O ateísmo é a melhor coisa, exceto nos casos em que deixa de ser • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de junho de 2015

O ateísmo é a melhor coisa, exceto nos casos em que deixa de ser

Estocado em Manuscritos

Este relato é a parte 1 de 3 da série Os usos políticos do ateísmo

O mistério dos ateus que não deixam de acreditar em coisas incrivelmente convenientes

Ateus e desconversos me interessam mais do que crentes e religiosos, porque via de regra submeteram-se a um autoexame mais inclemente e no processo abandonaram um bom número de ilusões a respeito de si mesmos e dos outros.

Para o teólogo Paul Tillich, o marxismo e a psicanálise são grandes e temíveis em que desmascaram níveis ocultos da realidade que antes de serem articulados determinavam o curso das gentes sem que os tivéssemos de olhar de frente. O homem natural tem medo (em alguns casos fundamentado) de que enxergar a realidade como ela é possa destruí-lo, por isso tende a rejeitar com paixão tanto as revelações do marxismo quanto as da psicanálise.

Preferimos não ver desmascarado nenhum aspecto oculto da realidade, porque não é possível voltar a ver o mundo como o víamos antes. Não é possível recolocar a máscara em Batman e esquecer que ele é Bruce Wayne, e essa inexorabilidade do conhecimento é tão maravilhosa quanto terrível.

O ateísmo tem a virtude de celebrar essas e outras modalidades de desilusão.

Não é por acaso – é, digamos, por design inteligente, – que muitas das pessoas mais desinteressadamente gentis, humanas e generosas que já me abraçaram estão entre as que não acreditam em Deus ou deixaram de acreditar nele1. A desilusão talvez seja o único caminho genuíno ou possível para a gentileza2; fiz uma tatuagem mental para desconfiar de quem procura demonstrar a segunda sem dar indícios da primeira.

Os caras que mais admiro (de Sócrates a Oliver Sacks) são os que têm sonhos grandes e enorme paixão pela humanidade mas abandonaram suas ilusões a respeito dela – e a respeito de si mesmos. Sendo um estado de depuração, a desilusão é um estado de graça. O sujeito iludido tende à exaltação e ao fundamentalismo; o desiludido tende à tolerância e à longanimidade. O sujeito iludido encontra facilidade para julgar e condenar; o desiludido está equipado para simpatizar e oferecer descontos. O sujeito iludido tem certezas e profissões de fé; o desiludido tem questionamentos e, na melhor das hipóteses, diante do desmascaramento da realidade (e do seu próprio) não perdeu a ternura.

Se insisto nesse ponto é porque tenho contra certas modalidades de ateísmo contemporâneo que não se mostram suficientemente desiludidas. Ateus permanecem gente humana, e a lucidez corta dos dois lados. Gente lúcida pode facilmente se convencer de que se tornou impermeável a toda ilusão e todo autoengano3, e os ateus com maior visibilidade cultural são (precisamente como os religiosos de maior visibilidade) os que se deixaram cair nessa armadilha.

Idealmente, ateus deveriam mostrar-se mais desapaixonados, mais céticos e menos suscetíveis à ideologia do que a maioria das pessoas, mas basta ouvir os porta-vozes do Novo Ateísmo (que não representam a maioria, eu sei, mas em qual empreendimento humano os fundamentalistas são os que falam menos) para entender que não é assim.

Richard Dawkins e Sam Harris são o alvo mais fácil, porque ergueram mais alto do que os outros as suas bandeiras. Esse é o primeiro mistério doloroso, que gente supostamente impermeável à ideologia encontre ocasião de levantar bandeiras.

Dawkins e Harris são cientistas que, como ninguém encontrou espaço para ignorar, ficaram conhecidos pelo seu ativismo antiteísta. Não acreditam em Deus e rejeitam toda religião, e tomaram o passo adicional de decidir que Deus e a religião são a causa e o instrumento de praticamente todas as guerras, todas as crueldades e todas as divisões que marcaram a história da humanidade. O Deus que não existe não deve ser apenas ignorado, insistem, deve ser combatido até que seja impossível para uma noção tão evidentemente irracional desvirtuar qualquer pessoa na terra.

“Se eu pudesse com uma varinha de condão eliminar o estupro ou a religião”, disse famosamente Sam Harris, “não hesitaria em eliminar a religião”. E os seus discernimentos seguem por essa linha.

Críticos dos dois lados já observaram que o fervor de ateus ativistas como Dawkins e Harris, sua evidente ânsia em converter, reflete de modo paradoxal o fervor dos religiosos que eles combatem. Porém talvez seja injusto criticá-los nisso, visto que os métodos exaltados dos religiosos se mostraram eficazes por milênios: podem por certo ser adotados pragmaticamente por quem quer igualmente salvar o mundo.

Mais embaraçoso é ver gente que declaradamente se opõe a toda crença irracional impondo sem cessar, sobre os outros, a sua própria.

Porque demonstrar que religião e a crença em Deus já causaram muito estrago é tão fácil que mesmo eu não cesso de fazê-lo. Porém é também fácil, e até para mim, refutar a sugestão do Novo Ateísmo de que livres de Deus e da religião os homens não encontrariam espaço ideológico para a guerra, para o preconceito e para a crueldade.

Dawkins e Harris parecem de fato acreditar que a religião não só nunca fez nada para conter coisas como a hostilidade e a ganância e a má fé entre os homens, mas tratou de manter todas essas coisas irracionais possíveis num mundo que seria de outra forma muito mais justo.

Quando pressionado a reconhecer o bem que as tradições religiosas fizeram no passado, Sam Harris pede que nos perguntemos, em vista do que sabemos hoje, se precisamos da religião hoje. Essencialmente, Harris e os porta-vozes do Novo Ateísmo propõe a sua própria cepa de teologia da substituição, asseverando que o bem que a religião prometeu e executou de modo imperfeito a ciência pode levar à perfeição.

Essa é uma das manifestações do mito condutor do Novo Ateísmo: o cientificismo, a ideia de que não existe melhor guia para a humanidade do que a ciência, ou outro caminho para a verdade.

Ao longo dos séculos XIX e XX, seduzindo-nos com antibióticos e saltos à Lua, as ciências foram ampliando a sua área de influência, invadindo no processo espaços sociais até aquele momento ocupados por disciplinas como a religião, a ética, a linguística e a filosofia. Porém foi preciso Peter Atkins para articular claramente o dogma do cientificismo – a “competência universal” da ciência – em seu artigo A ciência como verdade, de 1995: “Nenhuma outra modalidade de descoberta mostrou-se tão eficaz, ou contribuiu de modo mais significativo, na realização das aspirações da humanidade.”

Dentre as graves implicações desse artigo de fé, talvez a mais grave seja a sugestão, em si mesmo obscena mas cada vez mais popular, de que somente a ciência pode falar adequadamente em nome da humanidade. Quem pode não só determinar quais sejam as aspirações da humanidade, mas efetivamente satisfazê-las? Aparentemente a ciência pode, e apenas a ciência.

Uma ideia absolutizante requer fundamentalistas e iconoclastas. Declarada a competência universal da ciência – sua infalibilidade, por assim dizer – os proponentes do cientificismo passaram a tomar por necessário eliminar toda a possível competição. Os porta-vozes do Novo Ateísmo não rejeitam apenas Deus e a religião, mas tendem a considerar as ciências humanas igualmente incompetentes ou enganosas no que diz respeito à iluminação da verdade.

Em 2011, e provavelmente atualizando Nietszche, o físico Stephen Hawking declarou que “a filosofia está morta”, porque “os filósofos deixaram de acompanhar as descobertas da ciência, em particular as da física”. Para Hawking, a ciência mostra-se capaz de responder as perguntas – coisas como “de onde viemos” e “o que estou fazendo aqui” – com que a filosofia se debateu por milênios . “Em nossa busca por conhecimento”, explica ele, “os cientistas é que se tornaram os portadores da tocha da descoberta”. Declarações similares – exaltando a primazia da ciência e criticando o caráter especulativo, retrógrado (e a suposta inutilidade) das ciências humanas e sociais – têm sido articuladas por gente de resto notável como Neil DeGrasse, Steven Pinker e Michael Shermer.

Não há área do interesse humano que o cientificismo não tenha a pretensão de esclarecer e aperfeiçoar. A questão humana por excelência, que por milênios coube à filosofia e à religião ponderar – o problema de determinar o que é certo e o que é errado – o método científico (cientificista?) se prontificou recentemente a equacionar e resolver. Em The Moral Landscape/A paisagem moral (2010) Sam Harris defende que a ciência (e aparentemente apenas a ciência) pode fornecer respostas adequadas para questões de ética e moralidade.

“Problemas morais reduzem-se na verdade a questões sobre o bem-estar de criaturas conscientes”, diz Harris. “Valores são portanto traduzíveis em fatos que podem ser compreendidos cientificamente”.

A ideia de que valores morais podem ser compreendidos cientificamente personifica a extensão das ambições totalizadoras do cientificismo. Anos antes que Peter Atkins articulasse o dogma, Bertrand Russell – o matemático, o filósofo, o ateu, o pacifista – sustentava uma modalidade (comparativamente moderada) de cientificismo. “Todo conhecimento que se pode obter”, dizia Russell, “deve ser necessariamente obtido através de métodos científicos”. Para o matemático, isso queria dizer que a moralidade estaria para sempre fora do âmbito da ciência. Julgamentos de valor não são “conhecimento que se pode obter”, precisamente porque não se pode chegar a eles através do método científico.

Sam Harris ignora essa prudência e essa perplexidade, e pede que a ciência seja para nós maior do que foi para Bertrand Russell. Eliminando a diferença entre valores e fatos, Harris exige que a ciência pode determinar o certo e o errado do mesmo modo que o ponto da ebulição da água ou a distância da Terra ao Sol4.

The Moral Landscape é um dos exemplos mais radiantes do cientificismo contemporâneo porque reclama para o método científico o direito e a responsabilidade de colocar ordem num dos ramos do interesse humano que permaneceu até hoje (segundo os defensores do cientificismo) no campo da especulação.

Para o cientificismo, disciplinas humanas como a antropologia, a ética, a linguística e a filosofia são tão especulativos quanto qualquer religião, e com especulativo querem dizer sem fundamento e legitimamente pernicioso. Por milênios a literatura e a filosofia tatearam tentando indicar à humanidade coisas como significado e valor, mas sua utilidade nesse e em outros campos foi superada pela competência universal do método científico. Que, num mundo iluminado pela ciência, a literatura e a filosofia continuem a tentar parece aos cientificistas uma enorme ofensa, digna de zombaria e perseguição.

A ciência, no ponto de vista de gente como Dawkins e Harris, deve ser vista como o único modo justificável de se abordar a verdade, capaz portanto de apontar na experiência humana o que tem valor e tem significado. Nessa convicção da própria excepcionalidade, na convicção de que nenhuma alternativa é justificável, está embutido o método e o combatividade dos porta-vozes do Novo Ateísmo. Querem que pensemos todos de modo científico, e de modo apenas científico; todas as abordagens competidoras devem ser eliminadas como ultrapassadas e prejudiciais. “Algumas ideias são tão perigosas”, insiste Sam Harris, “que talvez seja ético matar as pessoas por acreditarem nelas”5. E aqui Harris, que critica sem pausa os abusos históricos da religião, raciocina com a clareza de um oficial da Inquisição.

Essa intolerância por abordagens alternativas é característica do Novo Ateísmo. Quem sustenta que há campos que a ciência não tem competência para iluminar deve ser descartado como “irracional” – e, no vocabulário do cientificismo, o irracional (coisas como a religião, a filosofia e aparentemente a literatura) representa enganos e perigos a serem eliminados a todo custo (até mesmo ao custo da morte, como lembra Harris).

Para o filósofo Jonathan Sacks, o cientificismo como o descrevemos aqui é uma manifestação clara de fundamentalismo – a tendência muito humana, e muito irracional, de tentar “impor uma verdade única a um mundo plural”. E nisso é fácil identificar os pontos de contato entre Dawkins e Harris e os religiosos que eles condenam.

E é nisso que os porta-vozes do Novo Ateísmo se mostram menos céticos e desiludidos do que acreditam que são. Sam Harris crê que a ciência pode determinar cientificamente a moralidade, e para ele os crédulos somos nós.

Escrevendo sobre Harris, e sobre a nossa aparentemente inesgotável capacidade para o autoengano, diz-me a budista (e não-teísta) Barbara O’Brien:

A psicologia oferece abundante evidência de que as pessoas não são nem de perto tão racionais quanto pensam, e de que as porções geradoras de mito do nosso cérebro continuam em plena produção. Inventamos histórias a respeito de nós mesmos e do nosso papel no mundo, e processamos nossas experiências de modo a que se encaixem nessa narrativa. Criamos nossas histórias de forma tendenciosa a partir de nossas predisposições, não através da realidade objetiva, e desse modo interpretamos o mundo. E fazemos todos assim, quer sejamos religiosos ou não. Na verdade, talvez a crença mais estúpida que qualquer um possa nutrir é a de ser uma pessoa racional.

Não serei eu a dizer a ateus como Richard Dawkins e Sam Harris aquilo em que devem deixar de acreditar. O que posso fazer, nas próximas páginas, é lembrar que já existiram ateus (e talvez alguns crentes) mais céticos e com o pensamento mais livre de ilusões.

E, no processo, lembrar o quanto o pensamento do Novo Ateísmo é reacionário em todos os sentidos da palavra. Em particular, o quanto as ênfases do cientificismo e do antiteísmo são convenientes para os detentores do poder.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Dentro da minha própria tradição, parece-me coisa muito alinhada ao Deus de Jesus (veja-se, por exemplo, Mateus 25:34-46) reconhecer o mérito de quem se mostra valoroso e bom sem esperar que um dia será recompensado por isso. Talvez Deus tenha tomado provisão para só existir quando fazemos o bem sem acreditar que Deus existe. Deus talvez se resignará a salvar a todos, mas reservará as suas verdadeiras recompensas e elogios para os que fizeram o bem sem depender do incentivo ou da ideia da divina retribuição. []
  2. Paul Tillich: “sem esse doloroso processo [do desmascaramento da realidade efetuado por métodos como o marxismo e a psicanálise] não é possível perceber o significado último do evangelho”. []
  3. Então eu não sei? []
  4. Para uma refutação muito civilizada e concisa (por parte de um cientista e ateu) da argumentação de Harris em The Moral Landscape, leia aqui (em inglês). []
  5. A que um crítico brilhantemente respondeu: “E pode haver ideia mais perigosa do que essa?“ []
Este relato faz parte da série

Os usos políticos do ateísmo

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  1. O ateísmo é a melhor coisa, exceto nos casos em que deixa de ser
  2. Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz
  3. A falta que Deus faz
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