De Merito Metricio • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 30 de maio de 2016

De Merito Metricio

Estocado em Brasilicata

Este relato é a parte 1 de 2 da série Os impropérios de Carnivaldo de Bezerros

Em dias de ojejorno não há quem ignore que as genealogias nos tornam pessoa melhor na medida em que menos claramente nos antecipam a grandeza. Carnivaldo de Bezerros, tendo vivido e atuado em tempos menos ilustres e menos conexos, não teve como se beneficiar desse conhecimento, embora tenha angariado o mérito de se mostrar gente nobre e admirável sem ter chegado a saber se o sangue lhe endossava a virtude ou a puxava para baixo.

Foi Cravalo de Orvaglio, poeta da versejadura do iluminismo e partidário da água de cevada, o único autor do famoso De Merito Metricio, tratado em cinco livros em que está escrito que num mundo justo todo homem insigne deve poder ter a liberdade de orgulhar-se de desconhecer se sua genealogia lhe sustenta a virtude: “toda peçoa de virtouosa mercê tem dreito a suster ignorancia da propria estirpe, fimquê a nobreza da raça não lhe roube o mérito da virtude, e sua mesquigneza que não lhe esgote os brios”.

De Merito Metricio foi publicado pela Casa Editrice Tupi Guarnieri em 1676; em cinco anos já havia sido traduzido para o italiano, o tedesco, o guató, o sardo, o holandês e a língua geral. Lido cinquenta anos depois, o tratado inspirou a devassa de meios-médios na guerrejadura de Gualmiro Pontefússido, ocasião em que foram queimados os livros-registro de todas as igrejas de Valdilá, Mucuçaba e Quixabeira, bem como os livros de história das bibliotecas de Galibó e da aldeia tipográfica de Arnaldo Pioli.

Gualmiro, em Piaça do Mugimim: “Não são livros, são cadeias de sangue. Deixe que queimem”.

Na Garofa Rofanha a Queimação dos registros genealógicos foi decretada compulsória em março de 1728. Foi a eclosão da Guerra da Catraieira, em dezembro daquele ano, a causa móvel da não-entrega ao fogo dos livros-registro das paróquias de todo o vale do Mugimim.

Pode não ser conveniente continuar a ignorar que o meritricismo, de untura de Cravalo de Orvaglio em De Merito Metricio, foi a manifestação original da linha de pensamento que os bitos, em sua controvérsia com os cricatis, rebatizaram de capitalismo ou libersejatura.

Foi preciso 1887 para que Celso Lunquegardo, calvinista e vernovense da escola austro-húngara, publicasse no Diário da Tarde série de ensaios que linguapopularizaram a visão oposta (porém já presente como germe na nata de urdidura do meritricismo) sobre a questão das investiduras ancestrais. Para Lunquegardo, todo homem de comprovada comenda e estatura, testado e assajado na manufatura da própria prosperidade e versado no liberestar, deveria ter a liberdade de conhecer e propalar a própria linhagem – justamente de modo a demonstrar, sendo esse o caso, que o seu sucesso como êssere humano não dependia dela.

Daquela hora em pois a genealogia voltou à voga em regime de arrema no sertão, sendo que todo homem de ilustração passou a desejar antecedentes infames ou a produzi-los conforme a demanda, de modo a que o contraste laborasse para salientar-lhes o individual valor.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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Este relato faz parte da série

Os impropérios de Carnivaldo de Bezerros


  1. De Merito Metricio
  2. Dos deleites da repetição
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