O holocausto da Alma • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de março de 2008

O holocausto da Alma

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A mentalidade literalista dos reformadores imprimiu um significado à Escritura, mas negou a possibilidade de se atribuírem significados a objetos naturais

As verdades voam prontas pelo mundo, sem nome e sem rótulo, muito antes que alguém seja capaz de capturá-las no ar e articulá-las. Um artigo de um certo Peter Harrison, da Bond University, ajudou-me a solidificar uma conclusão que apenas entrevi em The Decline of Magic, de Keith Thomas.

Foram necessários 58 anos do século XX para que C. P. Snow articulasse, em The Two Cultures and the Scientific Revolution, uma condição que já seria possível diagnosticar pelo menos no século anterior: a fratura cada vez mais acentuada entre as ciências humanas e a ciência propriamente dita. “Creio que a vida intelectual da civilização ocidental está cada vez mais dividida entre dois grupos polarizados: de um lado os intelectuais literários, do outro os cientistas”. Snow fez bem em se maravilhar diante dessa ruptura, porque a filosofia, a arte e a ciência andaram juntas na maior parte da história (para demonstrá-lo bastará a análise mais superficial da produção de gente como Newton, Leonardo Da Vinci e Pascal).

A tese de Harrison é simples. Para ele, o início dessa fratura deve-se àquele momento particular da história em que, ao contrário do que acontecia anteriormente, palavras e coisas passaram a receber tratamento diferente (as palavras, sem as coisas, acabariam degenerando em ciências humanas; as coisas, sem as palavras, degenerariam em ciência).

Esse momento pode ser determinado com alguma facilidade, pois corresponde ao surgimento da Era Moderna, em algum momento processual entre os séculos XVI e XVII. A novidade da posição de Harrison (e, depois de articulada, ela me parece ao mesmo tempo elegante e evidente) está em que, segundo ele, o golpe certeiro que originou a rachadura teria vindo diretamente da Reforma Protestante – mais especificamente, das novas lentes com as quais as Escrituras passaram a ser lidas pelos teólogos e pensadores protestantes.

O que segue é uma condensação do texto de Harrison.

 

[Antes da Era Moderna] a interpretação da Escritura estava ligada à interpretação dos objetos naturais. No terceiro século Orígenes (185-254) lançara, com base em Paulo (Romanos 1.20), a noção de que os objetos criados carregam significados simbólicos profundos. As múltiplas referências que a Bíblia faz a “leões”, por exemplo, exigiam o conhecimento dos múltiplos significados dessas criaturas; o leão podia representar Cristo, mas também o diabo. Embora o sentido literal das palavras fosse fixo, o sentido alegórico dos objetos não era. Agostinho (354-430) refinou esse sistema; segundo ele, as palavras referiam-se inequivocamente a objetos (sentido literal), mas os objetos em si podiam referir-se a outros objetos (sentido alegórico).

Os objetos agiam como símbolos.

A multiplicidade de sentidos dos textos bíblicos não se relaciona portanto à ambiguidade das palavras, mas à capacidade dos próprios objetos de agirem como símbolos com referentes múltiplos. Determinar o sentido literal da escritura exigia identificar uma palavra com um objeto particular; determinar o sentido alegórico exigia uma análise dos significados dos próprios objetos. A alegoria medieval era portanto alimentada por uma teoria da natureza. “Todas as criaturas”, dizia Alan de Lille (1202), “são livros, imagens e espelhos”.

Nos séculos XV e XVI a Reforma Protestante passou a rejeitar os modos medievais de interpretação da Bíblia e, consequentemente, a concepção simbólica da natureza. Com os novos interesses históricos e antropológicos dos humanistas do Renascimento surgiu uma ênfase renovada no sentido literal da escritura. Os reformadores investiram a Escritura com autoridade sem precedentes, por isso careciam de um sistema de interpretação que produzisse resultados sem ambiguidade.

Além disso, a rejeição protestante da autoridade da tradição eclesiástica implicava que o texto da escritura devia livrar-se das leituras alegóricas dos Pais e Doutores da igreja. Tanto Martinho Lutero quanto João Calvino insistiam que a Bíblia tem um sentido único e inflexível, que corresponde normalmente (mas não invariavelmente) ao sentido literal ou histórico.

O triunfo do sentido literal sobre outros níveis de significado gerou a abordagem textual que tipifica a modernidade, na qual um texto tem um único texto identificado com as intenções de seu autor. Além disso, como a alegoria havia imprimido uma leitura particular aos objetos naturais, os modernos deixaram de ler significados múltiplos nos objetos – ocasionando mudanças dramáticas no modo pelo qual a ordem natural era vista.

Literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não.

A ênfase na primazia do sentido literal da escritura teve a consequência não planejada de interromper uma cadeia de referência potencialmente infinita, na qual palavras referem-se a objetos e objetos referem-se a outros objetos. A mentalidade literalista dos humanistas e reformadores imprimiu assim um significado fixo ao texto da escritura, mas ao mesmo tempo negou a possibilidade de se atribuírem significados a objetos naturais. Literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não. Isso tornou possível que novas leituras científicas da natureza substituíssem as leituras emblemáticas e simbólicas da Idade Média.

Nessa concepção da natureza os objetos são despidos de quaisquer propriedades intrínsecas e tornam-se entidades geométricas. São ordenados através de relações matemáticas, não significados transcendentais. As categorias matemáticas impostas sobre Galileu e John Ray aos objetos físicos e coisas vivas pode assim ser entendida como uma tentativa de reconfigurar o mundo natural que havia sido privado de ordem e significado pelo abandono da leitura alegórica.

Em suma, comumente se supõe que nos séculos XVI e XVII as pessoas começaram a olhar o mundo de um modo diferente, pelo que não podiam mais acreditar no que liam na Bíblia. Mais acurado seria dizer que no século XVII as pessoas começaram a ler a Bíblia de um modo diferente, pelo que viram-se forçadas a abandonar suas concepções tradicionais do mundo natural. Resumindo, a emergência da ciência moderna está intimamente relacionada ao novo modo literal de se ler o texto sagrado.

Negou-se poderes de significado também a todos os artefatos humanos que haviam sido projetados para exercer uma função simbólica.

O abandono do sentido simbólico do mundo natural e a ênfase moderna na centralidade da palavra literal foi reforçada por outros elementos da religião reformada. Não negou-se poderes de significado apenas aos objetos naturais, mas também a todos os artefatos humanos que haviam sido projetados para exercer uma função simbólica: imagens pintadas em tela e gesso, construídas de vitral ou azulejo, ou esculpidas em madeiras e pedra foram sacrificadas no altar da iconoclastia. “A Reforma”, diz Eamon Duffy, “representou a defraudação de observâncias familiares e amadas, a destruição de um vasto e ressonante mundo de símbolos”.

As novas práticas litúrgicas também elevavam a palavra literal em detrimento do símbolo. O contexto inteiro da adoração protestante – visual, espacial, auditivo – era radicalmente diferente do que havia existido antes. Nas igrejas reformadas o foco da adoração deslocara-se da missa e seus objetos simbólicos para a leitura e a exposição da Bíblia. A doutrina da transubstanciação, da qual depende muito do significado da missa, foi condenada como exemplo típico da idolatria na qual objetos comuns [em contraposição a palavras] são blasfemamente adorados como Deus.

Ao final do século XVI o mundo dos símbolos começava a desmoronar, e sua anteriormente poderosa visão de ordem cósmica, dos significados profundos do reino material, começou irrevogavelmente a declinar. Ao promover a cultura da palavra literal, a Reforma Protestante efetuou uma dramática redução da esfera do sagrado, despindo forçosamente objetos naturais e artificiais dos papéis que haviam exercido como portadores de significado. A ideologia protestante e as práticas materiais que propagou desempenharam um papel chave na transição profunda pela qual, nas palavras de Lawrence Stone, “a Europa deslocou-se de uma cultura de imagens para uma cultura de palavras”.

As origens do mundo moderno estão, dessa forma, intimamente relacionados a revoluções na esfera da religião: o rito sagrado que havia residido no coração da cultura medieval foi substituído por um texto sagrado, palavras literais tomaram o lugar de objetos simbólicos, e o desempenhar de rituais sacramentais foram tomando o segundo lugar, substituídos pela recitação de crenças proposicionais.

Com essas mudanças veio a desintegração da prática de interpretação unificada que havia atribuído significados múltiplos tanto ao mundo natural quanto ao texto sagrado. Passou-se a reservar significado e inteligibilidade apenas a palavras e textos. O mundo natural, que havia sido um domínio transparente que unia palavras a verdades eternas, perdeu seus significados e tornou-se impermeável às práticas de interpretação que anteriormente o elucidavam; ficou para a emergente ciência natural a tarefa de reinvestir de inteligibilidade a ordem criada.

Dessa forma uma das características dominantes da modernidade, o triunfo da palavra escrita e a identificação de seu significado único com a intenção do seu autor, deu origem a outra: a compreensão sistemática e reducionista do mundo incorporada nas hoje consagradas práticas da ciência natural.

O valor da natureza foi reduzido à sua utilidade material.

O processo de esvaziamento de significado do mundo natural abriu espaço não apenas para a explicação científica, mas também para a exploração material. A partir do momento em que, por causa das novas práticas de interpretação, a natureza deixou de agir como espelho de verdades transcendentais e livro de lições morais, seu valor foi reduzido à sua utilidade material. O que é algumas vezes percebido como a neutralidade moral das ciências, ou mais pejorativamente como sua falência moral, é uma das consequências do fato de a natureza não ser mais lida em conjunto com as escrituras, e que portanto os multiformes significados das criaturas tornaram-se agora obscuros. O silêncio da natureza é condição necessária para o abuso na exploração de seus recursos.

Num mundo natural que perdeu sua autoridade como repositório de verdades teológicas, a Escritura sofreu também uma irrecuperável perda de status devido à mudança para a primazia do sentido literal. Fixar o significado da Escritura a fim de reforçar sua autoridade produziu o efeito contrário. Existe, afinal de contas, uma diferença entre ler-se a Bíblia de modo literal e sustentar-se que as palavras da Bíblia sejam literalmente verdadeiras.

Dessa forma, o triunfo da abordagem literal abriu pela primeira vez na história da interpretação bíblica a possibilidade real de que passagens da Bíblia pudessem ser falsas. O sistema alegórico de Orígenes, por exemplo, virtualmente garantia a verdade de cada palavra da escritura. Aquilo que não fosse literalmente verdade – e aqui Orígenes incluía a descrição da criação em Gênesis – era verdadeiro num nível mais elevado. Não é de se surpreender que o desmantelar dos ricos mecanismos de interpretação medieval, com suas múltiplas camadas de significado, tenha exposto pela primeira vez a escritura aos assaltos da história e da ciência. A insistência dos protestantes para que fosse atribuído um significado determinado às passagens da escritura colocou em andamento o processo que acabaria minando a autoridade bíblica que eles tão entusiasticamente propunham.

A interpretação da Bíblia passou a ser uma ciência.

Em consequência, a interpretação da Bíblia passou a ser uma ciência, um processo legitimado pela sua conformidade aos princípios da pesquisa histórica. A determinação do sentido literal do texto bíblico, tarefa que havia agora assumido vital importância dentro da tradição cristã, foi assim delegada aos que possuíam o conhecimento técnico relevante, sendo importante demais para ser confiado àqueles com um interesse direto nela.

Em resumo, a interpretação moderna da escritura, precisamente como a interpretação moderna da natureza, deixou de ser atividade religiosa. O ambiente do pós-modernismo provê uma oportunidade bem-vinda para que se avaliem as heranças hermenêuticas do passado, a fim de se considerar o que é valioso ou não. Talvez seja hora de se recuperar a Bíblia como documento religioso e revisitar as estratégias interpretativas da Idade Média, período durante o qual a Bíblia falava com muitas vozes.

Peter Harrison
University of Queensland

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O sacro rompimento

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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