O grito • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de fevereiro de 2007

O grito

Estocado em Goiabas Roubadas

— Chalaça, não aguento mais.

— Esperai apenas por aquela curva. Corre por ali um riacho. Terá algo mais para se limpar que calhaus e folhas secas.

Avermelhado pela urgência, sorriu perante tão amável conselho e apertou o corpo contra o cavalo, enquanto as dores o começavam a agoniar. Assim que ouviu a água a correr, saltou para o chão e, enquanto se dirigia para a beira do córrego, aproveitou para ir baixando as calças. Ainda antes de se pôr de cócoras, sentiu o baixo ventre a explodir. Seria isto o que as mulheres sentiam ao dar à luz? – pensou. Mas envergonhou-se de tal pensamento. Não era digno da sua pessoa pensar no que sentiriam as mulheres quando faziam aquilo para que tinham sido feitas por Deus Nosso Senhor. A ele tinha cabido outra parte no processo e tinha muito prazer nisso. Entrar muito nas dores das mulheres era pouco menos que deixar-se contaminar por uma esfera que não era a sua nem pretendia ser. Mas que o mistério do baixo ventre feminino lhe tomava em cerco a alma, lá isso tomava. Qualquer vulva era sagrada, e a ele era dado a oportunidade fácil de haurir o sacro espírito da mãe natureza que se lhe apresentava em todas as formas, tons e cheiros, desde a mais corpórea catinga ao mais etéreo, enjoativo e incensado dos perfumes. Apesar do cheiro pútrido da soltura, não lhe era indiferente o espaço vivo onde rebaixava o corpo à mais comum e vulgar das maleitas. Além dos arbustos, os cavalos parados resfolegavam e os donos riam sem grande alarde. Dele, talvez?… Importaria isso? O respeito que lhe deviam mantinha-se apesar de saberem bem que ele era tão humano quanto eles. Mais humano ainda. Não o dizia, por modéstia, mas sentia-o. Havia mais de homem numa gota do seu sangue ou do seu sémen do que em todo o corpo do mais limpo de diarreias dos seus acompanhantes. Acocorado junto a um ribeiro, à espera de sentir algum alívio dos intestinos rebeldes, era mais digno que qualquer um deles, se por acaso a traição ou a descrença se lhes insinuasse num sorriso de comiseração. Entre ele e o passarito que deixara o excremento branco que manchava a pedra à sua frente, pouca diferença haveria. O pássaro talvez tivesse nas suas mãos um destino a ele desconhecido – talvez o rumo das constelações, à noite, pudesse por ele ser desviado, enquanto que a si, pouco mais lhe havia calhado que a liderança de homens. Duas almas que deixavam no mundo um rasto de excrementos. Eis como, provavelmente, a Divina Providência os poderia classificar, da mesma forma clara e descritiva com que a sua esposa falava dos percevejos de élitros pentagonais ou de insectos que emergiam de baba viscosa com formas mais exuberantes que as dos lírios do campo que teriam envergonhado Salomão. Mariquices, isso de competir com flores no que à roupa diz respeito, quando umas calças de linho e um chapéu de palha bem chegariam para contentar cada ser humano, incluindo ele. Não pretendia outro ornamento que a honra e o cumprimento cabal do seu destino. Chegou-se à água e limpou-se. Levantou-se, mais leve, ainda que sentindo ameaços futuros. Foi abotoando o uniforme em direcção ao cavalo, guardado pelo padre Belchior que o aguardava. Ouviu então os cascos de um cavalo que se aproximava em louca correria. Reconheceu o cavaleiro, Paulo Bregaro, de seu nome. Este, assim que reconheceu o vulto régio, freou violentamente o cavalo que espumava pela boca, correndo o risco de conhecer a mesma sorte que os quatro que lhe tinham antecedido na correria, apenas para que algumas folhas de papel chegassem às mãos de alguém que, com mais acerto, usara água ainda há instantes – não havendo, de facto, indícios de que se usasse papel para outros fins que escrever em tal época.

Pedro estendeu as mãos trémulas. Colhe o fruto, que está maduro, dizia a sua esposa. Baixai a penca contra o chão, rapazinho, diziam as Cortes de Lisboa. O rapazinho, ainda combalido dos intestinos, sorriu. Estava na sua altura de mudar o rumo das constelações. Subiu para o cavalo, deixando cair os papéis que pouco mais faziam que rebaixá-lo a uma alma com um rasto de subserviência e subiu para um morro, rasgando entre as hostes de almas, envergando o sabre, onde parecia luzir um cruzeiro de luz. Junto ao húmus aluvial do Ipiranga, as moscas empenhavam-se laboriosamente na decomposição do mundo.

* * *

Da obra absolutamente notável
de meu amigo português Manuel Anastácio

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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