Entrevista com o demônio do Facebook • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de junho de 2016

Entrevista com o demônio do Facebook

Estocado em Manuscritos

 

«Então Borges não dizia que o Paraíso é uma espécie de biblioteca? O Inferno é uma espécie de Facebook»

Não tenho televisão há mais de dez anos, e um dos efeitos colaterais dessa condição é o sobressalto. Seja onde for, encontrar um aparelho de tv ligado não tem como gerar em mim estranheza menor do que produziria encontrar naquele mesmo canto uma ariranha, um grifo ou um zumbi acorrentado. Que os outros no aposento ignorem por completo a ameaça só contribui para acentuar o senso de afastamento da realidade da coisa toda.

A ressalva é que, sendo gente, não ignoro o fascínio quase doméstico de ariranhas, grifos e zumbis.

Porém existe um horror cósmico que nada tem de doméstico: um horror de indiferenças ciclópicas, um estranhamento que fala de distâncias interestelares e um terror inescapável diante do caráter contingente de tudo que a humanidade toma por valioso. Essa sorte de alienação completa que Lovecraft entreviu mas não encontrou forças para mapear encontro quando me deparo com, aberta em uma tela qualquer, uma timeline do Facebook.

De vez em quando meu pai me chama para ajustar alguma coisa no computador dele e a página está ali aberta, um rigoroso buraco negro, um perfeito anti-Aleph, e ah se Nietzsche estava certo quando disse que o abismo olha de volta para você.

Outro dia eu estava ajustando alguma coisa no computador do meu pai e um demônio estava ajustando alguma coisa no Facebook do pai da mentira. Esse diabo era tão nefasto e baixo astral que ficamos logo amigos; antes de ir embora ele pediu pra me adicionar e eu disse que não estava no Facebook.

– Ah – disse o coisa-ruim. – Tenho no meu coração negro um lugar para os suicidas como você.

– Ê, sim – eu disse. – Soubesse todos os negócios que já perdi por não pactuar.

– Um dia vocês todos cedem.

– Disso não tenho dúvida. Lasciate ogni speranza, voi che ~non~ entrate.

– Você que curte Dante – sorriu o demônio – já deve ter sacado que tomamos o inferno da Divina Comédia como base para o Facebook, não já?

– Sabe que até hoje não percebi – eu disse. – Para o abismo olho pouco.

– Pois preste atenção, que está tudo ali. A geografia de montanha invertida da timeline do inferno, os impenitentes condenados a imprecar dentro dos seus círculos, as relações interpessoais congeladas que nunca avançam nem se desenvolvem, os perdidos ignorando o fato de que estão sendo punidos. Enchemos o Face com esse tipo de ovo de Páscoa, um dia quando tiver um tempinho dê uma olhada ali rapidão.

– Estou achando que vou preferir reler a Comédia. Digo sem ofensa.

– Não me ofendo. Então Borges não dizia que o Paraíso é uma espécie de biblioteca? O Inferno é uma espécie de Facebook.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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