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	<title>A Bacia das Almas</title>
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	<description>ONDE AS IDÉIAS NÃO DESCANSAM</description>
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		<title>Possível</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 10:16:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8211; Não há muito que contar &#8211; ela disse, como sempre dizia quando havia muito.
Ela estava loiríssima na luz oblíqua do outono, deitada na grama e abraçada às minhas pernas na sombra da macieira. Com uma mão ela apertava o maço de Marlboro e a caixa de fósforos, e com a outra subia-me sem pausa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Não há muito que contar &#8211; ela disse, como sempre dizia quando havia muito.</p>
<p>Ela estava loiríssima na luz oblíqua do outono, deitada na grama e abraçada às minhas pernas na sombra da macieira. Com uma mão ela apertava o maço de Marlboro e a caixa de fósforos, e com a outra subia-me sem pausa a coxa. Eu estava de bermuda larga sem roupa de baixo e seus dedos brincavam gentilmente, em inesgotável interesse, com o que quer que encontrassem ali dentro.</p>
<p>Abaixo de nós a grama fazia uma curva acentuada em direção às castanheiras, à estradinha e ao vale lá embaixo, onde o Serchio corria solene seu destino de lugar-comum, resignado e brilhante como uma joia em seu estojo. Do outro lado do vale as colinas verdes com suas aldeias se acentuavam até levantar os mármores brancos dos Apuanos; deste lado e aos nossos pés vagalhões de uma neblina vasta e inusitada ocultavam periodicamente a realidade, como se um deus principiante estivesse apagando febrilmente um esboço atrás do outro.</p>
<p>&#8211; É claro que não pude ler dossiês dos outros convidados &#8211; ela retomou &#8211; mas não era preciso. Eu sabia que todos traziam a mesma ladainha sobre ajustes populacionais, gráficos de Gantt, transferência de poder e reassimilação ética de minorias.</p>
<p>&#8211; E o seu não trazia nada disso &#8211; ajudei, desfiando seu cabelo com uma folha amarela de macieira.</p>
<p>&#8211; O meu trazia tudo na medida certa &#8211; ela puxou uma tragada compenetrada e me passou o cigarro, sem lembrar que eu já estava fumando um. &#8211; Os caras acham que o seu modelo de transferência de poder está completo porque pensaram em territórios, constituições e presidentes. Idiotas! No modelo da atualidade uma rede de blogues ou uma biblioteca virtual podem representar mais poder do que o Executivo de uma nação inteira.</p>
<p>&#8211; O Google Books &#8211; eu disse, devolvendo o cigarro depois de tragar obedientemente com o meu ainda na mão.</p>
<p>&#8211; Exato. O Google &#8211; ela aceitou o cigarro com reverência. &#8211; Falemos de transferência de poder.</p>
<p>Com um baque surdo tocou a grama outra das maçãs pequenas e ácidas que saltavam da macieira carregada para fechar o cerco ao nosso redor. Estendi a mão e silenciei as duas ou três mais próximas no saco de papel, junto com os cogumelos <em>porcini</em> que nos havia trazido a Monica e as nozes que nos havia dado a Sonia.</p>
<p>&#8211; Mas, como eu suspeitava e ficou claro nas conferências privadas, eu estava ali por causa das minhas observações sobre o modelo de coordenação retroconvergente de Bergier. Aparentemente eu trazia as luzes que eles estavam querendo.</p>
<p>&#8211; Estranho &#8211; eu disse, como era nosso costume, e apoiei a cabeça no tronco atrás de mim. &#8211; Coordenação retroconvergente. Devo me sentir culpado por você já me ter explicado essa?</p>
<p>&#8211; Na dúvida você deve sempre se sentir culpado.</p>
<p>Ela assentou as duas mãos na grama e escalou-me de costas o corpo, acomodando por fim a cabeça no meu peito. Seu cigarro estava acabando e me perguntei se ela acenderia outro. Lá longe à nossa direita, na cabeceira do vale, ameaçava uma tempestade cor de chumbo perfeitamente silenciosa, que sabíamos nunca nos alcançaria.</p>
<p>&#8211; Você sabe que o que estamos fazendo é atrasar o relógio &#8211; ela apertou-me por um instante a mão esquerda. &#8211; Uma máquina do tempo.</p>
<p>&#8211; Sim. Essa aula eu não perdi.</p>
<p>&#8211; Você sabe aqueles jogos em que alguém derruba uma peça de dominó e essa peça derruba outras duas, que derruba quatro e assim por diante, até que milhares de peças acionadas pela primeira acabam formando um desenho ou subindo as escadas de um estádio?</p>
<p>&#8211; Sei. Brincamos disso uma vez, você lembra? Na casa de praia com o Fabrizio e o Luca.</p>
<p>&#8211; Lembro! &#8211; ela saltou um pouco no lugar, sinceramente emocionada por eu não ter esquecido. &#8211; Então, se a questão é atrasar o relógio, é preciso ter em mente que é perfeitamente possível derrubar aquela pedra original se, antes de começar o jogo, derrubamos <em>para trás</em> uma única peça interna do modelo, uma peça qualquer.</p>
<p>&#8211; Faz sentido &#8211; fiz a cinza cair sobre a grama imaculada.</p>
<p>&#8211; A questão é que, embora com esse procedimento seja possível garantir que a primeira peça será derrubada, não é absolutamente certo que derrubando uma peça interna sejamos capazes de recuperar o desenho original. Para conseguir isso seria necessária coordenação muito maior.</p>
<p>&#8211; E o que é mais importante, derrubar a peça original ou recuperar o desenho?</p>
<p>&#8211; É precisamente disso que se ocupa o modelo de coordenação retroconvergente de Bergier &#8211; ela virou-se de frente e deixou-me um beijo levíssimo no queixo barbeado. &#8211; E, no presente caso, ninguém tem ainda certeza.</p>
<p>&#8211; E você acha sinceramente, no presente caso, que é possível derrubar aquela peça original? Será possível fazer a água correr fora daqueles sulcos de que falamos outro dia?</p>
<p>&#8211; Para voltar é preciso descarrilhar o trem. Mas é sempre possível.</p>
<p>Ela amassou solenemente o maço de Marlboro, e nós dois sabíamos que havia uns dez cigarros perfeitamente bons ali dentro. Segurei com as duas mãos o rosto que me olhava, com a deliberação e o respeito de quem segura e traz para si o fruto da árvore da vida, e beijei-a na boca sem fechar os olhos.</p>
<p>Nesse ponto o vento ergueu a neblina que cobria a estradinha de terra à nossa esquerda e lá estava o Matteo, gordinho e barbudo em seu uniforme azul de <em>carabiniere</em>, para contar que dois homens estavam procurando a Caitlin, e esperavam lá em cima na aldeia debaixo do arco da igrejinha.</p>
<p>Erguemos acampamento e fomos avançando descalços pelo campo minado de maçãs, ela segurando o saco de papel com nosso jantar e eu levando nossas meias e sapatos. Deixei que ela seguisse na frente, abrindo os braços para envolver por antecipação as costas intermináveis de Matteo, enquanto eu recolhia as pontas de cigarro para dentro do maço amassado. Balancei a cabeça, em puro deleite e pura incredulidade, diante da constatação de que ela trazia dentro de si o nosso filho.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
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		<title>Ning Yeh</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Mar 2010 18:28:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[brabo desenhando]]></category>
		<category><![CDATA[painter]]></category>

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		<description><![CDATA[Também no Brabolog.

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Também no <a href="http://www.e-brabo.com/blog/2010/painting-with-ning-yeh/">Brabolog</a>.</p>
<p align="center"><object width="640" height="480"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="movie" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=10260258&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=c9ff23&amp;fullscreen=1" /><embed src="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=10260258&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=c9ff23&amp;fullscreen=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always" width="640" height="480"></embed></object></p>
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		<title>Em partido dos pobres</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Mar 2010 10:44:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[poser or prophet]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Neste ponto é importante falar sobre partidarismo. Já foi reafirmado que o liberalismo econômico é parcial, no sentido que defende o interesse de poucos em detrimento do de muitos. Essa conclusão contradiz diretamente as alegações de que o liberalismo econômico favorece a todos e não dá preferência a ninguém. A verdade, no entanto, é que a visão do liberalismo econômico coincide precisamente com os interesses das grandes multinacionais &#8211; transformando os abastados em super-ricos e a classe trabalhadora em pobres descartáveis. </p>
<p>O que se descobre aqui é uma ordem econômica baseada no saque &#8211; cheia de vencedores e perdedores, vitoriosos e vítimas. A isso os liberalistas respondem com alguma variação do argumento &#8220;o que é bom para alguns acabará se mostrando bom para todos&#8221;, porém isso é na verdade dar aos pobres (isto é, os &#8220;perdedores&#8221;) a opção de trocarem uma forma de miséria por outra<sup>1</sup>. Consequentemente, não é difícil concluir que a parcialidade do liberalismo econômico resulta na &#8220;liberdade dos poderosos para roubarem, e na liberdade dos despossuídos para viverem na miséria&#8221;.</p>
<p>É essencial perceber, no entanto, que o cristianismo também é parcial &#8211; porém na direção oposta. O liberalismo econômico  favorece os ricos ao mesmo tempo em que saqueia os pobres, enquanto o cristianismo advoga &#8220;a opção de Deus pelos pobres&#8221;. Consequentemente, liberalistas econômicos e cristãos encontram-se em campos opostos.</p>
<p>Neste ponto, finalmente, é necessário entender que parcialidade e objetividade não são antagonistas mas aliados, conforme observa Terry Eagleton: &#8220;verdadeiro discernimento quer dizer tomar partido&#8221;. Os cristãos tomam partido dos pobres contra os que os oprimem, precisamente porque os pobres sofrem injustamente. Por essa razão os cristãos devem abandonar o mito de que a fim de manter a perspectiva das coisas não devemos tomar qualquer partido. Manter a perspectiva significa tomar partido.</p>
<p>Essa perspectiva, portanto, tem implicações para a metodologia empregada pelos cristãos que buscam escrever sobre o liberalismo econômico nos nossos dias. Em primeiro lugar é importante recordar e dialogar com os testemunhos de cristãos que têm se agregado e escrito a partir de posições partidárias<sup>2</sup>. </p>
<p>Em segundo lugar, quer dizer que os cristãos devem também dar ouvidos a outras vozes subversivas: os revolucionários, os [pós-]marxistas e outros que se encontram &#8220;no mesmo lado das barricadas&#8221;<sup>3</sup>. Pois, como observa Eagleton: &#8220;Os marxistas têm teimosamente sobrevivido à prática política marxista [...] Não nos sentimos autorizados a descartar a crítica feminista apenas porque o patriarcado não foi ainda adequadamente desalojado. Ao contrário, é razão para endossá-la ainda mais&#8221;.</p>
<p>Em terceiro lugar, quer dizer que os cristãos devem escrever a partir de uma posição de partidarismo materializado. Uma teologia cristã que se levante em resposta ao liberalismo econômico deve fluir a partir da ação. Deve ser &#8220;um reflexo crítico da práxis cristã&#8221;.</p>
<p>Portanto, como os cristãos abraçam lealdades que contradizem as lealdades dos liberalistas econômicos, deve-se esperar que os cristãos ofereçam um modo alternativo de estruturar a vida em comunidade, um modo que se oponha às estruturas fascistas-imperialistas impostas pelo neoclassocismo econômico.</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong><br />
 <a href="http://poserorprophet.wordpress.com">Poser or Prophet</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug074.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista/">As variedades da experiência capitalista</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/das-tais/">Das tais</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/na-mesma-moeda/">Na mesma moeda</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2208" class="footnote">Por exemplo, as empresas multinacionais têm argumentado que as <em>sweatshops</em> do terceiro mundo &#8211; fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente &#8211; oferecem a mulheres e crianças a oportunidade de escapar da prostituição. É evidente que trabalhar longas horas dentro de uma fábrica insalubre, devastando o próprio corpo por menos que um salário digno, dificilmente pode ser considerado uma verdadeira alternativa; é simplesmente outra forma de miséria e de prostituição. É importante notar que esse argumento surgiu com o próprio capitalismo, quando Adam Smith argumentou que deveria ser visto como um &#8220;gesto filantrópico&#8221; permitir que as crianças pobres trabalhassem nas fábricas.</li><li id="footnote_1_2208" class="footnote">Por exemplo, a Igreja Confessante durante a Segunda Guerra e os teólogos da libertação.</li><li id="footnote_2_2208" class="footnote">Importante é atentar, com respeito a essa questão, aos comentários de Jurgen Moltmann sobre Ernst Bloch, um ateu marxista: &#8220;Os defensores de Deus não se encontram necessariamente mais perto de Deus do que os acusadores de Deus. Os justificados não são os amigos teológicos de Jó, mas o próprio Jó. Nos Salmos protesto e júbilo coexistem e ressoam com a mesma voz. Sempre na história que essa combinação cessa de existir os teólogos passam a ter tanto a aprender sobre Deus com os ateus do que os ateus poderiam talvez aprender com os teólogos&#8221;.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Homem do logo da Companhia de Ilustração das Índias Ocidentais</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Mar 2010 14:51:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[coreldraw]]></category>

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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5448048/original"><img src="http://www.23hq.com/23666/5448048_990340fbcb42e58362529d2dbd4300fd_standard.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
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		<title>A impenitente fornicação cristã</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 10:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). «E você, Paulo, tem heróis?»Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">«E você, Paulo, tem heróis?»</span>Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que ele considera ser ao mesmo tempo artista mais notável e muito mais engajado nas questões sociais do que ele mesmo, um cara que meu amigo tem por seu <em>herói pessoal</em>.</p>
<p>Nesse momento ele parou o seu relato para perguntar:</p>
<p>&#8211; E você, Paulo, tem heróis?</p>
<p>Apanhado de surpresa, ocorreu-me responder de modo ao mesmo tempo provocativo e sincero. Ergui uma sobrancelha e arrisquei, como se estivesse em grande dúvida:</p>
<p>&#8211; Jesus?</p>
<p>&#8211; Jesus não vale &#8211; exigiu meu amigo. &#8211; <em>Jesus é o herói de todo mundo.</em></p>
<p>Achei aquilo fascinante, tanto a noção de que Jesus pudesse ser o herói secreto daqueles que não usurpam o seu nome quanto a ideia subjacente, de que mesmo quem admira Jesus carece sensualizá-lo, encontrar-se efetivamente com ele numa pessoa de carne e osso que adequadamente encarne os seus valores e desafios. Eu conhecia uma pessoa assim, o Néviton Marci, mas antes que pudesse mencionar o nome dele meu amigo avançou seu argumento. Sabendo que minha menção a Jesus tinha sido em grande parte uma provocação sobre sua postura arreligiosa, ele prosseguiu:</p>
<p>&#8211; E você sabe muito bem que eu tenho um relacionamento de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_plat%C3%B4nico">amor platônico</a> com o cristianismo &#8211; e, para explorar todas as possibilidades da metáfora, arrematou: &#8211; Eu não <em>fodo</em> com o cristianismo como vocês fazem.</p>
<p>Eu, que nunca tinha visto meu amigo recorrer a um palavrão, tive de render-me imediatamente a sua lógica, sua lucidez e sua indignação. Porque quanto mais nós cristãos tentamos <em>foder</em> com o cristianismo, no sentido de <em>conhecê-lo</em> (biblicamente falando) e de nos <em>relacionarmos intimamente</em> com ele, mais acabamos <em>fodendo</em> com ele, no sentido de <em>arruiná-lo</em> juntamente com a sua reputação. Deveria nos parecer evidente que ler, escrever, estudar e tagarelar incessantemente sobre Deus e sobre a Bíblia, seja em livros ou blogs, no rádio ou na tv, na igreja ou no local de trabalho, não tem <em>absolutamente qualquer</em> relação de fidelidade com a herança de Jesus ou com os desafios deixados pela sua mensagem. Gente sem religião como meu amigo e seu herói, que não usurpa publicamente o nome do Filho do Homem, é capaz de levar adiante a sua boa nova e honrar a sua herança de forma muito mais aperfeiçoada do que o mais inatacável e articulado dos cristãos. Porque, muito evidentemente, o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder.</p>
<p>Aplica-se aqui, de forma irretocável e como sempre, a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. Por um lado, os cristãos somos os fariseus que agradecem em voz alta, na luz de um palco que construímos para nós mesmos, a dádiva de não sermos pecadores como os irreligiosos; por outro, os irreligiosos que fazem avançar secretamente o reino são como o cobrador de impostos, que não ousam assumir a ribalta e não se consideram dignos de levantar a cabeça nem mesmo para proferir o nome do herói cuja herança poluímos. Fique muito claro, porque esse mesmo Jesus deixou-o muito claro, que não seremos nós a merecer o abraço de confidência do mestre.</p>
<p>O que fode com o cristianismo somos nós.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/temor-e-fe/">Temor e fé</a><br />
<small>&#8220;Restam a Deus, em nossos dias, para fazer a sua vontade, os ateus. Deixem-nos fazer o bem sem esperar nada em troca. Deus faz o mesmo&#8221;.</small><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-ultimo-cristao/">O último cristão</a><br />
<small> &#8220;O último cristão pode muito bem ser o primeiro&#8221;.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug075.gif"></p>
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		<title>Wir wollen weitersagen</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Mar 2010 10:50:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[música de domingo de manhã]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Wir wollen weitersagen, Música de Domingo de Manhã por excelência, de um álbum de 1982 &#8211; um dos que meu pai trouxe, para o nosso sobrado em Bauru, da livraria evangélica alemã de Marechal Cândido Rondon. Para ouvir clique [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/weitersagen-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/weitersagen.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p><em>Wir wollen weitersagen</em>, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/musica-de-domingo-de-manha-lado-a/">Música de Domingo de Manhã</a> por excelência, de um álbum de 1982 &#8211; um dos que meu pai trouxe, para o nosso sobrado em Bauru, da livraria evangélica alemã de Marechal Cândido Rondon. Para ouvir clique no triângulo.</p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Wir wollen weitersagen</small></span></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/musica-de-domingo-de-manha-lado-a/">Música de Domingo de Manhã, LADO A</a></p>
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		<title>Baciami ancora</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 12:08:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pormenor]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Un&#8217;errore perfetto, un diamante, un difetto&#8221;.
Porque um irrefreado escapismo está mais perto da realidade do que o mais austero realismo jamais estará.







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			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Un&#8217;errore perfetto, un diamante, un difetto&#8221;.</p>
<p>Porque um irrefreado escapismo está mais perto da realidade do que o mais austero realismo jamais estará.</p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
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<p><object width="640" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/tTHzeY7euUQ&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999&#038;ap=%2526fmt%3D22"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/tTHzeY7euUQ&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999&#038;ap=%2526fmt%3D22" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="640" height="385"></embed></object></p>
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		<title>Enquanto isso existe</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 22:16:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>

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Naquela última noite ele passou mais tempo me mostrando vídeos do youtube no laptop do que fazendo amor comigo, e achei que era porque logo aquilo ia acabar para sempre. Pensei: ele está querendo repartir comigo o que é importante pra ele enquanto isso existe, e achei aquilo de uma doçura sem [...]]]></description>
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</a></p>
<p>Naquela última noite ele passou mais tempo me mostrando vídeos do <em>youtube</em> no laptop do que fazendo amor comigo, e achei que era porque logo aquilo ia acabar para sempre. Pensei: <em>ele está querendo repartir comigo o que é importante pra ele enquanto isso existe</em>, e achei aquilo de uma doçura sem fim.</p>
<p>Agora penso diferente.</p>
<p>Eu havia sido relocada para a Argentina e ele para Minas Gerais, mas nosso plano sempre tinha sido comparecer a um escritório da Fachada e requerer uma relocação conjunta. Não era coisa fácil de se conseguir, a mínima alteração nos planos do Ajuste, mas eu tinha os contatos certos e sabia onde pressionar. E havíamos combinado que iríamos conseguir porque iríamos tentar.</p>
<p>Então, quando faltavam duas semanas de prazo para a apelação e as filas já eram intermináveis e as senhas eram vendidas descaradamente no Mercado Livre, ele parou de atender o celular. Ficava tocando até a voz da morta dizer para eu deixar a mensagem sujeita à cobrança, e se eu deixava ou não recado não parecia fazer diferença. Na empresa, de onde ele já tinha saído há dias (disso eu sabia), ninguém sabia dele.</p>
<p>Ele também não aparecia no messenger e não respondia meus e-mails, e tínhamos combinado que ele me pegaria em Congonhas naquele sábado para corrermos atrás da apelação. Mas o sábado foi chegando e passou sem qualquer notícia e sem resposta. </p>
<p>Então, na terça-feira seguinte, quando eu estava esperando para ser atendida no salão e ficava enquanto isso tentando o celular dele, o homem que eu ainda amava mandou uma mensagem de texto, em inglês como sempre fazia quando não tinha coragem de dizer o que queria: POR FAVOR, ENCONTREI ALGUÉM.</p>
<p>Só isso.</p>
<p>Liguei imediatamente mas ele não respondeu, nem quando tentei mais tarde. Passei a semana seguinte lendo o Manual, puxando tudo que conseguia da web antes que tudo caísse, e durante a noite remoía nosso último final de semana, aquele em que não saímos do hotel.</p>
<p>Passei a encontrar na lembrança daqueles dois dias todos os sinais, todos muito inequívocos, de que ele ia me deixar. O que eu havia interpretado como doçura tinha sido na verdade hesitação. O que eu tinha lido como introspecção diante de um futuro incerto tinha sido na verdade culpa. E eu, burra, tinha deixado tudo passar. </p>
<p>E todas as vezes que fechava os olhos só conseguia enxergar o cara abrindo a porta do quarto do hotel para saírmos juntos naquela última manhã, porta-ternos na mão, absolutamente vivo e vital, absolutamente irresistível, agora absolutamente distante.</p>
<p>Meu amor foi minguando e reduziu-se ao ritual de tentar ligar no celular dele uma vez por dia, perto da hora do almoço, na esperança de obter alguma satisfação. Eu na verdade precisava ouvir a voz dele; sabia que a ainda o idealizava e só a crueldade dele podia me ajudar a desconstruir essa imagem. Até para me livrar dele eu precisava dele.</p>
<p>Liguei na pizzaria com a Fran, no dia em que ela me ajudou a preparar a mochila. Liguei da casa dos meus pais, no último domingo em que passamos juntos. Liguei no aeroporto e liguei no primeiro dia em Buenos Aires, para contar do apartamento.</p>
<p>Então parei de tentar. Passei a fazer a minha parte na burocracia da reformulação e só. </p>
<p>Creio que eu estava aqui há já três semanas quando derrubaram a internet definitivamente, depois de uma dezena de alarmes falsos, e correu no mesmo dia a notícia de que em cinco ou seis dias todos os satélites estariam no chão. Naquela mesma hora peguei o celular da bolsa e liguei, mesmo sabendo que as linhas estariam sobrecarregadas, mesmo sabendo que ele não atenderia e que talvez tivesse bloqueado o meu número, e na primeira tentativa a ligação passou.</p>
<p>Tocou duas vezes e ele &#8211; certamente não se dando ao trabalho de ver quem estava ligando &#8211; disse, &#8220;oi, amor&#8221;, na voz cheia de cumplicidade que havia certa ocasião dedicado a mim. E eu: &#8220;acho que não é quem você está pensando&#8221;.</p>
<p>Ele respirou uma vez e, sem acrescentar nada, desligou.</p>
<p>Ruborizei na hora e apaguei imediatamente o número dele da memória do celular, absolutamente chocada, absolutamente envergonhada &#8211; não por mim, mas por ele. Sentia-me inteiramente constrangida por tê-lo levado ao constrangimento de desligar na minha cara, e apagar meu último elo de ligação com ele foi um último e necessariamente ridículo gesto de amor. </p>
<p>Joguei o celular para longe e comecei a chorar pela primeira vez desde aquele primeiro silêncio no Brasil, de alívio e de absoluto terror, porque estava livre dele e porque estava livre dele.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.gif"></p>
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		<title>Capitalismo é uma camiseta que você não pode comprar</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 18:46:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[expression]]></category>

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		<description><![CDATA[]]></description>
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		<title>A invenção do não-condicionado</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 17:53:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Não há diferença entre heróis e vilões, entre virtuosos e vis. Heróis fazem o que é certo pelo desejo de aceitação e pelo medo de estarem errados; vilões fazem o que é errado pelo medo da aceitação e pelo desejo de estarem errados. 
Medo sempre, desejo sempre. No cerne de tudo estão estes dois irmãos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não há diferença entre heróis e vilões, entre virtuosos e vis. Heróis fazem o que é certo pelo desejo de aceitação e pelo medo de estarem errados; vilões fazem o que é errado pelo medo da aceitação e pelo desejo de estarem errados. </p>
<p>Medo sempre, desejo sempre. No cerne de tudo estão estes dois irmãos, cada um nos puxando para um lado. Somos impulsionados por eles. Somos determinados por eles.</p>
<p>No modelo estrutural &#8211; na mitologia &#8211; da psicanálise quem articula os impulsos contraditórios do medo e do desejo é o superego, a porção da personalidade que nos diz  sem pausa o que devemos fazer, o que devemos sentir e, particularmente, o que não devemos fazer. O superego, que corresponde em alguns sentidos à voz do dever ou da consciência, é a parte de nós construída a partir das indicações daquilo que a sociedade toma por aceitáveis. Tudo o que sua mãe e seu professor ensinaram que você não deve fazer (<em>isso é feio, menino, isso não se faz</em>) alimentam agora os argumentos e prioridades do superego.</p>
<p>O superego, que nos ensina sem cessar o que é errado, refreia por essa razão os impulsos violentos e sexuais. Não fosse o superego sairíamos por aí beijando a comissária do avião ou esmurrando o policial rodoviário (ou o contrário) porque nada haveria para nos impedir se surgisse em nós esses desejos. Não veríamos, literalmente, nada de errado nisso.</p>
<p>Porém o superego requer um tremendo preço para desempenhar esse papel civilizador e regularizador da sociedade: a culpa. Em seu ministério de nos dizer incessantemente o que fazer, o superego encontra na culpa seu método, seu argumento e seu combustível. Mesmo se não estamos matando ninguém ou maltratando ninguém, o superego nunca desiste e nunca se cala; ele vai tentar fazer com que nos sintamos culpados por não estarmos ajudando alguém, por não estarmos procurando um emprego melhor, por não estarmos lendo um bom livro ou fazendo dieta. Vai tentar fazer com que nos sintamos culpados até mesmo pela nossa caretice, por não estarmos nos divertindo o bastante ou desfrutando de sexo fácil agora que é fácil encontrá-lo pela internet. Suas demandas são inatingíveis e sua condenação implacável. Não há como satisfazer ou calar o superego; não há abstinência ou devassidão que o impeça de gotejar continuamente culpa e ansiedade na corrente sanguínea.</p>
<p>São portanto medo e desejo que sustentam o poder do superego. A ânsia de nos entregarmos ao desejo é refreada pelo medo da culpa. O medo de estarmos perdendo tempo nos leva por vezes a nos entregarmos ao desejo, mas se nos entregamos ao desejo o superego injeta uma renovada dose de culpa, e com ela medo e ansiedade, e o círculo se fecha. O que quer que façamos ou deixemos de fazer, o poder do superego apenas aumenta, e persistimos sendo conduzidos por medo e desejo.</p>
<p>Porém não são apenas os métodos do superego que nos são ensinados pela sociedade; a sociedade também nos ensina o que devemos temer e, ainda mais, o que devemos desejar. Nada há de natural no desejo humano; somos ensinados a desejar, somos ensinados o que desejar e somos ensinados a sermos conduzidos pelo desejo. Como resultado, passamos a vida perseguindo desejos que não nos pertencem e podemos não chegar a conhecer aquilo que realmente queremos.</p>
<p>Numa palavras, somos condicionados. Não conhecemos a autodeterminação e não chegamos a lugar algum, porque tropeçamos sem cessar nas cordas do medo imposto e do desejo condicionado.</p>
<p>Os deuses e heróis de todas as literaturas compartilham conosco dessas limitações, sendo regidos pelos mesmos impulsos contraditórios. Habitantes do Olimpo e personagens de Hollywood, nossos pais e nossos professores, nossos cúmplices e nossos inimigos &#8211; todos retém essa marca.</p>
<p>Então, em algum momento do passado, Deus ou os evangelistas sonharam um homem como nunca havia existido, e registraram sua singularidade nos quatro evangelhos que chegaram até nós e em outros manuscritos mais controversos (e controversos precisamente por apresentarem um protagonista menos singular).</p>
<p>Porque Jesus é exceção de caráter espetacular na história de todas as literaturas. Aqui está um homem que, por um lado, não se afasta do mundo (a solução da literatura oriental para o problema), mas por outro lado absolutamente não se deixa condicionar por ele. </p>
<p>Muito antes que Nietzsche vislumbrasse Zaratustra, Jesus percorria as alamedas e arcadas dos evangelhos na qualidade de primeiro herói não-condicionado da história.</p>
<p>O curioso é que Jesus não fez muita coisa além de morrer, mas sua passagem pela narrativa da humanidade abriu uma tremenda brecha de divisão no seu tempo e fendeu irremediavelmente as eras atrás de si, porque sem fazer muita coisa ele revelou escandalosamente, vertiginosamente, como seria se os seres humanos vivessem de modo absolutamente não-condicionado. Escancarou sem escapatória como seria se não fossemos regidos por medo e temor. Se não vivêssemos respostas prontas. Se perseguíssemos o nosso desejo mais profundo e essencial e não os desejos que nos imprime a sociedade.</p>
<p>E parte essencial do escândalo está precisamente no fato de Jesus não ter feito muita coisa. A maior parte das porções narrativas dos evangelhos é dedicada ao confronto de Jesus com gente que vinha até ele para lhe dizer como ele deveria agir e o que não deveria fazer. Todos queriam explicar a Jesus como corrigir o seu curso e todos lhe diziam claramente o que fazer: Maria, os fariseus, João Batista, Judas, os irmãos do trovão, Pedro, os habitantes de Nazaré, os samaritanos, os herodianos, o Diabo, os sacerdotes, os estudiosos da Torá, os que queriam coroá-lo rei, os que queriam poupá-lo da morte, os que não queriam que ele curasse no sábado, os que queriam apedrejar a mulher adúltera, os que queriam que ele não transgredisse as leis rituais, os que queriam que ele parassem de ensinar, os que exigiam dele explicações, os que pediram dele uma confissão e um álibi, os que o chicotearam, os que o alçaram à cruz, os que falaram com ele durante a sua execução, os que queriam que ele abraçasse outra prioridade que não as criancinhas.</p>
<p>Em todas essas ocasiões Jesus recusou-se a oferecer respostas condicionadas, isso é, respostas regidas pelo medo e pelo desejo. </p>
<p>Jesus é o primeiro herói da literatura, talvez o único, a não cair nas armadilhas do superego. Não apenas o Filho do Homem não dava ouvidos aos que vinham lhe dizer o que fazer, mas recusava-se por completo a sentir-se culpado por não agir em conformidade com as expectativas dos outros. Jesus não curou todos os doentes da Palestina; não convenceu a todos com que argumentou; não hesitou em deixar uma multidão esperando para descansar ou ficar sozinho; não correu atrás dos desiludidos para explicar melhor a sua proposta; não foi visitar seu amigo Lázaro em seu leito de morte &#8211; e recusou-se a sentir-se culpado diante de todas essas faltas, mesmo quando as vozes suplentes do superego lhe diziam muito claramente como ele devia se sentir.</p>
<p>O Filho do Homem recusava-se a alimentar a cadeia sistêmica de temor e desejo, e recusava-se a ser alimentado por ela. Era um super-homem não porque tivesse superpoderes (os quais, como dão testemunho as histórias em quadrinhos, só tem poder de consolidar os ciclos de medo e desejo), mas porque recusava-se a julgar os outros pelos poderes que não tinham e pelos poderes que exigiam dele.</p>
<p>Um homem absolutamente suficiente, absolutamente não-condicionado e impermeável à culpa &#8211; eis uma visão terrível de se ver, e de tudo que Jesus fazia e representava nada despertou mais paixão e mais ressentimento do que esta sua característica. Entre outras coisas, um homem não regido pela culpa pode começar a fazer o que quiser, e nada há que a sociedade considere mais abominável e ameaçador. A culpa, intuíam os fariseus e sacerdotes, é ingrediente essencial para manter-se a estabilidade das instituições e a coesão da sociedade. O que seria do mundo se todos começassem a fazer o que quisessem, e não o que a cultura explica que devem querer? O que seria do governo? O que seria da religião? </p>
<p><em>Seria o reino de Deus</em>, é a resposta não-condicionada de Jesus, e por não ser condicionada os líderes acharam-na por completo inaceitável. Tiveram de eliminar o escândalo do seu campo de visão, tiveram de silenciá-lo através da mão condicionada da justiça, porque do contrário teriam de continuar encarando a alternativa de frente. Um homem íntegro sem culpa não era algo que deveria existir, pelo que antagonistas ancestrais se mancomunaram para eliminar da terra esse embaraço.</p>
<p>Pronto. Jesus agora estava morto, e os que davam ouvidos às fábulas de que ele havia ressuscitado não representavam nem de longe perigo semelhante, inclusive porque concordavam que a ameaça havia ascendido ao céu, de onde não podia fazer mal a ninguém e de onde não representaria um mal exemplo. O mundo estava em paz. A ameaça e o escândalo do não-condicionado haviam sido silenciados antes que pudessem ter desintegrado o tecido da sociedade.</p>
<p>Então, quando tudo parecia ter voltado à ordem, Jerusalém é sacudida pela desordem do Pentecostes. Os cento e vinte se levantam e falam ao mesmo tempo, explicando que é hora de mudar o mundo, e logo acrescentam-se a esses os primeiros três mil.</p>
<p>A maravilha não está no número de convertidos, porque prosélitos qualquer um pode fazer. A maravilha está na resposta não-condicionada, absolutamente digna do Mestre que nunca abraçaram em vida, que essa gente se mostrará disposta a oferecer. Porque esses três mil &#8220;perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações&#8221;. Isto é, continuavam submetidos ao modo de vida e aos ideais dos apóstolos, viviam juntos, comiam juntos e estendiam a mente a Deus.</p>
<p>O que está dito efetivamente aqui (e ficará ainda mais claro mais adiante) é que os três mil e tantos homens e mulheres dessa nova comunidade recusavam-se agora, obstinadamente como Jesus, a serem regidos pelo medo imposto e pelo desejo condicionado. A partir de agora farão apenas o que lhes soprar o espírito, e o espírito sopra onde quer. Criava-se uma raça de gente subversiva que só se mostrará disposta a fazer o que achar melhor.</p>
<p>E o texto esclarece que a primeira resposta condicionada de que abriram mão foi o desejo absolutamente irresistível que temos de estar em outro lugar, com outras pessoas, fazendo o nosso dever ou buscando o nosso prazer. Cometeram o ato revolucionário de não quererem estar em outro lugar, de recusarem-se a voltar para casa, de se bastarem onde estavam e com quem estavam, de abraçarem uma comunidade sem critério e sem fama e &#8211; talvez o mais notável de tudo &#8211; de não se sentirem culpados por isso. Estavam absolutamente livres. Haviam trocado o imaginário pelo real. O mundo estava sendo desconstruído e demolido por eles, e nas suas ruínas só havia pessoas e o reino de Deus.</p>
<p>O não-condicionado não apenas não havia se calado, como era aparentemente contagioso.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug001.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/as-possibilidades-do-futuro/' title='As possibilidades do futuro'>As possibilidades do futuro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/' title='Pecar é omitir-se'>Pecar é omitir-se</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-escandalo-da-hospitalidade/' title='O escândalo da hospitalidade'>O escândalo da hospitalidade</a></li><li>A invenção do não-condicionado</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A Coca-Cola e o oposto do amor</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 11:17:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[zizek]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa perspectiva psicoanalítica, é crucial o elo entre a dinâmica capitalista da mais-valia e a dinâmica libidinal do mais-gozar. Podemos desenvolver esse ponto a partir da Coca-Cola, mercadoria capitalista por excelência e, como tal, &#8220;excedente de gozo&#8221; personificado. 
Não é surpresa que a Coca-Cola tenha sido apresentada inicialmente como remédio; seu gosto estranho não parece [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa perspectiva psicoanalítica, é crucial o elo entre a dinâmica capitalista da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mais-valia">mais-valia</a> e a dinâmica libidinal do mais-gozar. Podemos desenvolver esse ponto a partir da Coca-Cola, mercadoria capitalista por excelência e, como tal, &#8220;excedente de gozo&#8221; personificado. </p>
<p>Não é surpresa que a Coca-Cola tenha sido apresentada inicialmente como remédio; seu gosto estranho não parece prover qualquer satisfação particular. A Coca não é diretamente agradável ou atrativa; porém é precisamente nessa qualidade, no que transcende qualquer valor utilitário (ao contrário da água, da cerveja e do vinho, que de forma muito definida saciam a sede ou produzem o efeito desejado de tranquilidade satisfeita), que a Coca-Cola funciona como encarnação perfeita do &#8220;it&#8221;: o puro excedente de gozo em relação às satisfações usuais, o misterioso e esquivo X que todos buscamos em nosso consumo compulsivo de mercadorias.</p>
<p>O resultado inesperado dessa característica não é que, já que a Coca não satisfaz nenhuma necessidade concreta, nós a bebamos apenas como complemento, depois que alguma outra bebida tenha satisfeito nossa necessidade substancial &#8211; ao contrário, é precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola ainda mais insaciável: como observado de modo tão conciso por Jacques-Alain Miller, a Coca tem a propriedade paradoxal de que quanto mais você a bebe com mais sede você fica. Com aquele sabor estranho, agridoce, a sede nunca é efetivamente saciada. Portanto, tendo em vista que há alguns anos o slogan da Coca era &#8220;Coca-Cola é o que é&#8221; ['Coke is <em>it</em>', em inglês], é necessário observar sua completa ambiguidade. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">É precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola insaciável.</span>A Coca &#8220;é o que é&#8221; precisamente na medida em que <em>nunca</em> realmente <em>é</em>, precisamente na medida em que cada satisfação abre uma brecha para um &#8220;quero <em>mais!</em>&#8221;</p>
<p>O paradoxo, portanto, reside em que a Coca não é uma mercadoria comum, cujo <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Valor_de_uso">valor de uso</a> é transubstanciado na expressão de uma aura de puro Valor (de troca); trata-se de uma mercadoria cujo peculiar valor de uso já é ele mesmo a incorporação direta da aura suprasensível de inefável excedente espiritual: uma mercadoria cujas propriedades materiais correspondem por si mesmas àquelas de uma mercadoria. </p>
<p>Esse processo chega à sua conclusão no caso da Coca-Cola Diet sem cafeína. Por quê? Bebemos Coca-Cola &#8211; ou qualquer bebida &#8211; por duas razões: pelo seu valor nutricional ou poder de matar a sede, e pelo seu sabor. No caso da Coca Diet sem cafeína, o valor nutricional é anulado e a cafeína, ingrediente-chave do seu sabor, é também levada embora. Tudo que resta é um completo simulacro, a promessa artificial de uma substância que nunca se materializa.</p>
<p>Aquilo a que estou me referindo implicitamente é, naturalmente, a clássica distinção de Nietzsche entre &#8220;querer nada&#8221; (no sentido de ausência de desejo) e a instância niilista de ativamente querer o Nada para si; seguindo a trilha de Nietzsche, Lacan enfatizou que na anorexia o paciente não quer simplesmente &#8220;comer nada&#8221; &#8211; ao contrário, ele ou ela querem ativamente comer o Nada (o Vazio) que representa ele mesmo o objeto-causa último do desejo. Semelhantemente, no caso da Coca Diet sem cocaína <em>nós bebemos o próprio Nada</em>, o puro simulacro de uma propriedade que é na realidade mera embalagem de um vazio.</p>
<p>Esse exemplo esclarece a ligação entre três noções: a da mais-valia marxista, a noção lacaniana do <em>objet petit a</em><sup>1</sup> em sua qualidade de &#8220;excedente de prazer&#8221; (mais-gozar, o conceito que Lacan elaborou com referência direta à mais-valia de Marx) e o paradoxo do superego, percebido há tanto tempo por Freud: quanto mais Coca você bebe, com mais sede você fica; quanto mais lucro você tem, mais lucro você quer; quanto mais você obedece o imperativo do superego, mais culpado você se sente. Nos três casos, a lógica da troca equilibrada é interrompida em favor de uma lógica excessiva em que &#8220;quanto mais você dá (quanto mais você paga suas dívidas), mais você fica devendo&#8221; (ou &#8220;quanto mais você tem aquilo que deseja, maior a sua carência&#8221;; ou &#8211; a versão consumista &#8211; &#8220;quanto mais você compra, mais tem para gastar&#8221;); ou seja, o paradoxo que é o oposto exato do paradoxo do amor, pelo qual Julieta exprimiu em palavras imortais a Romeu: &#8220;quanto mais dou, mais tenho&#8221;.</p>
<p align="right"><small><strong>Slavok Žižek</strong>, em <em>The Fragile Absolute</em> (2000)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug002.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2200" class="footnote">O <a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Objeto_a">objeto inalcançável de desejo</a> da teoria lacaniana.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Cobrança de falta</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 01:06:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[brabo desenhando]]></category>
		<category><![CDATA[expression]]></category>
		<category><![CDATA[painter]]></category>

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		<description><![CDATA[A regra é clara.
Clique na imagem para me ver desenhando isso.

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			<content:encoded><![CDATA[<p>A regra é clara.</p>
<p>Clique na imagem para me ver desenhando isso.</p>
<p align="center"><object width="640" height="480"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="movie" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=9967147&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=c9ff23&amp;fullscreen=1" /><embed src="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=9967147&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=c9ff23&amp;fullscreen=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always" width="640" height="480"></embed></object></p>
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		<title>Tudo que os seus professores fizeram para matar a sua criatividade</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 07:55:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES.
Parte 1: &#8220;Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original&#8221;







Parte 2: &#8220;De repente, um diploma não vale mais nada&#8221;








]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES.</p>
<p><strong>Parte 1: </strong>&#8220;Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original&#8221;</p>
<table border="0" height="400" width="425" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/yFi1mKnvs2w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/yFi1mKnvs2w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
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<p><strong>Parte 2: </strong>&#8220;De repente, um diploma não vale mais nada&#8221;</p>
<table border="0" height="400" width="425" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
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<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug003.gif"></p>
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		<title>Cristianismo Xique</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 04:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Grandes Navegações]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre que surge uma voz revolucionária, explicando que &#8220;está tudo errado&#8221; &#8211; e nada mais fácil de explicar &#8211; junta-se ao redor do cara um grupo de seguidores que representa o nascimento de uma nova elite, a Elite Dos Que Enxergam As Coisas Com Mais Clareza. Trata-se de gente que tem por missão secundária mudar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que surge uma voz revolucionária, explicando que &#8220;está tudo errado&#8221; &#8211; e nada mais fácil de explicar &#8211; junta-se ao redor do cara um grupo de seguidores que representa o nascimento de uma nova elite, a Elite Dos Que Enxergam As Coisas Com Mais Clareza. Trata-se de gente que tem por missão secundária mudar o mundo, e por primeira lamentar a pobreza de espírito e a estreiteza da visão dos que não pertencem à elite.</p>
<p>Foi mais ou menos o que aconteceu quando o rabi de Nazaré começou a insultar as elites há dois mil anos; multidões insaciáveis saíram pelas cidades e pelos desertos no rastro de suas aparições públicas, na esperança de encontrar uma brecha e se integrar à nova nata. </p>
<p><strong>RT <em>@joaobatista</em> Chegando a Betânia. O culto vai ser de derrubar! <em>#muitafé</em></strong></p>
<p>Nem todos, é verdade, abraçaram esse deslumbramento. Enquanto alguns aplaudiam ardentemente a originalidade do Mestre, outros cruzavam os braços e explicavam: &#8220;Mais um com o velho discurso &#8216;estou cansado&#8217;. Isaías já estava cansado há 400 anos! A fila anda!&#8221;</p>
<p>Os mais antenados, no entanto, estavam dispostos a tudo para perfilhar a nova onda e serem contados entre os escolhidos.</p>
<p>&#8211; Salomé, você ouviu que a nova moda é vender tudo e dar aos pobres?</p>
<p>&#8211; Querida, então já não fiz? Levou seis meses só para tirar as fotos e colocar no<em> Mercado Livre</em>. Estou paupérrima mas minha pele nunca esteve tão boa!</p>
<p>Como a nova elite precisa ser constantemente recriada, a boa nova é que você tem hoje mesmo a chance de ser incluído na onda mais recente, atualizada e badalada do cristianismo. Para ajudá-lo a se diferenciar da massa indistinta dos fiéis, <a href="http://melivro.com/">Thiago Bomfim</a> alçou o sáite <em>Cristianismo Xique</em>, com dicas excelentes para você agregar valor e articular a sua inclusão. </p>
<p>Curti especialmente a dica número 7: <a href="http://cristianismoxique.com/dica-7-dar-algum-parecer-teolgico-sobre-desastres-naturais/">Dar algum parecer teológico sobre desastres naturais</a>. Espero que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-pronunciamento/">meu próprio parecer</a> tenha se mostrado vago o bastante para merecer inclusão nas duas colunas. Isso sim é que seria chique <em>#xique</em>.</p>
<p>Então, o que você está esperando? Visite e coloque em prática você também o <a href="http://cristianismoxique.com/">Cristianismo Xique</a>. Porque não é chique enquanto você entende o que está acontecendo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
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		<title>O capitalismo como fascismo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/o-capitalismo-como-fascismo/</link>
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		<pubDate>Wed, 03 Mar 2010 12:01:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[poser or prophet]]></category>
		<category><![CDATA[zizek]]></category>

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		<description><![CDATA[Onde, capitalismo?
Em 1776 Adam Smith deu a luz à moderna ciência da economia ao predizer que a liberação do mercado de todas as formas de controle estatal nos conduziria ao melhor dos mundos possíveis. Em 1848 Karl Marx desafiou Smith e predisse que o capitalismo seria destronado pela ascensão inexorável do socialismo. Desde então têm [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Onde, capitalismo?</em></p>
<p>Em 1776 Adam Smith deu a luz à moderna ciência da economia ao predizer que a liberação do mercado de todas as formas de controle estatal nos conduziria ao melhor dos mundos possíveis. Em 1848 Karl Marx desafiou Smith e predisse que o capitalismo seria destronado pela ascensão inexorável do socialismo. Desde então têm surgido infindas profecias competindo entre si para determinar em que direção o capitalismo está conduzindo a nossa vida. No entanto, da perspectiva privilegiada do início do século XXI, podemos ver que o que tem surgido é a predominância global da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_neocl%C3%A1ssica">economia neoclássica</a> ou liberalismo econômico. De que forma devemos, portanto, interpretar as diversas predições feitas a respeito do capitalismo?</p>
<p>Para começar deve ficar claro que o capitalismo não gerou a utopia predita por Smith. Ao invés disso, vivemos numa época em que a desigualdade, a fome e a opressão econômica afetam mais gente ao redor do globo do que em qualquer outro período. Consequentemente é necessário enfatizar que a visão de Smith era, de fato, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">É um erro tentar redimir ou corrigir o capitalismo.</span>utópica (no pior sentido da palavra). A visão de Smith prometia aquilo que não podia ser atingido pelos meios que oferecia.</p>
<p>Em segundo lugar, o triunfo do liberalismo econômico deixou claro que o capitalismo não conduz ao socialismo, como fora previsto pelos marxistas tradicionais e por outros. Na verdade, o que vimos ocorrendo foi o exato oposto disso: a maior parte das nações socialistas se converteu ao capitalismo, e mesmo países nominalmente comunistas, como a China, adotam aquilo que é, no fundo, uma forma neoclássica de economia. Porque as coisas aconteceram dessa forma? Há inúmeras razões para o fracasso do socialismo (e a menor delas não será o maior poderio militar das nações capitalistas, que foram capazes de destruir muitos governos socialistas em seus primeiros estágios), mas a principal é que o socialismo estava associado em demasia ao próprio capitalismo. Slavoj Žižek argumenta da seguinte forma:</p>
<blockquote><p>O comunismo marxista, a noção de uma sociedade de produtividade pura à parte da estrutura do capital, era uma fantasia inerente ao próprio capitalismo. O socialismo fracassou porque era em última instância uma subespécie do capitalismo, uma tentativa ideológica de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, de escapar do cerco do capitalismo retendo ao mesmo tempo seus ingredientes chave.</p></blockquote>
<p>O socialismo representa um utopismo fracassado precisamente porque dá simplesmente prosseguimento ao utopismo do capitalismo (isto é, em vez de argumentar que o capitalismo conduz diretamente à utopia, argumenta que o capitalismo conduz indiretamente, através do capitalismo, à utopia).</p>
<p>Em terceiro lugar, outros que preveram que o capitalismo levaria à anarquia mostraram-se também enganados. Sem dúvida o capitalismo ocasionou a ruptura e fragmentação da maior parte dos corpos sociais, mas o resultado não foi o caos. Ao contrário, o que vemos no liberalismo econômico é o nascimento de enormes oligarquias que detém poder cada vez maior sobre um público fragmentado.</p>
<p>Quem então predisse corretamente a destinação do capitalismo em sua forma liberal? Surpreendemente, foram os marxistas que rejeitaram o elemento fatalista do marxismo aqueles a prever onde nos levaria o capitalismo. Foi gente como Bukharin, Lenin e Trotsky que previu com acerto que o capitalismo, deixado aos seus próprios recursos, se transformaria numa forma fascista de imperialismo. Falando claramente: a conquista global consumada pelo liberalismo econômico, com sua ênfase na privatização, na desregulamentação e em cortes nos gastos sociais, representa o triunfo global do capitalismo-como-fascismo.</p>
<p>É importante definir o que quero dizer aqui com &#8220;fascismo&#8221;. Tradicionalmente o fascismo é entendido como a subordinação de indivíduos, bem como de todas as entidades corporativas, ao Estado. O que ocorreu dentro do liberalismo econômico, no entanto, foi a subordinação de indivíduos e de todas as entidades corporativas,<em> incluindo o Estado</em>, aos poderes econômicos reinantes – as oligarquias, as multinacionais e aqueles que as servem (como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional). Com essa distinção em mente, os demais elementos característicos do fascismo tradicional mantém-se inalterados na experiência contemporânea do capitalismo-como-fascismo: [1] ele ataca todas as formas de coletividade e todos os corpos públicos; [2] define-se, portanto, pela sua compulsão pela conquista; [3] favorece os interesses de uns poucos em detrimento dos interesses de muitos; e [4] leva os muitos a enxergarem favoravelmente a sua própria repressão. A demonstração definitiva deste mecanismo está nos exemplos específicos dos diversos países em que o liberalismo econômico tem sido introduzido e aplicado.</p>
<p>Além disso é importante entender que o liberalismo econômico não existe como uma perversão do &#8220;verdadeiro capitalismo&#8221;; a economia neoclássica se desenvolve naturalmente da própria raiz do pensamento capitalista. Consequentemente a pergunta não é &#8220;o que deu errado com o capitalismo?&#8221;, porque ele está errado desde o princípio. Como diz George Weissman: &#8220;o germe do fascismo é endêmico ao capitalismo&#8221;. </p>
<p>É um erro, portanto, tentar redimir ou corrigir o capitalismo. A tentativa de voltar-se à forma de capitalismo anterior ao liberalismo econômico pode ser comparada ao esforço de escapar da Alemanha de 1945 para a Alemanha de 1934: uma contém a raiz da outra, o que torna o trajeto, além de impossível, inútil. </p>
<p>Aqui cabem muito bem as palavras de Simone de Beauvoir: &#8220;Protestar contra &#8216;excessos&#8217; ou &#8216;abusos&#8217; em nome da moralidade é um erro que denuncia uma cumplicidade ativa. Não há aqui &#8216;excessos&#8217; ou &#8216;abusos&#8217;, só um sistema que tudo permeia&#8221;. Consequentemente, o desafio para o cristão não é abraçar um &#8220;capitalismo mais humano&#8221; ou um &#8220;capitalismo responsável&#8221;. O desafio é trocar o capitalismo por um sistema totalmente diferente.</p>
<p align="right"><small>O insano e lúcido <strong>Dan</strong> (Daniel Oudshoorn)<br />
 <a href="http://poserorprophet.wordpress.com/2007/11/16/the-church-and-capitalism-part-i-i1/">Poser or Prophet</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug005.gif"></p>
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		<item>
		<title>Isso também vai passar [2]</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/isso-tambem-vai-passar-2/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 14:10:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Recomendações]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.
Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (&#160;&#160;) na barra de reprodução.







Veja também:
Isso também vai passar
Here it goes again
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p align="center"><span style="color:#B0B0A0">Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (&nbsp;<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/fullscree-button.png">&nbsp;) na barra de reprodução.</span></p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p><object width="560" height="340"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/qybUFnY7Y8w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/qybUFnY7Y8w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"></embed></object></p>
</td>
</tr>
</table>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/isso-tambem-vai-passar/">Isso também vai passar</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/here-it-goes-again/">Here it goes again</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Não sou seu porta-voz</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/nao-sou-seu-porta-voz/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 11:15:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[antiguru]]></category>

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		<description><![CDATA[Não piso numa livraria evangélica há talvez mais de quinze anos; hoje em dia a chance é ainda menor, agora que corro o risco de encontrar ali &#8211; imagine a minha cara &#8211; o meu próprio livro. Já basta o constrangimento de achar o livro da Bacia espreitando invariavelmente na estante de autojuda das livrarias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não piso numa livraria evangélica há talvez mais de quinze anos; hoje em dia a chance é ainda menor, agora que corro o risco de encontrar ali &#8211; imagine a minha cara &#8211; o meu próprio livro. Já basta o constrangimento de achar o livro da Bacia espreitando invariavelmente na estante de autojuda das livrarias seculares.</p>
<p>Agora que penso nisso, deve fazer uma boa década que não leio livros QUE FALEM SOBRE DEUS. Só consigo pensar em duas exceções, o <em>Ortodoxia Generosa</em> de Brian McLaren e o <em>Salvos da Perfeição</em> de Elienai Cabral Júnior &#8211; e, embora sejam livros excelentes (e falem sobre Deus apenas transversalmente, o que é quase perdoável), quase me arrependo de tê-los lido, porque lê-los é obrigar-se a recomendá-los, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">Eu não leria os meus próprios livros.</span>e ninguém em hipótese alguma deveria recomendar ou ler livros QUE FALEM SOBRE DEUS, muito menos &#8211; e acima de todos &#8211; os meus. </p>
<p>Preciso confessar então, com todas as letras, que eu nunca jamais leria os meus próprios livros, nem por dinheiro, nem por amizade, nem &#8211; Deus me perdoe &#8211; por amor. Em termos estritos, se rolasse uma verdadeira integridade pessoal, eu não teria sequer como recomendar meus livros de modo indireto, como vivo fazendo, ou permitir que circulassem. A única parcela da minha obra da qual não me envergonho miseravelmente, e na qual encontro algum alento e interesse, é a ficção, e vivo prometendo a mim mesmo dar mais atenção a ela. Mas vida de ex-dependente é assim mesmo: sempre resvalando nos velhos hábitos, sempre remoendo as velhas obsessões. Todo combate tem uma grande parcela de narcisismo.</p>
<p>Para corrigir o anterior, preciso esclarecer que sim, leio livros que falam sobre Deus, com frequência e em grande número, mas tratam-se de autores que não acreditam em Deus ou no mínimo desconfiam muito &#8211; e estão, portanto, muito mais abalizados para discorrer sobre o assunto de forma relevante e não tendenciosa.</p>
<p>Deixo então, acima de tudo, esta recomendação e a severa advertência: se você, caro leitor, costuma ler livros QUE FALAM SOBRE DEUS, largue imediatamente mão dessa vida. Reconheceça essa sua dependência, segura na mão de Deus e vai. Ler livros QUE FALAM SOBRE DEUS é uma forma secreta de impenitência, um modo sistemático de contornar e evitar o verdadeiro e vital arrependimento. Acredite em mim quando digo que as pessoas que têm alguma intimidade com Deus não estão perdendo tempo escrevendo sobre ele; paralelamente, quem conhece minimamente os recatos e métodos de Deus absolutamente não perderia tempo procurando-o num livro &#8211; especialmente um livro que pretendesse falar com alguma autoridade sobre ele<sup>1</sup>.</p>
<p>Se continuo escrevendo, portanto, não é pela esperança de encontrar alguém que entenda ou alguém que se deixe convencer. Não é para cumprir uma missão ou obedecer um chamado. Não é por imaginar que o que escrevo possa ser relevante para alguém além de mim, ou por crer que seja a aguardada articulação de uma silenciosa ânsia coletiva.</p>
<p>Posso ser muito prepotente, quase ao infinito, mas não a esse ponto. Não sonho ser representativo de ninguém além de mim mesmo.</p>
<p>Já fui muito igrejeiro, mas hoje minha abstinência eclesiástica é para todos os efeitos completa.</p>
<p>Já me considerei evangélico, mas hoje não sei se seria acertado dizer que compartilho da fé cristã; mais certo seria usar uma tradução antiga e dizer que, depois de muitos anos tentando evitar olhá-lo nos olhos, vi-me seduzido pela <em>persuasão de Jesus</em>.</p>
<p>Leio a Bíblia muito pouco, a ritmo de conta-gotas, e minha versão favorita, por ser a mais desarmante e portanto a mais acurada, é a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-fabulosa-biblia-dos-gatos-rsrs/">Bíblia dos gatos rsrs</a> &#8211; e talvez seja necessário me conhecer pessoalmente para não ter dúvida de que estou falando sério.</p>
<p>Já fui explicado como ateu, como homossexual e como católico. Não me ocorreria contradizer nem por brincadeira essas definições, especialmente porque representam acusações nas bocas em que foram proferidas; minha obrigação é acumular brasas sobre suas cabeças, para que ardam no seu inferno por <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">pressuporem a exclusão</a> e por condenarem o que não deve ser condenado. Pecar não é afrontar a ortodoxia de alguns, é <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/">mostrar-se em falta para com a humanidade de todos</a>.</p>
<p>Embora não tenha abandonado ainda a esperança de me tornar agente daquela transferência que Paul Tournier coloca no cerne do ministério de Jesus e à qual deu o nome de <em>reversão da culpa</em> &#8211; a tarefa de fazer com que os culpados sintam-se justificados e os justificados sintam-se culpados, &#8211; não me resta a expectativa de mudar a vida de ninguém, muito menos a minha. Certamente não através do que escrevo.</p>
<p>Não represento, caro leitor, o que você representa; represento o que represento, e temos de lidar com isso eu e você.</p>
<p>Existindo um Deus, ele não tem ilusões e sabe que não sou porta-voz de Deus (certamente não através do que escrevo). Não acalente você, meu amigo, essa ilusão.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug006.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2193" class="footnote">Naturalmente uma espécie semelhante de abstinência deve, mais cedo ou mais tarde, estender-se às próprias Escrituras. Eu mesmo li muito a Bíblia e passo a vida tentando esquecê-la, na esperança de ser capaz de colocá-la em prática (para mais sobre esse gracioso escândalo ver o último capítulo da versão impressa de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/em-seis-passos-o-livro/">Em seis passos</a> &#8211; e eis-me de novo recomendando o irrecomendável).</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Tenso</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 16:22:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[coreldraw]]></category>
		<category><![CDATA[painter]]></category>

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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/esse-efe.jpg" alt="Super-herói" /></p>
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		<title>Missão</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 12:39:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Vivo me forçando a me contradizer, para evitar me conformar ao meu próprio gosto.
Marcel Duchamp, citado por Harriet &#038; Sidney Janis em &#8220;Marchel Duchamp: Anti-Artist&#8221;
&#8211; revista View (21/3/45)

Leia também:
Depende de nós
Meu testamento literário
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vivo me forçando a me contradizer, para evitar me conformar ao meu próprio gosto.</p>
<p align="right"><small><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_duchamp">Marcel Duchamp</a>, citado por Harriet &#038; Sidney Janis em &#8220;Marchel Duchamp: Anti-Artist&#8221;<br />
&#8211; revista <em>View </em>(21/3/45)</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug007.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/depende-de-nos/">Depende de nós</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/meu-testamento-literario/">Meu testamento literário</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O escândalo da hospitalidade</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 10:26:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Para os ouvintes deste primeiro discurso de Pedro &#8220;arrepender-se&#8221; parece ter representado mudar de idéia tanto a respeito de Jesus quanto a respeito de sua mensagem de inclusão. Gente que até aquele momento via Jesus como um criminoso, um herege e um perdedor passava a encará-lo como vencedor, messias e exemplo a ser seguido; De [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para os ouvintes deste primeiro discurso de Pedro &#8220;arrepender-se&#8221; parece ter representado mudar de idéia tanto a respeito de Jesus quanto a respeito de sua mensagem de inclusão. Gente que até aquele momento via Jesus como um criminoso, um herege e um perdedor passava a encará-lo como vencedor, messias e exemplo a ser seguido; <span style="float:right; text-align:right; width:45%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas (Atos 2:41).</span>gente que encarava sua mensagem de graça e aceitação como delírio vulgar de uma doutrina que não se dava ao respeito mostrava-se agora disposta a colocá-la escandalosamente em prática.</p>
<p>Para essa espetacular transformação a narrativa não fornece outra explicação que a incubação do espírito. Fica claro que a <em>metanoia </em>da promessa Pedro não era sustentada pela mera lógica da sua argumentação; ela trazia por endosso o sopro coletivo da terrível lucidez do Espírito. O argumento verdadeiro e o verdadeiro desafio daquela mensagem era a incontornável comunidade dos cento e vinte postados diante da multidão. </p>
<p>Pedro estava, afinal de contas, convidando seus ouvintes (judeus, todos eles) a integrarem uma comunidade tão inclusiva e tolerante que permitia &#8211; na verdade exigia &#8211; que homens e mulheres adorassem no mesmo espírito, no mesmo recinto e com a mesma voz. Naquela cultura e naquela sociedade poucos escândalos maiores eram tidos como concebíveis, mas essa miscigenação era mera sombra do que ainda estava por vir. Quem seria capaz de abraçar a exigentíssima inclusividade do reino até as últimas consequências? Quem seria capaz de suportá-la?</p>
<p>Em retrospecto, as radicalidades da vida comum devem ter parecido desafio de pouca monta comparado ao de associar-se a uma comunidade disposta a ver-se associada a qualquer um. Estamos todos mais ou menos dispostos a suportar ou desfrutar da vida comum, desde que possamos escolher pelos nossos próprios critérios essa companhia &#8211; e aqui, num só golpe da narrativa, três mil impenitentes abriram mão dessa prerrogativa, entregando-se à insanidade de uma comunidade sem verdadeiro critério de admissão além da disposição coletiva de estender esse mesmo cavalheirismo a todos. E fizeram isso, conta-se, porque o espírito de Jesus deixara sulcos suficientemente profundos na sua passagem pela vida de uma centena de testemunhas.</p>
<p>Não é tão cedo, portanto, que devemos decidir ter perdido Jesus de vista no livro de Atos, pois até aqui a coerência ideológica dos evangelhos prevaleceu. &#8220;Os que receberam a sua palavra&#8221;, isto é, os que acolheram a sua mensagem de inclusão, foram todos imediatamente incluídos &#8211; sem trâmite que não o batismo &#8211; na comunidade subversiva dos discípulos.</p>
<p>Pode ser preciso salientar que com toda a probabilidade nenhuma outra comunidade na história havia demonstrado tão desarmante disposição à inclusividade &#8211; e certamente nenhuma comunidade (além dos desdobramentos do movimento cristão) demonstrou-a depois. <em>Três mil agregados num só dia</em> &#8211; esta é a assombrosa marca da ausência de critério de admissão na comunidade dos seguidores de Jesus. </p>
<p>Todos os movimentos sociais são mais ou menos inclinados ao recrutamento; porém as comunidades que se dão ao respeito, especialmente as que alegam para si algum aval divino ou sobrenatural, impõem invariavelmente condições e critérios muito claros de seleção, normas normalmente severas que determinam quem pode e quem não pode participar &#8211; sob pena ou temor de resvalarem na mais completa descaracterização. </p>
<p>E como poderia ser diferente? Que grupo, que ideal e que sonho sobreviveriam a uma inclusividade sem restrições?</p>
<p>O filósofo francês Jacques Derrida, furioso mas terníssimo promotor da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Desconstru%C3%A7%C3%A3o">desconstrução</a>, enquanto refletia sobre problemas e perigos semelhantes concluiu que a verdadeira justiça só se manifesta numa hospitalidade pura, absolutamente sem limites.</p>
<p>Immanuel Kant já havia avançado, em seu tratado sobre a <em>Paz Perpétua</em> (1795), a noção de &#8220;hospitalidade universal&#8221;, mas tratava-se de uma hospitalidade delimitada por claras restrições. Para o sensatíssimo Kant, uma nação só deveria oferecer hospitalidade sob duas condições: o estrangeiro deveria comportar-se pacificamente no país que estivesse visitando, e tinha o direito de visitar, mas não de permanecer. </p>
<p>Para Derrida, a única verdadeira hospitalidade, ao contrário daquela exemplificada pela cautela de Kant, é absolutamente incondicional &#8211; é imponderada e irrestrita e inescapavelmente arriscada. Para Derrida, impor restrições para a hospitalidade é o mesmo que sonegá-la. Devemos estar dispostos a acolher um estranho mesmo que &#8220;ele seja o diabo&#8221;, mesmo que ele se mostre pronto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/uma-pura-graca/">&#8220;a destruir nossa casa&#8221;</a>.</p>
<p>O problema com a hospitalidade condicional, explica Derrida, é que ela não consegue estabelecer a paz, porque está fundamentada, em última instância, numa violência. Qualquer comportamento &#8220;inaceitável&#8221; do estranho será interpretado por nós como violência da parte dele e será corrigido com violência da nossa parte, mas isso apenas porque fomos nós que cometemos a violência de não aceitá-lo incondicionalmente em primeiro lugar. Quando impomos condições para a hospitalidade não estamos verdadeiramente abertos à outra pessoa e não nos confrontamos de fato com ela; o que fazemos nessa postura é anular a alteridade do outro, desfigurando-o e remoldando-o à nossa própria imagem.</p>
<p>O problema com a hospitalidade pura, por outro lado, é que abrir mão de critérios de seleção e de mecanismos de controle não é coisa que seres humanos prefiram de fazer voluntariamente. Intuitivamente sabemos que abrir mão de controle é abrir mão do futuro &#8211; e isso comunidade nenhuma deseja fazer, porque seu sonho é a consagração e seu sustento a idéia de permanência. Uma comunidade radicalmente inclusiva é uma ameaça porque não há nela a ordem interna que garante seus próprios resultados e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/confissoes-de-um-ex-dependente-de-igreja/">suas próprias premiações</a>; sua ausência de limites nos impede, muito literalmente, de podermos prever onde ela vai parar.</p>
<p>Para Derrida, a verdadeira hospitalidade deve representar uma abertura irrestrita a esse futuro desconhecido, um futuro sobre o qual nada pode ser determinado &#8211; a não ser que não será de forma alguma condicionado &#8220;pelos conceitos historicamente restritos de humanidade, de ética e de democracia debaixo dos quais trabalhamos atualmente&#8221;<sup>1</sup>.</p>
<p>A hospitalidade radicalmente inclusiva produzirá, para usar a linguagem dos evangelhos, um reino sobre o qual só podemos falar através de comparações. Para adentrar o reino será preciso abrir mão daquilo que nos é mais caro &#8211; e deve estar evidente que o que valorizamos acima das possessões são os nossos critérios. Quem ousará arrepender-se<em>/mudar de mentalidade</em>, passando a ignorar as normas políticas, sociais, culturais, econômicas, sexuais e religiosas de relacionamento a fim de pisar o domínio desconhecido e arriscado de uma inclusividade radical? Quem irá se dispor a despojar-se de tudo que possui para adquirir a pérola que ninguém parece querer? Quem ousará adentrar voluntariamente o campo minado do Reino?</p>
<p>Muito claramente, só será capaz de fazê-lo quem tiver sido devidamente seduzido pelo Não-condicionado, aquele que estiver inteiramente imbuído do seu espírito. Em seus dias na terra Jesus já havia trabalhado em todas as frentes para fazer avançar a noção de que as respostas de Deus, ao contrário das nossas, não são condicionadas. Sua santidade é singularidade de critérios, não distância espiritual. Deus, ao contrário de nós, derrama generosidade sobre justos e injustos. Deus come com pecadores e toca os impuros. Deus está trabalhando quando cremos que só é seguro descansar. Deus é amor, e as obrigações do amor só o que não é amor <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-obra-inconclusa/">pode restringir</a>.</p>
<p>A narrativa de Atos vai revelando, passo a passo, as tremendas consequências e desafios associados a essas vertigens. Se Deus não é condicionado, nossa hospitalidade &#8211; nossa disposição à tolerância e à aceitação &#8211; também não deve ser. Se Deus não é condicionado, o futuro também não deve ser. Se Deus é amor, amar é prover expressões tangíveis e mensuráveis do incondicional<sup>2</sup>.</p>
<p>E esses desafios veremos quem estará disposto a abraçar, e até onde.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2190" class="footnote">Hans Boersma.</li><li id="footnote_1_2190" class="footnote">Andrew Marin.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/as-possibilidades-do-futuro/' title='As possibilidades do futuro'>As possibilidades do futuro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/' title='Pecar é omitir-se'>Pecar é omitir-se</a></li><li>O escândalo da hospitalidade</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/' title='A invenção do não-condicionado'>A invenção do não-condicionado</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 11:05:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[painter]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5384194"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/5384194_7b379f768679cb684853942ef5ebd2b8_standard.jpg" height="460" width="460" title="Clique para ampliar" /><br />
</a></p>
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		<title>Século XX não passou de uma elaborada farsa, explicam líderes mundiais reunidos em Berna</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 12:34:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[No que representa certamente a mais desconcertante fraude coletiva da história da humanidade, líderes mundiais reuniram-se esta manhã em Berna, na Suíça, para confessarem publicamente que o século XX (bem como aquilo que tem passado como a primeira década do século XXI) não passou de &#8220;uma elaborada farsa&#8221;.  Embora os detalhes ainda estejam sendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No que representa certamente a mais desconcertante fraude coletiva da história da humanidade, líderes mundiais reuniram-se esta manhã em Berna, na Suíça, para confessarem publicamente que o século XX (bem como aquilo que tem passado como a primeira década do século XXI) não passou de &#8220;uma elaborada farsa&#8221;.  Embora os detalhes ainda estejam sendo revelados, o propósito da fraude parece ter sido distrair o público de diversas questões mundiais &#8220;reais&#8221; através de uma &#8220;realidade alternativa&#8221; que representasse diversão suficiente, enquanto os líderes se esforçavam para resolver essas questões. A data de hoje foi estabelecida e confirmada como sendo 20 de fevereiro de 1900.</p>
<p>&#8220;Foi tudo absolutamente necessário&#8221;, disse um oficial ligado diretamente à fraude, que prefere permanecer anônimo. &#8220;Só acho que acabou saindo do controle&#8221;.</p>
<p>Aparentemente em 1897 uma série de tensões geopolíticas, crises financeiras e chocantes escândalos relacionados a apostas desportivas abalaram de tal forma as bases do poder que foi considerado essencial distrair a atenção da massa pública através de um logro de proporções épicas. No início de 1898 Nikola Tesla e George Washington foram despachados para os pólos norte e sul para supervisionarem a construção de gigantescos eletromagnetos capazes de interferir no pensamento humano. Enquanto isso empresários de imprensa, editores e escritores ao redor do mundo foram recrutados, juntamente com um batalhão de hipnotizadores de palco, a fim de persuadirem o público a tomar como real um cenário cuidadosamente planejado (porém inteiramente fictício) de eventos paralelos. Essa &#8220;realidade&#8221;, nascida da pena conjunta de H. G. Wells e Júlio Verne, encheu a consciência coletiva com histórias de invenções fascinantes: um &#8220;aeroplano&#8221; movido a motor, uma carruagem &#8220;sem cavalos&#8221; (também conhecida por &#8220;automóvel&#8221;) e algo chamado &#8220;<a href="https://www.shamwow.com/ver21/index.asp">ShamWow</a>&#8220;. A fim de prover um equilíbrio para essas maravilhas, os dois escritores engendraram tragédias diversas como a &#8220;Grande Depressão&#8221; e várias &#8220;Guerras Mundiais&#8221; que envolviam maquinário e armas inimagináveis, de modo a manter o público hesitando entre o deleite e o horror. &#8220;Era tudo para acontecer em tempo real&#8221;, explicou nossa fonte, &#8220;mas os caras se empolgaram tanto e a narrativa foi ficando tão densa que tivemos fazer com que parecesse que o tempo estava correndo mais devagar&#8221;. A façanha requereu o conluio coletivo dos fabricantes de relógios e calendários, que foram capazes de fazer com que os últimos 751 dias parecessem ter durado 112 anos.</p>
<p>As repercussões da erradicação instantânea de tão significativa porção de &#8220;tempo&#8221; tem implicações tanto globais quanto individuais, a maior parte das quais permanecem ainda por descobrir. Várias minorias étnicas e religiosas, por exemplo, estão inseguras sobre se suas respectivas perseguições terminaram ou estão ainda por começar. Fortunas individuais também se alçaram e caíram. Típica é a história de um certo <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/James_cameron">James &#8220;Jim&#8221; Cameron</a>, de Malibu, Califórnia, que tendo até hoje vivido na crença de ser um &#8220;magnata do cinema&#8221;, lançou-se no mais inflamado acesso de raiva quando confrontado com a seguinte mensagem de seu verdadeiro empregador (Avery Briggs, do Haras de Santa Mônica): &#8220;Favor comparecer aos estábulos imediatamente, portando vassoura, sob pena de se ver substituído por sujeito mais jovem e agradável&#8221;.</p>
<p>Nem todos, no entanto, estão se mostrando indignados ou confusos. Whitney Washburn, 67 anos, de Whittier, Califórnia, colocou as coisas da seguinte forma: &#8220;É como ver tirado um peso enorme das costas. Coisas inexplicáveis como TWITTER e a popularidade de <a href="http://images.google.com.br/images?q=lucille+ball&#038;oe=utf-8&#038;rls=org.mozilla:en-US:official&#038;client=firefox-a&#038;um=1&#038;ie=UTF-8&#038;ei=Nsd_S53wOo6muAfCpfSFBw&#038;sa=X&#038;oi=image_result_group&#038;ct=title&#038;resnum=4&#038;ved=0CFYQsAQwAw">Lucille Ball</a> finalmente fazem sentido. E gravadores de fita cassete, sempre achei que fossem enganação&#8221;.</p>
<p>O presidente Barack Obama, parecendo perplexo mas nitidamente aliviado, recebeu do presidente <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/William_McKinley">McKinley</a> a informação de que os dois deverão se reunir ainda esta noite para discutir o futuro da nação.</p>
<p align="right"><small>O ilustrador <strong>Will Finn</strong> <a href="http://willfinn.blogspot.com/2010/01/20th-century-declared-hoax.html">em seu blog</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug009.gif"></p>
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		<title>Amazing Grace</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Feb 2010 18:37:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pãezinhos de mel do Mosteiro de São Bento. Com uma oração a Santa Rudgy e a São Pedro pelas graças recebidas ano passado.

   


]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pãezinhos de mel do <a href="http://www.mosteiro.org.br/">Mosteiro de São Bento</a>. Com uma oração a Santa Rudgy e a São Pedro pelas graças recebidas ano passado.</p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5380124/view-large"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/5380124_84e677cf7403e6f4c6870a3f0d8bf82e_standard.jpg" height="306" width="460" title="Clique para ampliar" /><br />
</a></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug010.gif"></p>
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		<title>Pecar é omitir-se</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Feb 2010 11:32:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Este é o momento em que o mais desatento dos leitores desta série deverá ser capaz de me acusar de parcialidade, porque terá percebido que estou falando o tempo todo em espírito subversivo, em comunidade inclusiva e mudar o mundo, e não reservei qualquer espaço ou qualquer ênfase para falar de pecado ou de condenação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é o momento em que o mais desatento dos leitores desta série deverá ser capaz de me acusar de parcialidade, porque terá percebido que estou falando o tempo todo em espírito subversivo, em comunidade inclusiva e mudar o mundo, e não reservei qualquer espaço ou qualquer ênfase para falar de pecado ou de condenação (que é sua consorte) ou de salvação (que é o seu algoz). Quem me acompanhou até aqui poderá ter a impressão de que a boa nova que encontro nos evangelhos e neste livro de Atos apregoa menos uma religião a ser adotada (ou uma salvação a ser apropriada) do que um movimento revolucionário, com conotações vagamente <em>hippies</em>, cuja imoderada ambição é derrubar preconceitos, desarmar impérios e corrigir desigualdades ancestrais tendo um sonho por capacete e uma flor por espada. Meu leitor poderá pensar que vejo o cristianismo deste primeiro século como uma conspiração radical e pacífica, soprada do céu mas com consequências muito práticas e exigentes neste nosso mundo; um movimento humanitário e humanizador cuja marca mais visível e consistente era a promoção de toda sorte de inusitada reforma social, tendo em vista a criação de uma nova e radicalmente inclusiva estirpe de comunidade, pelo uso indiscriminado e intransigente da (sempre perigosa) ferramenta da paz e do amor. Poderá concluir que é mais ou menos isso que, na minha visão, Jesus entendia por reino de Deus.</p>
<p>E pensando assim não estará muito longe da verdade.</p>
<p>Porém mesmo quem se mostrou capaz de concordar comigo que para Lucas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">arrepender-se é mudar o mundo</a> pela via da inclusão social (e não, como costumamos pensar, &#8220;abandonar o pecado&#8221; em qualquer sentido convencional) pode não resistir à indelicadeza de me lembrar que o batismo, tanto no livro de Atos quanto no evangelho do mesmo autor, é declaradamente administrado &#8220;tendo em vista a absolvição dos pecados&#8221;.</p>
<p>É precisamente o que Pedro acaba de dizer em sua resposta exemplar aos romeiros do Pentecostes (Atos 2:38), e é assim que Lucas descreve o batismo administrado por João durante o seu ministério (Lucas 1:77, 3:3). Não há como escapar que, para o autor de Lucas-Atos, o batismo (quer entendido como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/">mergulho na água</a>, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/">na comunidade dos discípulos</a> ou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/">no espírito de Jesus</a>), possibilitava <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">Nossos pecados mais graves são os nossos pecados mais frequentes e mais públicos &#8211; e também os mais invisíveis.</span>por si mesmo o resgate ou absolvição dos pecados &#8211; ou estava, pelo menos, irreparavelmente associado a esse indulto.</p>
<p>Como que para reforçar essa vitória final sobre a transgressão e o ingresso num novo modo de vida (movimento duplo que, afinal de contas, consiste na leitura usual que fazemos do batismo), Pedro conclui sua resposta exemplar com essa mesma ênfase no pecado: &#8220;salvai-vos desta geração perversa&#8221; (v. 40).</p>
<p>Não estarei então, com essa história de paz e amor e de reforma social, sendo culpado de dourar a pílula e de minimizar as ênfases dos apóstolos na necessidade de uma nova vida de pureza não apenas social mas pessoal (ou, para chutar o pau da barraca, já que é nisso que estamos sempre pensando, pureza sexual)?</p>
<p>Quando Lucas fala em &#8220;remissão dos pecados&#8221;, de que pecados estamos falando?</p>
<p>Podemos, sem forçar nem um pouco a mão, supor que nos versos acima a &#8220;remissão (ou absolvição) dos pecados&#8221; refere-se a toda sorte de transgressões &#8211; das mais ligeiras às mais severas, das mais enraizadas às mais recentes, das mais distraídas às mais fogosas; podemos ainda, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/">como fizemos há alguns parágrafos</a>, supor que incluía tanto as faltas que podiam ser canceladas pela apresentação de sacrifícios quanto aquelas que nenhuma oferta podia apagar.</p>
<p>Porém não temos como saber ao certo, porque ninguém nos evangelhos ou no livro de Atos rebaixa-se a fazer uma lista de pecados ou a dividi-los em classes ou categorias. Fomos nós que mais tarde nos alçamos a preencher essa lacuna e empreendemos uma temerária tabulação (e talvez não exista pecado maior).</p>
<p>Isso não quer dizer, no entanto, que não haja indicação muito clara, nos evangelhos, de quais são na visão de Jesus e de João Batista os pecados mais condenáveis &#8211; porque temos de supor que as faltas que mais frequentemente reprovam representam para eles também os pecados mais graves. E, para surpresa e embaraço dos que se afirmam representantes legítimos da sua herança, os pecados que Jesus e seu precursor consistentemente denunciam não são aqueles que chamamos &#8220;da carne&#8221; &#8211; a promiscuidade, o adultério, a luxúria, a gula, a embriaguez e suas criativas e embraçosas variações, &#8211; nem os pecados que classificamos como espirituais &#8211; a idolatria, a incredulidade, a impenitência e seus et ceteras.</p>
<p>Para Jesus, nossas faltas mais graves são justamente os nossos pecados mais frequentes e mais públicos &#8211; e também os mais invisíveis, aqueles que precisamos de uma epifania, uma poderosa e inclemente intervenção exterior, para sermos capazes de enxergar. Porque para ele os pecados realmente graves não são os que promovem as distrações da carne ou as atrofias da irreligião, mas os que dizem respeito às relações entre as pessoas. Pecar não é rebaixar-se ao sensorial ou negar-se a dobrar-se à devida evidência; pecar é recusar-se a ser como Deus, e recusar-se a ser como ele é recusar-se a oferecer indiscriminadamente a misericórdia. Pecar é sonegar um abraço, um curativo e um lugar à mesa.</p>
<p>O incrível é que essa sua opinião seja endossada sem ressalvas por ninguém menos que João Batista, o asceta e o <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/quarto-passo-viva-inteiramente-inserido-no-seu-mundo/"><em>outsider</em></a>, o profeta que pelo que sabemos não conheceu o abraço sexual, que se vestia de pelos de camelo, vivia monasticamente no deserto e recusava-se a se alimentar do que não lhe fosse entregue sem intermediários pela natureza. Como vimos há pouco, o próprio João Batista, embora mantivesse a sua sob controle, recusava-se a imprimir qualquer ênfase sobre os pecados da carne; os frutos do arrependimento que ele reconhece e recomenda <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">dizem todos respeito</a> à aplicação da misericórdia e da justiça na relação entre as pessoas<sup>1</sup>.</p>
<p>No Novo Testamento o pecado a ser abandonado, perdoado e corrigido está invariavelmente ligado à qualidade da nossa relação com o outro. Abandonar o pecado (ou, alternativamente, &#8220;vencer a carne&#8221;) é adotar um modo de vida e de pensar justo e igualitário, e talvez nenhum outro evangelista se esforce para deixar isso mais claro do que o autor de Lucas-Atos. </p>
<p>Já vimos que a questão da generosidade e da distribuição igualitária de recursos está no cerne da parábola <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">do rico e do Lázaro</a> (Lucas 16:19-31). Mas a inclusividade e a misericórdia são também as lições de outra parábola peculiar a Lucas, a história do bom samaritano (10:33-36). Tecnicamente o levita e o sacerdote não cometeram pecado algum passando ao largo do homem ferido na estrada; ao contrário, não seria fora de tom, naquele tempo, elogiar o zelo dos dois em manter a pureza ritual e, consequentemente, sua aptidão para participar do culto no Templo. Ao apresentar a generosidade sem critério e sem medida do samaritano que passou em seguida, Jesus está explicando (a seu modo sempre transversal) que o pecado dos dois primeiros não foi, incrivelmente, de natureza positiva, mas negativa. Ambos se tornaram condenáveis não por algo que fizeram, <em>mas por algo que deixaram de fazer</em>. Seu pecado foi omitirem-se.</p>
<p>Essa preocupação com a correção das injustiças sociais é um dos temas centrais da doutrina de Lucas. Como vimos, é apenas Lucas que explica que os frutos do arrependimento são <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">demonstrações de generosidade e justiça</a>. É apenas Lucas que faz Jesus dizer aos discípulos (e não apenas ao jovem rico) &#8220;vendam o que possuem e dêem como esmola&#8221; (12:33). A inclusividade e a misericórdia são ainda a chave da parábola (também peculiar a Lucas) <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">do filho pródigo</a> (15:11-32). É apenas Lucas que conta a história de Zaqueu (19:1-10), que viu a face da salvação no dia em que decidiu restituir as injustiças econômicas que havia imposto aos submetidos à sua influência. E, como estamos prestes a ver, esta ênfase humanitária e igualitária se estenderá muito inequicamente livro de Atos adentro.</p>
<p>E, embora seja Lucas a escancarar o tema, será preciso lembrar que este assunto e esta ênfase não são de modo alguma exclusividade sua. Para levantar um único e espetacular exemplo, basta lembrar a última porção (25:31-46) do último discurso público de Jesus registrado no evangelho de Mateus. Aqui o rabi de Nazaré está muito declaradamente separando ovelhas de bodes: a triagem final está sendo feita entre os que serão admitidos no paraíso e os que serão lançados sem trâmite no inferno. E, inacreditavelmente, na opinião de Jesus os pecados que merecem o inferno não são, nenhum deles, convencionais ou positivos. Neste que é o último momento e definitivo momento, o filho do Homem (e portanto o próprio Deus) não reserva uma palavra de condenação para os idólatras, os apóstatas, os adúlteros, os lascivos e os incrédulos. Escandalosamente, na cena final os condenados não são os que fizeram o que não era permitido, mas os que <em>deixaram de fazer</em> o bem ao próximo &#8211; &#8220;porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes&#8221;.</p>
<p>A última mensagem de Jesus na narrativa de Mateus é, portanto, a mesma tão calorosamente avançada por Lucas ao longo do seu próprio evangelho e da sua continuação. Para nós a reviravolta reside em que, ao contrário de tudo que a tradição cristã levou-nos a pensar nos séculos que nos separam dos dias do Filho do Homem, pecar não é fazer o proibido: pecar é omitir-se. &#8220;Sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim&#8221;. </p>
<p>E ele não hesita em pontuar singelamente: &#8220;E irão eles para o castigo eterno, mas os justos [isto é, os que não se omitiram] para a vida eterna&#8221;.</p>
<p>Uma das tremendas singularidades dos evangelhos, portanto, está na sua insistência e na sua consistência em sugerir que todos os pecados são sociais &#8211; ou melhor dizendo, todos os pecados dizem respeito às relações interpessoais.</p>
<p>Esta realidade está encapsulada nos dois mandamentos que Jesus reconheceu como estando acima de todos os outros, as injunções de amar a Deus (sobre todas as coisas) e amar ao próximo (como nós mesmos). Se são esses os grandes mandamentos, são essas também as grandes transgressões. Pecar não é avançar contra o que é proibido, é mostrar-se em falta com as pessoas.</p>
<p>É por isso, naturalmente, que <em>arrepender-se</em> é <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">abraçar a inclusividade e a misericórdia</a>; porque fazer isso é deixar, finalmente, de pecar contra Deus e contra o próximo. É evidentemente isso o que Pedro está dizendo com este &#8220;salvai-vos desta geração perversa&#8221; &#8211; isto é,<em> desassociem-se por completo do modo exclusivo/egoísta de viver e de pensar das pessoas deste mundo</em>. E que Pedro cria que a alternativa à perversidade do mundo são a inclusividade e a generosidade (e não, digamos, o ascetismo e a religiosidade), ficará muito claro no que acontecerá depois.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug012.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2184" class="footnote">Mesmo a denúncia que levou o Batista à morte, sua insistência em condenar o tetrarca Herodes por ter tomado para si a esposa de seu irmão, talvez diga respeito a uma culpa mais interpessoal do que sexual.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/as-possibilidades-do-futuro/' title='As possibilidades do futuro'>As possibilidades do futuro</a></li><li>Pecar é omitir-se</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-escandalo-da-hospitalidade/' title='O escândalo da hospitalidade'>O escândalo da hospitalidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/' title='A invenção do não-condicionado'>A invenção do não-condicionado</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Capitalismo de desastre</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Feb 2010 23:17:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pense comigo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Logo depois da passagem do furacão que esmagou New Orleans, o guru capitalista Milton Friedman (falecido em novembro de 2006), sugeriu que havia ali a oportunidade de eliminar-se o sistema de escolas públicas da cidade, substituindo-o por escolas privadas construídas com subsídio do governo. Sua sugestão foi abraçada por empreendores e colocada em prática com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Logo depois da passagem do furacão que esmagou New Orleans, o guru capitalista Milton Friedman (falecido em novembro de 2006), sugeriu que havia ali a oportunidade de eliminar-se o sistema de escolas públicas da cidade, substituindo-o por escolas privadas construídas com subsídio do governo. Sua sugestão foi abraçada por empreendores e colocada em prática com recursos que teriam de outro modo sido aplicados no auxílio direto às vítimas. Enquanto o trabalho de reparo dos diques andava a passo lento, o sistema (agora privado) de educação da cidade era concluído em tempo recorde. Antes do Katrina havia 123 escolas públicas em New Orleans; hoje em dia há quatro.</p>
<p>Naomi Klein:</p>
<blockquote><p>Por mais de três décadas [Milton] Friedman e seus poderosos seguidores têm aperfeiçoado esta mesma estratégia: aguardam uma crise de grandes proporções, depois vendem porções do estado à iniciativa privada enquanto os cidadãos estão ainda recuperando-se do choque, tornando rapidamente essas &#8220;reformas&#8221; permanentes.</p>
<p>Em um de seus artigos mais influentes Friedman articulou o cerne tático da panacéia capitalista contemporânea, aquilo que passei a entender como doutrina de choque. Ele observou que &#8220;somente uma crise &#8211; real ou percebida &#8211; produz verdadeira mudança. Quando essa crise ocorrer, as ações a serem tomadas dependem das idéias que estiverem circulando naquele momento.  Essa, creio, é nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantendo-as vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável&#8221;. Friedman estava convencido de que quando uma crise ocorria era crucial agir com rapidez e impor mudanças velozes e irreversíveis antes que a sociedade devastada pela crise resvalasse novamente na &#8220;tirania do status quo&#8221;. Ele estimava que &#8220;uma nova administração tem de seis a nove meses para implantar mudanças de grande monta; se não age de forma decisiva nesse período, não chegará a ter outra oportunidade&#8221;. Variação do conselho de Maquiavel de que danos devem ser infligidos &#8220;todos de uma vez&#8221;, essa provou ser uma das mais duradouras de Friedman.</p>
<p>Chamo esses ataques orquestrados contra a esfera pública no rastro de eventos catastróficos, combinados ao tratamento de desastres como estimulantes oportunidades de mercado, de &#8220;capitalismo de desastre&#8221;: <strong>disaster capitalism</strong><sup>1</sup>. </p></blockquote>
<p>Não falta quem observe que uma versão de espetaculares proporções da aplicação desta doutrina está ocorrendo <a href="http://socialistworker.org/2010/01/25/the-humanitarian-myth">neste preciso momento</a> no Haiti.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug011.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2185" class="footnote">Naomi Klein, <em>The Shock Doctrine</em>, Metropolitan Books, 2007</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Uma pura graça</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 17:53:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[graça]]></category>
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		<description><![CDATA[Devo estar despreparado, ou antes preparado para estar despreparado, para a chegada inesperada de qualquer outro. Será isso possível? Não sei dizer. Porém se existe uma pura hospitalidade, ou uma pura graça, ela consiste nessa abertura sem horizonte, sem horizonte de expectativa, uma abertura com relação ao recém-chegado não importa quem seja. Isso pode ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Devo estar despreparado, ou antes preparado para estar despreparado, para a chegada inesperada de <em>qualquer</em> outro. Será isso possível? Não sei dizer. Porém se existe uma pura hospitalidade, ou uma pura graça, ela consiste nessa abertura sem horizonte, sem horizonte de expectativa, uma abertura com relação ao recém-chegado não importa quem seja. Isso pode ser algo terrível, porque o recém-chegado pode ser uma pessoa boa ou pode ser o diabo; porém se você exclui a possibilidade de que o recém-chegado esteja vindo para destruir a sua casa &#8211; se você quer estar no controle disso e excluir de antemão essa possibilidade &#8211; não existe hospitalidade.</p>
<p><small><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_derrida">Jacques Derrida</a></strong>, Hospitality, Justice and Responsability, em <em>Questioning Ethics: Contemporary Debates in Philosophy</em> (London: Routledge, 1999). </small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug013.gif"></p>
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		<title>Steal Gogh Flowers</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 23:18:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[brabo desenhando]]></category>
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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.








Também no Brabolog.
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
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<p align="center">
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</td>
</tr>
</table>
<p>Também no <a href="http://www.e-brabo.com/blog/2010/steal-gogh-flowers">Brabolog</a>.</p>
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		<title>Carta a um homem que pede que eu o ensine como orar</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 09:56:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[pessimismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro Z.,
Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.
Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos &#8211; e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.
Você pergunta como e por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Z.,</p>
<p>Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.</p>
<p>Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos &#8211; e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.</p>
<p>Você pergunta como e por que uma pessoa sem religião &#8211; &#8220;sem um ato espiritual, que pisou uma igreja somente em seu batismo e não tem o hábito de orar&#8221; &#8211; pode prosperar. O que posso dizer é que variações deste questionamento aparecem constantemente ao longo do Antigo Testamento (por exemplo, no salmo 73).</p>
<p>O que o Novo Testamento faz, como em todos os assuntos, é reverter a pergunta: porque uma pessoa sem Deus não deveria prosperar? Deus derrama o seu sol e faz chover sobre justos e injustos. Melhor ainda: porque uma pessoa com Deus deveria prosperar? Na verdade, há inequívocas indicações no Novo Testamento de que seguir Jesus é seguir o seu caminho de renúncia, sofrimento, anulação e desintegração. A teologia da prosperidade não encontra qualquer brecha nesta boa nova.<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.6em; line-height: 1.3em">Cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo.</span> O que está dito aqui é &#8220;quem quiser me seguir negue-se a si mesmo tome a sua cruz&#8221; e &#8220;basta a cada dia o seu mal&#8221;. Ou ainda, minha expressão favorita, encontrada em Atos 14:22: &#8220;por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus&#8221;.</p>
<p>Será então verdade que o cristianismo é um movimento essencialmente pessimista? Sim e não. O que os seus primeiros proponentes deixam claro é que quem quiser seguir Jesus (e ele mesmo deixou claro que ninguém é obrigado!) deve estar disposto a deixar tudo para trás a fim de assumir um novo caminho. A estranhíssima vocação de um seguidor de Jesus é encontrar a paz mitigando o sofrimento dos outros, e não o seu próprio.</p>
<p>Para Jesus e os demais autores do NT, o problema do mundo dos homens é que ele é totalmente implacável; precisamente como animais, as pessoas só buscam solução para os seus próprios apetites, deixando pouco ou nenhum espaço para misericórdia, para a inclusividade e para o respeito interpessoal. É justamente porque o mundo é implacável que você foi demitido e ainda não encontrou espaço para voltar ao mercado. Na grelha do capitalismo, cair para o fogo aos 56 anos de idade é considerado trajeto sem volta.</p>
<p>A boa nova, como apresentada por Jesus, é que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-ousada-e-intransigente-demanda/">o reino de Deus</a> foi inaugurado, e nesta nova realidade todos devem trabalhar de forma voluntária e consistente para que o mundo se torne menos implacável. Neste reino todos devem dar um passo além da carne (ou seja, dar um passo além das limitações da natureza humana), e aprender a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">imitar a Deus</a> em sua inclusividade e generosidade. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo">Arrepender-se é mudar o mundo</a>.</p>
<p>Basta olhar ao redor para ver que este é um processo que está longe de estar sendo implantado satisfatoriamente. Mais do que isso, Jesus deixou suficientemente claro que a boa nova é de tal natureza que não devemos esperar ser nós mesmos beneficiados por ela; o que cada um pode esperar é meramente fazer sua parte para que o mundo se mostre menos implacável e injusto <em>para os outros</em>. O mundo dos afetados pelas nossas omissões é o único que podemos mudar.</p>
<p>Desde o tempo de Jó uma importante linha de pensamento dentro da Bíblia defende a idéia de que as coisas não acontecem neste mundo a partir de uma lógica de retribuição. Neste mundo não é que os bonzinhos e esforçados são premiados e os malvados punidos e confundidos. Como deixa claro o próprio livro de Jó, o mistério é mais profundo e não há respostas fáceis para o problema do sofrimento.</p>
<p>O escândalo do Novo Testamento está em sugerir que não apenas a religião não é necessária para sermos beneficiados <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/mapeando-o-deus-que-nao-faz-barganhas/">pela graça divina</a>, mas que cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. Isso se faz quando nos arrependemos &#8211; isto é, quando passamos a imitar Deus em sua disponibilidade assombrosa de dar e dar-se.</p>
<p>Na lógica exigente da boa nova é por minha culpa que você está desempregado, e amenizar as durezas da sua condição é de minha única responsabilidade. Não posso pedir que Deus faça isso, e não posso esperar que outra pessoa o faça.</p>
<p>Numa palavra, não posso ensinar você a orar, mas posso oferecer um abraço, um beijo e um lugar à mesa. Mande seu telefone que quero ligar pra gente conversar.</p>
<p>Abração</p>
<p>PB </p>
]]></content:encoded>
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		<title>As possibilidades do futuro</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Feb 2010 11:01:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Se foi necessário tamanho parêntese para recuperarmos parte do sentido de duas únicas expressões da resposta de Pedro &#8211; &#8220;arrependam-se&#8221; e &#8220;sejam batizados&#8220;, é para ficar demonstrado que a aparente solidez das palavras é totalmente ilusória. As palavras são pedras que no rio do tempo perdem por completo as suas arestas e adquirem outras formas.
Os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se foi necessário tamanho parêntese para recuperarmos parte do sentido de duas únicas expressões da resposta de Pedro &#8211; &#8220;<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/">arrependam-se</a>&#8221; e &#8220;<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/">sejam batizados</a>&#8220;, é para ficar demonstrado que a aparente solidez das palavras é totalmente ilusória. As palavras são pedras que no rio do tempo perdem por completo as suas arestas e adquirem outras formas.</p>
<p>Os estudiosos dessas transformações linguísticas explicam que quando examinamos uma palavra hoje em dia, por mais aplicada que seja a nossa investigação, não temos como saber o formato exato que tinha essa mesma palavra há cem ou duzentos anos. A norma inflexível é que, com a acumulação dos incidentes do tempo, vai ficando mais difícil determinar como determinado termo era usado ou interpretado numa dada época. Isso sem contar o fato de que, mesmo dentro dos limites de um único intervalo de tempo (digamos, na nossa própria época) ou de um único autor (digamos, este), uma palavra não se submete a assumir um significado fixo, mas insiste em esconder sua nudez atrás de nuanças e fluididades. </p>
<p>Como resultado, as palavras, que deveriam servir para elucidar os sentidos, acabam encobrindo-os. Deveriam servir para garantir a fixidez de antigos registros, e acabam por sequestrá-la. O viajante do tempo que dispõe-se a recuperar os significados originais de um texto razoavelmente antigo (isso supondo-se que exista algo tão singelo e inequívoco quanto um &#8220;significado original&#8221;) deve procurar corrigir a maleabilidade das palavras à luz de escavações arqueológicas e idiomáticas, e consertá-las precariamente pelo cinzel e pelo gesso de outras palavras &#8211; precisamente como temos tentado ao longo destes últimos capítulos. Mas esta está longe de ser uma ciência exata, e cada restaurador produzirá novas matizes e pinceladas a partir do mesmo quadro original.</p>
<p>No caso do texto bíblico, a dificuldade no processo de restauração dos sentidos é acentuada por dois fatores. O primeiro é a formidável <em>distância cultural</em> que nos separa das sociedades que produziram os textos originais. Estamos falando de gente que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-toque-da-lingua/">habitava um idioma</a> e uma cultura com prioridades e símbolos espetacularmente diversos dos nossos. Podemos ter quase por certo que encontraríamos mais pontos de contato e mais preocupações em comum com um visitante de uma civilização extraterrestre do que com um judeu do primeiro século &#8211; perplexidade que apenas aumentaria se nos postássemos diante de um peludo patriarca como Abraão ou um de um desgrenhado profeta como Elias. Sabemos o que alguns desses disseram ou escreveram, mas isso pode não ser o mesmo que saber o que pensavam ou o que queriam dizer.</p>
<p>A segunda dificuldade a ser levada em conta na determinação dos sentidos bíblicos originais são as camadas inclementes de interpretação e teologização a que os textos foram submetidos ao longo dos milênios. A erudição cristã sujeitou ao seu escrutínio virtualmente cada milímetro da superfície de ambos os testamentos: revirou cada pedra, mediu cada til, pesou cada maiúscula e publicou suas anotações. Graças à intervenção onipotente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/morte-aos-comentaristas/">dos comentaristas</a>, é hoje em dia virtualmente impossível aproximar-se da Bíblia pelo que ela é, como quem se coloca diante do texto pela primeira vez. O resultado é que em vez de salvaguardar os sentidos originais, os exegetas conseguiram garantir que jamais nos aproximaremos legitimamente dele (pelo menos não pela via da leitura, e esta é parte da boa nova). Mesmo para aqueles de nós que sabem-na de cor, a Bíblia permanecerá para sempre um livro desconhecido. Pensamos tanto sobre ele que o esgotamos de qualquer significado. Interpretar a Bíblia é <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/voce-acaba-de-perder-o-jogo/">perder o Jogo</a>, e nossa única chance seria esquecê-la.</p>
<blockquote><p>Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.</p></blockquote>
<p>Ou,</p>
<blockquote><p>Abracem a nova mentalidade inclusiva [porque o Reino foi inaugurado, e sua divina vocação é alterar todas as estruturas exclusivas do mundo], e cada de um vocês seja mergulhado na pessoa de Jesus, o messias, tendo em vista a absolvição das suas faltas, e receberão de presente [pela sua imersão na comunidade subversiva dos que foram tocados pela singularidade de Jesus] a lucidez do seu singularíssimo espírito.</p></blockquote>
<p>É um instante momentoso, qualquer que seja a tradução a que você escolha recorrer. Porque o que está dito aqui é que os primeiros candidatos a seguirem a herança de Jesus depois de sua execução fizeram aos apóstolos <a href="http://">uma pergunta exemplar e bastante prática</a> &#8211; &#8220;o que uma pessoa deve fazer para honrar a obra e a herança de Jesus?&#8221; &#8211; e receberam uma resposta, para os padrões do cristianismo institucional, pouco ortodoxa: &#8220;abracem a vocação de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">mudar as estruturas do mundo</a>&#8221; (<em>arrependei-vos</em>) e &#8220;<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/">sejam imersos</a> na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">comunidade inclusiva</a> que produz <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/">a incubação</a> e a consequente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/">lucidez do espírito</a>&#8221; (<em>e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo</em>).</p>
<p>É uma resposta revolucionária e subversiva &#8211; isto é, inteiramente digna de Jesus &#8211; porque não inaugura e não cancela nenhuma religião, não introduz nenhum rito e não rebaixa-se a qualquer teologia. Se é certo que um dos objetivos essenciais do livro de Atos dos Apóstolos é delinear é o <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/">formato mínimo</a> da experiência cristã, esta será sua mais frequente e consistente resposta: arrependimento e batismo &#8211; os quais, decodificados pela narrativa de Lucas, representam subversão da ordem exclusiva do mundo e imersão na comunidade inclusiva dos tocados pela lucidez singular (ou Espírito Santo) de Jesus.</p>
<p>E, como se verá, a nova comunidade se mostrará tão radicalmente inclusiva que não tomará qualquer passo para distinguir-se do judaísmo de seus primeiros adeptos. Os perplexos ouvintes de Pentecostes, precisamente como os cento e vinte discípulos antes deles, são judeus, continuarão se considerando (e se comportando) como judeus e &#8211; não menos importante &#8211; permanecerão sendo vistos como judeus pelos demais representantes do judaísmo. O arrependimento e o batismo não fará deles convertidos a uma nova fé, não mudará o seu livro sagrado e não alterará em uma vírgula a sua vocação. O que está nascendo não é uma nova religião, mas um novo e irresistível movimento que não tem precedentes e não pode ser adequadamente descrito &#8211; &#8220;a que compararei o reino de Deus?&#8221;. Uma religião muda a forma como um homem reza; a árvore  que está nascendo nesta menor das sementes deverá ser capaz aninhar o mundo e acolher em seus ramos todos os homens.</p>
<p>&#8211; Porque a promessa &#8211; explica o pescador, ainda surpreso diante da sua própria disposição em não excluir ninguém das possibilidades que espreitam no futuro &#8211; pertence a vocês, e aos seus filhos, e a todos que estão longe. Pertence a quantos o Senhor nosso Deus chamar.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug014.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li>As possibilidades do futuro</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/' title='Pecar é omitir-se'>Pecar é omitir-se</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-escandalo-da-hospitalidade/' title='O escândalo da hospitalidade'>O escândalo da hospitalidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/' title='A invenção do não-condicionado'>A invenção do não-condicionado</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Majnun em busca de Laïla</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 09:57:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia Majnun estava peneirando terra no meio de uma estrada, quando um homem piedoso lhe perguntou:
&#8211; Ei, Majnun, o que você está procurando aí?
&#8211; Procuro Laïla.
&#8211; Como você espera encontrar Laïla neste lugar? &#8211; disse o outro. &#8211; Poderia uma pérola tão pura ser encontrada em meio a tamanho entulho?
&#8211; Eu procuro em todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia Majnun estava peneirando terra no meio de uma estrada, quando um homem piedoso lhe perguntou:</p>
<p>&#8211; Ei, Majnun, o que você está procurando aí?</p>
<p>&#8211; Procuro Laïla.</p>
<p>&#8211; Como você espera encontrar Laïla neste lugar? &#8211; disse o outro. &#8211; Poderia uma pérola tão pura ser encontrada em meio a tamanho entulho?</p>
<p>&#8211; Eu procuro em todo lugar &#8211; disse Majnun, &#8211; para poder um dia encontrá-la em algum.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><small>O poeta sufi <strong>Farid-ud-din Attār</strong>(1145-1221), em <em>A Conferência dos Pássaros.</em> Majnun e Laïla, condenados ao amor e à separação eternos, são personagens de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Layla_and_Majnun">uma antiga tradição persa</a>.</small></p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5341521"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/5341521_2f4b4c8c72bfea3792ec44a654fa2d9f_mblog.jpg" height="135" width="90" /><br />
</a></p>
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