Dos deleites da repetição • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de junho de 2016

Dos deleites da repetição

Estocado em Manuscritos

Este relato é a parte 2 de 2 da série Os impropérios de Carnivaldo de Bezerros

Outro resultado desse novo arbítrio foi a geral catadura e revisão da genealogia de gente blasonada dos sete ventos dos antanhos.

De Carnivaldo a menos controversa é também a mais extensa e mais recente, aquela que aparece nas Crônicas e falaços de Fabrizio Forro. Não se requer maior cotejadura: a versão aberta diante do leitor não só assume a genealogia de Forro como rigoroso meridiano, como a ignora por completo. Em manobra que aprovaria sem pestanejo Carnivaldo, rendemos preferência ao tradicional em detrimento do comprovado, ao pitoresco em detrimento do que é mesquinhamente acurado. Não deixou de apontar Regente Boffé que Forro é historiador em perfeita gamba, mas requer quem lhe corrija continuamente a concisão e a precisão, estendendo-lhe as digressões com material que ninguém ignora mas que todos podem beneficiar-se de voltar a pesar.

É sabido que nada há mais belo, mas também nada mais fora de propósito, do que os sete cantos e quatorze mil versos do Cordel da Descrição da Carne Roubada de Leonardo Mota, que se limita a descrever com doverosa minúcia a nudez de Ferrabrás, filho de Lampião, morto assassinado sobre a laje. Pode haver maior despropério do que descrever à exaustão os membros, as pregas, os orifícios, os dentes, os dedos, os pentelhos e os colhões que todos os homens têm em comum? A força da Carne Roubada está em tratar-se de descrição que, por ser escrita, só gente humana é capaz de ler, mas que por esmiuçar em tantalizante detalhe a humana residência (a que toda gente tem acesso irrestrito e contínuo) para gente humana é de antemão desnecessária.

Aqui reside o mistério e o naipe de toda maquinação e de toda arte, a notícia de que pode haver maior deleite na repetição do que na novidade, que reler pode surpreender com mais severidade do que ler, que o vinho no copo é sempre novo porque é sempre seco. Não comem todos os dias os homens? Não bebem cana todos os dias? Não derrubam todos os dias libação a Onã? E nessas repetições são encontrados por deleites que são sempre novos em que suas confirmações não se alteram.

A lapidação da safira, de Arrobino Manteiga, consiste no elenco versejado de mais de duzentos eufemismos para “masturbar-se” (compreso aquele fornecido por Galeno em Do uso das partes do corpo, e que envolve a palavra “tutano”), e não há cristão que não entenda que a satisfação que produz está em se ver incessantemente regenerado e recriado, por via das figuras alternadas que se sucedem, o processo mais casalingo e familiar. O senso sublime sistá.

Da mesma seiva se extrai o prazer das longas genealogias e das biografias de gente famigerada. A enumeração é toda a arte, disse Shakespeare a Nathan Hale, e para São Coro de Minância a felicidade é contar de zero a dez numa língua estrangeira. O leitor que levo para a cama encontrará quem sabe o mesmo prazer em ser lembrado que na planície de Bezerros os guaitacazes conquistaram os etruscos, os botocudos conquistaram os guaitacazes, os genoveses conquistaram os botocudos, os venezianos conquistaram os genoveses, os turcos conquistaram os venezianos, os normandos conquistaram os turcos, os sicilianos conquistaram os normandos, os guaranis conquistaram os sicilianos, os portugueses conquistaram os guaranis, os holandeses conquistaram os portugueses e os nagôs conquistaram os holandeses, mais ou menos nesta ordem e até que fossem decretados irmãos e sentenciados brasileiros.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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Este relato faz parte da série

Os impropérios de Carnivaldo de Bezerros


  1. De Merito Metricio
  2. Dos deleites da repetição
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