancestral Davi profetizou e disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei’ (Salmo 2:7). Desta forma minha mãe deu-me à luz sem a contribuição de homem algum, pelo poder de Deus apenas. Portanto não sou eu, mas eles, que são filhos de uma meretriz, como diz Oséias: ‘Não terei misericórdia dos filhos deles, pois que são filhos de meretrizes’ (Oséias 2:4)”.

7. Os jovens de Israel então responderam: “Se você é o Messias, dê-nos um sinal”. “Que sinal vocês querem de mim?” Eles disseram: “Faça um manco ficar em pé como estamos agora”. Ele disse: “Tragam-me um”. Logo eles lhe trouxeram um manco que nunca havia ficado em pé, e ele proferiu sobre ele o Shem Hamphoras; na mesma hora o manco firmou-se sobre seus pés e levantou-se. Então todos eles ajoelharam-se diante dele e disseram: “Ele é o Messias, sem qualquer dúvida”. Também trouxeram-lhe um leproso. Ele proferiu o Nome sobre ele e colocou sua mão sobre ele, e o leproso recuperou-se de imediato. Por causa disso um bom número de pessoas desprezíveis do nosso povo associou-se a ele.

Enquanto isso, os anciãos de Israel permitiram a entrada de um sujeito chamado Judas Iscariotes no lugar mais santo do Templo.

8. Os sábios, no entanto, quando viram que Israel começava a crer nele, capturaram-no e trouxeram-no até a rainha Halani, que possuía a terra de Israel naquela ocasião, e disseram a ela: “Graciosa Senhora, este homem faz mágicas e engana o mundo”. Jesus, o nazareno, respondeu: “Graciosa Senhora, os profetas profetizaram anos atrás a meu respeito, e um deles disse o seguinte: ‘Um rebento brotará do tronco da tribo de Jessé’ (Isaías 11:1). Esse sou eu, de quem Davi diz: ‘Bem-aventurado aquele que não anda segundo o conselho dos ímpios’ (Salmo 1:1)”.

9. Ela disse: “Está na lei de vocês o que esse homem está dizendo?” Eles responderam: “Sim, assim diz a nossa lei, mas não refere-se a ele. O que está escrito a respeito dele está em Deuteronômio 13:5: ‘Esse profeta deverá ser morto, pois pregou rebeldia contra Deus’. Mas do Messias está escrito (Jeremias 23:6): ‘Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro’”. Diante disso aquele Ímpio respondeu e disse à rainha: “Ele sou eu, porque posso despertar os mortos”.

10. A rainha mandou então com eles seus servos mais dignos de confiança, e o Ímpio fez um morto reviver através do Shem Hamphoras. Daquele momento em diante a rainha ficou muito impressionada e disse: “Por certo este é um grande milagre”. Ela olhou para os sábios com desprezo, de modo que eles tiveram de deixá-la envergonhados, o que trouxe grande prejuízo para eles e para os de Israel. E Jesus, o nazareno, transferiu-se para a Galiléia Superior.

11. E os sábios voltaram até a rainha e lhe disseram: “Graciosa senhora, esse sujeito lida com artes mágicas e confunde todas as coisas vivas”. Ela por isso mandou seus mercenários a fim de capturá-lo; porém a gente da Galiléia não agradou-se disse, opondo-se a ela. Ele, no entanto, disse: “Vocês não devem lutar por minha causa, pois o poder do meu pai celeste e o sinal que ele me deu me defenderão”. E a gente da Galiléia fez pássaros de barro diante dele, e quando ele proferiu o Shem Hamphoras sobre eles os pássaros voaram prontamente; e eles prostaram-se de rosto no chão e oraram a ele.

12. Na mesma hora ele pediu que uma uma enorme pedra de moinho fosse trazida e atirada dentro do mar; quando isso havia sido feito, o Ímpio proferiu o Shem Hamphoras, e fez com que a pedra se erguesse até a superfície do oceano, e ele sentou-se sobre ela e disse aos mercenários: “Vão até a sua senhora e digam o que viram”. Ele em seguida levantou-se na frente deles e caminhou sobre o mar.

13. Os mercenários foram e relataram à rainha Halani tudo que haviam visto. Ela ficou tremendamente indignada e chamou os sábios e disse a eles: “Vocês alegaram que esse homem, Jesus de Nazaré, é mágico, mas saibam que seus sinais demonstram que ele é verdadeiramente o filho de Deus”. Eles porém disseriam: “Graciosa senhora, que ele venha até aqui para que possamos denunciar seus intentos perversos”. Enquanto isso, os anciãos de Israel foram e permitiram a entrada de um sujeito chamado Judas Iscariotes no lugar mais santo do Templo. Ele aprendeu as letras do Shem Hamphoras da mesma maneira que Jesus de Nazaré havia aprendido, e rasgou a carne da perna como o outro (Jesus) havia feito.

14. Então veio Jesus de Nazaré com seu séquito de seguidores e a rainha pediu aos sábios que aparecessem também. Ele deu um passo na direção da rainha e disse: “Davi profetizou a meu respeito: ‘Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia’ (Salmo 22:16). Mas isto também é dito a meu respeito, em Jeremias 1:8: ‘Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor’”. Mas os sábios questionavam isso.

15. E ele disse à rainha: “Serei exaltado ao céu, pois assim diz Davi a meu respeito: ‘Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus’” (Salmo 57:11). Ele então ergueu os braços como asas, através do nome Shem Hamphoras, e voou entre o céu e a terra. Como viram isso, os sábios falaram a Judas Shariot, dizendo que ele proferisse o Shem Hamphoras e subisse atrás dele. Judas ergueu-se do chão e lutou com ele, de modo que os dois caíram de volta juntos, e o Ímpio quebrou um braço: os cristãos lamentam esse ocorrido todos os anos antes da sua Páscoa.

16. Na mesma hora os israelitas caíram sobre ele, ocultaram-no debaixo de panos e surraram-no com varas de romã. E disseram à rainha Halani: “Se esse é o Filho de Deus, que diga quem lhe bateu” – mas ele não foi capaz de dizer. A rainha disse aos sábios: “Vejam, ele está nas suas mãos. Façam-lhe o que acharem por bem”.

17. Eles então agarraram-no e conduziram-no ao cadafalso; no entanto, não importava a árvore ou tora em que o pendurassem, ela quebrava-se em dois de imediato, pois ele havia conjurado todas as árvores e madeiras, através do Shem Hamphoras, para que não fossem capazes de sustentá-lo. Eles então foram e trouxeram um caule de repolho, que não cresce de árvore alguma mas de uma planta rasteira, e enforcaram-no nela. Não há milagre aqui, porque no Santo dos Santos cresce a cada ano um caule tão poderoso que 50 quilos de sementes pendem dele. Haec ille.

* * *

Falk, Gerhard, The Jews in Christian Theology: Martin Luther’s Anti-Jewish “Vom Shem Hamphoras” (Jefferson, N. C. and London: McFarland & Company, 1992)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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