Índias Ocidentais • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 17 de maio de 2004

Índias Ocidentais

Estocado em Manuscritos · Política

No que me diz respeito, o Brasil deveria se chamar “Índias Ocidentais”, que é como nos chamavam os holandeses durante o período da sua (pre)Ocupação conosco. Fica aqui a minha sugestão.

A verdade é que não tenho nada contra o nome “Brasil”. Não me envergonho de morar num país cujo nome significa basicamente “braseiro”, e até me orgulho do fato de sermos o único país da América Latina que tem um nome verdadeiramente caliente.

O problema com “Brasil” é que é simplesmente curto demais para ter algum peso. Um país que se preze precisa ter um nome de pelo menos quatro sílabas. Pelo menos três, vai, tipo “Egito”. Nesse ponto quase todos os países da América Latina levam vantagem sobre nós, até mesmo a Argentina.

Um país deve mesmo, se possível, ter um nome composto de duas palavras, uma caracterizando a outra. Como, digamos “Nova Zelândia”. Ou “Grã-Bretanha”. Até mesmo “Países Baixos” é melhor do que um nomezinho de duas sílabas como Fiji. Para alcançar a glória, a receita mesmo é apostar num nome de três palavras: “Estados Unidos da América”. Isso sim é um nome de verdade. Não é supresa nenhuma para mim que eles sejam a maior potência do planeta. Com um nome desses.

(Só não posso garantir o futuro de países que ultrapassam o limite máximo de três palavras; os soviéticos tentaram e foi grande a sua queda).

Não é só pela vantagem de um nome composto, no entanto, que defendo Índias Ocidentais. Não é também só minha simpatia por nomes antigos ou pelos próprios holandeses, que eram sensatamente protestantes.

É que Índias Ocidentais é simplesmente bom demais pra não estar em uso corrente. Se você for pensar bem, “Índias Ocidentais” é de uma felicidade e uma riqueza sem tamanho. Uma expressão que apela a tendências opostas, quase contraditórias – que tem, embutida ao lado do qualificativo “Ocidental”, a palavra “Índia”, que representa como nenhuma outra tudo que é oriental. Chega a ser contraditório: seria como dizer “Países Altos e Baixos”, ou “Pequena Grã-Bretanha” (o único país da história que pode ter tido um nome mais contraditório foi a França Antártica, que também era por estas paragens).

E que país pode haver mais contraditório que o Brasil? Mais que nenhuma outra nação, nós representamos o equilíbrio (ou o desequilíbrio inerente) entre a impassividade oriental e o otimismo ocidental; entre a busca pelo ponto imóvel, eterno, passivo e imutável, que caracteriza a cultura oriental, e a obsessão com o progresso que caracteriza o ocidente. Mais do que ninguém, nós somos a contradição.

Somos as Índias Ocidentais. Reivindico de volta a nossa alma.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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