As luzes de Campo Largo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de dezembro de 2004

As luzes de Campo Largo

Estocado em Fotografia

Morávamos na tórrida Londrina, que era também cidade nova demais para ter qualquer prédio antigo e portanto qualquer interesse, e eu contava os dias para o momento, perto do final do ano, quando meus pais, minhas irmãs e eu empreenderíamos a (para mim) longa viagem de carro até Curitiba, onde passávamos todos os Natais. Bem, talvez não todos os Natais, mas todos os bons.

Lembro com clareza que o momento do trajeto que me emocionava era quando, já de noite e no final da viagem, passávamos de carro por uma Campo Largo adormecida, as casinhas e pequenas lojas que ladeavam a rodovia decoradas para o Natal, as árvores dos quintais singelamente iluminadas com lâmpadas muito coloridas, daquelas grandes, do tamanho de uma ameixa. Aquilo para mim epitomizava o Natal mais do que absolutamente qualquer coisa (até mesmo mais do que as cantatas de Natal da Igreja Batista do Cajuru, o que é digno de nota); que eu soubesse ninguém em todo o mundo enfeitava suas árvores (que não eram em sua maior parte nem ao menos pinheiros, mas árvores comuns) daquela maneira – pelo menos não, eu estava certo, na árida Londrina de onde eu escapava.

Passar por Campo Largo significava, em especial, que estávamos abençoadamente perto de Curitiba, com seu clima ameno, florestas de pinheiros, casas de madeira em estilo europeu (com direito a pitorescas e minúsculas janelinhas no sótão) e iluminadas nuvens alaranjadas cruzando o céu noturno.

Como um João Batista às avessas, que pregava em silêncio e de dentro dos quintais, as luzes de Campo Largo anunciavam o frescor perene e o fim dos desertos: a terra de todos os sonhos, que manava mel e nata, estava próxima.

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As fotos que tirei de Campo Largo na visita de nostalgia que fiz à cidade no dia 12 deste ano…

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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