Diversas palavras • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de maio de 2007

Diversas palavras

Estocado em Fé e Crença · História

Para evangélicos e protestantes a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É “Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) – não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.

O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia – sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.

De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:

Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.

Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?

A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.

Nada mais longe da verdade.

Unidade na diversidade

A variedade de traduções disponíveis da Bíblia já era um problema real na época de Agostinho (354-430 d.C.), o teólogo africano que estabeleceu os fundamentos da teologia moderna. Aos cristãos de fala latina da sua época, quase tão ansiosos quanto os de hoje para resolver a questão da versão mais fidedigna, Agostinho propôe em sua Doutrina Cristã duas soluções distintas. A primeira, ao mesmo tempo mais direta e mais exigente, requeria o conhecimento ou o aprendizado das línguas originais:

O grande remédio para a ignorância dos significados precisos é o conhecimento dos idiomas. E pessoas que falam a língua latina precisam de outros dois idiomas para compreender a Escritura, o hebraico e o grego, para que possam recorrer aos textos originais se a infinita diversidade de tradutores latinos os lança em dúvida.

Já no tempo de Agostinho, entretanto, o conhecimento do hebraico e do grego não era um remédio ao qual a grande massa dos cristãos podia ou se disporia a recorrer. Pensando nesses, para os quais o conhecimento das línguas originais representava uma impossibilidade prática, Agostinho propõe uma segunda solução. Ela baseava-se justamente na “infinita” diversidade de versões disponíveis:

E essa circunstância [a diversidade de traduções disponíveis] deveria facilitar ao invés de dificultar a compreensão da Escritura, se ao menos os leitores fossem menos descuidados. Pois o exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. Por exemplo, naquela passagem do profeta Isaías [58.7], um tradutor diz ‘não despreze os domésticos da tua semente,’ enquanto outro diz ‘não dê as costas à tua própria carne’. Cada uma destas versões confirma a outra, pois uma é explicada pela outra. Quando as expressões usadas pelos dois tradutores são comparadas, sugere-se ao leitor um sentido mais provável das palavras, isto é, o mandamento de que não devemos desprezar nossos próprios familiares. Isso porque, quando se compara a expressão ‘domésticos da tua semente’ com ‘carne’ o significado de parentesco vem naturalmente à mente. (…) Não se pode determinar qual seja a tradução literal sem que se recorra ao texto na língua original, mas mesmo assim aos que as lêem com entendimento uma grande verdade pode ser encontrada em cada uma – pois é raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante.

O parecer de Agostinho é, portanto, que o estudo comparativo de diferentes traduções pode dar ao leitor da Bíblia uma idéia mais aproximada do texto original do que qualquer tradução isolada poderia fazer. Sobrepondo diversas camadas de traduções o leitor pode vislumbrar, através delas, o sentido original do texto, que seria de outra forma inacessível sem o conhecimento das línguas originais.

“O exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. É raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante”.

É justo mencionar que Agostinho não menospreza a importância das traduções literais, “mais próximas à letra do original”. Sua recomendação final é que leitor não deixe de recorrer a elas:

Não que elas [as traduções literais] sejam suficientes, mas porque podemos usá-las para corrigir a liberdade e o erro de outros, que em suas traduções escolheram seguir o sentido das expressões tanto quanto as palavras.

A postura de Agostinho demonstra uma sobriedade que está, na prática, ausente das discussões contemporâneas a respeito do mesmo assunto. O teólogo enfatiza a importância das traduções literais e reconhece o valor das versões dinâmicas, mas nega a qualquer versão particular o status de definitiva. Segundo essa visão, nenhuma tradução é autônoma e suficiente, e todas devem ser vistas como ferramentas que só são úteis na medida em que se completam e se confirmam.

A Bíblia hebraica na biblioteca de Alexandria

Não devemos pensar, no entanto, que a grande explosão de traduções da Bíblia começou na época de Agostinho, nem supor que o teólogo introduziu na polêmica uma tolerância que não existia antes.

De fato, no que diz respeito às versões da Bíblia os antigos mostraram-se em tudo menos resistentes à mudança do que os belicosos cristãos contemporâneos. Muito antes que o Novo Testamento começasse a ser escrito (quando o Antigo Testamento era ainda de direito o Novo), veio à luz uma tradução formal da Bíblia Hebraica em grego, para o benefício das incontáveis comunidades judaicas de fala grega espalhadas pelo Império Romano.

Essa tradução, que viria a ser conhecida como Septuaginta, foi produzida por volta do terceiro século a.C. na cidade egípcia de Alexandria, que abrigava na época a maior colônia judaica do Império fora da Palestina.

Segundo uma tradição preservada na (provavelmente espúria) Carta de Aristéas, a Septuaginta teria surgido da ambição do faraó Ptolomeu Filadelfo de ampliar o acervo da Biblioteca de Alexandria. Sabe-se que Fildelfo, hábil diplomata e governante ambicioso, planejara de fato transformar Alexandria no mais importante centro científico e cultural do seu tempo, e enxergava a vasta Biblioteca como seu eixo principal. Ele estava nesse intento quando, diz a lenda, um bibliotecário desaforado veio lembrá-lo que nas repletas estantes da Biblioteca faltava um volume com os livros sagrados dos judeus.

Filadelfo tinha tanto a sanha do colecionador de livros quanto os recursos para remediar a situação. Ele comprou a liberdade de mil prisioneiros judeus e mandou um grupo de representantes ao sacerdote Eleazar em Jerusalém, pedindo um cópia da Lei judaica e setenta e dois intérpretes, seis de cada tribo de Israel. A delegação de setenta e tantos tradutores (daí o nome de Septuaginta, que significa “setenta” em latim) foi enviada com essa tarefa para Alexandria, onde teria concluído a tradução do Pentateuco com assombrosa unanimidade em meros setenta e dois dias.

O vocabulário do novo

Não sabemos quando e exatamente de que modo o texto completo da Septuaginta foi concluído, já que muitos tradutores diferentes parecem ter se engajado nas etapas posteriores do projeto. Fato é que a Septuaginta (hoje em dia também conhecida como LXX, “setenta” em algarismos romanos) alcançou em pouco tempo ampla popularidade, e era na época de Jesus a Bíblia de uso corrente dos judeus de fala grega do mundo mediterrâneo (e, não muito depois, também dos primeiros cristãos de fala grega).

Como não temos acesso ao texto usado como base, não temos como saber o quanto a LXX, como tradução, foi literal. Análises comparativas e testemunhos contemporâneos dão a entender que não muito. Em 130 a.C. Jesus ben Siraque, ele mesmo tradutor, opinava sobre a Septuaginta que “as mesmas coisas expressas em hebraico não têm a mesma força quando transpostas para outro idioma. Não apenas isso, mas até mesmo a Lei, as profecias e o restante dos livros diferem não pouca coisa quanto às coisas que dizem”.

Termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos.

Apesar das notórias liberdades tomadas pelos tradutores na sua versão do hebraico, o texto grego da LXX parece ter sido aceito, para todos os fins práticos, como tão confiável e abalizado – tão inspirado – quanto o original. Os próprios autores do Novo Testamento, quando citam passagens “das Escrituras” estão, na maioria das vezes, citando diretamente a tradução grega da LXX. Alguns de seus argumentos, na verdade, fazem mais sentido à luz da versão da Septuaginta do que à do texto autorizado da Bíblia em hebraico, o chamado Texto Massorético, fixado por exegetas judeus entre os séculos VI e X d.C.

Ainda mais importante foi o fato de que a versão da LXX inspirou o estilo, o vocabulário e a estrutura da argumentação dos autores do Novo Testamento, especialmente no que diz respeito a Paulo. Na transposição de palavras hebraicas para palavras gregas, termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos. A palavra grega para “graça”, por exemplo, deixou de significar apenas “charme, beleza”, para passar a representar o favor e a postura benevolente de Deus. O mesmo se aplica ao termo “carne”, que Paulo usou em grego esperando que fosse entendido em suas implicações hebraicas.

A quinta coluna de Orígenes

Com a emergência do cristianismo a Septuaginta acabou perdendo a sua popularidade entre os judeus, passando a ser associada quase que exclusivamente ao público cristão. Novas traduções foram surgindo para preencher a lacuna.

Pelo menos três versões da Bíblia Hebraica para o grego vieram à luz durante o segundo século depois de Cristo. Um judeu ou prosélito de Ponto chamado Áquila produziu uma tradução radicalmente literal, talvez com o propósito refletido de opor-se à abordagem e à autoridade da LXX. Em contraposição à versão de Áquila, que muitas vezes sacrificava por completo o sentido e a gramática grega em favor da literalidade, dois tradutores posteriores, Símaco e Teodócio, produziram independentemente traduções bastante livres, em grego ao mesmo tempo acurado e fluente. Ambos chegaram a alcançar alguma popularidade entre os cristãos, que segundo Jerônimo preferiam ler em suas igrejas o livro de Daniel na versão de Teodócio.

No terceiro século o erudito cristão Orígenes empreendeu uma monumental revisão da Septuaginta, concluída em 245 a.C. Essa obra, que tomou vinte e oito anos de trabalho, ficou conhecida como Hexapla (Sêxtupla), e cada uma de sua páginas tinha seis colunas: na primeira ficava o texto hebraico do Antigo Testamento, na segunda o mesmo texto transliterado para letras gregas, na terceira a mesma passagem na versão em grego de Áquila, na quarta a de Símaco, na quinta a LXX revisada por Orígenes e na sexta a versão de Teodócio.

Embora nenhum manuscrito completo da Hexapla tenha sobrevivido, a iniciativa de Orígenes permanece como austero testemunho de uma concepção muito peculiar, e de certa forma perdida, a respeito da autoridade da Bíblia e da natureza e papel da tradução. Essa concepção encontraria eco na posição de Agostinho cem anos mais tarde: a idéia de que nenhuma tradução é boa a ponto de ser suficiente; de que a boa tradução é aquela colocada ao lado de outra contra a qual possa ser comparada.

Apenas a quinta coluna da Hexapla, a LXX de Orígenes, foi preservada na íntegra em diversos manuscritos sobreviventes. As revisões posteriores da Septuaginta foram, em grande parte, desenvolvidas a partir dela.

O mundo converte-se ao latim

A Septuaginta era uma tradução para o grego da Bíblia Hebraica (a porção da Bíblia que os cristãos chamam de Antigo Testamento); a difusão do cristianismo, no entanto, dependia da propagação do ensino de Jesus e dos apóstolos, fixada nos evangelhos e nas cartas.

Apesar da popularidade e da universalidade do idioma grego em que foi originalmente escrito, logo surgiram diversas traduções independentes do Novo Testamento em outras línguas. Um dos primeiros esforços nesse sentido foi empreendido por Taciano, que no segundo século traduziu para o siríaco uma compilação dos quatro evangelhos que veio a ser conhecida como Diatessaron. Nos séculos que se seguiram foram produzidas versões do Novo Testamento em copta, armênio (reputada como uma das traduções mais fluentes e fiéis), georgiano e etíope, e porções da Bíblia foram traduzidas para inúmeros outros idiomas.

Ao mesmo tempo em que o cristianismo se expandia, outra importante e imprevisível mudança cultural ocorria em segundo plano: o latim começava a desbancar o grego como língua mais importante do ocidente. A língua de Roma avançava a passos largos no sentido de estabelecer a sua primazia como língua universal, uma primazia que não sofreria qualquer ameaça séria por mais de dez séculos.

Já em meados do quarto século circulavam porções traduzidas de ambos os testamentos em latim, de qualidade desigual e representando as mais diversas origens e tendências. Segundo Agostinho havia, lembremos, “uma infinidade de traduções”; segundo Jerônimo circulavam “quase tantas versões quanto cópias”. A necessidade de uma tradução formal e integral da Bíblia para a língua da vez acumulou-se até 382, quando o papa Dâmaso pediu ao erudito Jerônimo, recém-chegado a Roma, que se dedicasse à tarefa.

“Haverá homem que não me chamará de falsificador?”

Jerônimo verteu a Bíblia para o latim a partir das línguas originais: o Novo Testamento a partir do grego e o Antigo Testamento a partir do hebraico. Sua tradução, que veio a ser conhecida como Vulgata (da palavra latina para “comum, acessível, popular”), não foi bem recebida inicialmente, especialmente porque ele havia ousado trabalhar a partir do Antigo Testamento em hebraico, apartando-se das soluções consagradas do grego da Septuaginta, que gente como Agostinho acreditava ser tão inspirada quando o texto hebraico.

Na carta que escreveu ao papa para apresentar a primeira porção da Vulgata, a sua tradução dos evangelhos, Jerônimo expôe temores que se refletiriam na mente de tradutores posteriores, mas que no caso dele mostraram-se quase que inteiramente infundados: “haverá homem, instruído ou não, que ao tomar em suas mãos este volume, e perceber que o que lê não condiz com os seus gostos estabelecidos, deixará de irromper imediatamente em linguagem furiosa, e de chamar-me de falsificador e profano por ter tido a audácia de acrescentar o que quer que seja aos livros antigos, ou fazer quaisquer alterações e correções que sejam?”

O mais longo reinado

Nenhuma reação adversa impediu que a Vulgata alcançasse consagração sem precedentes, e se mantivesse por muitos séculos como a única Bíblia de uso universal do mundo católico europeu.

A tradução de Jerônimo, na verdade, influenciaria a história da igreja e da teologia mais do que nenhuma outra. A Vulgata deixou como herança grande parte da terminologia teológica moderna (é por causa dela, por exemplo, que sabemos que no princípio era o Verbo). A Vulgata foi também a ponte através da qual inúmeras palavras e conceitos do grego chegaram até nós.

A Vulgata sofreria perdas com a acumulação de erros dos copistas, e passaria por importantes revisões ao longo dos anos, mas sua reputação permaneceria praticamente intocada por mais de um milênio. Foi a Bíblia dos monges e mosteiros e abades e reis católicos e cruzados e cavaleiros e descobridores e inquisidores. De fato, a Vulgata foi a Bíblia, a versão padrão e universal da Bíblia, por mais tempo do que qualquer outra.

Mil anos depois da chegada de Jerônimo a Roma, Wycliffe colocou o ponto final na sua famosa tradução da Bíblia para o inglês: era uma versão literal da Vulgata.

Quando Lutero pregou as suas indignadas teses nas portas da igreja de Wittenberg, elas estavam escritas em saudável latim.

Do latim da Vulgata nasceria tanto a reforma quanto a língua portuguesa.

A Bíblia que Jesus lia, e a outra que ele citava

Para resumir o que foi dito pode ser útil visualizar na linha do tempo as duas porções da Bíblia e suas duas principais traduções na Antigüidade:

Não devemos deixar que essa simplificação nos faça perder de vista o fato de que em cada um desses intervalos circulavam inúmeras traduções independentes do texto bíblico, numa infinidade de idiomas.

Muitas delas, na verdade, “circulavam” antes de serem colocadas por escrito.

Cinco séculos antes de Cristo, quando os judeus começaram a voltar do exílio babilônico para a Palestina, o aramaico passou a substituir gradualmente o hebraico como língua falada no dia-a-dia. Nos dias de Jesus o hebraico era usado apenas nas discussões teológicas e no culto, e o aramaico era a língua geral da população.

Logo tornou-se prática usual, para benefício do público, traduzir e explicar em aramaico cada porção da Escritura hebraica lida na sinagoga. Essas versões livres do Antigo Testamento em aramaico foram repetidas e buriladas até o ponto de alcançarem formas fixas que, como o restante das tradições judaicas, passaram a ser transmitidas oralmente. Essas traduções, algumas delas rígidas, outras mais livres do que a mais selvagem paráfrase contemporânea, ficaram conhecidas como targumim (singular targum), da palavra hebraica targem, “transpor, parafrasear, interpretar” (conforme Esdras 4.7).

Vários targumim coexistiam pacificamente na Palestina do tempo de Jesus. Mesmo antes de serem colocados por escrito (a partir do primeiro século, provavelmente) os targumim já desfrutavam de ampla aceitação, e eram por vezes vistos como tendo a mesma autoridade dos textos originais. De fato, algumas citações do Antigo Testamento feitas pelos autores do Novo estão mais próximas do texto na versão dos targumim do que do original em hebraico ou do grego da Septuaginta (por exemplo, Marcos 4.12 e Efésios 4.8).

Pelo que sabemos o próprio Jesus pode ter feito uso das versões livres dos targumim, já que com toda a probabilidade ele falava ao povo em aramaico, a língua das multidões. Evidência em favor dessa idéia é o grito registrado em Marcos 15.34: “Eli, eli, lama sabactani”, uma citação em aramaico do salmo 22.1.

Os judeus do tempo de Jesus prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos.

Esta brevíssima visão geral das versões da Bíblia na Antigüidade bastará para demonstrar que a questão da validade das traduções da Bíblia é muito mais antiga do que costumamos imaginar. Especialmente admirável, no que me diz respeito, é ver nos antigos um grau de maturidade e independência intelectual maior que o dos que hoje em dia se degladiam sobre a questão.

Fato é que os judeus do tempo de Jesus e os primeiros cristãos prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos. Eles acreditavam na coexistência de diversas traduções e paráfrases, e faziam uso de uma ou de outra versão sem aparente constrangimento. Orígenes e Agostinho defendiam com igual convicção a idéia de que a análise de diferentes traduções possibilitava ao leitor da Bíblia um vislumbre sobrenaturalmente claro do sentido do texto original – mais claro do que qualquer tradução isolada seria capaz de suprir.

Fato é que os escritores do Novo Testamento, quando citavam o Antigo, faziam uso tanto do texto interpretado dos targumim quanto da tradução grega da Septuaginta. Nas sinagogas, como as freqüentadas por Jesus e por Paulo, transitavam traduções e paráfrases amplamente aceitas do Antigo Testamento, tanto em aramaico quanto em grego.

Fato é que a única citação bíblica que Jesus fez na cruz foi uma tradução.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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