Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de outubro de 2006

Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo

Estocado em Fé e Crença · História · Política

A forma da religião de um estado
é moldada a partir de sua forma de governo.
Aristóteles

Na competição dos deuses estatais com as religiões de mistério no mundo romano de dois mil anos atrás, o cristianismo entrou como contendente tardio e azarão inconteste. Tratava-se, considere, de uma facção impopular de uma religião que já era por si mesma bastante impopular, o judaísmo. Que esse partido controverso tenha se tornado em pouco mais de 300 anos a religião oficial do mais ambicioso e bem-sucedido império do planeta e da história – e que duraria depois disso mais mil anos – é mistério com variáveis demais para se deslindar.

Verdade é que quando pediu a seus discípulos que contra qualquer oposição anunciassem sua boa nova “até os confins da terra”, Jesus parecia não estar prevendo que em três séculos essa pregação contaria com patrocínio dos cofres do Império, o aval nominal do Imperador e a proteção dos mesmos exércitos que o pregaram na cruz.

É natural que, como toda religião de estado, o cristianismo (tendo perdido qualquer relação mais do que nominal com o ensino de Jesus) foi abraçado como ferramenta política. Dito de outra forma, a nova doutrina não teria sido abraçada se não se mostrasse de alguma forma vantajosa para os seus patrocinadores.

A questão está em determinar o que no cristianismo fez com que ele parecesse politicamente mais atraente para o Império do que os deuses do Olimpo ou as exuberantes religiões de mistério.

Parte importante da resposta está na própria noção de império. O Império Romano, instituído meras três décadas antes de Cristo, era ele mesmo uma novidade quando a o cristianismo despontou como opção no mercado espiritual. Por cinco séculos de definição Roma tinha sido a sede de uma enorme e bem-sucedida República parlamentar, governada democraticamente por um senado. A noção de monarquia, embora viesse ganhando adeptos depois da trajetória brilhante de Alexandre, o Grande, era considerada importação indesejável do oriente; os romanos viam a si mesmos como filhos da democracia, e os proponentes do jogo do Império tiveram de recorrer a todo tipo de artifício a fim de legitimizar a sua posição.

“A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo”.

A primeira providência, temporária, foi associar a nova forma de governo à velha religião. “Em 13 a.C. Augusto assumiu o título de Pontifex Maximus, sumo-pontífice, o que concedeu a ele uma aura de santidade e provou-se tão eficaz que os imperadores subseqüentes, tanto pagãos quanto cristãos, o retiveram”, conta S. Angus em sua obra sobre as religiões de mistério.

A segunda providência, definitiva, foi abandonar o politeísmo parlamentar dos deuses do Olimpo e escolher uma religião que refletisse adequadamente a nova forma de governo. Embora outras religiões de mistério estivessem fundamentadas no monoteísmo, o cristianismo acabou sendo a escolha da vez, talvez pela vantagem adicional da associação: da mesma forma que um homem, Jesus, representara legitimamente Deus na terra, o mesmo se poderia esperar do Pontifex Maximus.

Estava feita a estercada: o cristianismo acabou dando certo da forma errada. Jesus alcançou a glória que repudiara no seu ensino e a associação política de que fugira por toda sua vida.

Explica Angus:

“A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo. Um governante supremo sobre a terra tornava natural e inevitável que os homens cressem num único Ser Supremo no universo”.

Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo – lição da história que nenhum político posterior deu-se ao luxo de esquecer.

* * *

Pela mesma razão, aprenda comigo, o capitalismo é a incontestada religião estatal dos nossos dias: não teria sido abraçada se não se mostrasse vantajosa para os seus patrocinadores.

Não é injusto, portanto, que o ponto culminante da produção e do consumo anual girem ao redor do aniversário de Cristo. Não é injusto que o capitalismo se aproprie das ruínas de São Nicolau para erigir sobre elas o altar de Papai Noel. Os símbolos da velha religião são sempre utilizados para legitimar a nova, e é o novo monoteísmo que move o mundo.

Não saia de casa sem ele.

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Paulo Brabo @saobrabo

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