Ninrode • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de fevereiro de 2009

Ninrode

Estocado em Goiabas Roubadas

NOÉ: Ninrode

O primeiro líder a cor­rom­per os homens foi Ninrode. Seu pai, Cuche, havia casado com a mãe de Ninrode já em idade avançada. Na qua­li­dade de filho da sua velhice, Ninrode, fruto dessa união tardia, era espe­ci­al­mente querido por ele.

O pai de Ninrode deu a ele roupas feitas das peles com as quais Deus cobrira Adão e Eva na ocasião em que deixaram o Paraíso. Cuche havia chegado à posse delas através de Cão. De Adão e Eva as peles haviam passado a Enoque, e dele a Matu­sa­lém, e dele a Noé, e este as havia levado consigo para dentro da arca. Quando os ocu­pan­tes da arca estavam para deixar o seu refúgio, Cão roubara as vestes e as escon­dera, passando-as adiante final­mente para seu pri­mo­gê­nito Cuche. Cuche, por sua vez, man­ti­vera as peles escon­di­das por muitos anos. Quando seu filho Ninrode fez vinte anos, Cuche deu-as a ele.

Essas ves­ti­men­tas tinham uma pro­pri­e­dade assom­brosa: quem as trajava tornava-se ao mesmo tempo inven­cí­vel e irre­sis­tí­vel. As feras e aves do campo prostaram-se diante de Ninrode logo que viram-no vestido com elas, e ele tornou-se ainda vito­ri­oso em todos os seus combates com os homens. A fonte desta força incon­quis­tá­vel as pessoas des­co­nhe­ciam; atribuíam-na à sua bravura pessoal, pelo que apontaram-no como seu rei.

Isso ocorreu depois de um conflito entre os des­cen­den­tes de Cuche e os des­cen­den­tes de Jafé, conflito do qual Ninrode emergeu triun­fante, tendo afu­gen­tado o inimigo por completo com o auxílio de um punhado de com­ba­ten­tes.

Ninrode escolheu Sinar como sua capital. A partir dali ele estendeu cada vez mais o seu domínio, até chegar, através de astúcia e força, à condição de gover­nante único do mundo. Foi primeiro mortal a alcançar domínio uni­ver­sal; o nono gover­nante a possuir o mesmo poder será o Messias.

A impi­e­dade de Ninrode acom­pa­nhou o incre­mento do seu poder. Desde o dilúvio não havia existido pecador como Ninrode, que criava ídolos de madeira e pedra e prestava-lhes adoração. Não satis­feito em viver por si mesmo uma vida sem Deus, fazia tudo que podia para tentar seus súditos a que abra­ças­sem os caminhos da maldade, no que tinha a assis­tên­cia e cum­pli­ci­dade de seu filho Mardon. Este seu filho superava o pai em ini­qui­dade; foi a época e a vida desses dois que inspirou o pro­vér­bio “dos ímpios procede a impi­e­dade.”

O for­mi­dá­vel sucesso que acom­pa­nhava todas as ini­ci­a­ti­vas de Ninrode gerou um resul­tado sinistro. Os homens deixaram de acre­di­tar em Deus, passando a crer em sua própria bravura e habi­li­dade, atitude com a qual Ninrode buscava con­ver­ter o mundo todo. Pelo que as pessoas diziem: “desde a criação do mundo não houve outro como Ninrode, potente caçador de homens e feras e pecador diante de Deus”.

Mas não foi sufi­ci­ente para a ambição maligna de Ninrode. Como se não bastasse levar os homens para longe de Deus, fez todo o possível para que lhe pres­tas­sem as honras que cabem à divin­dade. Apregoou-se como deus, e fez para si um trono que imitava o trono de Deus: uma torre cons­truída a partir de uma rocha redonda, sobre a qual colocou um trono de cedro, sobre o qual erguiam-se por sua vez, um após o outro, quatro tronos — de ferro, de cobre, de ouro e de prata. Coroando todos eles, sobre o trono de ouro, repou­sava uma pedra preciosa, de formato redondo e tamanho gigan­tesco. Esta servia-lhe de torno e, quando ele se assen­tava sobre ela, todas as nações vinham e prestavam-lhe divina adoração.

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes ori­gi­nais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publi­cado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repo­si­tó­rio final de ideias con­de­na­das à refor­mu­la­ção eterna.

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