O gerenciamento da esperança [3] • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de abril de 2014

O gerenciamento da esperança [3]

Estocado em Política · Quase Ciência

Esta é a parte 4 de 8 da série O gerenciamento da esperança

Em sua carta o Oliver esboça duas heranças ideológicas: de um lado a linhagem de Caim, gananciosa e otimista, que ignora a fragilidade e as contradições da condição humana e insiste em construir, cercar, organizar, produzir, conquistar, ampliar, ordenar e progredir (Ordem e Progresso!); do outro, a linhagem de Sete, lúcida e desiludida, que reconhece tanto a sua insuficiência quanto o potencial destrutivo da sua condição, pelo que avança um dia após o outro com toda a cautela, esperando misericórdia de Deus ou do universo. Caim é produtividade, Sete é responsabilidade.

A essas duas grandes ideologias – os filhos de Caim que violentam o mundo porque desprezam o conselho de Deus e os filhos de Sete que cuidam do mundo porque o temem, – será necessário acrescentar uma terceira, mais recente e mais perversa, trazida à luz pelas tradições calvinista e evangelical: são os que abusam do mundo e creem ter nisso a divina aprovação.

Os grandes adeptos desse modo de pensar são os evangélicos norte-americanos 1Esse pensamento está refletido em doutrinas como a do Destino Manifesto, que afirma que Deus deu aos norte-americanos a missão de expandir o seu território sobre o continente e sua influência civilizatória sobre o mundo, em benefício de todas as famílias da terra., que são também os maiores defensores do capitalismo neoliberal e os mais beneficiados por ele.

Para os evangélicos norte-americanos (que fizeram a cabeça dos evangélicos brasileiros), preservar o planeta e os seus recursos é um grande pecado e uma grande incredulidade, visto que [1] Deus deu ao homem a tarefa de dominar a terra e [2] em caso de emergência basta quebrar o vidro do fim do mundo: Deus proverá aos salvos (isto é, aos próprios evangélicos) um planeta novo, com recursos zerados, uma brisa fresca e vista para o mar. Responsabilidade ambiental, insistem eles, é para os fracos que não têm fé.

Nos Estados Unidos são essencialmente os republicanos (a ala política diretamente alinhada à tradição evangélica) a insistir, contra todas as evidências, que o aquecimento global é uma fraude. São os que se recusam a reduzir o uso de combustíveis fósseis, a assinar tratados de redução de emissão de CO2, a reconhecer que o capitalismo acentua a distância entre as classes. São os que se recusam a pesar o custo ambiental do desenvolvimentismo, a fomentar alternativas de energia ao petróleo e ao carvão, a endossar medidas de proteção à água, ao ar e às especies.

São o guri perverso que quebra tudo e diz “liga não, depois meu pai paga”.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O gerenciamento da esperança

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Notas   [ + ]

1. Esse pensamento está refletido em doutrinas como a do Destino Manifesto, que afirma que Deus deu aos norte-americanos a missão de expandir o seu território sobre o continente e sua influência civilizatória sobre o mundo, em benefício de todas as famílias da terra.
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