Mimanto • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de fevereiro de 2016

Mimanto

Estocado em Brasilicata

Nas páginas cento e dezesseis e cento e dezessete da História das Províncias de Canindé e Garofa Rofanha, do franciscano Mútuo Pratesi, espreitam gravuras gêmeas – abraçadas quando se fecha o livro mas sem jamais olhar-se nos olhos, – dos gigantes gêmeos de Orobixó: Mimanto e Massunta.

[…]

Esse Mimanto, que em garofês se diz Manomântua (segundo Odovre, Mimanto é um canindeísmo; é como dizer mendigar em vez de menosdizer), é o mesmo que foi cabeça de regimento da condessa Urna na Batalha de Muniz, e derrubou o Portão das Lavadeiras de João Pessoa espalhando elefantes, turcos e avestruzes enquanto gritava em dialeto garofês, com pulmões que eram cada um maior do que um homem, Paúrra! Fócu! Enemí! – “Medo! Fogo! Inimigos!”

Mimanto e sua irmã Massunta nasceram em alguma tarde de janeiro de 1672, na praça da paróquia de Santo Angelo, de uma professora de música que morreu imediatamente e de um comerciante francês de tônicos contra a queda de membros que morreu decapitado por guaitacazes. Os gêmos foram imediatamente reconhecidos como minuchanos, termo que os da escola de Caruaru reservavam (em oposição a veros) para os gigantes que quando adultos são menores do que a estátua de São Francisco em Canindé (para a escola de Patos, minuchanos são gigantes que nascem de gente normal, e bordones os que nascem de outros gigantes). Na qualidade de minuchanos, tinham o direito ao batismo e receberam-no da mão de Antonio Murro, fabricante de autômatos e abridor de canais, dito o Veneziano, pároco de São Borebo de Orobixó (foi só o Concílio Vaticano II que reconheceu o direito a batismo de gigantes veros ou bordones, mas nesta altura, é claro, era há séculos que não existiam mais).

Em sua gravura Mimanto aparece inteiramente nu, barbado e corpulento, na feira da piaça de São Tiago, o Tau tatuado no braço para indicar que já atravessara a Meia-Idade, mas na juventude tinha tinha sido recatado e jesuíta. Prematuramente calvo, com quinze anos já raspava a cabeça e ostentava a barba cerrada que virava parede negra quando o gigante amuava e cerrava os lábios. Com dezoito anos salvara de um incêndio o Convento de Santa Giulia durante o cerco dos holandeses, e usara os braços e as pernas para manter inteira a Pontevelha sobre o Ânquio quando, em 1691, depois da passagem do Vorralhéus, choveram granizos do tamanho de casas e bois e a ponte se partiu na altura da Botega do Urso. Fabricava velas de parafina em forma de homens e mulheres, em tamanho natural e usando tripa de porco como pavio, e deixava-os acesos em encruzilhadas ou no alto de campanários, a fim de despertar a repulsa e a compaixão dos homens.

A piedade da primeira metade da vida de Mimanto, concordam os seus biógrafos e outros testemunhos contemporâneos, só encontraria justa comparação na devassidão da segunda. E no recorte entre as duas metades, como no meio de todas as outras coisas, está o amor. Inflamado, apaixonado e rechaçado por uma bodeira e cantadora de Crochença, o gigante despiu-se em praça pública e amarrou com a batina os trinta frades do eremitério de Bonzares ao campanário de Orós. Sua vestimenta passou a ser o cinturão da peixeira, de couro de doze-bois, seu calçado a terra pedregosa. Não usava o arco como Borgongì, mas passou a carregar continuamente consigo a aljava, na qual trazia em vez de flechas sete amantes, mesmo em batalha, mesmo durante o pálio das Franciscanas, para que o satisfizessem quando e quanto achasse por bem.

Quando não estava guerreando (mas, muitas vezes, enquanto fazia amor) estava escrevendo, lendo ou pintando detalhadas aquarelas de flores e animais. Mitômano, era fascinado pela anatomia e pelas façanhas dos gigantes de outrora. Projetou e levou a cabo, nos banhos da fazenda Santa Cruz, uma série de experimentos para colocar à prova a tradição medieval de que os gigantes respiram não só pela boca, mas também pelo pênis. Sua conclusão foi que todos os homens respiram um pouco pelo pênis, mas que só os gigantes têm cacife ou empuxo para valer-se da prerrogativa.

Publicou poemas satíricos de próprio punho e traduções em dialeto garofês dos goliardos e de Angolieri. Deixou incompleta sua obra maior, uma extensa Errata Satírica da Vulgata (que Chesterton equipara não sem entusiasmo a Maquiavel), em que está escrito e ilustrado através de exemplos dos pais da Igreja e das Vitae dos santos que em caso de dúvida as interpretações generosas e misericordiosas da Bíblia podem ser descartadas em favor das interpretações mais mesquinhas e opressoras das mesmas passagens.

Tinha mais de cinquenta anos quando encontrou ocasião para o episódio mais celebrado de uma vida naquele ponto já bastantemente aventurosa. Corria há dez meses o ano de 1727 quando Mimanto de Orobixó arrebanhou o grupo de cangaceiros e botocudos com o qual enfrentaria a própria irmã dois anos mais tarde na Peleja de Seurrosa, entronizada na ópera de Vitório Pontesquê.

 

[do verbete Mimanto e Massunta do Vocabulário Dogmático, Retórico, Simbólico e Xenofônico da Brasílica Maior.

Udo Alvares, Patos, 1823]


Este relato foi postado na Forja Universal em 24 de outubro de 2012

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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