Graciliano Ramos e o crente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de julho de 2004

Graciliano Ramos e o crente

Estocado em Fé e Crença · História

O mais impressionante sobre o encontro de Antônio Silvino com o evangelho como pregado por Salomão Ginsburg (judeu polônes nascido em 1867, filho de rabino, convertido ao cristianismo aos quinze anos depois de fugir de casa, missionário no Brasil a partir de 1890) foi o efeito duradouro que este produziu naquele.

“É quase certo irmos encontrar um indivíduo sombrio e cabisbaixo, embrutecido pela desgraça.”

O pernambucano Antônio Silvino (nascido Manuel Batista de Morais), o Rifle de Ouro, o Governador do Sertão, foi o primeiro a receber o título de Rei do Cangaço, e o cangaceiro mais famoso antes da aurora de Lampião. Depois de 16 anos durante os quais “organizou saques, assassinou políticos, ignorou a polícia e só respeitava as mulheres”, o cabra foi ferido e preso em novembro de 1914.

O escritor e jornalista Graciliano Ramos foi visitá-lo na prisão em 1938. Ele descreve o homem que esperava encontrar:

Depois uma emboscada e o cárcere provavelmente o desmantelaram. Talvez as marchas, as lutas, a fome, a sede, a fuga constante e as fadigas das travessias não o tenham abalado: mas a bóia da cadeia, as grades, a esteira suja na pedra, os mesmos gestos repetidos, as mesmas palavras largadas em horas certas, infinitas misérias e porcarias, inutilizaram o velho herói de encruzilhadas. É quase certo irmos encontrar um indivíduo sombrio e cabisbaixo, embrutecido pela desgraça, indiferente às façanhas antigas, hoje atenuadas, esparsas. Está ali perto um fantasma triste e desmemoriado, mostrando vagos sinais de vida em movimentos de autômato.

Graciliano esperava, na verdade, encontrar alguém que pudesse olhar de cima, alguém de quem pudesse falar mal. O que o aguardava era uma surpresa:

E estamos na presença de Antônio Silvino, um velho que me desnorteia, afugenta a imagem que eu havia criado (…) Enganei-me, estupidamente.

Conosco é amável em demasia. A hospitalidade sertaneja revela-se em apertos de mãos, em abraços, num largo sorriso que lhe mostra dentes claros e sãos. Esse pé de mandacaru, transplantado para um subúrbio remoto do Rio, deita raízes na pedra do morro e esconde cuidadosamente os seus espinhos. Antes de refletir, aperto a garra poderosa. Antigamente essa aproximação teria sido impossível: fui, como outros, um sujeito muito besta e convencido de não sei que superioridade. Felizmente esqueci isso. Dou razão a Antônio Silvino, que não quer ser bandido, não porque os bandidos sejam muito piores que os outros homens, mas porque a palavra odiosa se tornou um estigma.

Um tiro no pulmão e vinte anos de cadeia não demoliram essa organização vigorosa. Na situação em que se achava, seria natural que lhes incutisse idéias de vingança.

Conversando, narrando as suas aventuras numa linguagem pitoresca, ri alto, mexe-se, os olhos miúdos atiçam-se, uma bela cor de saúde tinge-lhe o rosto enérgico vincado pelo sofrimento. Apesar das rugas, tem uma vivacidade de rapaz; um tiro no pulmão e vinte anos de cadeia não demoliram essa organização vigorosa. Os cabelos estão inteiramente brancos, mas a espinha não se curva, a voz não hesita. É o mais robusto dos que se acham na sala acanhada, em torno duma pequena mesa.

Na caatinga imensa, perseguido, queimado pela seca, Antônio Silvino teve sempre os modos dum grande senhor, muitas vezes mostrou-se generoso e caprichou em aparecer como uma espécie de cavaleiro andante, protetor dos pobres e das moças desencaminhadas. Na prisão desviou-se com soberba dos criminosos vulgares e, não obstante ter vivido em Fernando de Noronha, nunca se misturou com eles. A convicção que manteve do próprio valor manifesta-se em todos os seus atos.

Antônio Silvino isolou-se, achou meio de não se contaminar. Foi um preso muito bem comportado, tanto que lhe permitiram esta coisa estranha: alojar os filhos no cubículo onde vivia. Criou-os, dividiu com eles a ração magra, conseguiu, fabricando botões de punhos, obter os recursos necessários para educá-los. E educou-os de maneira espantosa. Na situação em que se achava, seria natural que lhes incutisse idéias de vingança. Nada disso. Ensinou-lhes o respeito à lei, à lei que os afastava do mundo, cultivou neles sentimentos religiosos e patriotismo. Orgulha-se de os ter formado assim, de os ver hoje servidores fiéis do Exército e da Marinha.

Antônio Silvino passou passou 23 anos na prisão. Entre os presos organizou grupos de produção de artesanato em couro. Foi libertado em 1937 e, por conta de sua boa conduta na prisão, ganhou do Governo Federal um emprego no Departamento de Estradas e Rodagem, lotado no Estado do Paraná. Aposentado, voltou a Pernambuco.

Em agosto de 1944, aos 69 anos de idade, Antônio Silvino morreu – velho e farto de dias.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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