Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de julho de 2015

Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor

Estocado em Homens e Mulheres

Este relato é a parte 2 de 4 da série Na cama com a Bíblia

No Novo Testamento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo importante substrato (uma daquelas realidades sociais tão unânimes que permanecem ocultas, subindo poucas vezes à superfície da consciência ou do discurso) todas as vezes que o assunto é mencionado ou aludido. A questão é na verdade de importância fundamental para os autores do Novo Testamento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são interpretadas por eles como representando um chamado universal ao abandono dos mecanismos de controle e manipulação que compõem o sistema deste mundo.

Muito acuradamente, portanto, os autores do Novo Testamento entenderam que a implantação do reino de Deus, conforme apregoado pelo filho do carpinteiro, representava uma ameaça a todos os sistemas de controle, porque requeria essencialmente um mundo de pares e irmãos, uma fraternidade de “próximos” – um mundo que renunciasse a todas as formas de dominação. Isso eles viram claramente na pessoa do Jesus dos evangelhos, e cada um à sua maneira e com sua própria ênfase buscou uma forma de articular e de perseguir esse projeto. Ninguém sabia (ninguém ainda sabe) como seria um mundo livre de sistemas de manipulação, mas nas décadas febris que se seguiram à despedida do crucificado seus seguidores não sonharam e não batalharam por outra coisa. A única coisa que sabiam ao certo é esse novo mundo seria encontrado, colonizado e definido pelo amor – o amor como haviam-no delineado a vida e as palavras do rabi de Nazaré, o amor com o qual ele os deixara absolutamente inflamados.

E nada permanece o mesmo depois de ser tocado pelo amor. A revolução do reino teria que virar o mundo do avesso, sem poupar qualquer área da cultura e do comportamento; incluiria por certo a esfera da sexualidade. E as indicações dadas por Jesus com relação ao assunto eram tão exigentes, sua descrição e aplicação do amor tão subversivas, que só restava em todos uma espécie de perplexidade.

Havia, por exemplo, a postura de Jesus com relação à sua própria sexualidade.

Se Jesus não foi casado (e temos pouca razão para crer que tenha sido), sua subversão começava por aqui. Numa sociedade como a sua, permanecer solteiro era uma insubordinação raríssima e sempre voluntária, e também por isso profundamente constrangedora. No judaísmo o celibato não era (e não é) exigido de sacerdotes, de santos ou de profetas; ao contrário, esperava-se de todos os judeus que se casassem, mas especialmente dos grandes e admiráveis. Para um homem, casar era uma demonstração basilar de masculinidade e portanto de valor; alguém que se dispusesse seriamente a candidatar-se ao cargo de rei e messias não se arriscaria a deixar de cumprir esse mais fundamental dos requisitos.

Mantendo-se solteiro, Jesus recusou-se a endossar todo esse modo de ver as coisas. Como parte de seu projeto de demolir as formas estabelecidas de dominação, ele voluntariamente negou-se a assumir (e portando aprovar) o modelo do grande macho dominante. O valor de um homem, conforme indicado pela sua postura, deixava de estar fixado na universalmente aprovada posição de provedor e de reprodutor. O rabi de Nazaré, pelo que sabemos, não se reproduziu das formas usuais, e seu sustento era provido por mulheres.

E esse último pode não ter sido o componente mais socialmente escandaloso da maneira como Jesus se relacionava com as mulheres. Provavelmente nenhum outro personagem da antiguidade, na história ou na ficção, sentiu-se tão à vontade entre elas. Naquela sociedade um homem não conversava com mulheres em público, um rabi não permitia que se juntassem ao seu grupo, um homem santo não deixava que elas o tocassem. Jesus fazia indiscriminadamente esse tipo de coisas, tratando mulheres como se fossem gente milênios antes que a ideia ganhasse qualquer popularidade – e se alguém chegou a lhe dizer que isso colocava em dúvida a sua autoridade ou sua masculinidade, só pode ter levado um formidável chega-pra-lá.

Outra área em que Jesus trabalhou de modo a minar a ideologia da supremacia do macho foi na questão do divórcio. Não sabemos como funcionavam exatamente as coisas no tempo dele, mas há indicações de que um homem podia pedir o divórcio – deixando a mulher desamparada pelo menos temporariamente e marginalizada para sempre – pelo mais banal dos motivos, e que a mulher não tinha autonomia para pedir o divórcio mesmo para proteger-se de um relacionamento tóxico ou abusivo. Como se sabe, Jesus insistiu que as coisas não eram tão simples assim, e tomou o “serão um só corpo” do Gênesis como representando um compromisso de manutenção de benefícios para ambas as partes, não só uma delas. Naquele contexto cultural, divorciar era desamparar, e quem ama não desampara.

Ao proteger a mulher apanhada em adultério de seus algozes masculinos, Jesus chegou a relativizar a própria letra da Lei, argumentando basicamente que a universalidade do pecado deveria produzir não uma demanda universal por uma justiça estrita que ninguém é capaz de honrar, mas uma postura universal de misericórdia – lição que aprendemos a esquecer tão logo foi pronunciada.

Numa palavra, Jesus promulgou a supremacia do amor: apenas o amor deve e pode ser usado como bússola em todos os relacionamentos interpessoais. Todas as formas de dominação devem cair por terra diante desse regime de graça e aceitação, porque “o maior passa a ser quem serve”, e “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”. Num mundo onde todos são irmãos, toda generosidade é gratuita; a boa vontade não precisa ser extorquida pelos métodos usuais de dominação e temor, desejo e recompensa.

O amor mudava tudo, e foi desse modo que os discípulos entenderam a coisa. Paulo apresenta uma visão do casamento que, embora por vezes nos pareça terrivelmente retrógrada e patriarcal, virava de cabeça para baixo todas as expectativas de seu público de barbudos pouco sofisticados. Para ele, o marido deve amar a esposa como Cristo amou sua igreja, ao ponto de entregar-se por ela. Ouvida ao longo de dois mil anos, a coisa não tem como não soar como inofensivo lugar-comum, mas deve ter parecido subversiva ao ponto da ofensa para os ouvidos originais.

Para Paulo a visão tradicional do casamento deve mudar porque ele, mais do que ninguém, entende a boa nova como anúncio da derrocada de todas as formas de dominação que caracterizam o reino deste mundo e levantam barreiras artificiais entre as pessoas. Em Jesus não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, (e agora ele abandona o terreno do lugar-comum mesmo nos nossos dias) nem homem nem mulher.

Essa é uma postura delicada, especialmente porque Paulo não entende que essa nova paridade deve mudar de imediato os papéis convencionais dos agentes dentro das instituições deste mundo. Ele não hesita em chamar o homem de “cabeça” da mulher, e não tem nada a dizer contra a escravatura em si. Mas ao mesmo tempo insiste que devemos agir como se essas barreiras formais não existissem1: o marido deve demonstrar seu amor entregando-se pela esposa, e a relação entre escravo e senhor deve ser como a de irmãos. Essas soluções podem nos parecer insuficientes, e talvez de fato sejam, mas não era menos que revolucionárias quando foram proferidas.

Importante é entender que, ao contrário do que alguns chegaram a concluir, a posição de Paulo sobre o casamento não desautoriza o sexo, mas absolutamente desautoriza – como prevalecia no sistema anterior – qualquer uso do sexo como ilustração de dominação. É por isso que, embora endosse a hierarquia clássica de supremacia masculina quando fala de outras áreas do casamento, quando fala de sexo ele usa imagens que evocam paridade e reciprocidade, nunca supremacia. “Os maridos devem amar as mulheres como a seus próprios corpos”, “quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo” e “a mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”. O centro do universo conjugal transferia-se dos testículos para um ponto indeterminado (ou para o encontro) entre o corpo do marido e o da esposa.

Não é inconcebível, portanto, que a chave para compreensão do caráter distintivo da sexualidade cristã em seus primeiros séculos esteja em que nenhum autor do Novo Testamento – e por certo nenhum de seus leitores depois deles – conseguia conceber um mundo em que as relações sexuais não fossem relações estilizadas de poder e portanto emblemas de formas ilegítimas de dominação. Não tinham como conceber que o sexo não representasse um rito de desequilíbrio e portanto de desigualdade, inteiramente degradante para a parte “dominada” ou “possuída”. Paulo tentou reformar essa visão dentro do casamento – o único espaço social em que o sexo é inevitável, – mas ele mesmo continuou considerando-a válida em todos os outros espaços.

Isso pode ajudar a explicar o mistério da obsessão cristã com o celibato e com a abstinência, posturas que não tinham precedente dentro do judaísmo e surgiram muito cedo na cultura da igreja (nos apócrifos Atos de Paulo, do segundo século, e nos Atos de Tomé, do terceiro, os apóstolos aparecem exigindo castidade total mesmo dentro do casamento). Alguns supõem que essa paixão pela abstinência tenha se originado de uma visão do sexo como animal no sentido de descontrolado e sensual, e portanto inerentemente impuro e antiespiritual. Porém a cultura judaica pré-cristã, que não pode ser acusada de ignorar questões de pureza e não negava que o sexo tem um forte componente animal/sensual, por vezes incentivava até mesmo o sexo recreativo, isto é, não-reprodutivo, dentro do casamento (e por vezes fora dele).

O motivo parece residir em que os primeiros cristãos adotaram muito cedo (ou capturaram-na imediatamente da atmosfera cultural) uma visão do sexo como animal no sentido de brutal, lesivo e opressor. Num mundo de iguais, em que “não há homem nem mulher”, não se encontrava espaço para uma prática como o sexo, que cria-se por natureza celebrar e ilustrar a desigualdade2. Esse resvalar num desequilíbrio que separa ao invés de unir talvez seja o que o apóstolo entendia como representando a grande tentação “da carne”.

Essa mesma chave pode ainda explicar o que Paulo encontra de particularmente abominável nas relações homossexuais, cujos participantes têm “seus corpos desonrados entre si”, “cometendo torpeza” e “recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. Embora tenha desenvolvido uma visão igualitária do sexo dentro do casamento, aqui ele reflete a mesma visão “sexo como defraudação” que orientava as legislações do Pentateuco. Não se trata meramente de uma prática sexual fora do âmbito do casamento (como, digamos, o adultério) ou fora do convencional (como, digamos, o sexo de um homem com sua sogra). Sua descrição da transgressão e das suas implicações serve apenas para pontuar que para ele a conduta homossexual deve ser vista como especialmente condenável porque representa uma relação “desigual” (caracterizada necessariamente por um agente de dominação e outro de submissão) entre “iguais”. Como todas fora do casamento, uma relação sexual nesses termos não tinha como não ser degradante para uma das partes, e portanto inteiramente condenável para ambas – mas ele acredita o bastante no ideal da honra do macho para considerar o leito homossexual particularmente repulsivo.

Para resumir: a partir das indicações e da postura de Jesus, os autores do Novo Testamento trabalharam de modo a [1] estabelecer os fundamentos de um status igualitário para a mulher dentro do casamento e na sociedade como um todo e [2] desautorizar qualquer uso do sexo como ritual de dominação (uso que, pelo menos dentro do casamento, o Antigo Testamento tacitamente incentivava).

Uma das consequências não planejadas dessas ênfases foi uma preocupação muito arraigada e muito popular, desde os primeiros séculos do cristianismo, com as ideias de celibato e de abstinência. Essa preocupação requereu a pública transfiguração da abrangência da palavra “casto”. A castidade, ideia que se reservava como virtude para as virgens abstinentes e para os casados que se preservavam de excessos e de contatos extramaritais, encontrou brecha para deitar-se no leito matrimonial e separar os mais apaixonados dos cônjuges3.

 

Este relato faz parte do meu livro As divinas gerações.

Publicado originalmente em 12 de setembro de 2011

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Os que têm mulher sejam como se não a tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem; os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem em absoluto, porque a aparência deste mundo passa (1 Coríntios 7:29-31). []
  2. Naturalmente a abstinência é ela mesmo uma prática sexual e pode ser usada como emblema de poder. As virgens souberam-no nos primeiros séculos do cristianismo e os padres sabem-no ainda hoje, mas essa é outra história – uma história interessantíssima, mas outra história. []
  3. Uma das imagens recorrentes nos Atos apócrifos dos apóstolos é a de maridos que se levantam em insurreição contra os apóstolos, acusando-os (com justiça, dentro da narrativa) de seduzir suas esposas à castidade. []
Este relato faz parte da série

Na cama com a Bíblia

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