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	<title>A Bacia das Almas</title>
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	<description>ONDE AS IDÉIAS NÃO DESCANSAM</description>
	<pubDate>Sat, 26 Jul 2008 09:28:43 +0000</pubDate>
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		<title>Um passinho à frente</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Jul 2008 09:28:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ilustração]]></category>

		<category><![CDATA[coreldraw]]></category>

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		<description><![CDATA[
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.e-brabo.com/images/2008/passinho-a-frente-b.jpg"><img src="http://www.e-brabo.com/images/2008/passinho-a-frente.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
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		<title>Neste ponto</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jul 2008 10:59:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

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		<description><![CDATA[28
Neste ponto, com o cenário disposto, o conflito sensatamente estabelecido e os intérpretes em suas marcações, a narrativa subverte as próprias regras que havia fixado, introduzindo sem aviso um novo personagem.
 &#160;Este documento faz parte da sérieNasce um homemEra uma vezAdão eraA teoria literáriaPara mimSe havia improvável graçaO conflito que anima uma históriaA primeira blasfêmiaEu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>28</p>
<p>Neste ponto, com o cenário disposto, o conflito sensatamente estabelecido e os intérpretes em suas marcações, a narrativa subverte as próprias regras que havia fixado, introduzindo sem aviso um novo personagem.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Nasce um homem</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-1/' title='Era uma vez'>Era uma vez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-2/' title='Adão era'>Adão era</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-3/' title='A teoria literária'>A teoria literária</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nasce-um-homem-4/' title='Para mim'>Para mim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/se-havia-improvavel-graca/' title='Se havia improvável graça'>Se havia improvável graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-conflito-que-anima-uma-historia/' title='O conflito que anima uma história'>O conflito que anima uma história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-primeira-blasfemia/' title='A primeira blasfêmia'>A primeira blasfêmia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eu-sentia-ser-minha-obrigacao/' title='Eu sentia ser minha obrigação'>Eu sentia ser minha obrigação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-demonstrado-exemplarmente-por-jesus/' title='Como demonstrado exemplarmente por Jesus'>Como demonstrado exemplarmente por Jesus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-detalhes/' title='De todos os detalhes'>De todos os detalhes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-distincao-mais-antiga/' title='A distinção mais antiga'>A distinção mais antiga</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-homem-em-pe-no-centro/' title='O homem em pé no centro'>O homem em pé no centro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-levantei-me-do-lugar/' title='Quando levantei-me do lugar'>Quando levantei-me do lugar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/ele-tinha-o-mundo-natural-aos-seus-pes/' title='Ele tinha o mundo natural aos seus pés'>Ele tinha o mundo natural aos seus pés</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-ou-tres-personagens-nao-bastam/' title='Dois ou três personagens não bastam'>Dois ou três personagens não bastam</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-proibicao-extrai-seu-poder/' title='A proibição extrai seu poder'>A proibição extrai seu poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-caracterizar-uma-tragedia/' title='Para caracterizar uma tragédia'>Para caracterizar uma tragédia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/pisei-no-andar-terreo/' title='Pisei no andar térreo'>Pisei no andar térreo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/voce-pode-comer/' title='Você pode comer'>Você pode comer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/um-professor-errante-depara-se-com-um-homem-cego/' title='Um professor errante depara-se com um homem cego'>Um professor errante depara-se com um homem cego</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nenhum-outro-elemento-da-trama/' title='Nenhum outro elemento da trama'>Nenhum outro elemento da trama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/toda-historia-sobre-transgressao/' title='Toda história sobre transgressão'>Toda história sobre transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-sonhos-de-que-me-recordo/' title='De todos os sonhos de que me recordo'>De todos os sonhos de que me recordo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-devemos-deixar/' title='Não devemos deixar'>Não devemos deixar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-chave-obviamente/' title='A chave, obviamente'>A chave, obviamente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-curioso-notar/' title='É curioso notar'>É curioso notar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/' title='Para começar'>Para começar</a></li><li>Neste ponto</li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Altercação</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jul 2008 09:02:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sonhos]]></category>

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		<description><![CDATA[Como parte da pesquisa para sua tese de mestrado, o Carlos havia de alguma forma conseguido criar, do nada, um ser humano totalmente perverso: inteligente e empreendedor mas desprovido de qualquer virtude.  Esse homem de maldade pura havia escapado e estava agora à solta pela cidade, procurando uma forma de destruir o Carlos e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como parte da pesquisa para sua tese de mestrado, o Carlos havia de alguma forma conseguido criar, do nada, um ser humano totalmente perverso: inteligente e empreendedor mas desprovido de qualquer virtude.  Esse homem de maldade pura havia escapado e estava agora à solta pela cidade, procurando uma forma de destruir o Carlos e a pesquisa dele.</p>
<p>Era de noite e eu caminhava pelos pátios internos de alguma universidade, do lado de fora de ginásios e refeitórios iluminados, esperando. O Carlos apareceu e disse que a hora havia chegado e a mesa examinadora estava pronta para examinar a evidência do caso, que ele havia por segurança apagado da própria memória mas havia me dado para guardar. Tirei do bolso da camisa e entreguei para ele um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/USB_Flashdisk">pen drive</a> e um maço de pequenos pedaços retangulares de folhas de caderno, com anotações a lápis e à caneta. Ele explicou que a teoria toda lhe voltava à lembrança enquanto lia as anotações, e correu para o auditório.</p>
<p>Fiquei ali fora no pátio; sem aviso e pulando agilmente de alguma quina de telhado, pôs-se de pé na minha frente o homem perverso, para me atacar. Antes que ele pudesse me pegar, no entanto, chegou por outro lado um homem idêntico a este mas de caráter inverso; o Carlos havia, sem que eu soubesse, criado um homem integralmente bom a fim de anular as perversidades do primeiro.</p>
<p>O homem bom avançou na direção do mau, na intenção de me proteger, e parou a dois passos dele. </p>
<p>&#8211; Este é um mundo mau &#8211; disse o homem mau, andando devagar ao redor do outro e estudando-o com falsa boa vontade nos olhos. &#8211; Muita maldade e poucos abraços.</p>
<p>E deu enquanto falava um passo na direção do homem bom, como se fosse passar o braço ao redor do seu ombro, mas atirou-se em vez disso no pescoço dele, com a intenção de estrangulá-lo. Logo estavam os dois altercando-se no chão, rolando de um lado para o outro, e como eram idênticos eu não podia distinguir quem estava levando vantagem.</p>
<p>A luta durou o que pode ter sido uma hora ou poucos segundos; depois desse intervalo entendi que o homem bom havia vencido, mas continuava a golpear sem clemência o corpo inerte do perverso que havia matado. O vencedor segurou o cadáver por um dos braços e passou a atirá-lo de um lado para o outro, fazendo-o bater com força contra o piso de cimento, até que todas as juntas se romperam: a cabeça, as mãos, os braços, os pés e as pernas desconectaram-se do conjunto, mantendo-se ligados uns aos outros e ao tronco por ligamentos vermelhos que pareciam molas. Mas homem bom, tomado de uma raiva que nada podia aplacar, continuava golpeando o corpo desconjuntado contra o piso.</p>
<p align="right"><small>Na noite do dia 22 para o dia 23</small></p>
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		<title>Teatro Grotesco</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Jul 2008 09:24:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nec ulla satietas talium fabularum,
cum portentosa quædam, de spectris,
de lemuribus, de larvis, de inferis, de id genus
millibus miraculorum commemorantur.
&#160;
Maior aqui.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="font-size: 15px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Nec ulla satietas talium fabularum,<br />
cum portentosa quædam, de spectris,<br />
de lemuribus, de larvis, de inferis, de id genus<br />
millibus miraculorum commemorantur.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Maior <a href="http://www.flickr.com/photos/paulobrabo/tags/teatrogrotesco/show">aqui</a>.</p>
<p><iframe align="center" src="http://www.flickr.com/slideShow/index.gne?group_id=&#038;user_id=62853209@N00&#038;set_id=&#038;tags=teatrogrotesco" frameBorder="0" width="500" height="500" scrolling="no"></iframe></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>As 48 Leis do Poder</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2008/as-48-leis-do-poder/</link>
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		<pubDate>Mon, 21 Jul 2008 09:27:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Segundo Robert Greene and Joost Elffers
Lei Nº 1
Nunca brilhe mais do que o mestre
Faça com os que estão acima de você sintam-se sempre confortavelmente superiores. Eu seu desejo de agradá-los ou impressioná-los, não vá longe demais na exibição dos seus talentos, ou poderá conseguir o contrário: inspirar medo e insegurança. Faça seus mestres parecerem mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>Segundo Robert Greene and Joost Elffers</small></p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 1</span><br />
<strong>Nunca brilhe mais do que o mestre</strong></p>
<p>Faça com os que estão acima de você sintam-se sempre confortavelmente superiores. Eu seu desejo de agradá-los ou impressioná-los, não vá longe demais na exibição dos seus talentos, ou poderá conseguir o contrário: inspirar medo e insegurança. Faça seus mestres parecerem mais brilhantes do que são e você atingirá os píncaros do poder.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 2</span><br />
<strong>Nunca coloque muita confiança nos amigos, aprenda a usar os inimigos</strong></p>
<p>Seja cauteloso com os amigos &#8211; eles irão traí-lo com facilidade, por serem estimulados à inveja, e tornam-se também mimados e autoritários. Contrate um antigo inimigo e ele se mostrará mais leal do que um amigo, porque tem mais a provar. Na verdade você tem mais a temer dos amigos do que dos inimigos. Se não tem inimigos, encontre um jeito de obtê-los.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 3</span><br />
<strong>Oculte suas intenções</strong></p>
<p>Mantenha os outros no escuro e em desvantagem, jamais revelando o propósito por trás das suas ações. Se as pessoas não souberem o que você pretende fazer, não terão como preparar uma defesa. Guie-os longe o bastante por um caminho falso, envolva-os numa cortina de fumaça, e quando perceberem suas verdadeiras intenções será tarde demais.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 4</span><br />
<strong>Sempre diga menos do que o necessário</strong></p>
<p>Quando tenta impressionar as pessoas com palavras, quanto mais você diz, mais trivial você se parece e menos no controle você está. Mesmo quando for dizer algo banal, ficará parecendo original se você o fizer de forma vaga, indefinida, indecifrável. Gente poderosa impressiona e intimida dizendo menos. Quanto mais você fala, mais provável se torna que acabe dizendo algo de que pode se arrepender.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 5</span><br />
<strong>Praticamente tudo depende da reputação: guarde-a com a vida</strong></p>
<p>A reputação é a pedra angular do poder. Usando reputação apenas, você consegue intimidar e vencer. Porém basta um deslize para que você se torne vulnerável e possa ser atacado por todos os lados. Mantenha sua reputação inexpugnável. Fique continuamente alerta contra ataques potenciais e elimine as ameaças antes que se tornem realidade. Ao mesmo tempo, aprenda a destruir os seus inimigos abrindo brechas nas reputações deles. Depois fique de lado e deixe que sejam queimados pela opinião pública.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 6</span><br />
<strong>Busque atenção a qualquer custo</strong></p>
<p>Todas as coisas são julgadas pela aparência; o que não é visto simplesmente não conta. Portanto jamais se permita deixar perder na multidão ou cair no esquecimento. Destaque-se. Seja visível a qualquer custo. Torne-se um ímã de atenção parecendo maior, mais exuberante e mais misterioso do que as massas insípidas e tímidas.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 7</span><br />
<strong>Faça com que os outros trabalhem por você, mas fique sempre com o crédito</strong></p>
<p>Use a sabedoria, o conhecimento e o trabalho de campo de outras pessoas para fazer avançar a sua causa. Essa assistência não fará apenas com que você economize valiosos tempo e energia, mas conferirá a você uma aura sobrenatural de eficiência e agilidade. No final seus assistentes serão esquecidos e você será lembrado. Nunca faça você mesmo o que outros podem fazer por você.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 8</span><br />
<strong>Faça os outros virem até você &#8211; se necessário use uma isca</strong></p>
<p>Quando força a outra pessoa à iniciativa, é você quem fica no controle. É sempre melhor fazer com que seu oponente venha até você, abandonando no processo os seus próprios planos. Seduza-os com ganhos fabulosos e em seguida ataque. Você é quem dará as cartas.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 9</span><br />
<strong>Vença através de ações, nunca de argumentos</strong></p>
<p>Qualquer triunfo que você obtém através de argumentação é na verdade temporário e ilusório. O ressentimento e a má vontade que você inspirou se mostrarão mais fortes e duradouros do que qualquer mudança momentânea de opinião. É coisa muito mais poderosa fazer com que os outros concordem com você pelas suas ações, sem proferir uma palavra. Demonstre, não explique.</p>
<p><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Lei Nº 10</span><br />
<strong>Infecção: evite os infelizes e os sem sorte</strong></p>
<p>É possível morrer da miséria alheia: estados emocionais são como uma doença infecciosa. Você pode achar que está ajudando a outra pessoa a não afundar, mas está apenas precipitando a sua própria ruína. O infeliz por vezes atrai o infortúnio sobre si mesmo, e irá atraí-lo também sobre você. Associe-se, em vez disso, a gente feliz e afortunada.</p>
<p align="right"><small><strong>continua&#8230;</strong></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/38-maneiras">38 maneiras de se vencer uma argumentação</a>, segundo Schopenhauer</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Dois minutos de Desejo e Reparação</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-minutos-de-desejo-e-reparacao/</link>
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		<pubDate>Sat, 19 Jul 2008 17:24:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Filmes]]></category>

		<category><![CDATA[videos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.
A beleza é comum em Atonement, filme de Joe Wright.
[Veja o artigo original para assistir o vídeo]
Se a imagem aparece incompleta, tente aqui.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>A <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-evangelho-de-borges">beleza é comum</a> em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Atonement">Atonement</a>, filme de Joe Wright.</p>
[Veja o artigo original para assistir o vídeo]
<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Se a imagem aparece incompleta, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-minutos-de-desejo-e-reparacao">tente aqui</a>.</small></span></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Para começar</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Jul 2008 11:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

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		<description><![CDATA[27
Para começar eu estava entre amigos, no que era evidentemente um retiro ou um acampamento. O Protagonista não precisava de nada, até que entrou em cena o Conflito. E a ênfase neste meu caso, como em todos, é não precisava de nada.
Carrego na minha mitologia pessoal um bom número de emblemas de bem-aventurança, mas nenhum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>27</p>
<p>Para começar eu estava entre amigos, no que era evidentemente um retiro ou um acampamento. O Protagonista não precisava de nada, até que entrou em cena o Conflito. E a ênfase neste meu caso, como em todos, é <em>não precisava de nada</em>.</p>
<p>Carrego na minha mitologia pessoal um bom número de emblemas de bem-aventurança, mas nenhum maior do que a experiência da vida comunitária nos retiros (especialmente os de Carnaval, que duravam bons quatro dias) com o pessoal da minha igreja. Faz mais ou menos dez anos que não participo de igreja alguma, mas a lembrança daqueles dias habita meu coração com o caráter imediato e rigoroso da realidade e ainda define, para mim e diante de mim mesmo, o que é realmente <em>estar feliz</em>: o que é estar no Paraíso e não precisar de nada.</p>
<p>Eram retiros incomuns, os da minha igreja, porque arrebanhavam gente de todas as idades e não apenas categorias arbitrárias como jovens ou adolescentes. A idéia de ver convivendo juntas pessoas que traziam tantos temperamentos, histórias e pontos de vista diversos me atraía (e ainda, sem qualquer alteração, atrai) ao ponto da vertigem. Enquanto alguns reclamavam com alguma sinceridade das acomodações, da comida, da fila para o banho e da escala para lavar a louça, para mim era tudo precisamente como deveria ser: o mero júbilo, a simples vibração de estar <em>entre pessoas</em>, redimia o mais reles transtorno em símbolo de glória.</p>
<p>Devo denunciar, para tornar as coisas mais claras, que na curva primordial entre a infância e a juventude fui um sujeito muito tímido e introvertido. Minha vida interior era tão ativa e povoada quanto é hoje, mas eu não a compartilhava, em qualquer sentido e por nenhum meio, com ninguém.</p>
<p>Até os vinte e tantos anos eu não via no horizonte nada que pudesse mudar esse cenário, e &#8211; talvez mais importante &#8211; estava inteiramente convicto que nenhuma mudança era necessária. Para mim (como mais tarde descobri ter sido para Borges) a timidez era coisa muito importante, quase uma virtude a ser cultivada, pelo que a lembrança de glória que trago daqueles encontros é a sensação de estar com pessoas, não a de interagir com elas.</p>
<p>Minha introversão, na verdade, alçava-me a um ponto de vista que contribuía para consolidar minha sensação de bem-aventurança. Como o Quasímodo na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/basta-um-dia">versão Disney</a> do Corcunda de Notre-Dame, observar meus amigos à distância me ajudava a distinguir com clareza o que eles mesmos não podiam ver: o tremendo, quase cegante, privilégio que era <em>ser eles</em>.</p>
<p>Eu estava entre pessoas e as amava. Para mim nada mais era necessário.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Nasce um homem</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-1/' title='Era uma vez'>Era uma vez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-2/' title='Adão era'>Adão era</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-3/' title='A teoria literária'>A teoria literária</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nasce-um-homem-4/' title='Para mim'>Para mim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/se-havia-improvavel-graca/' title='Se havia improvável graça'>Se havia improvável graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-conflito-que-anima-uma-historia/' title='O conflito que anima uma história'>O conflito que anima uma história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-primeira-blasfemia/' title='A primeira blasfêmia'>A primeira blasfêmia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eu-sentia-ser-minha-obrigacao/' title='Eu sentia ser minha obrigação'>Eu sentia ser minha obrigação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-demonstrado-exemplarmente-por-jesus/' title='Como demonstrado exemplarmente por Jesus'>Como demonstrado exemplarmente por Jesus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-detalhes/' title='De todos os detalhes'>De todos os detalhes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-distincao-mais-antiga/' title='A distinção mais antiga'>A distinção mais antiga</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-homem-em-pe-no-centro/' title='O homem em pé no centro'>O homem em pé no centro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-levantei-me-do-lugar/' title='Quando levantei-me do lugar'>Quando levantei-me do lugar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/ele-tinha-o-mundo-natural-aos-seus-pes/' title='Ele tinha o mundo natural aos seus pés'>Ele tinha o mundo natural aos seus pés</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-ou-tres-personagens-nao-bastam/' title='Dois ou três personagens não bastam'>Dois ou três personagens não bastam</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-proibicao-extrai-seu-poder/' title='A proibição extrai seu poder'>A proibição extrai seu poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-caracterizar-uma-tragedia/' title='Para caracterizar uma tragédia'>Para caracterizar uma tragédia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/pisei-no-andar-terreo/' title='Pisei no andar térreo'>Pisei no andar térreo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/voce-pode-comer/' title='Você pode comer'>Você pode comer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/um-professor-errante-depara-se-com-um-homem-cego/' title='Um professor errante depara-se com um homem cego'>Um professor errante depara-se com um homem cego</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nenhum-outro-elemento-da-trama/' title='Nenhum outro elemento da trama'>Nenhum outro elemento da trama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/toda-historia-sobre-transgressao/' title='Toda história sobre transgressão'>Toda história sobre transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-sonhos-de-que-me-recordo/' title='De todos os sonhos de que me recordo'>De todos os sonhos de que me recordo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-devemos-deixar/' title='Não devemos deixar'>Não devemos deixar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-chave-obviamente/' title='A chave, obviamente'>A chave, obviamente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-curioso-notar/' title='É curioso notar'>É curioso notar</a></li><li>Para começar</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/neste-ponto/' title='Neste ponto'>Neste ponto</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Minotauro jogador</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 11:27:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ilustração]]></category>

		<category><![CDATA[painter]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/minotauro-jogador-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/minotauro-jogador.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
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		<title>A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jul 2008 03:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>

		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[A misericórdia triunfa sobre o juízo.
Tiago 2:13
No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>A misericórdia triunfa sobre o juízo.</small><br />
<span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Tiago 2:13</span></p>
<p>No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em comportamentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem &#8220;segundo as suas espécies&#8221;, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.</p>
<p>A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.</p>
<p>Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por &#8220;ordens da criação&#8221;, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.</p>
<p>Não mexa no meu queijo.</p>
<p><strong>Contra as mulheres, pela procriação</strong></p>
<p>É o argumento das &#8220;ordens da criação&#8221; que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que &#8220;diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação&#8221;.</p>
<p>Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.</p>
<p>O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: &#8220;A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação&#8221;. &#8220;A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação&#8221;. &#8220;A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. &#8220;O casamento e o estado pertencem às ordens da criação&#8221;. &#8220;Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia&#8221;. &#8220;Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda&#8221;. &#8220;A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação&#8221;. &#8220;A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação&#8221;. &#8220;Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em  que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa&#8221;. </p>
<p>Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.</p>
<p>A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação. </p>
<p>Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher">suas fraquezas</a>) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral">nos nossos dias</a>.</p>
<p>E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus &#8220;escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.</p>
<p>&#8220;Quem está pedindo o voto para as mulheres?&#8221; quis saber Justin Fulton em 1869. &#8220;Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína&#8221;.</p>
<p><strong>Contra os negros, pela escravidão</strong></p>
<p>Aplacados pela lógica da &#8220;ordem da criação&#8221;, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.</p>
<p>A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser &#8220;servo dos servos de seus irmãos&#8221;<sup>1</sup>.</p>
<p>Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. &#8220;A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso&#8221;, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. &#8220;Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes&#8221;.</p>
<p>Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável &#8211; verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: &#8220;O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]&#8220;.</p>
<p><strong>Pela pátria, contra as outras nações</strong></p>
<p>Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo &#8211; nazismo &#8211; e seus excessos.</p>
<p>Para os teólogos do popularíssimo movimento &#8220;Cristãos Germânicos&#8221; o <em>Volk</em>, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.</p>
<p>&#8220;Cada desvio da ordem divina&#8221;, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), &#8220;ocasiona decadência e caos&#8221;, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é &#8220;um meio de revelação de Deus&#8221;. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão. </p>
<p>A liberdade de opinião que exigiam os membros da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Confessante">Igreja Confessante</a>, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era &#8220;a satânica liberdade dos pecadores&#8221;, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois &#8220;a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações&#8221;<sup>2</sup>.</p>
<p>Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo<sup>3</sup>. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.</p>
<p><strong>Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça</strong></p>
<p>Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da &#8220;ordem da criação&#8221; tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.</p>
<p>Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres">Jesus é amigo das mulheres</a> há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.</p>
<p>O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.</p>
<p>Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.</p>
<p>Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. &#8220;Qualquer ordem&#8221;, enfatiza ele, &#8220;pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação&#8221;.</p>
<p>Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo">Como os profetas</a> antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus &#8211; e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.</p>
<p>Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.</p>
<p>No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, <em>contra mundum</em>, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.</p>
<p>Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (&#8221;meu pai ainda está trabalhando&#8221;), mas porque &#8211; e eis a grande e desconcertante revelação &#8211; &#8220;a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação&#8221;.</p>
<p>O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.</p>
<p><strong>Contra os gays, contra o planeta</strong></p>
<p>Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.</p>
<p>São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.</p>
<p>O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que &#8220;no princípio não era assim&#8221;, o que teria dito do casamento entre homossexuais?</p>
<p>Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.</p>
<p>Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: &#8220;a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma &#8216;fruticai-vos e multiplicai&#8217;&#8221;. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.</p>
<p>Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?</p>
<p>Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.</p>
<p><strong>Contra o medo</strong></p>
<p>Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.</p>
<p>A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família &#8211; e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo. </p>
<p>Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.</p>
<p>E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.</p>
<p>A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que &#8220;faz novas todas as coisas&#8221;. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como &#8220;novas criaturas&#8221;, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação &#8211; porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, &#8220;meu Pai continua trabalhando&#8221;.</p>
<p>Como propõe Edward H. Schroeder em sua <a href="http://pdfmenot.com/view/http://www.crossings.org/archive/ed/TheOrdersofCreation.pdf">análise sobre a questão da ordenação feminina</a>: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?</p>
<p>&#8220;A consequência clara do evangelho,&#8221; observa Schroeder, &#8220;é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com &#8216;o céu e a terra&#8217;&#8221;.  A igreja não deve temer essa impermanência, porque &#8220;a própria igreja veio à existência através de um ato de violação&#8221;. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo &#8211; uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.</p>
<p>&#8220;A preocupação da igreja&#8221;, conclui Schroeder, &#8220;deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo&#8221;.</p>
<p>Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.</p>
<p>Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus &#8211; Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.</p>
<p>A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que &#8220;no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês&#8221;. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.</p>
<p>Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher. </p>
<p>Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.</p>
<p>Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu <a href="http://www.flickr.com/search/?q=hummer+truck&#038;m=tags&#038;z=t&#038;ss=2&#038;s=int">Hummer</a>, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.</p>
<p>Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1600" class="footnote">Gênesis 9:22-25</li><li id="footnote_1_1600" class="footnote">De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">imprecar contra os judeus</a> e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois</li><li id="footnote_2_1600" class="footnote">Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Destino_Manifesto">Destino Manifesto</a></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A punição dos anjos caídos</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jul 2008 09:56:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[lendas dos judeus]]></category>

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NOÉ: A punição dos anjos caídos
Quando atingiu a maturidade Noé seguiu os passos de seu avô Matusalém, enquanto todos os outros homens voltaram-se contra esse piedoso rei. Longe de obedecerem os seus preceitos, perseguiram a inclinação maligna de seus corações e perpetraram toda sorte de feitos abomináveis.
Em grande parte foram os anjos caídos e sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/antaeus-dore-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/antaeus-dore.png" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>NOÉ: </strong>A punição dos anjos caídos</small></p>
<p>Quando atingiu a maturidade Noé seguiu os passos de seu avô Matusalém, enquanto todos os outros homens voltaram-se contra esse piedoso rei. Longe de obedecerem os seus preceitos, perseguiram a inclinação maligna de seus corações e perpetraram toda sorte de feitos abomináveis.</p>
<p>Em grande parte foram os anjos caídos e sua posteridade de gigantes que ocasionaram a depravação da humanidade. O sangue derramado pelos gigantes clamava da terra até o céu, e os quatro arcanjos acusaram os anjos caídos e seus filhos diante de Deus, pelo que ele deu-lhes uma série de ordens. Uriel foi enviado a Noé para anunciar que a terra seria destruída por um dilúvio, e ensiná-lo como salvar sua própria vida. A Rafael foi dito que acorrentasse o anjo caído Azazel, arremessasse-o num poço com pedras pontiagudas e perfurantes no deserto de Dudael, e cobrisse-o de trevas, para que assim permanecesse até o grande dia do julgamento, quando seria jogado num poço ardente do inferno, e a terra seria curada da corrupção que ele havia intentado contra ela. Gabriel foi encarregado de agir contra os ilegítimos e réprobos, os filhos que os anjos haviam gerado com as filhas dos homens, precipitando-os em conflitos mortais uns contra os outros. A descendência de Shemhazai foi colocada nas mãos de Miguel, que levou-os em primeiro lugar a testemunharem a morte de seus filhos em combate sangrento uns contra os outros, e em seguida amarrou-os e fixou-os debaixo das montanhas da terra. onde permanecerão por setenta gerações, até o dia do julgamento, quando serão carregados dali ao poço ardente do inferno.</p>
<p>A queda de Azazel e de Shemhazai aconteceu da seguinte forma: quando a geração do dilúvio começou a praticar idolatria Deus ficou profundamente entristecido. Os dois anjos, Shemhazai e Azazel, então levantaram-se e disseram:</p>
<p>&#8211; Ó, Senhor do mundo! Aconteceu o que foi previsto por ocasião da criação do mundo e do homem: &#8220;Que é o homem, para que te lembres dele?&#8221;</p>
<p>E Deus disse:</p>
<p>&#8211; E o que será do mundo sem o homem?</p>
<p>Responderam os anjos:</p>
<p>&#8211; Ocuparemo-nos nós dele.</p>
<p>E Deus disse:</p>
<p>&#8211; Sei muito bem disso, e sei que se habitassem sobre a terra a inclinação maligna tomaria conta de vocês, e vocês seriam mais perversos ainda do que os homens.</p>
<p>Os anjos suplicaram:</p>
<p>&#8211; Dê-nos permissão de habitar entre os homens, e o senhor verá que honraremos o seu nome.</p>
<p>Deus concedeu o seu pedido, dizendo:</p>
<p>&#8211; Desçam e habitem entre os homens.</p>
<p>Quando chegaram à terra e contemplaram a beleza e a graça das filhas dos homens os anjos não conseguiram conter sua paixão. Shemhazai viu uma moça chamada Istehar e perdeu por ela o coração. Ela prometeu que se entregaria a ele depois que ele lhe ensinasse o <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-nome-de-deus-em-maos-erradas">Nome Inefável</a>, por meio do qual ele se alçava até o céu. Ele concordou. Porém assim que tomou conhecimento do Nome ela o pronunciou, e ascendeu ao céu ela mesma ao céu, sem cumprir sua promessa ao anjo. E Deus disse:</p>
<p>&#8211; Por ter-se mantida longe do pecado, darei a ela um lugar entre as sete estrelas, para que os homens nunca a esqueçam.</p>
<p>E ela foi colocada na constelação das Plêiades.</p>
<p>Shemhazai e Azazel, no entanto, não abandonaram a idéia de entrar em alianças com as filhas do homem, e o primeiro teve dois filhos. Azazel começou a projetar os adereços e os ornamentos através dos quais as mulheres seduzem os homens. Diante disso Deus mandou Metraton dizer a Shemhazai que tinha resolvido destruir o mundo e provocar um dilúvio. O anjo caído começou então a chorar o destino do mundo e de seus dois filhos. Se o mundo viesse abaixo o que eles iriam comer, eles que careciam diariamente de mil camelos, mil cavalos e mil novilhos?</p>
<p>Os dois filhos de Shemhazai, chamados Hiwwa e Hiyya, tiveram sonhos. Um deles viu uma grande pedra coberta de terra, e a terra estava toda marcada com linha após linha de escrita. Um anjo então veio, e com sua faca obliterou todas as linhas, deixando sobre a terra apenas quatro letras. O outro filho viu uma alameda aprazível plantada com toda sorte de árvores. Mas os anjos vieram trazendo machados e derrubaram as árvores, deixando uma única árvore com três de seus galhos.</p>
<p>Quando acordaram, Hiwwa e Hiyya foram até seu pai, que interpretou-lhes os sonhos:</p>
<p>&#8211; Deus trará um dilúvio, e ninguém escapará com vida a não ser Noé e seus filhos.</p>
<p>Quando ouviram isso os dois começaram a gritar e chorar, mas seu pai confortou-os:</p>
<p>&#8211; Calma, calma, não se aflijam. Todas as vezes que os homens cortarem ou erguerem pedras, ou lançarem embarcações, os nomes de vocês será invocados: Hiwwa! Hiyya!</p>
<p>Esta profecia os aplacou.</p>
<p>Shemhazai então fez penitência. Posicionou-se suspenso entre o céu e a terra, e nesta posição de pecador penitente ele paira até hoje. Azazel, no entanto, persistiu obstinadamente em seu pecado de desencaminhar a humanidade através de atrativos sensuais. Por essa razão dois bodes eram sacrificados no Templo no Dia do Perdão, um por Deus, para que perdoasse os pecados de Israel, o outro por Azazel<sup>1</sup>, para que levasse os pecados de Israel.</p>
<p>Ao contrário de Istehar, a donzela piedosa, Naamah, a atraente irmã de Tubal-Caim, desencaminhou os anjos com sua beleza, e da sua união com Shamdon nasceu o demônio Asmodeu. Ela era despudorada como todos os descendentes de Caim, e como eles propensa a indulgências bestiais.</p>
<p>As mulheres e os homens cainitas tinham o costume de andarem nus em todo lugar, entregando-se a todo tipo concebível de prática libidinosa. Tais foram as mulheres cuja beleza e charme sensual tentaram os anjos para longe do caminho da virtude. Os anjos, por outro lado, mal haviam-se rebelado contra Deus e descido à terra quando perderam suas qualidades transcendentais, sendo investidos de corpos sublunares, de modo que a união com as filhas dos homens tornou-se possível.</p>
<p>O fruto dessas alianças entre os anjos e as mulheres cainitas foram os gigantes, conhecidos por sua força e pecaminosidade; como indica o próprio nome que receberam, Emim<em>/aterrorizantes</em>, os gigantes inspiravam temor. Tiveram além desse muitos outros nomes. Às vezes eram chamados Refaim<em>/fantasmas</em>, porque bastava olhar para eles para enfraquecer o coração; ou eram chamados simplesmente de Gibborim<em>/gigantes</em>, porque eram tão enormes que suas coxas mediam dezoito <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vara">varas</a>; ou pelo nome Zamzummin, porque eram grandes mestres da guerra; ou pelo nome Anakim<em>/pescoçudos</em>, porque tocavam o sol com seus pescoços; ou pelo nome Ivim, porque, como a serpente, sabiam julgar as qualidades do solo; ou, finalmente, pelo nome Nefilim<em>/caídos</em>, porque, ao ocasionarem a queda do mundo, eles mesmos caíram.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><em>Lendas dos Judeus</em> é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do <em>midrash</em> (particularmente o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud">Talmude</a>) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). <em>Lendas</em> foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.</small></p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Lendas dos judeus</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/as-primeiras-coisas-criadas/' title='As primeiras coisas criadas'>As primeiras coisas criadas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-alfabeto/' title='O alfabeto'>O alfabeto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-primeiro-dia/' title='O primeiro dia'>O primeiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-segundo-dia/' title='O segundo dia'>O segundo dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-terceiro-dia/' title='O terceiro dia'>O terceiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quarto-dia/' title='O quarto dia'>O quarto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/' title='O quinto dia'>O quinto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia/' title='O sexto dia'>O sexto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia-continuacao/' title='O sexto dia, continuação'>O sexto dia, continuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/todas-as-coisas-louvam-ao-senhor/' title='Todas as coisas louvam ao Senhor'>Todas as coisas louvam ao Senhor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-homem-e-o-mundo/' title='O homem e o mundo'>O homem e o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/os-anjos-e-a-criacao-do-homem/' title='Os anjos e a criação do homem'>Os anjos e a criação do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-criacao-de-adao/' title='A criação de Adão'>A criação de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-alma-do-homem/' title='A alma do homem'>A alma do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-homem-ideal/' title='O homem ideal'>O homem ideal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-de-satanas/' title='A queda de Satanás'>A queda de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher/' title='A mulher'>A mulher</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/adao-e-eva-no-paraiso/' title='Adão e Eva no Paraíso'>Adão e Eva no Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-do-homem/' title='A queda do homem'>A queda do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-punicao/' title='A punição'>A punição</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-sabado-no-ceu/' title='O sábado no céu'>O sábado no céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-arrependimento-de-adao/' title='O arrependimento de Adão'>O arrependimento de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-livro-de-raziel/' title='O livro de Raziel'>O livro de Raziel</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-doenca-de-adao/' title='A doença de Adão'>A doença de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/eva-narra-a-historia-da-queda/' title='Eva narra a história da queda'>Eva narra a história da queda</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-morte-de-adao/' title='A morte de Adão'>A morte de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-morte-de-eva/' title='A morte de Eva'>A morte de Eva</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-nascimento-de-caim/' title='O nascimento de Caim'>O nascimento de Caim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/fratricidio/' title='Fratricídio'>Fratricídio</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-punicao-de-caim/' title='A punição de Caim'>A punição de Caim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-habitantes-das-sete-terras/' title='Os habitantes das sete terras'>Os habitantes das sete terras</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-descendentes-de-caim/' title='Os descendentes de Caim'>Os descendentes de Caim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-descendentes-de-adao-e-lilith/' title='Os descendentes de Adão e Lilith'>Os descendentes de Adão e Lilith</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/sete-e-seus-descendentes/' title='Sete e seus descendentes'>Sete e seus descendentes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/enos/' title='Enos'>Enos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-queda-dos-anjos/' title='A queda dos anjos'>A queda dos anjos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/enoque-governante-e-mestre/' title='Enoque, governante e mestre'>Enoque, governante e mestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-ascensao-de-enoque/' title='A ascensão de Enoque'>A ascensão de Enoque</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-traslado-de-enoque/' title='O traslado de Enoque'>O traslado de Enoque</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/matusalem/' title='Matusalém'>Matusalém</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-nascimento-de-noe/' title='O nascimento de Noé'>O nascimento de Noé</a></li><li>A punição dos anjos caídos</li></ol></div> <b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1560" class="footnote">Levítico 16:8-10</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>É curioso notar</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Jul 2008 11:43:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

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		<description><![CDATA[26
É curioso notar que o homem que não teve infância, ao mesmo tempo forte e viril como um adulto e nu e vulnerável como um recém-nascido, é um referente adequado da nossa condição mesmo antes de dar o primeiro passo inequívoco em direção ao seu conflito.
Na contradição do homem que nasceu maduro tornamo-nos capazes de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>26</p>
<p>É curioso notar que o homem que não teve infância, ao mesmo tempo forte e viril como um adulto e nu e vulnerável como um recém-nascido, é um referente adequado da nossa condição mesmo antes de dar o primeiro passo inequívoco em direção ao seu conflito.</p>
<p>Na contradição do homem que nasceu maduro tornamo-nos capazes de enxergar o papel da infância na nossa própria história; podemos intuir, se ainda não o fizemos, que a criança que fomos moldou em grande parte a pessoa que somos. Diante dos nossos próprios conflitos agimos segundo a instrução ou a criatividade dessa criança primordial, e o primeiro homem carece dessa referência.</p>
<p>Deve ficar claro que a geração fora do tempo de Adão e seu fracasso em gerenciar a abundância estão intimamente ligados; ambos são, ainda, emblemas de aspectos fundamentais da nossa própria condição. Neste sentido, a narrativa explica que descendemos todos de alguém que nunca chegou a se resolver emocionalmente.</p>
<p>Nós mesmos lutamos incessantemente para nos ajustarmos à circunstância que representou para o primeiro homem um problema. Para todos a idade adulta &#8211; o rótulo de adulto &#8211; chega antes que nos sintamos inteiramente preparados para ele. Sem a reconciliação da infância permanecerá para sempre presente impensável e ameaça desconcertante.</p>
<p>Essa lição da figura de Adão será de todas a mais evidente: quem não é criança jamais chegará à maturidade. Não é de admirar que Jesus dirá que para entrar no Reino é preciso ser como criança; o primeiro homem teve de demonstrar que ser homem não basta.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Nasce um homem</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-1/' title='Era uma vez'>Era uma vez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-2/' title='Adão era'>Adão era</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-3/' title='A teoria literária'>A teoria literária</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nasce-um-homem-4/' title='Para mim'>Para mim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/se-havia-improvavel-graca/' title='Se havia improvável graça'>Se havia improvável graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-conflito-que-anima-uma-historia/' title='O conflito que anima uma história'>O conflito que anima uma história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-primeira-blasfemia/' title='A primeira blasfêmia'>A primeira blasfêmia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eu-sentia-ser-minha-obrigacao/' title='Eu sentia ser minha obrigação'>Eu sentia ser minha obrigação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-demonstrado-exemplarmente-por-jesus/' title='Como demonstrado exemplarmente por Jesus'>Como demonstrado exemplarmente por Jesus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-detalhes/' title='De todos os detalhes'>De todos os detalhes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-distincao-mais-antiga/' title='A distinção mais antiga'>A distinção mais antiga</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-homem-em-pe-no-centro/' title='O homem em pé no centro'>O homem em pé no centro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-levantei-me-do-lugar/' title='Quando levantei-me do lugar'>Quando levantei-me do lugar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/ele-tinha-o-mundo-natural-aos-seus-pes/' title='Ele tinha o mundo natural aos seus pés'>Ele tinha o mundo natural aos seus pés</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-ou-tres-personagens-nao-bastam/' title='Dois ou três personagens não bastam'>Dois ou três personagens não bastam</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-proibicao-extrai-seu-poder/' title='A proibição extrai seu poder'>A proibição extrai seu poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-caracterizar-uma-tragedia/' title='Para caracterizar uma tragédia'>Para caracterizar uma tragédia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/pisei-no-andar-terreo/' title='Pisei no andar térreo'>Pisei no andar térreo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/voce-pode-comer/' title='Você pode comer'>Você pode comer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/um-professor-errante-depara-se-com-um-homem-cego/' title='Um professor errante depara-se com um homem cego'>Um professor errante depara-se com um homem cego</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nenhum-outro-elemento-da-trama/' title='Nenhum outro elemento da trama'>Nenhum outro elemento da trama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/toda-historia-sobre-transgressao/' title='Toda história sobre transgressão'>Toda história sobre transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-sonhos-de-que-me-recordo/' title='De todos os sonhos de que me recordo'>De todos os sonhos de que me recordo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-devemos-deixar/' title='Não devemos deixar'>Não devemos deixar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-chave-obviamente/' title='A chave, obviamente'>A chave, obviamente</a></li><li>É curioso notar</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/' title='Para começar'>Para começar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/neste-ponto/' title='Neste ponto'>Neste ponto</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Keira Knightley</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jul 2008 11:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ilustração]]></category>

		<category><![CDATA[painter]]></category>

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		<description><![CDATA[
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.e-brabo.com/images/2008/keira-b.jpg"><img src="http://www.e-brabo.com/images/2008/keira.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
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		<title>A resposta incompleta</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jul 2008 11:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8211; Os autos da eternidade &#8211; ele explica, quando me coloco em pé ao lado dele. E, virando o rosto para olhar para mim: &#8211; Os livros que escreveram no Paraíso os que nos antecederam. 
&#8211; Extraordinário &#8211; anuncio o óbvio, erguendo o braço para massagear a nuca. Restamos minúsculos no que poderia ser a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Os autos da eternidade &#8211; ele explica, quando me coloco em pé ao lado dele. E, virando o rosto para olhar para mim: &#8211; Os livros que escreveram no Paraíso os que nos antecederam. </p>
<p>&#8211; Extraordinário &#8211; anuncio o óbvio, erguendo o braço para massagear a nuca. Restamos minúsculos no que poderia ser a nave brumosa de uma catedral numa gravura de Doré. Cada palmo das paredes, mesmo nos arcos mais elevados e inacessíveis, está inteiramente tomado de rolos e volumes.</p>
<p>&#8211; O que você está vendo é uma diminuta porção do todo &#8211; o homenzinho aponta para as quatro portas em leque que abrem para corredores. &#8211; A Biblioteca se estende por quilômetros em todas as direções.</p>
<p>Dou passos silenciosos na direção de uma das paredes e toco uma lombada verde com letras douradas.</p>
<p>&#8211; Que tipo de livros são esses?</p>
<p>&#8211; Todos.</p>
<p>Puxo o volume da prateleira e abro. A folha de rosto está escondida num idioma que não sei reconhecer; algo nórdico, a julgar pelos acentos. Talvez finlandês. </p>
<p>&#8211; A Biblioteca é a memória da Terra. É Yl, a árvore mística invertida, cujos ramos abrangem o universo. Aqui repousam as dez mil biografias de Krishna e as mil biografias do autor do Bhagavad Gita; aqui conversam entre si as quatro biografias do Filho do Homem, e discutem as biografias de todos os evangelistas com as biografias de seus biógrafos.</p>
<p>Devolvo o volume ao seu lugar e passo os dedos ao longo das lombadas daquela prateleira, como se esperasse produzir música.</p>
<p>&#8211; E por que está escondida?</p>
<p>Ele senta-se de pernas cruzadas no chão, deslizando a mão pela vara de caminhada.</p>
<p>&#8211; O notável é que não está escondida, meu amigo. A Biblioteca está aberta para qualquer um e nunca houve um período em que estivesse fechada. As entradas estão em diferentes pontos dos Cardeais Proibidos, isso é verdade; mas não há quem não saiba que não se trata de algo tão proibido assim.</p>
<p>Dou as costas para a parede.</p>
<p>&#8211; E onde estão os leitores?</p>
<p>Ele balança a cabeça.</p>
<p>&#8211; Em todo o lugar. A Biblioteca é grande demais para que seja coisa comum encontrar algum.</p>
<p>Falo sem impaciência.</p>
<p>&#8211; Por que Gandhi me trouxe aqui?</p>
<p>&#8211; Finalmente uma pergunta para a qual não sei a resposta completa.</p>
<p>&#8211; E vai me dar a incompleta?</p>
<p>Ele suspira, como se tivesse pena de prosseguir.</p>
<p>&#8211; Por causa de Awqdra Aksija.</p>
<p>Nunca ouvi o nome antes, pelo que não vejo motivo para descruzar os braços. Mas vem-me de súbito à lembrança a provocação De la Mettrie no celular, quando disse que eu estava literalmente em pé em cima das respostas que buscava. Fico pensando se ele não sabe da existência deste lugar, e fazia referência à biblioteca subterrânea.</p>
<p>&#8211; O livro grande de capa vermelha, duas prateleiras acima daquele que você acaba de devolver. </p>
<p>Encontro o livro e hesito antes de puxá-lo pelo ângulo da lombada.</p>
<p>&#8211; Está escrito em sânscrito &#8211; ele observa a tempo, mas retiro o volume da estante mesmo assim.</p>
<p>Sento-me no chão de costas para a parede, de frente para o meu interlocutor. Aperto o livro fechado e inútil contra a barriga da perna, como meu prêmio ou meu refém, as cantoneiras de metal tocando-me a sola dos pés.</p>
<p>&#8211; O título é <em>Oe eo</em>, a <em>Narrativa das Narrativas Circulares</em>; ou, para ser mais exato, a <em>Narrativa Circular das Narrativas</em>. Foi escrito por um filósofo indiano dois mil anos antes de Cristo. </p>
<p>&#8211; É uma história?</p>
<p>&#8211; <em>Oe eo</em> é uma história e muitas outras coisas; mas trata-se em termos gerais de uma reflexão sobre Awqdra Aksija.</p>
<p>&#8211; Qual é a tradução?</p>
<p>&#8211; Não é sânscrito; está numa língua morta há muitos milênios. O autor do <em>Oe eo</em> usa a tradução aproximada &#8220;O Estreitamento das Histórias&#8221;.</p>
<p>&#8211; E o que tem a ver comigo? Tem alguma relação com Sahid?</p>
<p>&#8211; Tem algo a ver com todo mundo. É na verdade um conceito muito simples. Imagine o começo de uma história, qualquer história que já tenha sido contada. Há no começo, digamos, um camponês ou um príncipe ou um pescador: tanto faz. Neste momento é tudo muito simples, e neste momento da narrativa tudo pode acontecer. A história, incrivelmente, pode tomar qualquer rumo, e é apenas neste momento que o protagonista é inteiramente livre. Mas o herói logo começa a dobrar-se às exigências da trama, pela qual ele mesmo faz escolhas e coisas alheias lhe sobrevêm: há um tesouro a ser encontrado, uma pessoa a ser resgatada, uma honra a ser restaurada. Então, a cada novo incidente da trama o herói é menos livre; fica cada vez mais definido qual é o seu drama e portanto o seu destino, até à inevitável paralisia. Este cerceamento das possibilidades, que o próprio protagonista é inteiramente incapaz de perceber, é Awqdra Aksija, o estreitamento da narrativa.</p>
<p>&#8211; Formidável, mas não vejo onde se aplica.</p>
<p>&#8211; Aplica-se a este rigoroso momento &#8211; ele assevera, deixando que as partículas de pó acima de nossas cabeças dancem um instante por si mesmas à luz de lâmpadas altíssimas, &#8211; e a cada momento. Não é só nas lendas, você deve ponderar, que os protagonistas são gradualmente esmagados pelas especificações dos acontecimentos. À medida em que nossa própria história avança, somos levados a crer que os incidentes da nossa tramam nos definem de forma inescapável. Cremos que estamos avançando história dentro rumo a uma resolução satisfatória, mas estamos na verdade caminhando rumo à estagnação e à paralisia. Nossa narrativa vai se estreitando até o estrangulamento final. Desabamos sobre o peso de nossas escolhas, que provam-se cadeias ao invés de liberdades. É, em suma, o que ocasiona a telopausa.</p>
<p>&#8211; Se é inevitável &#8211; pontuo &#8211; não vejo porque precisa ser discutido.</p>
<p>&#8211; Mas não é de forma alguma inevitável &#8211; ele sorri sem restrições, porque esta é sua grande revelação. &#8211; Há uma cura, que você certamente terá adivinhado qual é. A completa desintegração.</p>
<p>&#8211; A morte.</p>
<p>&#8211; A morte. Nos nossos dias terrenos, quando o Estreitamento estrangula nossa história ao ponto do sufocamento completo, Deus tem misericórdia de nós e nos mata. Eis porque no Paraíso, você vê, não há uma solução para o problema que não seja o recolhimento e a esterilidade. Onde ninguém pode morrer, nada pode haver que não seja estagnação. Nada de novo jamais será criado, para sempre. A bem-aventurança eterna é a forma mais paralisante de Awqdra Aksija. É no final feliz que estreitam-se todas as histórias.</p>
<p>&#8211; A não ser &#8211; completo &#8211; quando são redimidas pela morte.</p>
<p>&#8211; Sem a qual não há o novo nascimento &#8211; ele está sorrindo em beautitude plena.</p>
<p>&#8211; Devo acreditar que Gandhi está querendo me converter ao inferno?</p>
<p>&#8211; Não quero convertê-lo a coisa alguma. Devo apenas alertá-lo sobre o objeto da sua busca. Você crê que conhecer o conteúdo do bilhete que Sahid deixou para você irá ajudá-lo a fazer avançar a sua história. Você crê que esse conhecimento o deixará um homem mais livre e ajudará a definir quem realmente é; crê que ele o deixará de alguma forma mais perto da verdade. Se elucidei Awqdra Aksija foi para denunciar a completa ilusão dessas expectativas. São ilusões, meu amigo. Tudo que você vai conseguir perseguindo esse caminho é contribuir para o estreitamento da sua própria história. Estará rumando para a estagnação, não para a verdade.</p>
<p>&#8211; Esta &#8211; falo num sussurro, mas encontrei minha própria beautitude &#8211; é uma decisão que diz respeito apenas a mim. E é uma decisão que já fiz.</p>
<p>&#8211; Não, ainda não fez &#8211; ele cruza os braços e a vara de caminhada sobre as pernas cruzadas. &#8211; Ainda há tempo. O bilhete de Sahid está no exato centro do volume que você traz no seu colo.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>A cor do encarnado</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-ingresso-no-paraiso/' title='O ingresso no Paraíso'>O ingresso no Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-luto/' title='O luto'>O luto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/perfidia/' title='Perfidia'>Perfidia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/dodo/' title='Dodó'>Dodó</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/entropia/' title='Entropia'>Entropia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-esgotamento-dos-sentidos/' title='O esgotamento dos sentidos'>O esgotamento dos sentidos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/herois/' title='Heróis'>Heróis</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-farsa-termina/' title='A farsa termina'>A farsa termina</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/bivalve/' title='Bivalve'>Bivalve</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/sherazade/' title='Sherazade'>Sherazade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/precipitacao/' title='Precipitação'>Precipitação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/deducant/' title='Deducant'>Deducant</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-tempestade/' title='A tempestade'>A tempestade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/turbilhao/' title='Turbilhão'>Turbilhão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/preco/' title='Preço'>Preço</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/manifestacao/' title='Manifestação'>Manifestação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/meia-volta/' title='Meia-volta'>Meia-volta</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/brixianus/' title='Brixianus'>Brixianus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-que-pode-dar-errado/' title='O que pode dar errado'>O que pode dar errado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/remissivo/' title='Remissivo'>Remissivo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/perimetro/' title='Perímetro'>Perímetro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/dor/' title='Dor'>Dor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/malmequer/' title='Malmequer'>Malmequer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/alibis/' title='Álibis'>Álibis</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/macaco/' title='Macaco'>Macaco</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-e-verdade/' title='Não é verdade'>Não é verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/lete/' title='Letes'>Letes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/veu/' title='Véu'>Véu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/milhoes/' title='Milhões'>Milhões</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-mesma-sentenca/' title='A mesma sentença'>A mesma sentença</a></li><li>A resposta incompleta</li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>A aurora do cristianismo secular</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 09:22:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso &#8211; e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?
Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso &#8211; e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?</p>
<p>Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o mundo a cada dia e poderiam mudar todos os nossos relacionamentos pessoais; gostaria por isso de escrever-lhe com frequência muito maior, em parte porque não sei por quanto tempo poderei fazê-lo, e ainda mais porque queremos dividir tudo um com o outro com a maior frequência e pelo maior tempo possíveis.</p>
<h5>Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas.</h5>
<p>Estou inteiramente convencido de que quando você chegar a receber esta carta grandes decisões já estarão colocando as coisas em movimento em todas as frentes. Durante as próximas semanas precisaremos de grande força interior, e é isso que desejo para você. Devemos todos manter as mentes lúcidas, de modo a que nada nos assuste.</p>
<p>Em vista do que está por vir estou quase pronto a citar o δει bíblico, e sinto que &#8220;anseio olhar&#8221;, como os anjos em 1 Pedro 1:12<sup>1</sup>, a fim de ver de que modo Deus irá resolver o aparentemente insolúvel. Creio que Deus está prestes a realizar alguma coisa que, quer façamos parte dela de forma aparente ou oculta, seremos capazes apenas de receber, com a maior maravilha e assombro. De algum modo ficará claro &#8211; para os que tiverem olhos para ver &#8211; que o Salmo 58:11b<sup>2</sup> e o Salmo 9:19-20<sup>3</sup> são verdadeiros; e teremos de repetir Jeremias 45:5<sup>4</sup> para nós mesmos todos os dias.</p>
<p>É mais difícil para você passar por isso separado de Renate e do seu menino do que é pra mim, pelo que penso em você especificamente, como estou fazendo agora. Parece-me que seria muito mais fácil, e para nós dois, se pudéssemos passar por isso juntos, ajudando um ao outro. Mas é provavelmente &#8220;melhor&#8221; que não seja assim, e que cada um de nós o enfrente sozinho. Acho difícil não poder ajudá-lo em coisa alguma &#8211; exceto pensando em você de manhã e à noite quando leio a Bíblia, e com frequência durante o dia também.</p>
<p>Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma, porque estou levando incomumente bem &#8211; você ficaria surpreso se viesse me ver. As pessoas aqui vivem me dizendo (e como você vê, sinto-me muito lisonjeado com isso) que &#8220;irradio tanta paz ao meu redor&#8221; e que &#8220;sou sempre tão alegre&#8221; &#8211; de modo que os sentimentos muito distintos desses que às vezes me assombram devem, estou achando, basear-se numa ilusão (não que eu de alguma forma acredite nisso!).</p>
<h5>Se a religião era uma forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, o que isso quer dizer para o cristianismo?</h5>
<p>Você ficaria surpreso, e talvez até preocupado, se soubesse que rumo estão tomando minhas reflexões teológicas; e é aqui que sinto mais falta de você, porque não conheço ninguém mais com quem poderia discutir essas coisas a fim de ter meu pensamento aclarado.</p>
<p>O que me tem incomodado incessantemente é a questão de o que de fato o cristianismo é, ou ainda quem de fato Cristo é, para nós hoje. Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas, e terminou também o tempo da introspecção e da consciência &#8211; e portanto o tempo da religião em geral. Estamos progredindo rumo a uma era completamente isenta de religião; da forma como são agora, as pessoas são simplesmente incapazes de serem religiosas. Mesmo os que se descrevem como religiosos não agem de forma alguma em conformidade com isso, e devem portanto estar se referindo a algo muito diferente com esse &#8220;religioso&#8221;.</p>
<p>Os mil e novecentos anos de pregação e teologia cristãs estão inteiramente embasados no conceito de uma religiosidade inerente à raça humana. O &#8220;cristianismo&#8221; foi sempre uma manifestação &#8211; talvez a verdadeira manifestação &#8211; de &#8220;religião&#8221;. Mas se um dia fica claro que esse &#8220;inerente&#8221; não existe de forma alguma, mas tratava-se de um forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, e se o homem torna-se em consequência disso radicalmente irreligioso &#8211; e creio que seja mais ou menos esse o caso (do contrário como explicar, por exemplo, que esta guerra, em contraste com todas as anteriores, não está produzinho qualquer reação &#8220;religiosa&#8221;?) &#8211; o que isso quer dizer para o &#8220;cristianismo&#8221;?</p>
<p>Quer dizer que foi removida a fundação de tudo que havia sido até agora nosso &#8220;cristianismo&#8221;, e que restam uns poucos &#8220;últimos sobreviventes da era dos cavaleiros&#8221;, ou uns poucos sujeitos intelectualmente desonestos, dos quais podemos descender como &#8220;religiosos&#8221;. Serão esses os poucos escolhidos? Será contra esse dúbio grupo de pessoas que deveremos arremeter com zelo, ressentimento ou indignação, a fim de vendermos a eles os nossos bens? Devemos atacar um punhado de gente infeliz em sua hora de necessidade e exercitar sobre eles uma espécie de compulsão religiosa? Se não queremos fazer tudo isso, se nosso julgamento final deve ser que a forma ocidental do cristianismo foi, também ela, apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião, que tipo de situação emerge para nós, para a igreja? Existem cristãos sem religião? Se a religião é apenas uma vestimenta do cristianismo &#8211; e se mesmo essa vestimenta já teve diferentes aspectos em diferentes épocas &#8211; o que é então um cristianismo sem religião?</p>
<h5>E se a forma ocidental do cristianismo foi apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião?</h5>
<p>Barth, o único a começar a trilhar essa linha de raciocínio, não levou-a até o final, mas chegou ao positivismo da revelação, que em última análise é essencialmente uma restauração. Para o trabalhador comum sem religião (ou para qualquer outro homem) não há lucro algum aqui. As perguntas a serem respondidas devem ser certamente as seguintes: o que significam uma igreja, uma comunidade, um sermão, uma liturgia, uma vida cristã, num mundo sem religião? Como se fala de Deus sem religião &#8211; isto é, sem as pressuposições temporalmente condicionadas de metafísica, introspecção e assim por diante? Como se fala (ou talvez agora não possamos nem mesmo &#8220;falar&#8221; do modo como estávamos habituados a fazer) de um modo &#8220;secular&#8221; sobre &#8220;Deus&#8221;?</p>
<p>Em que sentido somos cristãos seculares e sem religião, em que sentido somos a &#8220;ek-klesia&#8221;, os que são convocados, sem olharmos para nós mesmos de um ponto de vista religioso como especialmente favorecidos, mas ao contrário pertencendo ao mundo de modo completo? Nesse caso Cristo não é mais um objeto de religião, mas algo inteiramente diferente: é realmente o Senhor do mundo. Mas o que isso quer dizer? Qual é o lugar de adoração e de oração numa conjuntura sem religião? Assumirá a disciplina secreta, ou alternativamente a diferença entre o último e o penúltimo, uma importância nova nesta situação?</p>
<h5>Como se fala de um modo &#8220;secular&#8221; sobre &#8220;Deus&#8221;?</h5>
<p>Preciso parar por hoje, para que a carta posso partir imediatamente. Devo escrever de novo dentro de dois dias. Espero que você entenda mais ou menos o que estou querendo dizer, e que não ache muito enfadonho. Adeus por enquanto. Não é sempre fácil escrever sem um eco, e você deve me perdoar se isso faz das minhas cartas algo como um monólogo.</p>
<p>Penso muito em você.</p>
<p>Seu Dietrich</p>
<p align="right"><small>Dietrich Bonhoeffer a Eberhard Bethge,<br />
do campo de concentração de Tegel<br />
30 de abril de 1944</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1595" class="footnote">Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos bem desejam atentar.</li><li id="footnote_1_1595" class="footnote">Deveras há uma recompensa para o justo; deveras há um Deus que julga na terra.</li><li id="footnote_2_1595" class="footnote">Levanta-te, Senhor! Não prevaleça o homem; sejam julgadas as nações na tua presença! Senhor, incute-lhes temor! Que as nações saibam que não passam de meros homens!</li><li id="footnote_3_1595" class="footnote">E procuras tu grandezas para ti mesmo? Não as busques; pois eis que estou trazendo o mal sobre toda a raça, diz o Senhor; porém te darei a tua vida por despojo, em todos os lugares para onde fores.</li></ol>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>O Senado está olhando por você</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jul 2008 09:45:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[1984]]></category>

		<category><![CDATA[copyright]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais uma sessão do Senado, mais uma profecia dos Irmãos Comédia que se mostra inteiramente acurada. Bem-vindo à má ficção da vida real.
24 de junho
Na última semana, em uma sessão corrida e esvaziada, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o projeto de lei (PLC) 89/03 que define quais serão as condutas criminosas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais uma sessão do Senado, mais uma <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/copyrights-do-caribe">profecia dos Irmãos Comédia</a> que se mostra inteiramente acurada. Bem-vindo à má ficção da vida real.</p>
<p><strong>24 de junho</strong></p>
<blockquote><p>Na última semana, em uma sessão corrida e esvaziada, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o projeto de lei (PLC) 89/03 que define quais serão as condutas criminosas na Internet.</p>
<p>Com base no artigo 22 do PLC 89/03, os provedores de acesso deverão arquivar os dados de &#8220;endereçamento eletrônico&#8221; de seus usuários. Terão que guardar os endereços de todos os tipos de fluxos, inclusive a voz sobre IP, as imagens e os registros de chats e mensagerias instantâneas, tais como google talk e msn.</p>
<p>O pior. A lei implanta o regime da desconfiança permanente. Exige que todo o provedor seja responsável pelo fluxo de seus usuários. Implanta o &#8220;provedor dedo-duro&#8221;. No inciso III do mesmo artigo 22, o PLC 89/03 exige que os provedores informem, de maneira sigilosa, à polícia os &#8220;indícios da prática de crime sujeito a acionamento penal público&#8221;. Ou seja, se o provedor identificar um jovem &#8220;baixando&#8221; um arquivo em uma rede P2P, imediatamente terá que abrir os pacotes do jovem, pois o arquivo pode ser um MP3 sem licença de copyright. Mas, e se ao observar o pacote de dados reconhecer que o MP3 se tratava de uma música liberada em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Creative_commons">creative commons</a>? O PLC implanta uma absurda e inconstitucional violação do direito à privacidade. Impõe uma situação de vigilantismo inaceitável.</p></blockquote>
<p><strong>27 de junho</strong></p>
<blockquote><p>O PROJETO DO SENADOR AZEREDO VISA FUNDAMENTALMENTE:</p>
<p>1- proibir o compartilhamento de arquivos via BitTorrent (&#8230; &#8221; transporta ou fornece dado ou informação obtida nas mesmas circunstâncias&#8221;)</p>
<p>2- criminalizar o download, a cópia e o envio de vídeos no Youtube que não estejam com as licenças claramente definidas (&#8230; &#8220;Se o dado ou informação obtida desautorizadamente é fornecida a terceiros pela rede de computadores&#8230;a pena é aumentada de um terço&#8221;)</p>
<p>3- impedir o transporte de músicas e arquivos MP3 em i-pod (&#8230; &#8220;nas mesmas penas incorre quem mantém consigo, transporta ou fornece dado&#8221;)</p>
<p>4- definir como crime o arquivamento de filmes que passam na TV (pois a TV digital e o setup box são &#8220;os instrumentos de armazenamento de dados eletrônicos ou similares, os instrumentos de captura de dados&#8221;)</p>
<p>5- tornar um ato criminoso o fato de copiar e scanear livros e papers para o seu computador, pen-drive, sem autorização do autor, mesmo que seja para uso próprio (&#8230;&#8221;sem autorização do legítimo titular&#8221;)</p>
<p>6- incentivar a prisão de quem baixa games e aplicativos shareware e os utiliza além do prazo definido pelo vendedor (&#8230;&#8221;desses se utiliza além do prazo definido ou autorizado&#8221;)</p>
<p>7- inibir e transformar em criminoso quem cede o sinal da TV a cabo de sua sala para o quarto do seu irmão ou vizinho (&#8221;&#8230;conversores de sinais de rádio ou televisão digital ou qualquer outro meio capaz de processar, armazenar, capturar ou transmitir dados utilizando-se de tecnologias magnéticas, óticas ou qualquer outra tecnologia eletrônica ou digital similar&#8221;)</p>
<p>8- transformar milhares de blogueiros que baixam imagens disponíveis na web, com ou sem mudanças em Gimp ou outro software de desenho vetorial, em criminosos. Para Azeredo, quebrar a jenela de um carro para roubar um Toca-CD e copiar uma imagem no Flickr sem consultar o autor deve receber tratamento similar.</p>
<p>Trata-se da implantação de uma sociedade da vigilância e do medo. É um projeto que nasce da mentalidade autoritária que irá igualar o Brasil ao despotismo chinês.</p></blockquote>
<p>Tem coisas que só o Senado faz por você.</p>
<p>Mais <a href="http://samadeu.blogspot.com/">no blog</a> do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira e na análise sóbria do pessoal da <a href="http://www.novacorja.org/?p=3869">NovaCorja.org</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A chave, obviamente</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 09:14:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[25
A chave, obviamente, está em que antes de conhecer o peso do embaraço o homem conhece o peso da glória. Emoldurar as láureas do homem é o propósito secreto das enumerações de Gênesis 1. Não é para si mesmos nem para Deus, é para o homem que são levantados do nada peixes do mar, aves [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>25</p>
<p>A chave, obviamente, está em que antes de conhecer o peso do embaraço o homem conhece o peso da glória. Emoldurar as láureas do homem é o propósito secreto das enumerações de Gênesis 1. Não é para si mesmos nem para Deus, é para o homem que são levantados do nada peixes do mar, aves do céu, animais domésticos, seres rastejantes, ervas do campo e árvores frutíferas. A riqueza da terra existe para deixar claro além de qualquer dúvida o quanto o homem é rico.</p>
<p>De todos os emblemas da exuberância e da majestade conferida aos primeiros seres humanos, o maior e menos compreendido estará no fato de viverem nus &#8211; inteiramente, constantemente, sossegadamente nus. &#8220;Os dois estavam nus, o homem e sua mulher&#8221; observa o narrador logo antes de acenar com a infâmia da transgressão, &#8220;e não se envergonhavam&#8221;.</p>
<p>As tradições, especialmente a tradição cristã, apontam na nudez de Adão e Eva antes da queda um embaraço e uma prefiguração do pecado. Na interpretação tradicional é só depois de comerem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que os dois são capazes de reconhecer o terrível &#8220;mal&#8221; de estarem nus, e procuram então corrigi-lo devidamente<sup>1</sup>.</p>
<p>A narrativa, no entanto, não endossa nossa moralidade genital, outorgando à nudez um matiz particular de bem-aventurança. Deus viu que era tudo muito bom, e estava olhando para mais do que normalmente temos chance de olhar. A nudez do primeiro homem e da primeira mulher é inseparável da irrestrita honra de que desfrutavam num mundo que não havia sido ainda transtornado pelo conflito.</p>
<p>Não é o caso, portanto, que a queda torne a nudez uma coisa da qual seja necessário envergonhar-se, nem &#8211; muito menos &#8211; que a transgressão revele que a nudez seja algo inerentemente vergonhoso. O fato de andarem nus livremente, na presença uns dos outros e de Deus, é símbolo de toda a majestade humana (e portanto divina) que, em decorrência da queda, passará a ser um problema. Vendo-se nus, os olhos de Adão e Eva se abrirão para sua incapacidade de gerenciar sua própria abundância.</p>
<p>É, no fim das contas, para este ponto que a narrativa quer nos levar. A queda quer dizer que a exuberância e a glória terão de ser em alguma medida ocultadas, até o momento de uma reviravolta oportuna.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Nasce um homem</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-1/' title='Era uma vez'>Era uma vez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-2/' title='Adão era'>Adão era</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-3/' title='A teoria literária'>A teoria literária</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nasce-um-homem-4/' title='Para mim'>Para mim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/se-havia-improvavel-graca/' title='Se havia improvável graça'>Se havia improvável graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-conflito-que-anima-uma-historia/' title='O conflito que anima uma história'>O conflito que anima uma história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-primeira-blasfemia/' title='A primeira blasfêmia'>A primeira blasfêmia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eu-sentia-ser-minha-obrigacao/' title='Eu sentia ser minha obrigação'>Eu sentia ser minha obrigação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-demonstrado-exemplarmente-por-jesus/' title='Como demonstrado exemplarmente por Jesus'>Como demonstrado exemplarmente por Jesus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-detalhes/' title='De todos os detalhes'>De todos os detalhes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-distincao-mais-antiga/' title='A distinção mais antiga'>A distinção mais antiga</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-homem-em-pe-no-centro/' title='O homem em pé no centro'>O homem em pé no centro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-levantei-me-do-lugar/' title='Quando levantei-me do lugar'>Quando levantei-me do lugar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/ele-tinha-o-mundo-natural-aos-seus-pes/' title='Ele tinha o mundo natural aos seus pés'>Ele tinha o mundo natural aos seus pés</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-ou-tres-personagens-nao-bastam/' title='Dois ou três personagens não bastam'>Dois ou três personagens não bastam</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-proibicao-extrai-seu-poder/' title='A proibição extrai seu poder'>A proibição extrai seu poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-caracterizar-uma-tragedia/' title='Para caracterizar uma tragédia'>Para caracterizar uma tragédia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/pisei-no-andar-terreo/' title='Pisei no andar térreo'>Pisei no andar térreo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/voce-pode-comer/' title='Você pode comer'>Você pode comer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/um-professor-errante-depara-se-com-um-homem-cego/' title='Um professor errante depara-se com um homem cego'>Um professor errante depara-se com um homem cego</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nenhum-outro-elemento-da-trama/' title='Nenhum outro elemento da trama'>Nenhum outro elemento da trama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/toda-historia-sobre-transgressao/' title='Toda história sobre transgressão'>Toda história sobre transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-sonhos-de-que-me-recordo/' title='De todos os sonhos de que me recordo'>De todos os sonhos de que me recordo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-devemos-deixar/' title='Não devemos deixar'>Não devemos deixar</a></li><li>A chave, obviamente</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-curioso-notar/' title='É curioso notar'>É curioso notar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/' title='Para começar'>Para começar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/neste-ponto/' title='Neste ponto'>Neste ponto</a></li></ol></div> <b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1593" class="footnote">Intimamente associada a esta interpretação está a noção de que o pecado original do primeiro casal correspondeu à sua iniciação sexual. Antes da Queda, explica essa embaraçosa e influente tradição, o primeiro casal desfrutava de abstinência completa e beatífica, o que bastaria por si mesmo para demonstrar que o sexo é o pecado por excelência. Inteiramente transtornado pela contundência do &#8220;Frutificai, multiplicai-vos, e enchei a terra&#8221; de Gênesis 1, até mesmo Agostinho, o mais seminal dos inimigos cristãos da sexualidade, viu-se obrigado a admitir a possibilidade de Adão e Eva terem mantido relações sexuais e lícitas antes da Queda. Apenas, enfatiza ele, deveriam ter sido relações puramente mecânicas, inteiramente desprovidas de prazer. Teria sido pecaminoso extrair prazer de operação tão indigna.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Z Man</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 09:13:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Ilustração]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha primeira e reverente experiência com o ZBrush, o software de modelagem 3D conhecido pela abordagem intuitiva e natural. Com uma hora de experiência e uma mesa digitalizadora você consegue transformar uma esfera perfeita de argila digital num rosto tridimensional de olhos esbugalhados. As possibilidades são extravagantes: estou devidamente impressionado.


]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Minha primeira e reverente experiência com o <a href="http://www.pixologic.com/zbrush">ZBrush</a>, o software de modelagem 3D conhecido pela abordagem intuitiva e natural. Com uma hora de experiência e uma mesa digitalizadora você consegue transformar uma esfera perfeita de argila digital num rosto tridimensional de olhos esbugalhados. As possibilidades são extravagantes: estou devidamente impressionado.</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/z-man-b.jpg"><br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/z-man.jpg" title="Clique para ampliar"></a></p>
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		<title>A invasão do mundo</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jul 2008 03:28:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.
A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.</p>
<p>A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam o mundo e a Escritura. Eram um povo apontado para um presente glorioso e um futuro certo; eram um país protegido sobrenaturalmente do destino arbitrário ou vergonhoso que definia o percurso de nações menos afortunadas. Eram a cabeça, e não a cauda.</p>
<p>Então as coisas começaram a dar errado, e os filhos de Israel viram-se obrigados a reavaliar, vez após outra, a sua invulnerabilidade. Primeiro vieram os assírios, 720 anos antes de Cristo, e numa campanha certeira literalmente apagaram do mapa dez das doze tribos que compunham a família original de Israel. O reino do Norte virou pó, e as duas tribos remanescentes aquartelaram-se em Jerusalém, buscando a proteção de seu rei e de seu templo &#8211; os quais recebiam, por sua vez, proteção direta da mão divina.</p>
<p>As tribos negligentes e pecadoras do norte haviam sido eliminadas (o que era visto como coisa ao mesmo tempo inevitável e lamentável), mas Jerusalém era uma fortaleza inabalável e o centro do mundo. Aqui nada tinha como dar errado.</p>
<p>Então, 586 anos antes de Cristo, os habitantes de Judá testemunharam o impensável: os babilônios pisaram o lugar santo, onde o próprio Deus descansava os seus pés, destruíram o inviolável templo de Jerusalém, tomaram para si as relíquias sagradas e acorrentaram o rei. E, como se não bastasse, a própria população de Judá, reduto dos últimos defensores da verdade da Torá no vasto universo, foi arrancada da Terra Prometida e condenada a viver no exílio em diferentes pontos do império babilônico.  Tiveram arrancados de si o seu coração, e foram condenados a viver longe do corpo. Perderam, diante de si mesmos e dos olhos de todo o mundo, sua terra, sua segurança, sua promessa.</p>
<p>Não é de admirar que tenham-se vistos obrigados a rever o seu triunfalismo. Israel, a nação isolada e singular, havia sido invadida pelo mundo e finalmente engolida por ele. Habitava agora suas entranhas.</p>
<p>A nova condição alterou marcadamente o modo pelo qual os judeus interpretavam o mundo e &#8211; ainda mais importante, no caso deles &#8211; sua própria Escritura. Talvez, viram-se forçados a ponderar, não tivessem entendido da primeira vez o que Deus queria realmente deles. E, se é que podiam sonhar com uma segunda chance, seria necessário vasculhar as Escrituras e reinterpretá-las à luz da nova situação. Era preciso encontrar novas revelações onde pensara-se durante tanto tempo estar cimentadas as antigas.</p>
<p>Essa mudança de paradigma fica evidente nos escritos dos profetas. Esses não apenas refletem os dilemas da nação isolada diante da impensável internacionalização, mas propõem maneiras radicalmente novas de se interpretar a vontade tradicional de Deus. Olhando para a mesma Torá e para as mesmas tradições, os profetas encontram a imagem de um Deus que não se sonhava residir ali. Que havia sido o pecado a ocasionar a derrocada da nação todos concordavam. Os profetas, no entanto, contornavam os pecados da religiosidade tradicional e apontavam transgressões mais sutis; destilavam uma moralidade mais refinada que, garantiam eles, Deus exigira desde o começo.</p>
<p>Uma nova espiritualidade nasceu, dessa forma, dos dissabores do exílio. Como não dispunham do templo, os judeus da dispersão passaram a reunir-se em sinagogas; aqui não tinham como apresentar os sacrifícios regulares previstos no código de Moisés, mas ofereciam constantes orações, súplicas e louvor. Descobriram que nessas casas de oração podiam manter acesa a sua vocação espiritual, estudando a Torá e buscando nela a relevância necessária para o momento. Vendo-se privados do seu insubstituível Lugar de adoração, intuíram com o passar do tempo a vertigem de que Deus não está preso a lugar algum e pode ser eficazmente buscado e encontrado seja onde for. Não é necessário, ousaram concluir, estar no templo certo, com o sacerdócio certo, o ritual certo ou no país certo. A nova espiritualidade era menos legalista, mais generosa e universal; o cativeiro revelara, paradoxalmente, um Deus maior.</p>
<p>Os exilados não encontraram apenas uma nova religiosidade mas ainda, e de forma inusitada, a prosperidade e a paz. Tornaram-se, em particular, comerciantes bem-sucedidos nas rotas de comércio babilônicas. O perfil do novo judeu era o de alguém fiel às suas raízes, mas ao mesmo tempo plenamente adaptado ao seu novo ambiente. Quando Ciro permitiu que os judeus dispersos pelo império retornassem à Palestina para reconstruir o templo e retomar o seu modo de vida (isso foi em 539 a.C.), muitos preferiram ficar.</p>
<p>A maioria, no entanto, escolheu o retorno à Judéia, onde os libertos e suas gerações reconstruíram o templo e os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Um novo e improvável sol de esperança brilhara sobre Judá, e seu Deus agora era ainda mais singular por não ser limitado pelo espaço.</p>
<p>Porém não demorou e veio o indomável Alexandre, e no rastro dele os gregos. Israel saberia, agora sim, o que é ser efetivamente invadido por uma cultura. Logo o mundo judeu estaria falando em grego, e mesmo essa não seria a mudança mais radical.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li>A invasão do mundo</li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>O nascimento de Noé</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2008 09:05:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[lendas dos judeus]]></category>

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NOÉ: O nascimento de Noé
Matusalém tomou uma esposa para seu filho Lameque, e ela deu à luz um filho. O corpo do bebê era branco como a neve e vermelho como uma rosa em flor; o cabelo da sua cabeça e seus compridos cachos eram brancos como a lã, e seus olhos como raios de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/bunker-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/bunker.png" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>NOÉ: </strong>O nascimento de Noé</small></p>
<p>Matusalém tomou uma esposa para seu filho Lameque, e ela deu à luz um filho. O corpo do bebê era branco como a neve e vermelho como uma rosa em flor; o cabelo da sua cabeça e seus compridos cachos eram brancos como a lã, e seus olhos como raios de sol. Quando abria os olhos ele iluminava toda a casa, tal qual o sol, e toda a casa ficava inteiramente repleta de luz.</p>
<p>Assim que foi tomado da mão da parteira ele abriu sua boca em louvor ao Senhor da integridade. Seu pai, Lameque, ficou com medo dele e fugiu. Foi até seu próprio pai, Matusalém, e disse:</p>
<p>&#8211; Gerei um filho estranho. Ele não é como um ser humano, mas se parece com os filhos dos anjos do céu. Sua natureza é diferente; ele não é como nós, seus olhos são como raios de sol e suas feições são gloriosas. A mim parece que ele não foi gerado por mim, mas por anjos, e temo que nos seus dias alguma maravilha recaia sobre a terra. E agora, meu pai, estou aqui para pedir e implorar que o senhor vá até Enoque, nosso pai, e descubra com ele a verdade, pois ele reside entre os anjos.</p>
<p>Quando ouviu as palavras do filho Matusalém foi até Enoque, nos confins da terra, e chamou-o em voz alta. Enoque ouviu a sua voz e apareceu diante dele, e perguntou a razão de sua vinda. Matusalém contou-lhe a causa de sua ansiedade, e pediu que a verdade lhe fosse revelada.</p>
<p>Enoque respondeu, dizendo:</p>
<p>&#8211; O Senhor fará uma coisa nova sobre a terra. Sobrevirá à terra uma grande destruição e um dilúvio de um ano. Esse filho que lhe foi concedido será poupado sobre a terra, e os três filhos dele serão salvos com ele, quando morrer toda a humanidade sobre a terra. Haverá uma grande punição sobre a terra, e a terra será purificada de toda impureza. Agora faça saber a seu filho Lameque que o menino que nasceu é de fato seu filho, e que ele deve ser chamado de Noé<em>/descanso</em>, pois ele será deixado [ileso] em beneficio de vocês. Ele e os filhos dele serão salvos da destruição que recairá sobre a terra.</p>
<p>Depois de ouvir de seu pai essas palavras, que lhe revelara todas as coisas ocultas, Matusalém voltou para casa e deu ao menino o nome de Noé, pois daria à terra motivo de alegria em compensação por toda a destruição.</p>
<p>Apenas seu avô, Matusalém, chamava-o de Noé; seu pai e todos os demais chamavam-no de Menaém. Sua geração era obcecada por magia, e Matusalém temia que seu neto fosse enfeitiçado caso seu verdadeiro nome fosse conhecido, pelo que o manteve em segredo. Menaém, &#8220;Aquele Que Conforta&#8221;, cabia-lhe tão bem quanto Noé; indicava que ele seria um consolador, porém apenas se os malfeitores do seu tempo se arrependessem de seus delitos.</p>
<p>Logo na ocasião do seu nascimento sentiu-se que ele traria conforto e libertação. Quando o Senhor lhe dissera &#8220;Maldito é o solo por sua causa&#8221;, Adão havia perguntado &#8220;Por quanto tempo?&#8221;, e Deus respondera &#8220;Até que nasça um menino conformado de tal forma que não será necessário executar nele o rito da circuncisão&#8221;. Isso cumpriu-se em Noé, que foi circuncidado desde o ventre de sua mãe.</p>
<p>Noé mal havia chegado ao mundo e percebeu-se uma notável mudança. Desde de que o solo havia sido amaldiçoado por causa do pecado de Adão acontecia que quando se semeava trigo o que brotava e crescia era aveia. Isso parou de acontecer com o surgimento de Noé, e a terra passou a produzir os frutos que se plantava nela. Além disso foi Noé que, quando chegou à maturidade, inventou o arado, a foice, a enxada e outros implementos usados no cultivo do solo. Antes dele os homens lavravam a terra com suas próprias mãos.</p>
<p>Houve outro sinal para indicar que o filho nascido de Lameque estava destinado a desempenhar um papel extraordinário. Ao criar Adão Deus dera a ele o domínio sobre todas as coisas: a vaca obedecia o lavrador e o sulco do arado deixava-se abrir com facilidade. Porém com a queda de Adão as coisas rebelaram-se contra ele; a vaca passou a recusar obediência ao lavrador, e o sulco do arado tornou-se reticente. Noé nasceu e tudo voltou a ser como era antes da queda do homem.</p>
<p>Antes do nascimento de Noé o mar costumava transgredir os seus limites duas vezes por dia, de manhã e à noitinha, inundando a terra a ponto de molestar as sepulturas. Depois do seu nascimento o mar passou a restringir-se aos seus limites. E a fome que afligia o mundo na época de Lameque, a segunda das dez grandes fomes determinadas a lhe sobrevir, cessou sua devastação com o nascimento de Noé.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><em>Lendas dos Judeus</em> é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do <em>midrash</em> (particularmente o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud">Talmude</a>) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). <em>Lendas</em> foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.</small></p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Lendas dos judeus</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/as-primeiras-coisas-criadas/' title='As primeiras coisas criadas'>As primeiras coisas criadas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-alfabeto/' title='O alfabeto'>O alfabeto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-primeiro-dia/' title='O primeiro dia'>O primeiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-segundo-dia/' title='O segundo dia'>O segundo dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-terceiro-dia/' title='O terceiro dia'>O terceiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quarto-dia/' title='O quarto dia'>O quarto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/' title='O quinto dia'>O quinto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia/' title='O sexto dia'>O sexto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia-continuacao/' title='O sexto dia, continuação'>O sexto dia, continuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/todas-as-coisas-louvam-ao-senhor/' title='Todas as coisas louvam ao Senhor'>Todas as coisas louvam ao Senhor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-homem-e-o-mundo/' title='O homem e o mundo'>O homem e o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/os-anjos-e-a-criacao-do-homem/' title='Os anjos e a criação do homem'>Os anjos e a criação do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-criacao-de-adao/' title='A criação de Adão'>A criação de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-alma-do-homem/' title='A alma do homem'>A alma do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-homem-ideal/' title='O homem ideal'>O homem ideal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-de-satanas/' title='A queda de Satanás'>A queda de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher/' title='A mulher'>A mulher</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/adao-e-eva-no-paraiso/' title='Adão e Eva no Paraíso'>Adão e Eva no Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-do-homem/' title='A queda do homem'>A queda do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-puni