Big Brother: A vigilância sem trégua do espetáculo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 30 de junho de 2006

Big Brother: A vigilância sem trégua do espetáculo

Estocado em Manuscritos

Uma das primeiras e mais fundamentadas críticas articuladas contra o capitalismo foi que, em nome da eficiência, ele separava os trabalhadores do produto do seu trabalho. Pela primeira vez na história acontecia de trabalhadores livres encontrarem-se alienados em larga escala do esforço produtivo das suas mãos. Graças à curiosa mágica do capitalismo, você podia trabalhar a vida inteira numa linha de montagem sem chegar a ter um Fiat na garagem; podia trabalhar numa agência de viagens sem chegar a deixar o país.

Estamos ainda aprendendo a sobreviver às sequelas dessa alienação. Muitos críticos sensatos sugerem que a separação entre o trabalhador e fruto do seu trabalho criou uma forma incapacitadora de castração mental: sob o capitalismo, o operário abre deliberadamente mão do privilégio fundamental de autocondução da vida; vende a primogenitura da liberdade pela segurança da benção do sistema. O que o operário vende é o seu trabalho (e portanto sua vida) à máquina capitalista, renunciando dessa forma a privilégios de autodeterminação de que ainda desfrutam, em alguma escala, trabalhadores rurais, artesãos, mendigos, militares, artistas, pescadores e professores.

O problema essencial dessa concessão é que ela abre espaço para inúmeras outras. O capitalismo acaba separando não apenas o trabalhador do fruto do seu trabalho: separa também o consumo das necessidades. O consumidor capitalista não consome porque precisa ou mesmo porque quer: sua vida de consumo subsiste inteiramente à parte das suas verdadeiras necessidades, quaisquer que sejam, com as quais ele perdeu todo o contato.

O primeiro passo abre precedente para o segundo: sob o capitalismo o trabalhador não abre mão apenas de [1] o trabalho das suas próprias mãos, mas também de [2] determinar quais sejam as suas próprias necessidades. O sistema fechado que o protege e sustenta deixará muito claro aquilo que ele deve consumir e desejar. Veja esta torradeira, este laptop, este iogurte. Agora com nova embalagem. Você sabe que quer um igual – o sistema alimentou-o direitinho. Resistir é inútil.
 

A questão mais recente e por certo mais grave é no entanto outra. Até recentemente restava ao trabalhador capitalista vestígios de autodeterminação na maneira como ele decidia conduzir a sua vida social e utilizar o seu tempo livre. Essas brechas possibilitavam alguma liberdade e espaço para desintoxicação. Mesmo que tivesse de se dobrar à máquina 8 horas por dia, cinco dias por semana, sobrava ao operário o resto da vida, – preciosíssimo nicho dentro do qual ele podia recuperar o espectro total do potencial humano através da prática criativa.

A sociedade do espetáculo é o momento em que o consumo conquistou a ocupação total da vida social.

Isso foi antes que a sociedade capitalista fosse inteiramente engolida pela onipresença do espetáculo – e entenda-se como espetáculo tudo que, não sendo trabalho, também não é vida social ou prática criativa: cinema, TV, esportes e shows pela TV, teatro, conteúdo da internet, jogos de computador, noticiários, shows de música, documentários, apresentações de powerpoint, desenhos animados, jornais, reality tv, revistas, netflix, programas de calouros, de perguntas e respostas, trailers, pornografia, videocassetadas, rádio, filmes da internet, arquivos mp3, cartuns, histórias em quadrinhos, animações da internet e muita e muitas mídias sociais.

Vivemos o que a Escola de Frankfurt (Horkheimer e Adorno em 1972; Marcuse em 1964), chama de sociedade “totalmente administrada” ou “unidimensional”. Ou, segundo Guy Debord: “A sociedade do espetáculo é o momento em que o consumo conquistou a ocupação total da vida social”. E este, senhoras e senhores, é um dos conceitos mais fundamentais do nosso tempo.

Essa transição estrutural para uma sociedade do espetáculo envolve a transformação em mercadoria de setores previamente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle burocrático aos domínios do lazer, do desejo e da vida cotidiana”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).

A diferença entre ontem e hoje está em que nossos hobbies e nossa vida social éramos nós mesmos que definíamos; o espetáculo sem trégua da TV/internet nós consumimos de forma inerte e – eis a pegada – o tempo todo. Da Copa do Mundo ao Big Brother ao novo Super-Homem aos canais da TV fechada ao cartum da internet ao culto dominical à formatura de judô da Mariana – só nos resta tempo livre para o espetáculo.

E como é a aplicação do tempo livre que determina o que somos (ou sentimos que somos), não nos resta autodeterminação alguma. Não restamos. Somos recortes de papelão numa sociedade unidimensional.
 

É a absolutização da política do pão e circo: enquanto está consumindo o espetáculo você não representa ameaça alguma. E não corre o risco de descobrir quem é.

Para Debord, o espetáculo é uma ferramenta de pacificação e de despolitização; é uma ‘guerra do ópio permanente’, que estupidifica os agentes sociais e distrai-os da tarefa mais urgente da vida real. O conceito de Debord de espetáculo está intimamente relacionado aos conceitos de separação e passividade, pois em espetáculos consumidos passivamente o espectador é alienado de produzir ativamente a sua própria vida”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).

Na novela 1984 George Orwell imagina uma sociedade inteiramente subjugada por um governo burocrático e totalitário: todas as casas e aposentos são monitorados por câmeras ocultas de vídeo, e o mundo tem suas iniciativas esmagadas pela vigilância eterna do Grande Irmão (Big Brother).

Orwell, embora se julgasse pessimista, nos superestimou. A realidade é muitas vezes menos inteligente e certamente mais incrível. Nossa sociedade é absolutamente controlada e inofensiva, não porque o Big Brother nos vigia o tempo todo, mas porque assistimos o tempo todo ao Big Brother.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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