O gerenciamento da esperança [4] • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de abril de 2014

O gerenciamento da esperança [4]

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 5 de 8 da série O gerenciamento da esperança

Encerrei aquela nota sobre colapso da civilização com a sentença Nada pode ser feito porque, obviamente, é só em parte verdade. Há um crescente número de climatologistas, ambientalistas, políticos e gente comum que insiste que é tarde demais para ser pessimista. Se a menor parcela do sofrimento futuro pode ser evitada, repetem esses caras, ação imediata e radical é imperativa em todos os níveis: pessoais, comunitários e governamentais (ouça por exemplo o Alexandre Costa em sua coluna “O que você faria se soubesse o que eu sei?” 1A frase é de James Hansen, ele mesmo um enfático promotor da revisão das práticas político-econômicas que alimentam o aquecimento global.).

É um momento delicado e desconcertante este, porque em parte nada pode ser feito e em parte tudo está por fazer. Para algumas pessoas, entender que o aquecimento global é certo e irreversível é justificativa muito evidente para continuarmos no mesmo rumo sem qualquer alteração de trajeto. Para outros, entender que o nosso modo de vida arruinou o futuro climático é justificativa suficiente para abandonarmos esse modo de vida de maneira imediata e radical. Quem sabe quantos outros futuros estamos arruinando e ainda não nos demos conta?

Ambientalistas resignados e ativistas concordam num ponto: pelo que sabemos, as mudanças de curso que fizermos hoje beneficiarão diretamente as próximas gerações muito mais do que a nossa. Seres humanos e sociedades daqui a 100 ou 15.000 anos poderão quem sabe beneficiar-se da moderação que colocarmos em prática a partir de hoje.

O que levanta um dilema ético fundamental: porque eu deveria renunciar a alguma coisa se a minha renúncia não beneficia diretamente nem a mim nem a ninguém na minha geração? Quem me colocou como guardião do meu irmão futuro, quando meu presente já não é coisa resolvida? Isso sem levar em conta o agravante: lembrar que a porção dos recursos da Terra que os meus escrúpulos pouparem pode a qualquer momento ser queimada pelo capitalista do meu lado, que não tem os mesmos escrúpulos.

De modo geral os ateus se mostram mais preparados do que os religiosos para pagar os custos das renúncias, da consistência e do ativismo que requer a causa ambiental. Talvez seja porque tenham dominado a arte de não ter ilusões; talvez porque, como lembra meu amigo Ivan, num mundo em que os cristãos perderam o temor de Deus, e tudo que querem com Deus é manipulá-lo e beneficiar-se dele, sejam apenas os ateus a temer.

Talvez seja porque nesse mundo tenham sido os ateus a aprender a lição que Jesus tentou ensinar em atos e palavras, e gerações de cristãos trataram de negligenciar: de que não só é possível, mas altamente louvável fazer a coisa certa sem esperar recompensa.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O gerenciamento da esperança

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Notas   [ + ]

1. A frase é de James Hansen, ele mesmo um enfático promotor da revisão das práticas político-econômicas que alimentam o aquecimento global.
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