Caução • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de maio de 2016

Caução

Estocado em José Fabro

– Só os bons conhecem o ressentimento – disse o questor Quintino, – porque só para os bons o mundo é como não deveria ser. Os maus não têm ilusões, não sabem o que é ressentir-se de coisa qualquer.

– Ah, sim? – disse José Fabro.

– Certo, é como eu digo a vossia. Para os bons o mundo é uma eterna frustração, em que tudo ao seu redor recusa-se a moldar-se às suas expectativas de justiça. Para os canalhas o mundo é a coisa única que poderia ser, não? A celeuma universal diante da injustiça universal. Estúpido seria crer que pode ser reformado em alguma medida.

– O mundo se recusa antes de tudo – disse o mestre de obras – a deixar-se dividir entre maus e bons.

– Não, agora? Vossia por exemplo é um homem bom, e essa vai ser sem sombra de dúvida a sua ruína. Eu sou um calhorda e recolho diariamente os prêmios dessa condição. Em compensação o meu coração é mais puro do que o seu, porque não alberga a mágoa do ressentimento. O homem maduro é o homem resignado.

– Vossia se ressente e muito – disse José – do que interpreta ser a minha bondade. Isso quando não dei nunca indicação qualseja de ser menos desprezível do que outro qualquer.

– Nenhuma indicação, a não ser um modo de vida projetado para ser intolerável. Basta olhar para os seus pés descalços para entender o projeto seu de reformar o mundo que despreza.

– O que desprezo no mundo todo – disse José Fabro, e reclinou-se contra a parede da varanda – é o que nele luta para que todo o mundo seja uniforme. Diz vossia que os maus não têm ilusões, e mais enganado não poderia estar. Os que vossia chama de maus acreditam mas é tanto no valor da autoridade, no valor do dinheiro, no valor do poder. Acreditam que há valor em possuir, que há valor em acumular, que há valor em usar sapatos que custam quanto uma rês. Numa palavra, ilusões.

– Porque vossia o santo vai dizer que essas coisas valor não têm. O mundo está errado e vossia não.

– O que estou dizendo é que os que o mundo chama de maus acreditam nas mesmas coisas em que acreditam os que o mundo chama de bons. Dão valor às mesma precisas, escarradas coisas. Iludidos todos estão, pelo que não faz sentido fazer a distinção.

– É por isso que vossia presta o mesmo tratamento a santos e cafajestes? Porque merecem a mesma punição?

– Ou a mesma recompensa – disse José Fabro. – O mundo em que há quem deseje outra coisa para alguns é recompensa, para outros punição.

– E vossia o que deseja, no fim?

– No fim – disse José Fabro – desejo o que oferecido nunca me foi.

O questor bebeu um gole do vinho que tinha trazido, e da mão que segurava o copo deixou erguidos dois dedos para emoldurar o que tinha a dizer.

– Seguro que posso lhe oferecer, mestre José, uma centena de coisas que nunca aconteceram de lhe oferecer. Uma meia dúzia das quais pelo menos muito escandalosa.

– E basta oferecer pra que eu deixe de desejar, não vê.

– Ah – o questor riu sem entusiasmo quando entendeu. – Por ora então eu o proíbo de beber o vinho que eu trouxe sem intenção qualquer de lhe oferecer.

José serviu-se de vinho.

– Nunca vi vossia tão irritado – disse o mestre de obras – para deixar-se gastar tanto tempo com esses nossos preâmbulos.

– Vossia tem razão. Estou hoje me odiando e querendo me deixar queimar. E vossia quer melhor companhia que mestre José pra quem quer se fazer mal.

– E por causa de coisa foi esse desprezo particular?

O questor levou a mão à boca para esconder um sorriso e uma engasgada de surpresa.

– Meu rei, dissimulado vossia nunca foi e não sabe fazer. Estou irritado, claro, porque o que fui mandado pra fazer vossia vai tornar impossível.

– Isso dizer não precisava – disse o mestre de obras. – Pergunto por que motivo o senhor questor iria querer não se demorar aqui, quando não há quem ignore a paixão que nutre por mim… e pela comida que os que estão comigo colocam na sua frente. Desse jeito me constrange a imaginar que está perdendo alguma coisa de enorme grande na capital.

– Ah, Fabro José, não me pergunte do que está acontecendo na capital. Basta dizer que se vossia soubesse iria apagar esse sorriso bonito da sua barba. Basta dizer que as seguranças dessa gente… ah, vamos deixar perder.

– Iludida está a capital se acha que provê alguma das seguranças que esta gente tem.

– Soubesse vossia tudo que a capital está prestes a tirar deste lugar.

– Soubesse vossia quanto é pequeno quem se acha grande pelo que pode tirar.

– Soubesse vossia o quanto o mundo está se lixando para o que José Fabro acha grande. A propósito, vou lhe dar permissão para me dizer o quanto me despreza pelo que vim fazer. Vai.

– Posso?

– Vai.

José Fabro depositou o copo sobre a mesinha sem experimentar. Ele sabia que era importante para o outro ver sua reação à qualidade do vinho, e sabia ao mesmo tempo que o questor esperava ser irritado quanto possível e convinha fazer-lhe essa homenagem.

– Eu não lhe teria por desprezo – Fabro disse, – ainda se fosse o caso que vossia fosse capaz de ver feito o que veio fazer.

– Sabe que vossia me ofende um pouco, mestre José, quando dá a entender que o homem que vossia está protegendo vai ter uma vida mais fácil sob os seus cuidados do que sob os meus.

– Pode ser que eu saiba e pode ser que não do que vossia está falando, mas se é pra embrenhar, vossia quer prender e deportar o sujeito.

– E vossia acha menos cruel e mais natural que ele passe o resto da vida fugindo.

– Se na sua boca fugindo quer dizer procurando diariamente ser deixado em paz, sou culpado eu José Fabro antes dele.

– Vossia é meio imigrante mas não é ilegal – disse o questor, batendo na lateral do copo com o dedo cheio de anéis. – De que vossia é culpado encontro sem sair desta cadeira duas ou três testemunhas, mas a lei pode ser torcida para deixá-lo em paz. Não é o caso do seu amigo.

José Fabro recolheu da mesa o copo e bebeu um gole. Um gole grande.

– Estou aqui calculando quantas garrafas de vinho vamos contar – disse o mestre de obras – até que vossia me faça convencer de que faz sentido chamar de legal a fantasia do Estado que o senhor representa. E do outro lado que faz sentido chamar de ilegal um ser humano cujo sangue como o nosso só não derrama porque está embrulhado na mesma pele. A pressa é sua.

– Estou instruído, e instruiu-me vossia obrigado, a não me deixar aperrear pelas suas armadilhas – disse o questor. – Não me toca convencer ninguém debaixo da lei da legalidade da lei. Agora, o Estado é uma teia, pressa não tem. Nem mesmo sua santidade descalça ignora que o seu amigo não vai conseguir viver indefinidamente sem acabar tocando em algum fio. Em algum momento o imigrante ilegal vai tropeçar no Estado: ter o braço apanhado em alguma barreira, responder ao olho de alguma autoridade, recorrer a algum serviço público: a lei todo mundo alcança.

– Não se ele viver como eu, não vai.

– Pelo amor do beleguim, não me faça saber por favor quanto ilegal é a sua vida neste momento, mestre José, que é certo que vão me fazer ainda um dia de testemunhar contra vossia no tribunal. Não me deixe nunca, não me deixe saber.

– A inocência diante da lei depende menos do tamanho da culpa do que do tamanho do escrutínio – disse o mestre de obras, – mas o que vossia chama justiça, fosse capaz de deliberar com justiça, diria que ao Estado não devo nada. Mas também nunca paguei.

– Diezin, esqueço sempre que vossia em dinheiro não toca. Mas ainda que todas essas suas obras sejam acordadas como escambo, vossia sabe que é coisa controversa a questão de se incidem ou não impostos sobre permutas, ainda que sejam de serviços.

– Nada que faço fica acordado em base de troca, isso de experiência vossia sabe.

– E a comida lhe aparece na mesa por mágica, a vossia e seus aprendizes.

– Feitiçaria não maior do que a aparição agora deste vinho bom. Ou do peixe assado que vossia fez há pouco desaparecer.

– Eu só odeio gente pobre quando acontece de comerem melhor do que reis – disse o questor. – Não é admirar o quanto odeio os pobres desta terra.

– O que trabalha de lembrete de que esta terra que não é sua acolheu até mesmo um picareta como eu. E vossia.

– Esta terra limada é meu exílio, Fabro, não como vossia minha escolha. Romantizemos mas só quanto baste. O que estou lhe dizendo com toda delicadeza é me entregue por amor à sua consciência o sujeito. O Estado quando apanhar o homem vai ser delicado com ele muito menos do que estou disposto a me mostrar agora.

– Homem nenhum é meu para dar – disse José. – Muito menos um que o Estado poderia querer para si.

O questor mexeu-se no lugar e desviou os olhos para o vale, pela primeira vez demonstrando alguma verdadeira irritação.

– Seu problema – ele disse – é achar como certa para os outros a liberdade que é muito precária sendo sua. Vossia não é estúpido de não saber que um soluço do Estado e todas as liberdades que vossia toma como suas lhe são tomadas por quem as dá.

– O Estado não me dá porra nenhuma – disse José Fabro, – muito menos alguma liberdade. Com o perdão da palavra Estado.

– E vossia que pede justiça para os pobres quer ver diluído ainda mais o pouco que lhes toca? Quer ver adicionados ao caldo da escassez universal imigrantes que nem para esse não muito contribuíram.

– Primeira coisa – José Fabro completou o seu copo e depois o do outro homem, – vossia nunca viu e não vai me ver pedindo justiça para os pobres. Havendo quem precise de justiça são os ricos, que vivem sem quem os chame para fora da servidão.

– Os ricos são escravos e os pobres livres, agora? Eu pedi que romantizássemos quanto baste.

– Os pobres não existem e nunca existiram, meu caro questor. Os pobres são uma fantasia, uma invenção, uma ferramenta; são uma ideologia dos que dão a si mesmos a liminar de ricos.

O questor levantou as sobrancelhas.

– Vossia mestre José decerto não ignora – ele disse – que depois de um dado tempo o seu pensamento deixa de ser pitoresco e brilhante e passa a ser incompreensível.

– Nunca foi minha ideia deixar alguma coisa clara, mas obrigado. E quanto aos imigrantes, o Estado deveria celebrá-los pelo que são: o contrário de inimigos. Imigrantes são gente que por qualquer motivo incompreensível não nos odeia, e cometem a impertinência de demonstrar.

– Gafanhotos também não odeiam a plantação – sorriu o questor, contente por ter achado como rebater o outro com uma palavra forte. – E vossia está de propósito ignorando o fato de que de dez mil imigrantes que não nos odeiam basta que deixemos entrar um, basta um, que nos despreze. Esse um pode nos destruir através justamente das liberdades que dez mil vieram entre nós encontrar.

– Vossia diz que a farsa da ideia de nação vale à pena ser mantida pela simetria de que há quem acredite numa farsa similar? A mia vossia não tem como convencer. E não me venha dizer que já não temos entre nós quem nos possa destruir. Não é também por acaso que os daqui que tem força para destruir fazem parte do embuste útil que é o Estado seu.

– A diferença, sinto dizer, está pura e simples na legalidade. O seu mais caro imigrante essa legalidade não tem.

– Não me perdoe vossia, mas um indivíduo não tem como ser coisa mais ilegítima e ficção maior do que uma nação.

– Diezin, José Fabro, fica difícil dialogar com quem tem por projeto acreditar em coisa nenhuma.

– Não tenho projeto outro além de não me deixar arrastar pelo seu.

– E eu, meu rei – disse o questor, – não tenho infelizmente como discordar simetricamente de vossia pelo tempo que iriam requerer a minha pança e a boa literatura da minha possível autobiografia. Vou ter de preencher as partes que faltam sem a participação de vossia, vou ter.

– Vossia vai me escrever maior do que mereço, isso não há quem não saiba.

O questor limpou com um recorte de pão o último suco do prato, limpou os dedos na madeira da mesa, recolheu o seu copo e pôs-se de pé.

– Vossia está então cem por cento seguro de que não vai me dar o imigrante ilegal e possível terrorista que está abrigando? – o enviado da capital esvaziou e devolveu à mesinha o seu copo. – Vai me obrigar a entregar na mesa dos meus superiores mais uma insubordinação e um revés com a assinatura de José Fabro? Quanto tempo vossia acha que essa cadeia pode continuar sem que me peçam a sua cabeça? Ou pior, sem que concluam que estou eu mancomunado com vossia? Estou disposto a arriscar não pouca coisa por amor ao espetáculo, mas entre a cabeça sua e a minha não vou pedir tempo para pensar qualseja.

– Uma vez no mercado de rua de Soapé – disse José Fabro, fazendo sinal para que o outro voltasse a sentar – vi um rapaz comprando rabanetes. Eu tinha um encontro marcado junto do relógio dali a uma hora, pelo que gastava tempo caminhando pelo mercado o mais devagar que podia. Quando vi o rapaz em pé diante da banquinha ele já estava pagando a compra que tinha feito, as duas mãos erguidas junto do rosto, como se não enxergasse bem. Com a mão direita ele apertava o maço de rabanetes e um saco de pano cru com dentro as outras verduras que já tinha comprado; com o indicador e o polegar livres ele contava e revirava uma ventina de moedas, todas de pouco valor, na palma da mão esquerda. Teria pouco mais de vinte anos, mas era mais alto e mais gordo do que alguém tão jovem pode ser neste mundo para viver sendo deixado em paz. Tinha uma barba dourada formidável, cabelos ralos e um rosto bonito infinitamente bom e infinitamente triste. Vossia não vai tirar de mim porque esse menino me chamou a atenção. Decerto eu não esperava encontrar no centro mais ruidoso do mercado uma viela tão deserta e tão quieta. Dez ou doze barraquinhas de batatas e outras raízes cobertas de pó escuro definiam aquele braço de rua, mas ninguém estava ali para vender. Só no centro a vendedora de rabanetes, que era jovem e enrugada e queimada de sol e tinha um feitio de esfinge e esperava com as mãos juntas assim na frente do corpo, sem dar qualquer sinal de pressa ou de cobrança. E o rapaz que pinçava as moedinhas da mão para pagar, e talvez tenha sido também isso: o tempo foi se acumulando e o rapaz parecia não encontrar as moedinhas certas ou que bastassem. De vez em quando ele apertava com o dedo uma moeda sobre a caixa de madeira diante da vendedora, mas no mais do tempo procurava na superfície da mão a conta certa, os gestos cada vez mais pesados de obstinação e embaraço, até que o rubor do rosto dele chegou ao meu que observava. Então algo extraordinário aconteceu: uma das moedinhas escorreu da borda da mão do rapaz e a poeira do chão acolheu sem ruído a sua queda. Ele não se abaixou para recolher a moeda e continuou o que estava fazendo, mas naquela altura o universo já havia se rasgado na minha frente e a minha alma estava destelhada e a minha nudez completa. O que aconteceu foi que o rapaz terminou de pagar, ajeitou os rabanetes dentro do saco de pano e foi embora gingando nos quadris muito largos, foi embora deixando no chão o dinheiro onde ele tinha caído. Fiquei sem saber se ele não recolheu a moeda porque não a viu cair, se porque ficou com vergonha de se abaixar para recolher uma ninharia ou porque se achava gordo ou míope demais para recolher a moedinha do chão sem chamar a atenção pela deselegância.

O questor estava sentado nos degrauzinhos da varanda e ouvia a história com os pulsos apoiados nos joelhos. A dureza do rosto dele aqueles dez minutos tinham drenado.

– Vossia naturalmente apanhou a moedinha do chão e deu de volta ao rapaz – ele disse.

– É o caso que não – disse José Fabro. – Eu estava paralisado e paralisado fiquei. Só voltei a respirar quando a vendedora por alguma razão virou o rosto e me olhou nos olhos e me ofereceu um olhar de pura curiosidade, livre de todo desprezo e de toda condenação. Contornei o olhar da mulher e contornei a moeda caída no pó e segui na direção que tinha tomado o rapaz, mas a multidão já o tinha requerido para si. Nunca mais vi o sujeito. Nunca trocamos uma palavra.

– Vossia é José Fabro, cacete – o questor deu ênfase a cada palavra. – Nunca vi vossia paralisado por coisa nenhuma, e não consigo ver.

– O universo sabe muito bem como desarmar o cabra, meu caro. Se alguém, quem quer que fosse, tivesse ousado diminuir ou constranger aquele rapaz na minha frente, teria sido o alvo infeliz de toda a joséfabrice desse mundo. Até o osso eu teria limado o miserável. Mas ali quem estava constrangendo o menino era o universo, e isso me paralisou. Isso me destelhou. O que senti muito claro é que nada que eu pudesse fazer teria força para tornar a vida daquele guri menos dura e menos injusta. Nada que eu pudesse fazer bastaria para tirar de cima dele o manto de indignidade que não era seu e que não é de ninguém mas o mundo lhe havia colocado nas costas.

O questor baixou os olhos.

– E vossia me contou essa história para me amolecer daquilo que o mundo me trouxe aqui para fazer.

– Conto sim porque essa foi das duas ou três vezes em que o universo se mostrou sem pudor na minha frente, não fazendo questão de esconder engrenagem qualseja do seu moinho. Dentre as coisas que entendi naquele momento, sabe vossia qual a diferença entre aquele rapaz e o meu filho? Nenhuma. Rigorosamente, matematicamente, nenhuma. Eles inclusive se parecem. Sabe vossia a diferença entre aquele menino e eu mesmo, entre aquele garoto e cada mulher ou homem que vivem debaixo de algum peso arbitrário que lhes deixaram por herança outros homens e mulheres? Nenhuma. Diezin, o absurdo daquilo tudo, trocar comida por círculos de metal.

– O que vossia podia ter feito pelo rapaz, José Fabro? Deixe essa história em paz. Deixe o menino em paz, que é essa só a dignidade que vossia pode lhe dar.

– Por aquele menino eu podia ter lhe defendido dos ataques que vão querer drenar-lhe a ternura.

– Vossia podia quando muito ter ensinado ele a lutar.

O mestre de obras apertou os lábios.

– Vossia não ainda entendeu, meu caro corréu, que é preciso desarmar os armados em vez de ensinar os indefesos a lutar?

O questor suspirou.

– Pode-se dizer – ele disse – que este hoje é o primeiro dia em que José Fabro me decepcionou: a primeira ocasião em que a mia vossia pareceu mais iludido do que lúcido. Ensinar os indefesos a lutar é uma quimera enorme, meu amigo, mas está ainda dentro do possível. Já os armados só se deixam desarmar por quem chegar empunhando arma maior.

– Arma maior deve haver.

– Sua arma não pode ser só a sua língua, José Fabro. Nem ela vai conseguir salvar o mundo.

– Concordo plenamente.

– Ficamos assim, então – o questor pôs-se de pé e limpou as mãos uma na outra. – Vou embora deixando vossia acreditar que comprou com a moeda da sua história a liberdade de um homem que não merece a sua proteção, um homem que se não erro a sua proteção nem chegou a pedir?

– Nada paga por coisa nenhuma, senhor questor, mas deixemos como caução entre eu e vossia aquela moeda caída na poeira do mercado de Soapé. Quem dentre nós tiver maior necessidade ou mais impaciência que trate de lhe testar a liquidez. O que vossia por certo desconfiou e com fundamento é que o homem que vossia procura nunca esteve longe; foi naturalmente ele quem preparou o peixe que meu filho pequeno colocou na sua frente.

O homem da capital trouxe à superfície o melhor sorriso que encontrou à mão naquela dia, naquela hora da tarde. Sua escolta foi se fechando atrás dele à medida em que ganhava distância da casa e da orla do vilarejo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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