Fuggite • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de setembro de 2006

Fuggite

Estocado em Sonhos

Ontem sonhei com uma Curitiba minimalista composta basicamente de calçadas, calçadões, escadarias, muralhas, galerias, pátios, portais e antigos edifícios, igrejas e museus. Essa cidade essencial prescindia inteiramente, que eu me lembre, de portas e janelas; tampouco havia árvores, pedestres, carros, céu, lojas, placas de trânsito ou de publicidade. Talvez houvesse ônibus, ou a possibilidade de tomar-se um, e creio lembrar-me de postes baixos de metal.

Os únicos pedestres que entrevi eram de natureza fantástica: primeiro os esquivos gigantes gorduchos de oito metros de altura vestidos inteiramente de preto, trajando elegantes coletes de seda e sapatos impecavelmente engraxados; depois, o que só posso descrever como cabeças enormes, de três metros de altura, negras como fuligem, com nariz afilado e sobrancelhas brancas, que se equilibravam diretamente sobre pernas de tamanho normal. Essas cabeças apareciam sem aviso de alguma galeria e recuavam imediatamente, de costas, quando percebiam a nossa presença (eu estava com algum amigo que não sei nomear).

Os gigantes de negro também pareciam preferir não serem vistos. Em determinado momento, porém, um deles aproximou-se a passos largos na nossa direção, e meu amigo alertou: “Fuggite!” (fuja, em italiano). Tudo que consegui extrair do meu italiano de ópera quando vi as pernas e o colete do gigante a três passos de mim foi um intimidado “Eccolo qua!” – ei-lo aqui.

O gigante saltou o portal que eu tinha planejado atravessar e desapareceu depois de cruzar o ar sobre nossas cabeças. Lembro ter percebido que ele não tinha pernas, mas usava abaixo da articulação dos joelhos as encurvadas próteses negras de metal que eu tinha visto no sábado em algum programa de televisão.

Estávamos depois, sem qualquer transição de que eu me recorde, dentro de uma loja de material de arte. Meu amigo apontou pelo balcão de vidro e comprou dois estojos idênticos de madeira com lápis de desenho de diversos calibres (de acabamento retangular, inclusive nas pontas), e delicados formões de cabos de madeira clara.

Quando o balconista afastou-se por um momento perguntei a meu amigo qual era o preço, e ele provocou:

– Na feirinha, 15 reais. Aqui, 200.

Olhei na nota sobre o balcão que os dois estojos tinham custado juntos trezentos reais. Achei que a 150 reais valiam o preço e resolvi comprar um. Perguntei ao balconista se ele aceitava cheques e só neste momento o homem materializou-se de fato na minha frente, um sujeito de meia-idade, bigodão, colocando na onipresente sacola de plástico a compra de meu amigo.

Ele disse que, sendo possível, preferia dinheiro por motivos de aperto imediato. Dei a ele as duas únicas notas de cinqüenta que tinha na carteira, peguei minha sacola e saí pela cidade à procura de uma caixa automática.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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