Nunca é cedo demais para lembrar o que o PT e o capitalismo têm em comum • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 31 de outubro de 2014

Nunca é cedo demais para lembrar o que o PT e o capitalismo têm em comum

Estocado em Brasil · Goiabas Roubadas · Política

As pessoas acham que o crescimento diminui a pobreza. O crescimento, na verdade, produz e reproduz a pobreza. Na medida em que ele tira gente da pobreza, ele tem que criar outros pobres no lugar. . . . Índio é justamente o contrário do pobre. Eles se definem pelo que têm de diferente, uns dos outros e eles todos de nós, e por alguém cuja razão de ser é continuar sendo o que é. . . . O que aconteceu com a história do Brasil é que foi um processo circular de transformação de índio em pobre. Tira a terra, tira a língua, tira a religião. Aí o cara fica com o quê? Com a força de trabalho. Virou pobre. Qual foi sempre o truque da mestiçagem brasileira? Tiravam tudo, convertiam e diziam: agora, se vocês se comportarem bem, daqui a 200, 300, 400 anos, vocês vão virar brancos. . . . O Brasil está sendo recolonizado por ele mesmo com esse modelo sulista/europeu/americano. Essa cultura country que está invadindo a Amazônia junto com a soja, junto com o boi. E ao mesmo tempo transformando quem mora ali em pobre. E produzindo a pobreza. O ribeirinho vira pobre, o quilombola vira pobre, o índio vai virando pobre. Atrás da colheitadeira, atrás do boi, vem o programa de governo, vem o Bolsa Família, vem tudo para ir reciclando esse lixo humano que vai sendo pisoteado pela boiada.
Eduardo Viveiros de Castro em
Diálogos sobre o fim do mundo

 

 

Dilma fez preponderar no PT, que era um partido razoavelmente afinado com a causa ecológica, a mentalidade de que a preocupação ambiental está em conflito com o desenvolvimento social. . . . Pelo perfil tecnocrático, Dilma sacrificou as parcelas mais vulneráveis da população nos seus direitos fundamentais em nome da sua meta de progresso. Vivemos a mais severa ofensiva anti-indígena desde a Ditadura Militar, incluído o Governo FHC, uma vez que para Dilma, como tecnocrata, os índices econômicos são a prioridade número 1 do Brasil. Como o agronegócio é um dos principais causadores desses índices positivos a partir da exportação, o projeto passou a ser a transformação do índio em um “incluído às margens” nesse Brasil Grande, regredindo em relação ao modelo que a Constituição de 1988, entre outros documentos normativos, estabeleceu no sentido do respeito aos territórios dos povos ancestrais. A aliança com Kátia Abreu é a prova mais escandalosa desse fato. Mais uma vez, a ofensiva anti-indígena não é uma concessão em nome da “governabilidade” aos ruralistas. Ela faz parte de um projeto de “progresso” brasileiro no qual esses territórios ancestrais seriam transformados em área de produtividade de modo a alimentar os índices econômicos do Brasil-potência.

Moysés da Fontoura Pinto Neto em
Porque não vou votar em Dilma

 

 

Assim que o Brasil – ou os que o dominam – resolveu ser o principal estoque de insumos básicos do mundo, logo a Amazônia foi enquadrada como seu principal estoque interno. Parece não haver Código, Lei, Constituição, Tratado, Convenção ou alguma memória ou ética que impeça a exploração da integralidade das jazidas minerais, dos recursos energéticos, dos espaços de logística e circulação presentes na Amazônia. Por exemplo, os linhões de transmissão já feitos (e outros projetados) para o segundo ciclo de grandes hidrelétricas na região (Santo Antônio e Jirau, Belo Monte, Tabajara e Complexo Teles Pires e Tapajós) precisam percorrer mais de 3 mil quilômetros de extensão em contínua e alta voltagem. Isso já demonstra a que missão vieram. É energia para ficar à disposição de plantas industriais eletro-intensivas onde quer que estejam. Aqui tem energia barata para os que se dedicam a ampliar a produção de commodities, anunciam concessionárias e governo. . . . É tanto favor ao hidronegócio que, nesse caso, é a energia que se deslocaliza. E energia hidrelétrica provinda de megaprojetos deslocaliza modos de vida sustentadores de biomas. Sem maiores formalidades, foi posta em vigor uma política de extermínio dos usos sociais da floresta e das águas. Cada megaprojeto desses implica em implosões de sociabilidades e socializações. São sacrifícios sociais impostos que sequer são dimensionados, muito menos avaliados e discutidos publicamente.

Lou-Ann Kleppa e Luis Fernando Novoa Garzon em
‘Desenvolvimentismo’ brasileiro extermina usos sociais da floresta e águas amazônicas

 

 

As águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. [Isso acontece] nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos. Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano. . . . As plantas do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo: eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. Também por isso, o dano ao bioma é irreversível. . . . Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano.

Altair Sales Barbosa não se surpreende com a falta d’água em São Paulo:
O cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios
e dos reservatórios de água

 

 

De onde, meu Deus, surgiu essa ideia de que é tudo bem consumir o país inteiro em chaminés, de que é tudo bem apagar florestas em fábricas, riachos em esta­ci­o­na­men­tos, pantanais em pastos, cascatas em represas e pradarias em campos de soja – isso tudo num ritmo de tsunami, que as mais dili­gen­tes atu­a­li­za­ções do Google Earth não conseguem acompanhar? Essa pergunta, infe­liz­mente, é fácil de responder. Achamos tudo isso mais ou menos normal porque fomos devi­da­mente pro­gra­ma­dos pela doutrina do desen­vol­vi­men­tismo – a con­ve­ni­ente ideia de que todos os países admi­rá­veis são iguais: que são ricos, no sentido que gastam sel­va­ge­mente todos os seus recursos no ralo da pro­du­ti­vi­dade. Esse dou­tri­na­mento nos faz fechar os olhos a todos os custos pessoais, sociais e ambi­en­tais envol­vi­dos na expansão indus­trial e agrícola, porque cremos que há virtude inerente em ver “o país crescer”. Essa resig­na­ção está mesmo gravada em palavra de ordem na nossa bandeira.

A Forja Universal pausa para pesar
As persistentes persuasões do desenvolvimento:
o que o PT e o capitalismo têm em comum

 

 

Já que está nessa, leia ainda:
O comprimento das cadeias
O custo da oportunidade
A respeito do colapso da civilização, aquele iminente
O que há de errado (e de bom) no capitalismo

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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