O culto do ócio • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de julho de 2006

O culto do ócio

Estocado em Brasil

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Antes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte.

Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos.

Eu não ganho pra isso.

Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temos o culto do ócio.

Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome.

O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.

Invejamos os ricos, mas não ao ponto de nos dobrarmos à baixeza de economizar.

Invejamos os ricos, mas não ao ponto de nos dobrarmos à baixeza de economizar para alcançar uma posição financeira mais confortável. Trabalhar, sentimos, já é humilhação suficiente.

Pela mesma razão, o trabalho para nós não tem o mesmo objetivo que tem para americanos e europeus. Para eles trabalhar é uma maneira de garantir um futuro melhor; para nós, é um modo de prover alguma gratificação instantânea. Se cometemos a baixeza de trabalhar é para vivermos mesmo que por um instante como se não o precisássemos.

É como resume magistralmente o refrão do Forró pé-de-chinelo de Marinês:

Coisa melhor é ver o dia amanhecer
Não querer nem saber que a gente tem que trabalhar
Que trabalhar é pra poder ganhar dinheiro
Ganhar dinheiro pra poder se esbandalhar

Forró pé-de-chinelo, Marinês | Clique no triângulo para ouvir

* * *

De um lado então, estão protestantes americanos, que crêem que há evidente mérito em trabalhar, porque possibilita a acumulação de riquezas; do outro, católicos brasileiros, que crêem que há evidente mérito em desfrutar de riquezas, desde que não exija a acumulação de trabalho.

Tanto um pensamento quanto o outro afastam-se a seu modo da posição radical de Jesus, que cria não haver qualquer mérito na acumulação ou no desfrutar de riquezas. A postura de Jesus não prescinde do trabalho mas não o glorifica; não glorifica o ócio mas exige tranqüilidade. As aves não acumulam reservas, e ainda assim o Pai as alimenta – argumentava ele, não querendo com isso dizer que as aves não trabalham. Pelo contrário, a força do exemplo está em que as aves trabalham incessantemente, mas não movem um músculo para acumularem aquilo de que em última instância não precisam.

Os frugais é que são felizes, e rico é quem não precisa de nada.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna