O esgotamento dos sentidos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 31 de janeiro de 2007

O esgotamento dos sentidos

Estocado em Manuscritos

Ao cabo de algum tempo a superabundância do céu torna-se, paradoxalmente, paralisante. Ser humano algum está preparado para a bem-aventurança sem trégua; não se sobrevive impunemente à liberdade de se poder ter o que se quer, quando se quer, da forma que se quer. No céu Deus recolhe a misericórdia que nos cerceava, e ficamos à mercê de nossos próprios apetites pelo que é bom. Não há quem não acabe descobrindo que a identidade que sustentávamos nos anos mortais estava ligada menos ao que chegamos ali a possuir e realizar do que àquilo que jamais alcançamos. Somos essencialmente aquilo que não atingimos, e o toque da prosperidade acaba sendo em última instância descaracterizador.

Parte da dificuldade está em apreender e abraçar uma nova relação com a passagem do tempo. No regime do céu você pode decidir escrever um livro de mil páginas ao ritmo de uma palavra por ano – ou por década, ou por milênio. O que quer que decida fazer, não tenha pressa, porque a eternidade é longa e requer incessantes distrações. Carpe Diem no Paraíso é take it nice and slow.

Os recém-chegados costumam espojar-se imediatamente em limusines, coberturas duplex, haréns e diamantes; rebaixam-se a banquetes e constróem torres. Gastam enormes favores em cirurgias plásticas. Inútil alertá-los que, como a beleza convencional está ao alcance de todos, valiosas são justamente as imperfeições singulares que procuram apagar: as minúsculas verrugas das costas, os espaços entre os dentes, a geometria inusitada do nariz, as estrias da coxa, as rugas da pele que apontam para os olhos, o arco da barriga.

A seu tempo acabam baixando uma taça entediada na borda de mármore da jacuzzi cheia de leite de rosas e passam a desejar que exista algo mais. Essa crise de esgotamento moral e sensual, a que René Girard chamou de telopausa, explica nossa obsessão com o inferno e com distrações arbitrárias de todo o tipo: a política, o culto da performance, a hipocrisia e a permuta de destinos. Eu mesmo, no devido tempo, tentarei fatalmente distrair-me com o cricket, que nunca me apeteceu; testarei a mão na poesia, que ainda menos. Recorrerei ao pugilismo, e será meu braço que o juiz estará erguendo no ringue lá embaixo. Será meu nome que gritarão, na arena, no palco ou no panteão, e terei meus quinze milênios de fama, um após outro. Eventualmente, se não tiver ido antes disso para o inferno, só me restará o recolhimento e a imobilidade.

Cortiano conhece essas contradições há mais tempo do que eu. Na terra foi vinicultor e tocador de violoncelo; no céu, bombeiro, jornalista, escritor, cafetão e cavaleiro andante. Ignoro o que exatamente faz hoje além de ser meu chefe na Imigração, mas ele já falou-me mais de uma vez de sua paixão mais recente: a genealogia.

Todo bairro do paraíso tem em alguma esquina um prédio da Guilda de Genealogistas, organização não-governamental cujos objetivos são dois: traçar a árvore genealógica e, mais ou menos ao mesmo tempo, esboçar uma biografia de toda a humanidade. Informa-me Cortiano que a Guilda está incrivelmente adiantada no seu primeiro própósito. Os ramos da árvore humana, do primeiro homem à humanidade como era antes do início da Primeira Guerra Mundial, parecem já ter sido – com raras lacunas – devidamente consignados.

Foi navegando nos terminais da Guilda que Cortiano, que é de descendência italiana, descobriu sua remota ligação com um francês famoso, Julien Offray de la Mettrie. Cortiano descobriu que moravam no céu na mesma cidade; falaram-se pelo telefone e combinaram um jantar no Museu da Aviação. Antes do primeiro aperitivo Cortiano descobriu que não se tratava do Julien Offray de la Metrie que esperava encontrar, mas do pai do médico e filósofo iluminista de mesmo nome. Trocaram de qualquer forma afinidades e ascendentes sob a asa de um DC-3 e selaram amizade. De la Metrie é agora pugilista; é o favorito da luta principal desta noite e foi quem providenciou nossos convites.

No intervalo entre o final da luta (que De la Mettrie acaba de vencer) e o início do balé, o celular de Cortiano toca. Penso por um instante que deve ser Glenn Miller, a quem fiquei de ligar, mas descarto imediatamente a idéia: Cortiano não o chamaria de campeão.

– É De la Mettrie – ele diz, fechando o celular. – Ele quer que o encontremos nos vestiários e convidou-nos a cear e dormir na chácara dele.

– E o balé? – aponto para a movimentação do palco, onde o ringue acaba de ser desmontado e substituído por uma enorme armação em forma de andaime. – É O Barbeiro de Sevilha.

– Podemos ver outro dia. Temos que conversar.

– Você planejou isso desse jeito, não foi? – pergunto, levemente indignado.

– Mais ou menos – ele sorri, colocando o paletó. – Precisamos de um lugar seguro para discutir o que precisamos discutir. E quem sabe de um aliado ou dois.

E faz sinal para que eu o siga.

No vestiário De la Mettrie já tomou banho e está terminando de se vestir. A franja de cabelos lisos molhados pende sobre o rosto quando o homem se ergue para nos receber.

– Aha! Você até que está bem para quem acaba de levar uma surra! – Cortiano está genuinamente feliz e está em parte mentindo. Quem levou uma surra foi o oponente de De la Mettrie; o homem perdeu três dentes, que voltarão a nascer.

– Andrea Cortiano!

Sem apagar o enorme sorriso, o peso-pesado aproxima-se a passos largos e desfecha um inclemente cruzado de direita no rosto do meu chefe. Cortiano passa voando por mim e cai sentado, com um gemido e um estalo, no ângulo da parede. Sem qualquer pausa no seu avanço, De la Mettrie caminha até ele e ajuda-o a levantar-se.

– Me dê parabéns! – ele implora sorrindo, apertando as faces de Cortiano entre as palmas enormes das mãos.

– Parabéns – Cortiano consegue gemer, e o pugilista o troca imediatamente pela porta aberta do armário.

– Vamos – ele exige, enfiando num único gesto uma camiseta branca sobre o torso musculoso – meu filho está nos esperando.

– Este é um amigo do Bureau – sem afastar a mão que massageia o queixo, Cortiano ergue a outra na minha direção. Antes que ele consiga dizer o meu nome os punhos de De la Mettrie estão me triturando os lábios contra os dentes: uma vez, duas, três vezes, e estou desmaiado antes de saber disso.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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