O ebola vê o mundo como deveríamos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de outubro de 2014

O ebola vê o mundo como deveríamos

Estocado em Pense comigo

Coisas como eleições presidenciais contribuem, pela distração do nacionalismo, para que ignoremos o fato de que as verdadeiras questões são humanas, ao mesmo tempo maiores e menores do que a fantasia da nação. O âmbito nacional é uma ficção e requer fé, os âmbitos globais e locais são muito reais e requerem obras.

Não há maior emblema dessas contradições do que a presente ameaça do vírus ebola. Ao contrário de nós, o ebola simplesmente não enxerga fronteiras nacionais: tudo que ele vê são seres humanos. Tudo que ele vê, e portanto denuncia, é a realidade.

E a realidade é a senzala global, o fato de que há países senhores, países feitores e países escravos. Há um certo número de países particularmente difíceis de serem “liberados” para o capitalismo: são nações que têm pouco a contribuir para a máquina de moer da economia global – querendo dizer que tem poucos recursos para serem queimados e é pouco provável que comecem em tempo hábil a consumir, – querendo dizer que o mundo sente-se muito à vontade para ignorá-los.

Por motivos que são mais de disposição geográfica do que políticos, grande parte dessas nações de periferia encontra-se no continente africano.

Como está indicado em The Hot Zone, de Richard Preston, o encontro do ser humano com o vírus ebola deve-se a uma tortuosa conjunção de fatores econômicos, políticos e biológicos. Outro modo de dizer a mesma coisa é que a ascensão do ebola é um desastre ecológico: uma inconveniência que poderia ter sido evitada ou teria consequências muito diversas se certas florestas estivessem ainda de pé, se certas populações não tivessem sido exploradas ou ignoradas, se certas espécies não tivessem sido extintas, se certos modos de vida não tivessem sido lançados para a margem, se a divisão em países não fosse um sistema de castas, se o capitalismo não tentasse vender sem pausa os mesmos desejos a todas paisagens e pessoas do planeta.

E, muito claramente, se certos alarmes tivessem sido ouvidos quando soaram pela primeira vez. O primeiro encontro conhecido do ser humano com o ebola aconteceu em 1976, mas quase quatro décadas se passaram sem que se encontre uma cura – especialmente porque por quatro décadas pouco esforço foi feito para buscar-se uma. A produção de novos remédios e terapias é regida pela busca de retorno financeiro tanto quanto qualquer atividade, e ninguém parecia disposto a procurar uma cura para uma doença de gente pobre, para países que não teriam como comprá-la.

Fato é que o futuro e o presente da epidemia seriam diferentes se uma cura, um tratamento ou uma vacina já estivessem à mão há cinco anos. Um ano. Quanta gente na África e fora dela terá de pagar pela fé arbitrária no nacionalismo e no capitalismo, só o futuro saberá debitar na nossa conta.

No último capítulo de The Hot Zone, Richard Preston sugere que o ebola pode ser uma cura que a Terra está tentando colocar em ação para livrar-se da infecção humana. Como vítima de câncer, a Terra está “lutando contra o homem”.

Se a Terra perder essa batalha, permita-me a ingenuidade de sonhar que o ebola (ou seu sucessor) torne-se para o homem uma vacina: contra a ilusão de países e fronteiras, contra a ilusão de ricos que valem alguma coisa e pobres que não. Uma porra de um vírus, um filamento de proteínas que não chega a ser uma única célula, entende melhor do que nós o fato de que somos todos seres humanos, e da mesma carne.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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