Liminar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de setembro de 2015

Liminar

Estocado em Brasil · Manuscritos

Este relato é a parte 5 de 7 da série Despachos da Muralha

 

Minona Martins, em pé na soleira da porta, era um homem rechonchudo de camiseta, chinelo e calça pescador; era também um índio de cocar de penas, e apoiava o braço sobre o tacape como se fosse uma bengala.

– Você não faz ideia – ele disse ao jornalista dentro da casa, – o que é lutar por dez anos contra hordas invasoras quando as regras dizem que você pode morrer mas não pode matar. O seu direito de pedir justiça termina onde começa o direito do Império de te exterminar.

Estavam em território ocupado pelo Império Gaúcho no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Lá fora as fogueiras de pneu perfuravam a noite, mas os tiros tinham feito uma pausa. Eram três e meia da manhã.

– Por que vocês invadiram as fazendas? – disse Laurentino, sentado no chão com as costas apoiadas no sofá.

Minona deslizou a mão pelo tacape e acocorou-se sem sair do lugar. Todas as luzes da casa estavam apagadas, e em algum lugar as mulheres tentavam dormir com as crianças. A porta que dava para a varanda era a única que estava aberta, mas outros índios faziam sentinela em cada uma das janelas.

– Tudo que a gente faz é pacífico – disse Minona. – Esta é uma guerra por justiça só para os urralistas, com o detalhe que são os brancos que decidem o que é justo. Os fazendeiros tem dinheiro e contatos em Vazília, estão cobertos. Nos últimos dez anos as tropas urralistas imperiais mataram mais de trezentos índios no Mato Grosso do Sul. Dois dias atrás uma bala do Império acertou aqui atrás o Anastácio Carneiro na cabeça, o pai da Miú que você conheceu, e pergunte se o seu jornal de São Paulo deu a notícia do assassinato. Pergunte se algum jornal de capital deu que este ataque agora aos kaiowá foi decidido no sindicato rural numa reunião em que estavam senador, deputados federais e vereadores. Pergunte.

– Sei que não deu – disse Laurentino. – É pra isso que estou aqui. Pra ouvir o seu lado da história.

Minona sabia que não era exatamente verdade. Se os urralistas não tivessem confiscado as câmeras e os celulares do jornalista e do fotógrafo que o acompanhava, os dois não teriam se aproximado da casa para pedir um telefone; não teriam sido pegos de surpresa quando os pistoleiros do Império abriram fogo, e estariam cobrindo o conflito de distância muito mais segura. Ou parcial.

– Trezentos índios assassinados – disse Minona, – e ninguém mexeu um dedo para acordar a justiça. Podiam ser dez, podiam ser mil, porque índio morto não é notícia. Agora pergunte o tamanho do fuzuê, o tamanho do alarde União afora, se um índio num conflito desse matasse um branco, um que fosse.

– Posso imaginar.

– Não, não pode – disse Minona, sem qualquer rancor. – Tenha certeza que agora mesmo estão dizendo que você e o seu amigo são nossos reféns. Que fomos nós que destruímos o seu equipamento.

– Vou deixar muito claro que não foi isso que aconteceu.

– O que você vai escrever amanhã e publicar no dia seguinte não conta, não existe. O que conta é a versão que eles estão colocando no RaceBook agora mesmo. Você sabe que os urralistas usaram imagens de um incêndio que aconteceu em outro lugar para dizer no RaceBook que estávamos tacando fogo nos equipamentos das fazendas que invadimos?

– Porque vocês invadiram as fazendas?

Minona apoiou a testa no tacape. Das frentes da luta a que mais lhe drenava as forças era ter de explicar a cada branco bem intencionado que se aproximava da causa o modo de pensar dos índios. Os brancos por vezes se esforçavam para entender, mas a linha que separava uma visão de mundo da outra eles não tinham constituição para atravessar. Minona sentia-se diminuído pela tarefa de ter de explicar a alguém de fora o mundo que era o seu, e os brancos não eram instruídos nas artes delicadas de deixar em paz.

– Pra vocês casa é uma coisa fechada – disse o índio. – Para nós é coisa aberta. Nossa casa é a mata; para você entender, cada rio dá à luz uma sua nação. Para invadir a nossa casa você não precisa pular cerca nenhuma, não precisa cruzar nenhuma divisa. Para sitiar o índio basta você tocar a natureza, de longe que seja. Derrubar as árvores do outro lado do morro, cercar com soja, deixar o agrotóxico pular para o rio. Os animais da mata e do rio raleiam, você já invadiu. Quem invadiu quem? Para o branco, plantar a soja e vender a vaca são sagradas. Para nós sagrado é deixar a natureza como está, para que haja um lugar em que a gente possa ser. É defender a nossa Muralha.

– Posso entender isso – disse Laurentino. – Mas você admitiu que é obrigado a lutar respeitando as regras da religião dos brancos, que são no mínimo mais numerosos. Para o homem branco a coisa sagrada é a propriedade, e invadindo as fazendas você está pisando no senso de santidade deles.

– Em algum lugar no mundo dos brancos está dito que estas terras são nossas – disse Minona, e deixou-se apoiar as costas junto à soleira da porta. Outra coisa que lhe drenava as forças era tentar falar com algum respeito sobre a deusa que os brancos chamavam de justiça. – Há dez anos os nove mil alqueires onde correm os nossos rios foram homologados pela Residência como reserva para os kaiowá. Esta e outras fazendas estão em cima desse território.

– Nove mil alqueires são 90 quilômetros quadrados. Para quantas famílias?

– Os brancos têm fazendas dez vezes maiores em que toda a população é de bois e vacas – disse Minona, irritadíssimo com a pergunta, – e isso você acha bonito. E atento que falam de si mesmo como “produtores”, como se estivessem produzindo alguma coisa em vez de destruir.

– Certo, mas se a reserva foi homologada pela Residência como você diz, o que os fazendeiros do Império estão fazendo instalados aqui?

– Os brancos fazem de conta que adoram a deusa justiça, mas com o dinheiro compram encantamentos e despachos para limitar o poder dela. Essa bruxaria é cara, só os ricos podem pagar. A terra que sempre foi nossa estava para ser reconhecida pela justiça dos brancos, quando o Império Gaúcho paralisou a mão da justiça com um feitiço poderoso chamado liminar. A justiça está parada há dez anos, e nossas terras há dez anos assoladas pelo Império.

– Uma liminar – disse Laurentino, que tinha alguma familiaridade com a magia judiciária.

– Assim que o feitiço entrou em efeito, dez anos atrás, perdemos magicamente o direito às nossas terras. Vieram tropas e helicópteros da Polícia da Residência e nos expulsaram com tropas de choque. Queimaram as nossas cabanas para que não tivéssemos para onde voltar, e nos confinaram num espaço pequeno o bastante para tornar inviável o nosso modo de vida. Em vez de 90 quilômetros nos fecharam em um quilômetro quadrado e meio.

Laurentino piscou muitas vezes, como que para re-registrar uma versão da realidade com que soubesse lidar. Minona viu nos olhos criados em condomínio do jornalista que ele nunca tinha esperado dez anos para voltar para casa. Não tinha vivido oito anos na margem de uma rodovia, não tinha fugido de um tiroteio pela mata noite adentro, não tinha tido um filho pequeno amarelando pela desnutrição. Não tinha tido de recolher do asfalto, pelo menos meia dúzia de vezes ao ano, uma criança ou ancião apagados pelo brancomóvel.

– E o que vocês esperam que aconteça agora? – Laurentino perguntou.

– Meus irmãos aqui acham – disse Minona – que temos uma chance, se a gente conseguir invocar a atenção da deusa da mídia internacional. Que uma entidade tutelar fora da União vai ter talvez o poder ou o interesse de quebrar o encanto da liminar e liberar em nosso favor a mão da justiça.

– E o que você acha?

– Acho que estamos cercados – disse Minona, e sorriu amargo. – O Anastácio que os urralistas mataram enquanto bebia água, ele dizia que para o branco as reservas índigenas do Mato Grosso do Sul e do Paraná são silos de material radioativo. Sabe aqueles que você enterra fundo para esconder o que pode contaminar?

– Sei.

– Essa história não tem como ter final feliz, e nem para quem é cria de branco. Você vai achar estúpido, mas entendi isso, ou lembrei disso, quando vi o modo como a Europa acaba de tratar a Grécia na União deles. União um cacete. Aqui no Vazil a nação dos índios também está sozinha contra o ataque de todas as outras, e geograficamente estamos divididos. Ninguém vai vir nos salvar. Você vai ter a sua conversa catártica com o bom selvagem para ilustrar a sua reportagem, e nós vamos ser enterrados no Vazil dentro de um silo qualquer. A dona desta casa, que tem outras dez iguais, vai ter a fazenda de volta e –

Minona se interrompeu e pôs-se de pé num sobressalto, porque lá de fora despejou-se na noite uma barulhada infernal. As cinquenta ou sessenta caminhonetes dos urralistas que cercavam a fazenda tinham ligado o som ao mesmo tempo e no último volume, em rádios diferentes mas todas tocando a mesma sorte sacrílega e pasteurizada de música sertaneja.

– Que porra é essa? – disse Levy, o fotógrafo, que tinha estado dormindo sobre a mesa da cozinha.

Minona fechou e trancou a porta que dava para a varanda e apertou os dedos no tacape.

– Não querem que a gente saiba por onde estão chegando, e querem abafar os tiros – disse Minona. – Eles fazem assim.

Só me diz se você me ama, me diz somente se me quer feliz, exigiu um dos refrões que disputavam lá fora.

– Estão atacando – disse Laurentino ao fotógrafo para acordá-lo de vez, e ficou em pé ao lado de Minona.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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Este relato faz parte da série

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