8

Atrás da casa de Niconó havia uma casa menor, antiga, em que a família tinha morado antes de construir a de agora. Nessa casa morava a esposa de Niconó, Laís, porque tinha a doença do esquecimento e não conseguia sentir-se em casa na casa nova.

– Eu estava colocando uma roupa para secar – disse o menino – e me chamou para conversar a mulher de Niconó de casa sua.

– Ah – disse o homem. – Agora como foi.

– Foi bonito. Ela lembra de pouca coisa. Dizem que mesmo depois que deixou de acumular memórias novas lembrou por tanto tempo das antigas; recorda agora menos. Ela fez aparecer biscoitos, falou sobre o tempo e sobre a forma Continue lendo →

7

Boas três horas depois do almoço Costino foi embora, e Lauco foi acompanhá-lo até a casa. Ficou decidido que, se assim quisesse, Costino iria encontrá-los em Casaredo ou em Sepori quando concluísse a obra em que estava trabalhando.

– Vossia conseguiu tirar dele se vai deixar de atormentar as meninas? – quis saber Niconó.

– Tenha paciência, Niconó. Dele não tirei nada.

– Vossia contou que sabemos como morreu Pompeu Coxé? – perguntou Ticiano.

– O que sabemos não faz bem nem a nós – disse José.

– Ele por certo lhe disse – Ticiano insistiu.

– É estúpido pensar que alguém é inocente só porque não é culpado – Continue lendo →

6

– Pronto, ele chegou – disse Lauco ao homem em pé no meio da sala. – Vamos conversar lá fora.

– Quero saber – Costino disse a José Fabro – o que vossia andou falando de mim.

– Vamos falar lá fora – insistiu Lauco.

– Não, ele veio até casa minha, venho até casa sua. Quero saber o que estava falando de mim antes de entrar por essa porta.

– Posso fazer melhor – disse José Fabro, – e lhe digo o que eu não disse a ninguém sobre vossia. O problema de dizer merda cada vez que abre a boca é que alguma hora acaba acreditando que tem de concretizar as suas ameaças para ser levado a sério. Vossia não vê? Pensa que é Continue lendo →

5

– Não sei se seu pai já lhe falou do pai dele – disse Niconó ao filho de José Fabro. – Não sei se José lhe contou que Gadaraí foi a primeira cidade para onde veio depois que se separaram.

Estavam sentados os dois na escadaria externa da sede do município, Niconó dois degraus acima do menino, debaixo do friozinho mais acolhedor da manhã. O menino demorou a responder, Niconó chegou a pensar que ele não tinha ouvido.

– Meu pai nunca chegou a não responder uma pergunta minha – disse o menino. – Algumas coisas eu não pergunto, porque sei que ele responderia mesmo se não quisesse.

Niconó refletiu que o filho de José Fabro Continue lendo →

4

– Pompeu Coxé morreu como ninguém morre – disse Lauco, – com o pescoço esmagado por um mourão de cerca.

– Não um mourão, uma viga horizontal de cerca rústica – corrigiu Ticiano. – Se for como as que vimos por aí, é uma tora, uma coisa longa, larga e pesada. Como arma é bastante desajeitada.

Estavam na casa de uma amiga de Ticiano, Priscila, na rua mais alta e iluminada de Gadaraí, junto ao penedo. Tinham acabado de jantar e estavam espraiados ao redor de três grandes travessas do que tinha sido peixe assado. Lauco e Niconó procuravam com os dedos traços de peixe, cebola e alcaparra que tivessem ficado para trás.

Tinham Continue lendo →

3

– Por dizer – disse José Fabro, para arredondar o que filho vinha lhe contando das conversas com os filhos de Niconó, – durante o dia as três meninas têm sustento e querendo até aplauso, mas de noite se têm proteção ninguém sabe quem a dá.

– Na casa de Niconó acreditam que dormem na rua, mas confirmar ninguém sabe.

Gadaraí ficava polvilhada no alto de um morro com uma das faces cortada. Estavam na estrada que descia a face mais suave do morro, cruzando pomares irrigados e pequenas pastagens, em direção à planura. Na orla da estrada um armazém ou outro, uma olaria e um par de banquinhas de frutas e cereais sem ninguém Continue lendo →

2

– Seu pai adora esta cidade – disse ao menino o homem que se chamava Niconó – por causa dos repentistas e dizedores de frases de efeito. Os modos que vossia toma por originais ele aprendeu aqui.

Niconó era baixo e muito magro, e tinha um nariz e uma barba longa e ondulada que pertenciam a pessoa muito maior. José Fabro e o filho tinham lavado os pés e estavam acomodados contra almofadas, os braços apoiados às mochilas, bebendo água com cravo. Ao redor, sentados sobre esteiras, jiraus e almofadões, observavam em silêncio oito dos dez filhos de Niconó.

– Sou feito de um modo assim – disse José Fabro – que não me apego a Continue lendo →

1

José Fabro não conseguia entender a vergonha; não conseguia entendê-la e era desse modo incapaz de simpatizar com ela.

Era sempre uma criança diferente das redondezas que vinha entregar o bilhete no meio da tarde, um pedaço de papel dobrado ao meio sem qualquer conteúdo que não a aplicação em relevo de um brasão nobiliárquico.

Quando todos dormiam e José Fabro saiu da casa para a noite eram dez e meia. Encontrou o questor Quintino denunciado por um palmo de luar, sentado na balaustrada de uma cisterna arruinada que no vilarejo estavam usando como depósito. Parecia sozinho, mas a cinquenta passos em alguma direção aguardavam sem Continue lendo →


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