Borges e a glorificação do argumento • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de setembro de 2004

Borges e a glorificação do argumento

Estocado em Manuscritos

Nenhum escritor me intriga mais do que Jorge Luis Borges. Nenhum me satisfaz mais, e deixo aqui minhas desculpas a Shakespeare e a Lovecraft, mas também a inúmeros outros.

Em breves momentos de lucidez sou obrigado, no entanto, a reconhecer que a posição de Borges na literatura é pelo menos única – para não dizer precária. Eis aqui um autor menor que alcançou a consagração através de um gênero menor, a história curta; a poesia o interessava muito mais do que me interessa, mas como poeta Borges está apenas eventualmente acima do medíocre; sua obra “visível” não está nos austeros volumes de capa bege das Obras Completas, mas confinada entre as páginas de dois livros pequenos: O Aleph e Ficciones.

Já pensei em defender a teoria de que a maior sacada de Borges está encapsulada em duas de suas características: primeiro, seu estilo sintético, pseudo-clássico, que dá a impressão (quase acertada) de que estamos diante do narrador último e indefectível. Segundo, seu insight metalingüístico de tecer histórias ao redor de livros; os contos de Borges são quase sempre livros dentro de livros falando de livros. Para o leitor obcecado com a literatura (e, naturalmente, apenas o leitor é obcecado com a literatura), o encanto de Borges é evidente. O amante de livros sente-se mais tocado pela sua própria paixão por livros, adequadamente celebrada e incitada por Borges, do que pelo destino ou pelas peripécias de Quixote ou de Capitu.

Parte do sucesso do projeto literário de Borges está em ter investido no conceito, até onde eu saiba original mas de certa forma evidente, de que o leitor contemporâneo se interessa mais por livros do que por personagens.

Borges demonstrava o mesmo rigor quer seguindo consistentemente o seu projeto literário quer tecendo histórias inatacavelmente bem amarradas, arquitetonicamente perfeitas como catedrais. Não será inteiramente injusto comparar os contos de Borges a filmes como O Sexto Sentido e Memento, que almejam alcançar pouco mais do que o assombro do espectador, e cujo eventual sucesso depende em grande parte do rigor da execução. Borges, que fingia considerar o assombro em literatura um objetivo menor, persegue à todo custo o assombro e a incontida admiração do seu leitor.

Essa obsessão de Borges com a execução rigorosa de um argumento pode ser a chave para a compreensão de um aspecto fundamental da sua obra: que o projeto de Borges está embasado, em última instância, na glorificação do argumento. Borges acreditava, ou o seu projeto literário exigia que ele fingisse acreditar, que a idéia para um livro (um argumento) é mais importante (ou mais interessante, para um leitor hedônico) do que o livro em si.

Os verdadeiros protagonistas de Borges são menos livros do que idéias para livros. São presença constante, em seus contos, os personagens ocupados mentalmente “com a elaboração de um argumento para um conto fantástico” – tratam-se de personagens de livro pensando numa idéia para outro livro (quem sabe o mesmo). As idéias para livros (de Borges, mas impingidas artificialmente sobre nomes fictícios que são por sua vez personagens e porta-vozes dos argumentos de Borges) formam, de formas diversas, o eixo central de inúmeros outros contos: basta considerar o Exame da Obra de Herbert Quain, Três Versões de Judas e A Aproximação a Almotásim. Por vezes Borges cede e escreve uma história aparentemente “limpa”, mas cuja construção rigorosa denuncia que a intenção de Borges é que admiremos menos a trajetória aventurosa do personagem do que a excelência do argumento em si: coisas como O Sul e Emma Zunz.

Dito de certa forma, Borges elevou o esboço a uma condição igual ou superior à obra concluída; dito de outro, sua abordagem única mostrou-se capaz de interessar infinitamente a escritores ou àqueles que aspiram à condição de escritores – ou seja, praticamente todo leitor contemporâneo. Todos nós que temos ou sonhamos em ter “uma idéia boa para um livro”.

Borges nunca escreveu uma obra longa e muitos perguntam-se ainda porque. Borges manteve-se consistentemente fiel aos seu projeto literário, eis o porquê. Se o argumento de Os Irmãos Karamazovi não pode ser resumido em dois ou três parágrafos, interessa mais a um leitor do que a um escritor – e Borges finge não ter interesse em fazê-lo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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