História é beleza • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de julho de 2016

História é beleza

Estocado em História

Milhões de auroras, milhões de entardeceres, milhões de noites e de tardes que acabaram descolorando a fachada, escovando os muros e rebocando tudo com a massa do tempo: aquela pátina velha, preciosa e inimitável que é como o brasão nobiliárquico das edificações antigas e que recuso-me a destruir com uma reforma.
Adriana Zarri, falando de sua velha casa, em Un eremo non è un guscio di lumaca

 

Meu nome é Paulo Brabo, e sou um viajante do tempo. O presente não é o meu mundo – e isso, olha, desde a mítica Idade Offline que precedeu a internet, quando metade de vocês não tinha nascido. Hoje é um lugar que não existe.

Não ignoro, antes que você pesque a contradição, que até mesmo algo desinteressante e sem traços distintivos como o que chamamos de presente pode ser redimido pela mão reparadora do tempo. Por outro lado, não ignoro também que recobrir de beleza e de interesse a tela branca e ordinária do presente é tarefa custosa, árdua e demorada. Requer, na mais otimista e saltitante das hipóteses, cinquenta anos. Com gente é mais fácil: depois de quarenta anos o mais ordinário dos rostos já torna-se finalmente interessante. Porém uma casa é com 80 anos que vai abandonar as fraldas; para a mesma casa, a vida começa aos quarenta: quarenta decênios. Tratando-se de uma cidade ou um país, vamos combinar: pelo menos mil. Pelo menos mil anos.

Quando voltei da minha viagem inaugural à Itália deparei-me com a minha cidade brasileira como que pela primeira vez. Então essa é a mítica Curitiba, de que o país inteiro fala. Vi uma cidade até que muito viva, fresca e atraente – porém, com a perspectiva que trouxera na bagagem, entendi que restava muito pouco na minha cidade para chamá-la de minha.

Em dialeto brasileiro, Curitiba é uma cidade antiga, com mais de 300 anos. No que me diz respeito, o problema é que essa idade não se nota. Fora um recanto ou outro resgatado pela distração ou pela culpa, Curitiba aparenta ter caído pronta do céu, digamos, a partir de 1960. A maior parte da cidade, no entanto, deixa patente ter vindo à luz depois de 1990.

Sem contar o tamanho, Curitiba, com seus 319 anos, tem visualmente pouco que a diferencie de Cascavel, no oeste do estado, que tem 61. E olhe que Cascavel é já enorme, e cresce num ritmo monstruoso: em 1950 tinha 400 habitantes, em 2010 tinha 285.000 – uma população maior do que a da cidade de Verona, que no ano 89 era uma colônia romana. A segunda maior cidade do Paraná, Londrina, que não completou ainda oitenta anos, tem 515.000 habitantes: 144.000 a mais do que Florença – que é Florença há mais de mil anos, e tem uma história que se estende outros mil afora.

A alma de um lugar, naturalmente, não nasce de uma hora para outra. Uma cidade como Cascavel ou como Londrina, que com reles 50 anos já tinha ares de metrópole, não tem como não ser e como parecer mais ou menos genérica. São cidades enormes, mas poderiam ter sido construídas ontem; num certo sentido foram. Não conhecem a puberdade. Sua pele não foi tornada notável pelas rugas. Não tem feições que as distingam de outras crianças da mesma idade. A culpa, é claro, não é da cidade em si; o tempo é que é um artista exigente, um fornecedor cheio de melindres que não promete fascínio para menos de 100 anos.

Uma taxa de crescimento dessa magnitude é capaz de desfigurar até mesmo cidades que muito claramente têm uma alma, como São Paulo e Rio de Janeiro, reduzindo-as a meras coisas enormes: monstros sem forma que devoram tudo em seu caminho, sendo que a primeira coisa que devoram é a humanidade das pessoas e das coisas.

Se é para ser justo, é preciso reconhecer que essa obsessão com o crescimento é uma condição médica que tem raízes históricas: a febre expansionista nos foi transmitida justamente pelos colonizadores do Velho Mundo, que infelizmente não nos passaram a sua imunidade, adquirida ao longo das idades, de entender que toda expansão acaba encontrando limites. No Velho Mundo as nações conhecem os seus limites há milênios. Aqui no Brasil agimos como se o mundo não fosse redondo: como se o espaço não tivesse fronteiras, como se os recursos fossem inesgotáveis, como se a Amazônia não tivesse fim.

É evidentemente injusto que gente humana se veja obrigada a nascer e a viver no deserto sem face que são as grandes cidades brasileiras, e que as comunidades vizinhas sejam terraformadas em deserto ao serem atropeladas pela sua expansão – quando o deserto literal pode se mostrar muito mais vivo e autêntico, mais vivo e menos desumanizador. Porém, sendo o Paulo Brabo que sou, para mim a tragédia final é entender que para a cidade brasileira crescer em ritmo pornográfico não basta. Imolar o espaço e a natureza no altar do progresso não é suficiente: é preciso apagar no processo todo traço de história e portanto de beleza.

Posso ter de explicar que eu meu interesse pela história nasceu muito antes que eu beijasse a primeira pedra do Velho Mundo, no outono de 2008. Antes de me conhecer pessoalmente, meu irmão inglês Julian costumava dizer: “Paulo, você é de fato obcecado com o passado”. Depois de passar duas semanas comigo no sertão do nordeste, em 2005, e conhecer meus ritmos e devaneios, interesses e discursos, seu parecer foi ajustado: “Paulo, você efetivamente vive no passado”. Pouca gente já me entendeu melhor e mais rápido.

Eu mesmo me conhecia o bastante para saber, muito antes de embarcar, que ser finalmente submetido à experiência direto do Velho Mundo me esmagaria e me destroçaria e me faria dançar e cantar como uma criança.

Não ignorava também que para um Brabo como eu a Itália era (e permanecerá) o destino ideal. Como não antecipar que eu desmoronaria ao pisar a Florença de Dante? Se meu mano Paolo (a quem devo tudo e cuja generosidade para sempre me arruinou) tivesse me levado ao estacionamento de um shopping center e dito “aqui ficava a casa de Dante”, eu teria me desmanchado sem qualquer intervalo em lágrimas. Nem eu nem ele ignorávamos isso.

Meu problema é que ele não me levou a um shopping center ou a uma cidade moderna. Estacionamos a diversas quadras de distância e o Paolo conduziu-me a pé a uma Florença medieval de ruas estreitas e sombras e arcos e colunatas e ângulos que sem cessar convidam e galerias; uma cidade que o próprio Dante saberia reconhecer imediatamente, em que ele não teria qualquer problema para encontrar a casa em que morava, que está no mesmo lugar e essencialmente como era há setecentos anos – a poucos metros da capela minúscula onde ajoelhava sua Beatriz, em cujos bancos desabei e finalmente chorei com o desespero de um converso ou de um condenado. Chorei por Dante e por Beatriz e pelo universo e por mim e pela insuportável beleza da história e de todas as histórias.

É claro que eu esperava e rezava para que cidades como a velha Florença e Veneza, a Sereníssima, estivessem preservadas, como de fato estão. Mas essas são destinos famosos, que não só abraçam, mas não têm como contornar o seu destino à memória dos povos. O que eu certamente não esperava é encontrar na Itália uma constelação de outras cidades de que não tinha ouvido falar e que nossa admiração estupidamente não nomeia, espalhadas como pérolas pela paisagem, que haviam adotado e adotam a mesma vocação à eternidade, a mesma resistência à descaracterização.

São cidades de porte médio, como Lucca ou Barga, relativamente pequenas, como Siena e Pienza, ou vilarejos minúsculos, como Corfino e San Quirico d’Orcia. Lugares que são essencialmente como eram há quinhentos anos – em alguns casos muito, muito mais do que quinhentos anos. Em muitos casos, lugares que não têm não só o mesmo traçado urbano que tinham naquela época, mas o mesmo tamanho e a mesma população.

Incrivelmente, fui sacando que as cidades preservadas que ia encontrando não eram a exceção: eram a mais rigorosa norma. Quando tropecei com a mesma teimosa genuinidade nos vales mais remotos e nas mais despretensiosas das aldeiazinhas, intui por fim o que minha ambição teria considerado inimaginável: que o vertiginoso e irretocável projeto das cidades do norte da Itália (e, pelo que sei, de grande parte do sul da Itália e do restante da Europa) é este: o de permanecerem essencialmente as mesmas. A menor aldeia da Garfagnana vai lutar até o sangue para não deixar que o presente sem rosto lhe roube a beleza que é a mesma e que é sua desde a era dos santos medievais, desde o tempo dos soldados romanos antes deles, desde a idade dos etruscos quando não havia ainda romanos. Desde a época em que não havia ainda Jesus.

O que eu certamente não esperava era encontrar cidades preservadas e ao mesmo tempo vivas, já que no Brasil os centros históricos que restam são tornados inofensivos sob a forma de redutos para turistas. No Brasil não ocorreria a ninguém rebaixar-se a viver dentro da história. Enquanto isso, Florença e Siena e Barga são cidades de traçado medieval mas ao mesmo tempo são muito claramente cidades: cidades em que restaurantes, galerias de arte, boates, bancos, lojas de moda, lojas de celulares, quitandas, papelarias, açougues, lan houses e o que o valha existem em prédios de uma antiguidade (isto é, uma beleza) que entre nós não existe e não teria como existir.

Nunca esperei encontrar nesta vida uma história viva (no Brasil de onde venho história é morte, ou está separada da experiência por uma daquelas faixas vermelhas de museu, que estão ali para que a ninguém ocorra atravessar a linha entre o passado e o presente), e essa perspectiva me derrubou. Meus sonhos mais improváveis não teriam me levado tão longe. Caraca, pensei, é possível viver dentro da história. A história é indistinguível da vida desses caras.

Então voltei para casa, muitas vezes mais ambicioso e, naturalmente, muitas vezes mais desiludido (essa lucidez adquirida é um dos grandes perigos da perspectiva).

É claro que no Brasil o reboco da história é necessariamente mais fino do que na Europa, mas isso é o de menos. Eu queria ser Verona, mas ninguém tem culpa de ser jovem. Muito mais grave, mais irreversível e imperdoável, é o nosso delito de autodesfiguração: o fato de que a pouca história que temos tratamos febrilmente de apagar.

Para falar muito sucintamente de mim: a Curitiba que conheci há trinta anos não existe mais. Vejo nas fotos antigas que havia casas ao redor da praça Santos Andrade, e destas não conheci uma e não resta uma. O casarão de janelas altas, na esquina da João Negrão com a Marechal Deodoro, onde ficava uma pensão onde morou meu pai, só persiste na memória. Nos bairros, casas muito sólidas e distintas tiveram nas últimas décadas a indignidade de, antes de completar oitenta anos, ceder seu lugar para edifícios residenciais que são todos iguais entre si, ou de serem desertificadas em estacionamentos.

Quando voltei a Santa Felicidade, depois de uma pequena ausência de vinte anos, entendi que o bairro que eu havia conhecido tinha sido sequestrado e substituído por um aglomerado indistinto de enganos de cimento cometidos às pressas: um lugar que poderia ser qualquer lugar incerto e infeliz do mundo menos a velha Santa.

A casa adorável que foi sede da Junta da Convenção Batista, e que tinha uma varandinha pitoresca, uma cozinha arejada e um sótão irresistível, foi derrubada e substituída por um quadrado de cimento branco. Hoje a própria Junta existe num edifício com a fachada apagada por vidros e o charme de loja de conveniências de posto de gasolina.

Isso para não não falar de lugares menores do que Curitiba, das cidadezinhas que são engolidas pelas áreas metropolitanas; para não falar dos índios, dos casarões da avenida Paulista, do cassino da Urca. Se você vive no Brasil, sabe que não preciso me estender nos exemplos.

Tudo na minha terra tende a não permanecer bonito, genuíno e interessante como era. Qualquer coisa que tenha acumulado tempo, e portanto valor e interesse, encontrará ocasião de ser eliminada da paisagem, da experiência e da memória. Toda beleza será castigada. Somos o país do progresso, pelo que não nos deve embaraçar o embaraço muito evidente que é a história. Recusaremo-nos altaneiramente, até o último momento, a deixar que se crie entre nós o estorvo que seriam uma alma e uma herança.

Curioso é que há na Itália uma canção muito conhecida, de Adriano Celentano, que lamenta o ritmo de crescimento de Milão: Il ragazzo della via Gluck. Sua mágoa está resumido na frase “là dove c’era l’erba ora c’è una città”: ali onde havia campo agora há uma cidade.

O paradoxo está em que na Itália as cidades crescem, mas nem de perto com o ritmo com que crescem aqui. Não há verdadeiras metrópoles italianas além de Roma e Milão (sendo que Milão, claro, é menor do que Curitiba).

É evidente que me entristece encontrar uma cidade onde antes havia campo, e Deus sabe que passei por essa experiência muito mais vezes, e em grau maior, do que Adriano Celentano. Porém o centro histórico de Milão ainda está lá, vasto e vivo e radiante, e quando vou a Curitiba encontro uma cidade genérica e sem personalidade onde havia uma cidade pitoresca, elegante e inconfundível. Onde havia a minha cidade agora há uma cidade qualquer.

E de que adianta ser uma cidade-modelo, quando se é uma cidade qualquer? Qual é, na verdade, a diferença? No sertão do nordeste e nas escarpas verdes dos Apeninos, em lugarejos com uma área menor do que o estacionamento do restaurante Madalosso, encontrei mais genuinidade e beleza e interesse do que em Curitiba inteira.

Quando ficou sabendo que eu havia visitado a Itália, em particular a Toscana e a Florença de Dante e do Renascimento e de Michelangelo, meu amigo Julian (que quando menino passava as férias correndo assombrado debaixo daquelas arcadas) escreveu-me a mais acurada, sucinta e lisonjeira das avaliações:

“Finalmente. Agora então você já sabe que está condenado a passar a vida voltando para a Itália.”

Meu nome é Paulo Brabo, e sou um viajante do tempo.


Este relato foi publicado na Forja Universal em 9 de novembro de 2012

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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