O mercado que nos protege • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de maio de 2016

O mercado que nos protege

Estocado em Brasil · Política

O governo que não deve ser nomeado deflagrou uma semana de rigoroso Choque e pavor – a tática militar de ocupar dando demonstrações múltiplas e espetaculares de força, de modo a desestimular qualquer resistência.

Numa semana, o governo que até segunda ordem é interino divulgou estar pronto para:

Isso só para citar as medidas mais desconcertantes, e sem pausar para examinar a ficha de antecedentes dos ministros apontados, do novo líder do governo e do próprio presidente em exorcismo.

Embora espero que seja poupado desse constrangimento, você vai encontrar brasileiros satisfeitos com esse pacote de propostas. O motivo da satisfação? Cada uma das medidas listadas acima representa um avanço do neoliberalismo – a doutrina segundo a qual o mercado é promotor de toda justiça, o estado é promotor de toda injustiça.

A curiosidade teológica está em que para neoliberal/fundamentalista de mercado reduzir a saúde pública e eliminar o ensino público são medidas que na boa não deixam ninguém desamparado, porque se você tiver fé (e emprego) o mercado nos protege. As necessidades que o estado supria de modo tão amador o mercado vai suprir de modo profissional, através dos planos de saúde e das escolas privadas. Como o serviço do estado é inferior e menos confiável do que o do mercado, eliminar o serviço do estado é um grande favor que estamos te fazendo, um dia quando for grande você vai agradecer.

Em regime complementar, o novo governo também já sinalizou que não vai fiscalizar o serviço prestado pelos planos de saúde, e nesse lavar de mãos está embutida uma outra manha neoliberal: o mercado é um deus caprichoso, e só promove a justiça quando e enquanto permanece “livre” – querendo dizer, entre outras coisas, livre de fiscalização e de regulamentação.

Para recapitular: o SUS precisa ser reduzido, mas se tiver interesse você pode contratar este plano de saúde pelo preço arbitrário que o mercado quiser cobrar por um serviço que para sua conveniência ninguém vai fiscalizar. Mas confie, está tranquilo e está favorável; para saber mais tecle 2 ou espere na linha para ser atendido por um dos nossos colaboradores.

 

Nada disso foi votado pela população e nada disso não é esperado de um governo essencialmente alçado ao poder pela FIESP, mas caramba.

O que me surpreende não é a cara lavada com que as medidas que só beneficiam o mercado são tomadas por quem quem está oficialmente representando os interesses da população; do neoliberalismo não convém esperar ignomínia menor.

O que me deixa de cara é o modo como a agenda neoliberal ignora como por completo, como se nada fossem, esferas inteiras de vida, de interesses e de modos de fazer que existem e operam à parte do mercado. A cara de pau que é preciso ter para agir como se não existissem faixas e intersecções inteiras da sociedade que por n motivos – idade, capacidade, vocação, doença, “deficiência” física ou mental, desinteresse, idealismo, convicção, inadequação, ambição artística, tradição ou falta de oportunidade – vivem fora do mercado e não tem como ser protegidas por ele (algumas vezes não tendo inclusive qualquer interesse nessa proteção).

Agir e legislar como se só a esfera do mercado fosse legítima serve para efetivamente marginalizar (e marginalizar é um modo conveniente de criminalizar) quem no mercado não está porque não quer ou porque não pode: anciãos, doentes, índios, licenciados, loucos, desempregados, órfãos, gente da rua, saltimbancos, sertanejos, quilombolas, poetas, incapacitados, subsistentes e qualquer um que escolha um modo de vida não-predatório. Quem não produz e não consome para o mercado não existe: está na margem e com a margem será punido, porque quem está na margem o mercado não protege.

Para efetivamente punir quem está na margem, o estado deve diminuir e o mercado deve tudo cobrir, daí a ênfase absoluta nas privatizações.

 

O estado, por ideia interina e falha que seja (e é), está fundamentado na noção de que sempre existirão os desamparados, gente que o cidadão comum não vai ter os recursos ou o tempo para proteger. O contrato é que o estado seja sustentado por todos para que todos saibam que diante da contingência – a doença, a incapacitação, o desemprego – ninguém vai estar descoberto.

Muito menos realista e muito mais cafajeste, o fundamentalismo de mercado opera num mundo fictício em que os desamparados não existem ou não contam. Na malha inclemente do neoliberalismo, o mercado protege quem no mercado está, e qualquer outro arranjo é inconcebível – e ilegítimo. Nada de saúde pública, nada de ensino público, nada de empresas públicas, nada de florestas, nada de reservas indígenas, porque tudo que tem valor – inclusive gente – precisa demonstrar o seu valor passando pelo fogo no cadinho do mercado. Quem permanecer descoberto é porque nunca mereceu.

A última curiosidade é que as duas farsas sem complementam, e se existem tantos desamparados que o cidadão comum não tem como proteger (tendo de ser atendidos pelo estado) é porque o cidadão comum tem sua vida inteiramente sugada pelo mercado, não lhe restando espaço para pensar em outro interesse que não seja o seu. Não é de estranhar a criminalização de quem tem tempo para pensar em outra coisa.

Todo o choque e todo pavor, é claro, são para nos distrair de que nada se mostrará mais eficaz para enxugar o estado do que o mercado mínimo. Falemos disso em seguida, e continuamente.

 

 

Tuítes verdadeiros

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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