Nem um nem outro • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de julho de 2005

Nem um nem outro

Estocado em Fé e Crença

Uma das coisas mais complicadas de se explicar a respeito do cristianismo é a sua relação com o judaísmo.

É complicado entender e reconhecer, primeiro, que Jesus foi judeu, pensou, viveu e ensinou como um judeu da sua época. Contra o testemunho das Escrituras e do bom senso, milhões de cristãos sustentam ainda hoje a miraculosa noção de que de alguma forma Jesus não era judeu. Essa austera opinião não sobrevive a qualquer análise histórica, bíblica ou sociológica. Qualquer que seja a opinião que temos dele, Jesus e seus primeiros seguidores só podem ser entendidos e “lidos” no contexto do judaísmo. Eles não podiam e não desejariam ser entendidos de outra forma.

Jesus era judeu.

Esse reconhecimento gera um imediato problema: se Jesus era judeu, porque não são judeus todos os seus numerosíssimos seguidores?

Para responder essa questão seria necessário um Novo Testamento inteiro. Bastará para nossos fins que se diga que Jesus ao mesmo tempo propôs e desencadeou uma mudança radical na percepção da relação entre os judeus e o seu Deus. Ele pintou uma revolucionária visão de mundo em que Deus, o Deus de Abraão e dos judeus, era o Pai de todos, não apenas dos judeus. O universo é o reino de um Pai que não faz qualquer concessão e não demonstra qualquer preferência, não apenas entre os judeus e os outros povos, mas – e a idéia deve ter parecido para os primeiros ouvintes pelo menos tão chocante quanto parece hoje – entre maus e bons. Na boca de Jesus, a declaração de Deus, “sede santos como eu sou santo” deixou de significar “afastem-se do mundo porque eu também estou muito acima dele” e passou a implicar: “se vocês querem ser santos como eu, deixem de demonstrar e de exigir qualquer preferência: dispensem, como eu, o mesmo tratamento a todos, da mesma forma que eu faço chover sobre maus e bons”. Até mesmo os mais corrompidos pecadores, argumenta Jesus, fazem o bem aos que os amam. O desafio é ser como Deus, que cobre de dádivas os que o odeiam e ignoram.

Numa cajadada só Jesus dissolveu, em ensinos como esses, as barreiras entre todas as categorias sociais e religiosas do seu tempo. Não há diferença, ele insistia. Os judeus não estão em vantagem nem os samaritanos em desvantagem. Os corruptos e as meretrizes entram no céu antes dos fariseus hipócritas – mas, mesmo que em tremenda desvantagem, os fariseus aparentemente também entram. O mau que bate no peito tem a precedência sobre o bom que se orgulha da sua santidade. Os pecados da mulher que está lavando os meus pés não são maiores do que os seus, mas ela reconheceu que precisa de mim, e sabe que eu a aceito. Os outros povos vem de longe, entram barulhentamente no banquete e sentam-se nas cadeiras reservadas para os filhos de Abraão.

Jesus revelou que Deus tinha filhos adotivos.

O Deus de Jesus mantinha a sua identidade com os judeus mas, como numa reviravolta de novela, revelava inesperadamente aos filhos de Abraão que tinha inúmeros filhos adotivos, que eram aceitos tão absurda e incondicionalmente no seu reino quanto o filho pródigo havia sido na casa do seu pai. Os próprios judeus, ficava muito claro, eram também filhos adotivos que não podiam de forma alguma ressentir-se da generosidade do Pai em aceitar todos os outros. A salvação não vinha do judaísmo institucional, mas do acesso ao reino do Pai, que não o negaria a ninguém que voltasse vestido em trapos para casa.

Não é de estranhar que o apóstolo Paulo formulasse, anos mais tarde, que em Cristo “não há judeu nem grego, nem homem nem mulher, nem escravo nem livre”. O reino revela que todas as categorias são artificiais: que nenhum status, nenhum título e nenhuma instituição oferece qualquer garantia. Se quiser, provoca João Batista, Deus pode agora mesmo produzir dessas pedras filhos de Abraão. As suas credenciaizinhas não servem aqui. Todos carecem da mesma forma da mercê do senhor da casa e todos lhe devem da mesma forma a gratidão pela acolhida. Onde todos são adotados, todos devem tratar-se como irmãos.

Não é de admirar que essa seja mensagem radical tenha parecido (e ainda pareça) pelo menos tão difícil de engolir para os cristãos quanto foi para os judeus que ouviram-na pela primeira vez. É muito mais fácil continuar a dividir as pessoas em categorias e encontrar depressa alguém para segregar, denegrir e malhar. Durante milênios, o alvo da Igreja foram os judeus.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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