O depoimento de Randolph Carter • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 03 de fevereiro de 2006

O depoimento de Randolph Carter

MAIS UMA VEZ AFIRMO: não sei o que é de Harley Warren, embora acredite — quase espere — que ele se encontre em oblívio pacífico, se é que existe em algum lugar coisa tão bem-aventurada. É verdade que fui por cinco anos seu amigo mais íntimo, e que partilhei em parte de suas terríveis investigações no desconhecido. Não negarei, embora minha lembrança seja incerta e indistinta, que essa sua testemunha nos tenha visto juntos como diz, na estrada de Gainsville, caminhando na direção do pântano do Cipreste Grande, às onze e meia daquela noite horrenda. Que levávamos lanternas elétricas, pás e um curioso rolo de fio ao qual estavam ligados certos instrumentos, chegarei mesmo a afirmar, pois todas essas coisas tomaram parte na única e hedionda cena que permanece gravada a fogo em minha memória abalada. Mas do que se seguiu, e da razão pela qual fui encontrado sozinho e confuso na orla do pântano na manhã seguinte, devo insistir que nada sei além do que já lhes relatei vez após outra. Afirmam vocês que nada existe no pântano ou perto dele que possa compor o cenário daquele episódio sinistro. Respondo que nada sei além do que vi. Visão ou pesadelo pode ter sido — e visão ou pesadelo espero ardentemente que tenha sido, — porém é tudo que minha mente retém do que tomou lugar naquelas horas chocantes depois que abandonamos a vista dos homens. E por que Harley Warren não retornou, apenas ele ou o seu espectro — ou alguma coisa inominável que não posso descrever — podem dizer.

Como já disse antes, os insólitos estudos de Harley Warren eram bem conhecidos e, até certo ponto, compartilhados por mim. De sua vasta coleção de livros estranhos e raros sobre assuntos interditos, li todos os escritos nos idiomas que domino; mas esses são poucos quando comparados com aqueles em idiomas que não compreendo. A maioria era, creio, em árabe; e aquele volume de inspiração diabólica que provocou o fim — o livro que ele carregava em seu bolso quando partiu deste mundo — estava escrito em caracteres que nunca vi em qualquer outro lugar. Warren nunca me disse exatamente o que havia naquele livro. Quanto à natureza de nossos estudos — será preciso dizer que não retenho mais deles compreensão completa? Parece-me misericordioso que seja assim, pois eram estudos terríveis, que eu perseguia mais por relutante fascínio do que por inclinação verdadeira. Warren sempre me dominou, e algumas vezes eu o temia. Lembro como tremi diante de sua expressão facial na noite anterior ao horrível acontecimento, enquanto ele falava incessantemente sobre a sua teoria: por que certos cadáveres nunca se decompõem, mas permanecem firmes e intactos em suas tumbas por mil anos. Mas eu não o temo agora, pois suspeito que ele tenha conhecido horrores além do meu alcance. Agora temo por ele.

Afirmo mais uma vez que não tenho nenhuma ideia clara do nosso objetivo naquela noite. Por certo tinha muita relação com o livro que Warren carregava consigo — aquilo livro antiquíssimo em caracteres indecifráveis que havia chegado para ele da Índia um mês antes, — mas juro que não sei o que esperávamos encontrar. A sua testemunha diz que nos viu onze e meia na estrada de Gainsvilee, rumando ao pântano do Cipreste Grande. Isso é provavelmente verdade, embora eu não tenho recordação distinta disso. A imagem cauterizada na minha alma é de uma cena apenas, e deve ter sido bem depois da meia-noite, pois o arco da lua minguante estava alto no céu vaporoso.

O lugar era um cemitério antiquíssimo; tão antigo que estremeci diante dos inúmeros sinais de tempos imemoriais. Era uma depressão profunda e úmida, coberta de mato alto, musgo e curiosas trepadeiras daninhas, e permeada de um vago fedor que minha imaginação ociosa associou, absurdamente, a pedra apodrecida. Em cada direção havia sinais de abandono e decrepitude, e eu parecia assombrado pela noção de que Warren e eu éramos as primeiras criaturas vivas a invadir um silêncio letal de séculos. Sobre a orla do vale um arco pálido de lua espiava através dos fétidos vapores que pareciam emanar de não-vistas catacumbas, e com a ajuda de seus raios débeis e hesitantes pude distinguir uma repelente formação de antigas lajes, urnas, cenotáfios e fachadas de mausoléus: todos esboroantes, cobertos de musgo e manchados de umidade, e parcialmente ocultos pela repulsiva exuberância de vegetação insalubre.

Minha primeira impressão vívida da minha própria presença nessa terrível necrópole diz respeito ao ato de parar com Warren diante de um sepulcro semi-obliterado e de depositar no chão certos fardos que parecíamos estar carregando. Eu agora observava que trazia comigo uma lanterna elétrica e duas pás, enquanto meu amigo estava suprido de uma lanterna similar e de uma unidade telefônica portátil. Nenhuma palavra foi pronunciada, pois o local e a tarefa nos pareciam conhecidos; e sem demora empunhamos nossas pás e começamos e limpar a grama, as ervas daninhas e e a terra solta de sobre o arcaica sepultura. Depois de descobrir por completo a superfície, que consistia de três imensas lajes de granito, recuamos a alguma distância para escrutinar aquela cena macabra, enquanto Warren parecia fazer alguns cálculos mentais. Ele voltou em seguida ao sepulcro e, usando sua pá como alavanca, tentou levantar à força a laje que jazia mais próxima a certa ruína de pedra que podia ter sido, em seu próprio tempo, um monumento. Quando não conseguiu, fez sinal que eu viesse ajudá-lo. Finalmente, nossa força combinada desalojou a pedra, que erguemos e deixamos de lado.

A remoção da laje revelou uma abertura negra, da qual precipitou-se uma efluência de gases miasmáticos tão nauseante que recuamos em horror. Depois de um intervalo, no entanto, aproximamo-nos novamente da cova, e achamos a exalação menos intolerável. Nossas lanternas revelaram o topo de uma escadaria de pedra, da qual gotejava alguma detestável exsudação licorosa do coração da terra e era ladeada por muros umedecidos incrustrados de nitrato. E agora pela primeira vez minha memória registra discurso verbal, Warren dirigindo-se longamente a mim em sua voz melodiosa de tenor; uma voz notavelmente não afetada pelo ambiente medonho que nos cercava.

— Sinto ter de pedir que você fique na superfície — ele disse, — mas seria um crime permitir que qualquer pessoa de nervos frágeis descesse ali. Você não tem como imaginar, nem mesmo pelo que leu e pelo que eu lhe falei, as coisas que terei de ver e fazer. É uma tarefa horrenda, Carter, e duvido que qualquer homem sem uma sensibilidade de ferro poderia desincumbir-se dela e sair vivo e são. Meu desejo não é ofendê-lo, e os céus sabem a satisfação que seria tê-lo comigo; mas a responsabilidade é num certo sentido minha, e eu não poderia arrastar um feixe de nervos como você rumo à provável morte ou loucura. Eu lhe digo, você não tem como imaginar como a coisa realmente é! Mas eu prometo mantê-lo informado pelo telefone de cada movimento: você vê que tenho fio suficiente para chegar até o centro da terra e voltar!

Ainda posso ouvir, na lembrança, essas palavras faladas com serenidade; e posso ainda recordar meus protestos. Eu parecia desesperadamente ansioso por acompanhar meu amigo para dentro daquelas profundezas sepulcrais, porém ele provou-se inflexivelmente obstinado. Em determinado momento ele ameaçou abandonar a expedição se eu continuasse insistindo, ameaça que mostrou-se efetiva, visto que apenas ele possuía a chave da coisa. Tudo isso posso ainda recordar, embora não mais conheça a natureza da coisa que buscávamos. Depois de obter minha relutante aquiescência com seu propósito, Warren pegou o rolo do fio e ajustou os instrumentos. A um aceno seu eu peguei um desses últimos e sentei-me sobre uma lápide decrépita e descolorida junto da abertura recém aberta. Ele então apertou-me a mão, alçou o rolo de fio sobre os ombros e desapareceu dentro daquele indescritível ossuário.

Por um minuto acompanhei o brilho da sua lanterna e ouvi o rumorejar do fio enquanto ele o depositava atrás de si; mas o brilho logo desapareceu abruptamente, como se uma curva na escadaria de pedra tivesse sido alcançada, e o som morreu com quase a mesma rapidez. Eu estava sozinho, porém ao mesmo tempo ligado a profundezas desconhecidas pelos filamentos mágicos cuja superfície encapada jazia verde sob os moribundos raios daquele arco de lua minguante.

Eu consultava incessantemente o relógio na luz da minha lanterna elétrica, e auscultava com ardente ansiedade o receptor do telefone; mas por mais de um quarto de hora nada ouvi. Então o instrumento produziu um estalo débil, e chamei meu amigo em voz tensa. Apreensivo como me encontrava, eu não estava de modo algum preparado para as palavras que subiram daquela catacumba sinistra em inflexões mais alarmadas e agitadas do que qualquer uma que já tivesse ouvido de Harley Warren. Ele, que havia me deixado tão calmamente há poucos momentos, chamava agora das profundezas num sussurro alterado mais agourento do que o grito mais agudo:

— Deus! Se você pudesse ver o que estou vendo!

Não consegui responder. Sem fala, só conseguia esperar. Vieram em seguida as inflexões frenéticas novamente:

— Carter, é terrível… monstruoso… inacreditável!

Desta vez a voz não me falhou, e despejei no transmissor uma enxurrada de perguntas exaltadas. Aterrorizado, repetia continuadamente:

— Warren, o que é? O que é?

Mais uma vez veio a voz do meu amigo, ainda rouca de temor, e agora aparentemente com um quê de desespero.

— Não posso contar, Carter! É inconcebível demais… não ouso lhe contar… nenhum homem poderia saber e viver… Santo Deus! Eu nunca sonhei com isso!

Silêncio novamente, exceto por minha agora incoerente torrente de inquirições tiritantes. Então a voz de Warren num timbre da mais selvagem consternação:

— Carter, pelo amor de Deus, coloque de volta a laje e saia disso enquanto pode! Rápido; largue todo o resto e corra para fora… é a sua única chance! Faça como estou dizendo, e não me peça para explicar!

Eu ouvi, porém era capaz apenas de repetir minhas perguntas frenéticas. Ao redor de mim estavam as tumbas e a escuridão e as sombras; abaixo de mim, algum perigo além do alcance da imaginação humana. Mas meu amigo estava em perigo maior do que eu, e permeando meu temor senti um vago ressentimento de que ele pudesse me considerar capaz de desertá-lo em tais circunstâncias. Mais estalos, e depois de uma pausa um berro queixoso de Warren:

— Caia fora! Pelo amor de Deus, coloque a laje de volta e caia fora, Carter!

Algo na gíria infantil do meu companheiro, tão claramente alterado, despertou minhas faculdades. Formei e berrei uma resolução:

— Warren, aguente firme! Estou descendo!

Mas diante dessa oferta o tom do meu ouvinte desfigurou-se num grito de completo desespero:

— Não! Você não entende! É tarde demais; e por minha própria culpa. Coloque a laje de volta e corra; não há mais nada que você nem ninguém possam fazer!

A entonação mudou novamente, adquirindo desta vez uma qualidade mais serena, como que de desesperançada resignação. Ela porém permanecia tensa de preocupação por mim.

— Rápido; antes que seja tarde!

Tentei não dar ouvidos a ele; tentei quebrar a paralisia que me prendia e cumprir meu voto de descer em seu auxílio. Mas seu sussurro seguinte encontrou-me ainda inerte nas cadeias do absoluto horror.

— Carter; apresse-se! Não adianta; você tem de ir; melhor um do que dois; a laje…

Uma pausa, mais estalos, então a voz débil de Warren:

— Quase terminado agora; não torne isso mais difícil; cubra esses degraus malditos e corra para salvar a pele; você está perdendo tempo; adeus, Carter; não vou vê-lo novamente.

Aqui o sussurro de Warren transformou-se num grito, grito que gradualmente elevou-se a berro carregado com o horror de todas as eras:

— Malditas coisas infernais! Legiões! Meu Deus! Caia fora! Caia fora! CAIA FORA!

E em seguida, silêncio. Desconheço por quantos éons intermináveis permaneci sentado, estupefato; sussurrando, balbuciando, chamando, berrando naquele telefone. Vez após outra ao longo desses éons eu sussurrei e balbuciei, chamei, gritei e berrei:

— Warren! Warren! Responda; você está aí?

E então me sobreveio a culminação absoluta do horror — a coisa inacreditável, impensável, quase imencionável. Eu disse que éons pareciam ter passado desde que Warren berrara sua última advertência desesperada, e que apenas meus próprios gritos quebravam o hediondo silêncio. Mas depois de um intervalo houve estalos adicionais no receptor, e concentrei meus ouvidos para escutar. Chamei novamente:

— Warren, você está aí?

E em resposta ouvi a coisa que trouxe esta nuvem sobre minha mente. Não tentarei, cavalheiros, explicar aquela coisa, aquela voz, nem me aventurarei a descrevê-la em detalhe, visto que as primeiras palavras me roubaram a consciência e criaram um vazio mental que estende-se até o momento em que acordei no hospital. Direi que a voz era profunda? Cava? Gelatinosa? Remota? Espectral? Inumana? Desencarnada? Que direi? Foi o fim da minha experiência, e é o fim da minha história. Eu a ouvi e de nada mais sei; ouvi-a sentado, petrificado, naquele cemitério desconhecido dentro daquela depressão, por entre pedras esboroantes e tumbas arruinadas, a vegetação insalubre e os vapores miasmáticos; ouvi-a subindo das profundezas mais interiores daquele maldito sepulcro aberto enquanto observava as sombras amorfas e necrófagas dançarem debaixo daquela amaldiçoada lua minguante.

E o que ela disse foi:

— Idiota, Warren está MORTO!

H. P. Lovecraft
Escrito em 1919 e publicado em maio de 1920 em The Vagrant


Com a notável exceção de Jorges Luis Borges nenhum narrador exerceu sobre mim influencia mais poderosa do que o norte-americano H. P. Lovecraft.

Lovecraft não deixou nenhuma história longa com exceção de Nas montanhas da loucura, que o competente cineasta Guillermo del Toro vive ameaçando transformar num filme que não tem como fazer jus à singularidade da história. A editora Francisco Alves publicou no Brasil duas boas compilações (há muito esgotadas) de contos de Lovecraft: Um sussurro nas trevas e A casa das bruxas, ambos parte da coleção Mestres do horror e da fantasia, na qual o único volume digno da companhia de Lovecraft era A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson. Pelos três livros vale devassarem-se todos os sebos concebíveis.

O depoimento de Randolph Carter é uma história menor desse autor que só escreveu no estilo “menor” que é o conto de horror; é também em muitos sentidos atípica dele. Mas serve como apressada introdução ao seu talento para criar atmosfera e ao seu amor pelos adjetivos exóticos. A tradução é minha.



Leia também:
POST MORTEM


Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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