O apocalipse de Debord • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de fevereiro de 2016

O apocalipse de Debord

Estocado em Manuscritos

 

Mas para a presente era, que prefere o signo ao significado, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência à essência. . . a verdade é considerada profana e somente a ilusão é sagrada.
Ludwig Feuerbach, no prefácio da segunda edição (1843) de A essência do cristianismo. Debord usou esta citação como epígrafe de A sociedade do espetáculo

 

Tudo começou, claro, em 1967.

Os demógrafos explicam que entre 1965 e 1970 a Terra testemunhou a mais alta taxa de crescimento de todas as eras dos homens: 2,1 por cento ao ano. Inteiramente empenhado em cometer tanta gente, o universo cometeu um deslize e – depois de ter evitado esse constrangimento por milênios – cometeu também a mim, no centro geográfico dessa singularidade.

No mesmo ano, um profeta rebaixou-se a explicar o futuro para um público que, àquela altura, não tinha como compreender do que exatamente ele estava falando e, portanto, de pasmar sensatamente diante do quanto ele estava certo. O profeta chamava-se Guy Debord, e sua profecia A sociedade do espetáculo (La societé du spectacle).

A sociedade do espetáculo é um livro fragmentário, formado por capítulos que em sua maior parte não ultrapassam um parágrafo. Seu tom ecoa as exaltações dos profetas religiosos. Claramente, o autor entendia estar articulando uma revelação – e uma revelação é um cofre que livremente se distribui, mas o leitor deve possuir de antemão a chave.

Nos nossos dia Debord soa muito menos críptico do que deve ter soado para seu leitor original, porque hoje portamos todos a chave. O apocalipse de que ele fala é o nosso quotidiano. Como não entender que o profeta falava dos desdobramentos da internet – do youtube, dos gifs de gatinhos, do instagram, do netflix, dos botões de “Like”, das fotos feitas de braço estendido e, em particular, dos conteúdos autoregeneradores das mídias sociais – quando escreveu:

Tudo que era antes vivido diretamente tornou-se mera representação.

O espe­tá­culo não é um agru­pa­mento de imagens; é a relação social entre as pessoas mediada através de imagens.

A vida real é absorvida materialmente pela contemplação do espetáculo, e acaba absorvendo-a e alinhando-se a ela.

A alienação do espectador funciona deste modo: quanto mais ele contempla, menos ele vive; quanto mais ele se identifica com “as imagens dominantes do necessário”, menos ele entende a sua própria vida e os seus próprios desejos. A alienação que o espetáculo produz sobre o sujeito atuante é expressa no fato de que seus gestos individuais não são mais seus; são gestos de outra pessoa que os representa para ele. O espectador não se sente mais em casa em lugar algum, porque o espetáculo está em todo lugar.

Toda realidade individual tornou-se social, no sentido em que é moldada por forças sociais e depende diretamente delas. Permite-se uma aparência de realidade individual desde que não seja realmente verdadeira.

No processo, toda comunidade e todo o espírito crítico foram desintegrados.

 

 

Debord foi um dos primeiros a entender que o novo consumismo não se limitava a imprimir sobre a sociedade o desejo pelo consumo de produtos no sentido tradicional vou-ao-mercado. O sucesso da sociedade de consumo reside em sua capacidade de vender a todos o desejo por um processo de consumo público e ininterrupto. Essa sociedade não descansou até produzir o exato dia de hoje: um modo de vida no qual consumimos precisamente ao mesmo tempo em que produzimos, um mundo em que somos consumidos precisamente ao mesmo tempo em que consumimos.

Deixamos de meramente consumir produtos pelo menos desde a época de Debord. O que consumimos é espetáculo: isto é, a ininterrupta contemplação das coisas que consumimos, sob a forma de imagens. Isso era verdadeiro mesmo antes da internet. Por exemplo, no caso das roupas de marca, que reduzem seu sujeito simultaneamente a consumidor, a imagem de propaganda, a consumidor dessa imagem e a contemplador do efeito dessa imagem na sua relação com as outras pessoas (isto é, sua relação com outras imagens). Truques dessa natureza são irresistíveis porque enganam até mesmo quem está enganando. Todos quedamos inteiramente satisfeitos, porque é já puro e magnífico e sudoroso espetáculo.

Esse mecanismo, no entanto, só encontrou sua corporificação mais literal na internet. “O espetáculo é a relação social entre pessoas mediada por imagens” surpreende não só por acuradamente descrever o Facebook com quase cinquenta anos de antecipação, mas porque é o tipo de sentimento que o Facebook procura imprimir na sua própria publicidade. Poderia ser o seu slogan.

Nenhuma experiência nos parece realmente vivida até que possamos dizer “já postei”. Tudo que era antes vivido diretamente tornou-se mera representação.

 

Para Debord, a sociedade do espetáculo foi o modo natural que a classe corporativa encontrou para garantir que não seria ela mesma derrubada pela revolução, como havia acontecido com a classe dominante que a precedeu. Trata-se de solução engendrada pela burguesia “ao descobrir que, a fim de estabelecer seu próprio domínio incontestado, precisava restaurar a passividade que havia tão profundamente abalado ela mesma”.

Nossa sociedade da contemplação de imagens (literalmente, uma sociedade que consome o imaginário) garante à classe dominante a sua continuidade – isto é, continuaremos a vender – e a continuidade do seu mundo – enquanto está entretida consumindo espetáculo não ocorrerá à população pagar os riscos da verdadeira revolução 1Sem contar que, como experimentamos hoje mesmo no Brasil, a revolução pode sempre ser com muita facilidade anulada em espetáculo..

A sociedade do espetáculo prevê um processo que, a fim de proteger adequadamente o sistema, deve ser ininterrupto, regenerador e autoconfirmatório. Pense nos seriados de televisão e de cinema: o novo episódio da série _____________ deve ser lançado em _____________, e se for bom como _______________ temos um sucesso nas mãos. Pense nos lançamentos de novas linhas de smartfone, que funcionam precisamente sob a mesma lógica. Pense no seu mural do Facebook: continue rolando a página; Marcos Boscardini Gonçalves comentou a sua foto; clique aqui para juntar-se às 3.212 pessoas que já curtiram esta página. Ininterrupto, regenerador e autoconfirmatório.

Essas três características produzem a ilusão, absolutamente fundamental para o sustento da farsa, de que estamos vivendo uma culminação da história – que vivemos de algum modo fora e acima do tempo. As novidades tecnológicas nos atraem com particular intensidade porque nos deixam livres para deixar o passado para trás. Não devemos sentir que devemos alguma coisa ao passado: consumimos história consumindo o novo iPhone, mas descartamos a história quando descartamos o velho. Debord:

A classe dominante, composta por especialistas em possuir coisas, e que são portanto eles mesmos possuídos pelas coisas, vê-se forçada a vincular o seu destino à preservação dessa modalidade “concretizada” de história, isto é, à preservação de uma nova imobilidade dentro da história.

As imagens em sucessão cumprem a mesma função, seja no mural do Facebook ou no novo e pirotécnico lançamento do cinema. Passam em sucessão de modo a manter-nos imóveis. Silêncio que estou assistindo. O Tiago e a Maura postaram as fotos do chá de bebê.

Com a promessa de nos levar a novos lugares, a sociedade do espetáculo vai garantindo a imobilidade que é a sua garantia.

Trata-se de uma sedução antiga, que começou a operar e a entranhar-se em nós muito antes da entrada em cena da internet. Paradoxalmente, o primeiro grande emblema moderno da imobilidade imposta/oferecida ao público pelas corporações foi o estacionamento.

 

Este relato foi postado na Forja Universal em 29 de junho de 2013

Leia em seguida:
A linguagem da separação universal
A espada circular

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Sem contar que, como experimentamos hoje mesmo no Brasil, a revolução pode sempre ser com muita facilidade anulada em espetáculo.
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