Final feliz • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de abril de 2005

Final feliz

Estocado em Fé e Crença · Política

Esse menino, Francis Fukuyama, tem mais fé do que eu.

Em 1992, diante de maravilhas recentes como a queda do Muro de Berlim (1989), Fukuyama começou a divulgar o Fim da História – não no sentido de que nada mais vai acontecer, mas no sentido de que a partir de agora, neste estágio da civilização, nenhuma mudança importante «O capitalismo gerou o melhor dos mundos possíveis.»pode ou deve acontecer. Fukuyama interpretava a desintegração da ala comunista do mundo como um sinal do triunfo final da idéia mais perfeita de todas: a democracia liberal capitalista.

Fukuyama cria (e aparentemente ainda crê) que no início da década de 1990 o mundo havia finalmente abandonado a “moralidade escravagista” das visões de mundo anteriores, alcançando dessa forma a plena maturidade social, histórica e política. Em especial, aquele momento da História teria representado o rompimento final da humanidade com distrações infantis como o cristianismo e o comunismo:

O cristianismo e o comunismo eram ambos ideologias escravagistas que capturavam parte da verdade. Porém no decorrer do tempo as irracionalidades e contradições internas de ambos foram reveladas. O colapso da ideologia marxista no final dos anos 1980 refletiu, num certo sentido, o alcançar de um nível mais elevado de racionalidade por parte dos que viviam nessas sociedades, e a sua percepção final de que o reconhecimento racional universal (sic) só pode ser alcançado numa ordem social liberal.

O círculo fechou-se e todas as questões e tensões da História teriam se resolvido, sustenta Fukuyama, neste nosso mundo pós-cristão e pós-comunista. Cristãos primeiro, comunistas mais recentemente, enxergaram ambos a Luz. Não existe História além do capitalismo porque “não existe uma alternativa concebível capaz de prover um espectro tão grande de benefícios tanto econômicos quanto sociais”.

A nova crença, expressa por Fukuyama mas abraçada inconscientemente por todos, é que o capitalismo gerou o melhor dos mundos possíveis. O novo evangelho é que a humanidade alcançou o nirvana e tudo que resta fazer é “normatizar” a democracia capitalista: aparar as poucas arestas que ainda restam. Fora isso, é só alegria.

Acredite, naturalmente, se quiser.

Não é preciso fé para ver que o cristianismo e o comunismo, da forma como foram colocados em prática historicamente, não serviram para solucionar as tensões da história e promover a justiça e a satisfação que prometiam. O reino de Deus que Jesus desafiou os seus seguidores a implantar ou descobrir permanece, em especial, tão ou mais longe da efetivação do que quando ele o esboçou.

Mas a fé requerida pela crença expressa por Fukuyama é, do meu ponto de vista, muito maior. Naturalmente, hoje em dia todos crêem na justiça inerente do capitalismo, e ninguém proporia uma alternativa à democracia sem correr o risco de ser queimado como herege nas novas fogueiras. Quando Bush frita o Iraque No capitalismo, todos os homens nascem iguais – e desse ponto em diante cabe a cada um se virar para resolver esse problema.para libertá-lo com o poder redentor da democracia capitalista, ele está sendo apenas sensato – e bonzinho. Se o capitalismo está envolvido, o final será inevitavelmente feliz.

Dito de outra forma, para o cristão e para o comunista todos os homens são iguais no sentido de serem merecedores dos mesmos privilégios (diante de Deus e do Estado), não importa o que façam. No capitalismo, todos os homens nascem iguais – e desse ponto em diante cabe a cada um fazer o que pode para resolver esse problema.

Já que eu sou o mais forte, vamos brincar assim: o mais forte ganha.

Leia também:
As variedades da experiência capitalista

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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