Na cama com a Bíblia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de Fevereiro de 2016

Na cama com a Bíblia

Estocado em Manuscritos

Este relato é a parte 4 de 4 da série Na cama com a Bíblia

Os últimos quarenta anos testemunharam sensíveis impulsos de acomodação cultural por parte da igreja evangélica. Porém, na batalha contra a plena identificação com o mundo, a sexualidade é a última grande trincheira atrás da qual a igreja procura defender a sua identidade. Entendemos (e somos ensinados a entender) que um cristão pode ceder com relação a tudo que o Novo Testamento ensina – pode, por exemplo, encontrar lugar para abençoar a guerra ou a acumulação de bens, – mas não deve haver espaço para que se contornem as demarcações tradicionais do exercício da sexualidade.

Os fundamentalistas norte-americanos, dos quais herdamos essa postura geral, estão prontos para glorificar a rejeição e o ódio na celebração da guerra, mas não estão prontos para celebrar a mutualidade e o amor numa união homossexual. Estão prontos para condenar o sexo extramarital consensual, mas celebram apaixonados a desigualdade na pedra de moer do neoliberalismo.

A ganância, a competitividade, a combatividade e os orgulhos nacionais – todos esses vícios apaixonadamente condenados pelo Novo Testamento, – foram adotados como virtudes unânimes pela cultura ocidental. A igreja não tem nada a dizer contra essas sacrílegas apropriações, tendo sido em grande parte responsável por elas, mas absolutamente não se cansa de doutrinar o mundo com a ideia de que a verdadeira moralidade diz respeito à coordenação dos intercâmbios genitais.

Por que a tradição acabou arrastando a Bíblia para a cama, e reduzindo o legado cristão a uma mensagem de pessimismo e repressão sexual? De que modo a moralidade cristã viu-se esgotada em uma única permissão sexual e em todo um rosário de proibições correspondentes? Por que os cristãos decidiram construir a sua identidade ao redor do sexo?

É no mínimo curioso que tenha sido a assim, porque a Bíblia não é, em peso ou em vocação, um livro sobre sexo. Não é sequer um livro sobre pureza. Não é, em particular, uma obra legislativa. O mundo esboçado pela sua mensagem não é um mundo em que todos coordenem esforços no sentido de policiar, conter e condenar a falta de pureza do próximo. Ao contrário: sua grande e desconcertante proclamação é o perdão universal dos pecados, não o regime universal da fiscalização das transgressões.

O próprio Antigo Testamento – o próprio Pentateuco – é muito mais complexo e nuançado do que um mero tratado de legislação. Sua porção regulamentar é explicitamente redimida e relativizada pela sua porção narrativa: no fluir da história, a misericórdia triunfa sobre o juízo.

Porém é no Novo Testamento, e em particular no Jesus dos evangelhos, que a Bíblia desconstrói e abre mão de qualquer postura regulatória. O rabi de Nazaré recusava-se a deitar regras ou mandamentos, a não ser aqueles que minavam os subterfúgios e instruíam as certezas geradas por alguma legislação anterior: “vocês ouviram o que foi dito; eu porém vos digo…” Consistentemente, suas injunções representam um chamado à inclusão e à misericórdia, e representam assim uma nítida sabotagem contra o regime vigente das regras de pureza – aquelas regras que, em vez de inclusão e misericórdia e vida, geram exclusão e castigo e morte.

A únicas normas de conduta endossadas inequivocamente por Jesus são em tudo abrangentes e em nada normatizadas: ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Cabia a cada ouvinte, e não ao legislador, determinar as implicações na vida real de preceito tão vago e inescapável, tão amplo e tão exigente.

Em resumo, Jesus propunha uma solução não legislativa, isto é, não condicionada, para os dilemas da conduta interpessoal. O amor e a mutualidade, ele ensinava, devem ser os únicos árbitros legítimos de toda conduta; diante da primazia desses dois princípios, a própria lei devia ser relativizada. Não ignorando que a mais bem intencionada das normas pode ser distorcida em ferramenta de opressão e injustiça, Jesus deixou como legado muitos relacionamentos, um punhado de histórias e regra nenhuma.

Mas o túmulo vazio mal havia esfriado e tudo isso já estava mudando. Como vimos, meros cento e cinquenta anos depois de Jesus o pessimismo sexual estava tão enraizado na tradição cristã que muitos cristãos não encontravam problema em aceitar que a promulgação do celibato universal era parte central da mensagem apostólica. Os cristãos não apenas estavam legislando sobre o sexo, estavam legislando sexo nenhum.

Muito já foi escrito na tentativa de determinar o que originou o caráter distintivamente pessimista da sexualidade cristã nos primeiros séculos. O mistério só aumenta quando se considera que não havia uma ênfase semelhante na tradição judaica, e que muito pouco do pessimismo sexual cristão parece ter se derivado diretamente do Novo Testamento.

Os que pesam o assunto creem que essa nova ênfase pode ser creditada em grande parte à influência das ideologias estoica e gnóstica sobre o pensamento cristão ao longo dos quatro primeiros séculos. Os filósofos estoicos viam a abstinência no casamento como virtude, e os gnósticos enxergavam o corpo e a realidade física como inerentemente impuros: tudo que diz respeito ao corpo era visto como maligno, e tudo que diz respeito ao espírito como de valor. Sob a tutela desses conceitos, a demonização do sexo pode ter sido resultado de uma ênfase destemperada na contraposição (já presente no Novo Testamento) entre carne e espírito.

Outro fator que pode ter pesado na guinada sexual (ou assexual) da postura cristã primitiva é que, tendo abandonado logo de início os rituais e regras alimentares que caracterizavam a experiência cotidiana do judaísmo, só restava aos cristãos a sua postura radical com relação ao sexo como base sobre a qual construir a sua identidade. Assim, na falta de outro símbolo visível (já que haviam aberto mão até mesmo a circuncisão), os cristãos podem ter aprendido muito cedo a usar o sexo – na realidade, a extrema domesticação do sexo – como grande distintivo da sua postura e da sua condição.

Além disso, alguns estudiosos têm observado que pode ter havido um elemento subversivo na ênfase cristã no celibato e na abstinência. Numa sociedade centralizada nas políticas do casamento, nos ritmos domesticados da família e em seus papéis e rumos predeterminados, uma asserção de celibato podia representar (especialmente para as mulheres, ainda mais para as solteiras) um protesto de rebeldia contra o sistema, uma declaração pública de independência e de autodeterminação.

Porém nada disso basta para explicar o que levou os cristãos a assumirem em primeiro lugar uma postura legislatória – com relação ao sexo primeiro, mas com relação a todo o resto – quando os evangelhos e o livro de Atos evitam-na com minúcia e deliberação. Na verdade, parte fundamental da originalidade e do poder persuasivo da notícia evangélica, como delineada por Jesus, consistia na sua recusa em reduzir as perspectivas e responsabilidades do reino a normas que pudessem ser tabuladas, memorizadas e seguidas.

Porém a brecha que não acharam nos evangelhos, os primeiros articuladores da instituição cristã encontraram nas cartas de Paulo. Porque Paulo (ou pelo menos uma porção do conteúdo que chegou até nós como de Paulo) caiu na tentação que Jesus resistiu até o final, e dispôs-se algumas vezes a normatizar o que a mensagem evangélica havia deixado sensatamente em aberto.

A contradição está em que Paulo pode ter sido o primeiro a diagnosticar e articular Jesus como o grande não-condicionado e a entender a mensagem de Jesus como um convite à construção de um mundo não-condicionado. Porém ele mesmo, Paulo, sendo um grande cara mas menos esperto que Jesus, acabou deixando para trás algumas legislações – resvalando desse modo no terreno do condicionamento e do controle.

O que Paulo não tinha como prever é que as poucas regras que deixou (e ele mesmo não deixa sempre claro se está proferindo o que crê ser uma norma universal ou o que sabe ser uma recomendação pessoal) acabariam recebendo maior atenção e gerando mais desdobramentos na vida real do que seu discurso central contra o legalismo e contra os sistemas de dominação, de alienação e de controle deste mundo.

O paradoxo, então, é que Paulo é lembrado como sistematizador de teologias e usado como precedente para um cristianismo legislativo e institucional, quando ele na verdade enxergava como parte essencial do seu chamado demolir por completo essas noções.1:

Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo. Já que morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.

Mas agora fomos libertos da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos, para servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

O qual também nos capacitou para sermos ministros de um novo pacto, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito confere vida.

Para a liberdade Cristo nos libertou; permaneçam firmes e não se dobrem novamente a um jugo de escravidão. Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

A letra contra o espírito

Em retrospecto, não é de estranhar que a tradição cristã tenha se apegado à porção menos subversiva e menos controversa da mensagem de Paulo. A insistência dele em sugerir que lutar contra a letra (na forma de leis e regulamentos) equivale a lutar contra a própria carne deve ter parecido exigente demais.

É mais conveniente para a perpetuação do sistema que Paulo seja lembrado como legislador e como conservador, não como proponente da igualdade no âmbito coletivo e da autodeterminação no âmbito pessoal. É mais conveniente para o estado de coisas que Paulo seja lembrado como defensor da ordem e não como campeão da liberdade, que seja celebrado como bombeiro que nunca foi e não como o incendiário que era. Em particular, devemos distorcer sua mensagem até que ela pareça ser uma conclamação à perpetuação da letra, não um desafio perpétuo a deixarmos a letra para trás.

Isso porque, como tudo que os cristãos de legado protestante tomam por fundamental, a presente controvérsia sobre o exercício da sexualidade é essencialmente uma guerra de interpretação de textos. O modo como cada um de nós pesa o Novo Testamento é que decide se cremos que Jesus abençoaria um casal de homossexuais ou os abandonaria ao fogo eterno e o ranger de dentes. A própria posição conservadora reconhece esse ponto2:

O único obstáculo para que uma igreja que se diz cristã aceite o homossexualismo como uma prática normal é o conceito de que a Bíblia é a Palavra de Deus, inerrante e infalível, única regra de fé e prática para o povo de Deus.

Naturalmente, há mais de um modo de se aceitar que o texto bíblico é inerrante. Alguns de nós entendem que a Bíblia é especialmente inerrante quando ensina (e não só pela voz de Jesus, mas com muita ênfase pelo próprio Paulo) que sua verdade e sua mensagem não se esgotam no seu sentido literal e nem teriam como ser contidas por ele. Que a Bíblia é infalível quando declara sem rodeios que a realidade da boa nova reside no sopro de um espírito de novidade e de renovação, desafio que “a velhice da letra” (isto é, a perene caducidade de textos, palavras, regras e regulamentos, por mais bem intencionados e bem elaborados que sejam) não tem como comportar. Que Paulo deve ser entendido literalmente quando alerta que a letra mata mas o espírito confere vida.

Os fundamentalistas insistem que a Bíblia é inerrante nas legislações que contém; alguns de nós entendem que ela é inerrante quando informa que a boa nova não é que a verdade se fez Bíblia, mas que o Verbo se fez carne.

Porque, se o centro da boa nova é a notícia de que a Verdade tornou-se gente, nenhuma verdade expressa na forma de textos e conceitos tem depois disso cacife para se declarar normativa, perpétua ou suficiente. À luz da Encarnação, toda legislação deve estar pronta para ser relativizada – e que as coisas são assim fica comprovado em que, em seus dias na terra, Jesus fez muito pouco além de viver mostrando de quantas maneiras a lei é subalterna em relação ao homem.

A lei escrita pode se dar ao luxo de ser fora do tempo, mas uma pessoa se sujeita por necessidade às sempre cambiantes exigências dos relacionamentos, dos novos desenvolvimentos, das impensáveis reviravoltas. A lei é por definição condicionada; o desafio de Jesus, por vocação e por herança, é não-condicionado.

Não é acertado, portanto, dizer que ao aprovar ministros homossexuais a igreja presbiteriana norte-americana e a igreja da Escócia estão simplesmente deixando a Bíblia de lado e dobrando-se à pressão da cultura secular. Sua decisão está na realidade fundamentada numa ênfase presente na própria Bíblia, a da primazia do espírito sobre a letra. Ao proferirem a sua benção sobre uma família homossexual essas igrejas não ignoram estar relativizando a letra da Bíblia, mas creem estar honrando o quanto podem o seu espírito de aceitação, de pacificação e de amor. Creem que abençoar uma união homossexual estável e igualitária é honrar a mensagem central da Bíblia e de Jesus – seu espírito além e acima da rigidez letal da letra, – e que macular essa herança seria precisamente agir de qualquer outra forma.

Trata-se menos de discordar sobre se a Bíblia é ou não a Palavra de Deus do que discordar sobre o que essa palavra tem no fim das contas a nos dizer.

Este relato faz parte do meu livro As divinas gerações.

Publicado originalmente em 28 de setembro de 2011

Leia também:
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A pastoral do medo
O amor é mais severo que a justiça

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Colossenses 2: 16-17; 20-23. Romanos 7:6. 2 Coríntios 3:6. Gálatas 5:1,14. []
  2. Augustus Nicodemus Lopes, em Por que igrejas presbiterianas pelo mundo estão aceitando pastores homossexuais? []

 

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