O gerenciamento da esperança [1] • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de abril de 2014

O gerenciamento da esperança [1]

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 2 de 8 da série O gerenciamento da esperança

Quando descrevo meu amigo Claudio Oliver como pessimista e desiludido posso ter desenhado a imagem de um cara amargo e sem esperança, o que não poderia estar mais longe da verdade. O Oliver não deixa que a dureza das suas ideias se cristalize em cinismo, como eu faço, mas transmuta o que poderia gerar cólera e rancor em coragem e gentileza, em disponibilidade e abundância.

Porém, dentro todos, o Oliver terá entendido que não pode haver elogio maior do que “desiludido”. Para se ter esperança é preciso não se ter ilusões: do contrário o que você tem não é esperança, é ilusão.

Tudo isso está na mensagem que me mandou o Oliver no dia em que depositei na Bacia A respeito do colapso da civilização:

Querido e bondoso amigo,

Muita honra ser assim citado por você. E ainda tem mais, diante disso tudo, e do pessimismo que me acomete, resta a espera. Espero (e como poderia deixar de esperar) a ressurreição e a vida. Não por otimismo, mas exatamente por me alinhar aos pessimistas.

Os otimistas são da linhagem de Caim – que, vendo a natureza, disse “cidade”. E deu [ao primeiro filho e à primeira cidade] o nome de Enoch (“meu começo”, ou “vamos dar um jeito nessa zona”). E depois dele saiu a especialização e a divisão de trabalho. E sempre essa humanidade caímica, otimista, a olhar a bosta que faz e repetir seu mantra “vamos administrar, vamos dar um jeito nisso”.

Me coloco na linhagem de Sete, que olhou pra tudo e disse Enosh (em hebraico, “homem mortal, homem ordinário”, de anash…. homem fragilizado, para diferir do belo Adam). O nome do filho que é a declaração da fragilidade e do desespero, como quem diz: tem misericórdia, pois essa é minha única chance.

Sou assim, da linhagem de Sete – sempre melhor do que mereço, sempre perdido, dependente de esperar, pois esperando, declaro meu pessimismo, e me agarro em algo, que pelo menos, tem mais chance de dar certo, e ressurgir, do que a fé na possibilidade de que aumentar a dose do remédio que nos mata irá nos curar.

Boa noite, mano

Não me faça repetir: está na hora de você conhecer a pessoa e a obra do Claudio Oliver – especialmente porque trata-se de uma daquelas pessoas raras e insuportáveis cuja obra é indistinguível da sua pessoa. O que o Oliver faz é viver a vida do seu jeito e deixar que o mundo se beneficie (ou se aterrorize diante) disso.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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