Batman, Sócrates e Jesus: buscai primeiro a sua justiça • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de Março de 2016

Batman, Sócrates e Jesus:
buscai primeiro a sua justiça

Estocado em Manuscritos

Este relato é a parte 1 de 7 da série Até onde você quer ir com a justiça

Nunca deixe Sócrates perguntar ao Batman o que é justo

Um dos motivos pelos quais sou 100% impermeável ao apelo dos quadrinhos e filmes de super-herói é que a obsessão norte-americana com a justiça não faz qualquer sentido para um sujeito nas minhas latitudes. As narrativas de super-herói são ensaios e variações na sondagem dos extremos da aplicação da justiça, e o sertanejo/letão/italiano dentro de mim não consegue conceber exercício mais almofadinha e mais maçante.

Os uniformes e narrativas de origem mudam, mas o arcabouço é o mesmo: o super-herói é compelido a agir porque tem despertado o seu senso de justiça, e este é despertado quando ele entende que a justiça tradicional de polícia e tribunais irá se mostrar em todos os casos insuficiente, quer seja contra os reis do crime de Gotham quer contra as ameaças de outra dimensão.

É um molde que não deveria funcionar fora dos Estados Unidos, que têm por esporte nacional explorar os limites superiores da própria imaginada virtude. Sendo obcecados com a ideia de equidade e retribuição (leia-se o deliciosamente cínico conto O suborno, de Jorge Luis Borges), os americanos admiram a justiça dos tribunais mas consideram-na ao mesmo tempo insuficiente, sempre sujeita às tentações da moderação e da parcialidade. Sua imaginação requer a ação de uma forma de justiça independente e superior, mais estrita e implacável, uma superjustiça que é ela mesma a esfera do super-herói – o vigilante, o justiceiro, o vingador. Quando meros homens não bastam ou hesitam, o super-homem se torna a mão de Deus na execução da divina retribuição1.

O quanto esse arcabouço é similar àquele em que operam tanto assassinos em série quanto os franco-atiradores que saem distribuindo tiros ao Deus dará nas escolas americanas não será necessário ponderar agora. Bastará lembrar que nada disso faz sentido para o resto do mundo. Em países de temperamento mediterrâneo como o nosso o sentimento natural é que a justiça da polícia e dos tribunais tende a ser excessiva em vez de insuficiente. Como julgamos a justiça por propensão excessiva, difícil para nós é imaginar a operação de uma superjustiça que não acabe se mostrando uma sorte infernal de superinjustiça. O super-herói permanece para nós uma abstração e um efeito especial2.

Sócrates e o evangelho da ignorância universal

A obsessão dos Estados Unidos com a justiça estrita é no mínimo curiosa, considerando que são como nação (e muitas vezes orgulham-se de ser) a culminação de uma tradição cultural que tem antecedentes nas luzes da filosofia grega e na piedade da herança judaico-cristã.

O paradoxo, claro, está em que tanto os filósofos gregos quanto os expoentes do judaísmo e do cristianismo tinham visões mais sofisticadas e nuançadas a respeito da justiça do que o mais persuadido justiceiro.

Conveniente para todos os envolvidos (e quem não está) seria colocar de lado por um momento o Batman e pausar a hora e meia necessárias para a leitura do Eutífron, que tal?3. Ah, o prazer de ver Sócrates denunciar metodicamente, implacavelmente, a superficialidade cheia de convicções do protagonista, almofadinha de Atenas, sujeito muito convencido da própria superioridade moral e infame precursor de Donald Trump, Diogo Mainardi e Mario Sabino.

O proto-americano Eutífron abraçava uma ideia tão estrita de justiça que quando o Sócrates o encontra no começo da história ele está na porta esperando o tribunal abrir para denunciar o próprio pai por homicídio culposo (um trabalhador de seu pai tinha morrido de fome e de exposição aos elementos por ter sido acorrentado e jogado numa vala, depois de ter matado um escravo e enquanto aguardava julgamento). Considerando que Eutífron tem uma noção tão rigorosa e desenvolvida do que é justo e virtuoso, Sócrates pede que ele lhe forneça uma definição de virtude que lhe possa conduzir na sua própria defesa no tribunal.

É tudo pretexto, claro, para que Eutífron forneça definições de virtude e justiça que Sócrates acabe demolindo uma a uma como insuficientes e tendenciosas, coisa que realmente são. O efeito acumulado desse rigor é um protagonista exasperado e posto a nu. Um cidadão muito sério, conservador e convicto, que se afirma inteiramente guiado pelo seu senso de justiça, acaba denunciado na superficialidade da sua convicção e da sua conduta – porque a justiça que o guia ele na verdade não sabe dizer o que é além de trivialidades e lugares-comuns que não demonstram qualquer solidez ao exame.

Antes de Eutífron, meu primeiro diálogo de Platão, o que eu sabia de Sócrates era ele ter sido o filósofo “que sabia que nada sabia”. A figura que encontrei foi mais fascinante e muito mais incômoda, porque neste e em outros episódios Sócrates faz de sua missão denunciar às outras pessoas, diante delas mesmas, a superficialidade daquilo de que estão convictas. O mundo vai ser um lugar mais justo e equilibrado, ele sugere por onde passa, se cada um se deparar e se conciliar com o fato de que não sabe aquilo que acredita que sabe.

Quatrocentos anos antes de Jesus, Sócrates pregava o evangelho agridoce da ignorância universal, e sua impenitência não teria como não o ter levado à condenação e à morte. Quem quer ser apanhado pela consciência de que não sabe do que está falando ou pelo que está vivendo? Quem é forte o bastante para sustentar o peso da sua própria precariedade?

Em sua impertinência sempre gentil e sempre impossível de rebater, o ateniense é o antídoto perfeito para a convicção presumida e destemperada de Batman e capitão Nascimento.

Pede pra sair, como Eutífron acabou fazendo.

O Jesus do Filho Pródigo e os profetas da misericórdia

Sócrates parece ter acreditado que mais do que fazer o que é errado, a verdadeira injustiça está em deixar de fazer o que é certo, e aqui (como em outros lugares) sua posição está muito alinhada com a herança judaico-cristã4.

Judeus e cristãos começaram onde os americanos terminaram, com a ideia de uma esfera de superjustiça em que Deus operava acima dos homens. Porém imaginaram ou intuíram para a divindade um trajeto oposto, que começava na justiça estrita só para entender que nada há de desejável ou de sustentável nela.

Na tradição judaica iniciada pelos profetas bíblicos e assimilada pelo Talmude e judaísmo adentro, na pausa imponderável antes da criação Deus entende que o universo não poderá ser governado pelo princípio da justiça estrita; não poderá ser sequer criado por ele.

Desde o começo a mão divina é guiada pela misericórdia, até mesmo no ato da criação, em que Deus se recolhe para gerar na geografia da sua suficiência lugar para o universo e para o homem.

Na tradição judaica essa disposição irá guiar a divindade história adentro. Se a obra da justiça é a paz, como requer Isaías, o julgamento terá de ser temperado pela misericórdia: porque onde há justiça estrita não há paz, e onde há paz não há justiça estrita (Sacks).

O cuidado divino em moderar o seu próprio senso de justiça tem todo o tipo de consequências para meros homens. Se Deus, que não tem como errar, abre mão de operar pelo princípio da justiça, quanto mais tolerantes deve se mostrar gente falha em seus julgamentos como os seres humanos?

Para o profeta Miquéias, Deus em seu exemplo (porque Deus encontra prazer na misericórdia: Miquéias 7:18) já deixou claro aos homens o que é bom, e se trata de “fazer o que é certo (como diria Sócrates), amar a misericórdia e conduzir-se com humildade”. Através de Oséias, a divindade desabafa num tuíte: “O que eu quero é misericórdia, não sacrifício”.

Essencialmente, Deus tem dificuldade em tolerar nos homens a sua incapacidade de aprenderem com ele a serem tolerantes. É uma lição que já deveriam há muito ter aprendido, tendo em vista que as suas misericórdias “duram para sempre” e “se renovam a cada manhã”.

O momento mais cândido desta progressão, talvez, está registrado num dos tratados do Talmude Babilônico. Deus é surpreendido por um adorador no Santo dos Santos, fazendo uma oração a si mesmo: “Seja a minha vontade que a minha misericórdia suprima a minha ira, e minha misericórdia prevaleça sobre os meus outros atributos, para que eu trate meus filhos a partir da misericórdia e, em benefício deles, não chegue a operar dentro da linha da justiça estrita”.

Para os cristãos, Deus ouviu espetacularmente essa sua oração na pessoa de Jesus, o anti-super-herói por excelência – o cara que desce da esfera da superjustiça para declarar em nome de Deus mas neste mundo um perdão sem limites, sem descontos e sem juros, uma graça impessoal, ao portador e transferível. Seu Pai é o Deus que cospe na cara da justiça estrita, o impenitente que não deixa de acreditar na reabilitação e recebe o filho sem caráter com uma festa em vez de uma punição, um abraço em vez de um açoite, um banho de loja em vez da cobrança da promissória.

Jesus é uma rigorosa reprise do episódio do Talmude, o Deus na cruz fazendo uma oração a si mesmo: “perdoe esses caras; eles não sabem o que estão fazendo”.

 

Cada uma dessas visões nuançadas a respeito da justiça poderia ter temperado a cosmovisão norte-americana porque fazem parte do seu DNA cultural, mas como ninguém ignora, não aconteceu.

Mesmo antes que alguém delineasse no papel os músculos do primeiro super-herói, os Estados Unidos já haviam abraçado silenciosamente e pregavam mundo afora o mito da violência redentora – a ideia muito humana mas nada socrática e nada judaico-Jesus de que a violência pode, e na maior parte dos casos deve, ser aplacada por uma violência equivalente ou maior.

A violência redentora é o código de Batman, dos Avengers (Vingadores!), da liberação do Iraque e dos ataques de drone, sendo que cada uma dessas categorias opera na esfera (uma vez fictícia, agora hiper-real) da superjustiça.

A superjustiça não tem de parar com Sócrates para examinar do que e para que o Iraque está sendo liberado, porque Sócrates se deixou executar diante de uma condenação injusta e Eutífron não precisa mais encarar a superficialidade das suas convicções.

A superjustiça não precisa ponderar os riscos e a moralidade dos ataques de drone, porque Israel tratou de apagar em sua fúria contra os palestinos o ensino judaico tradicional sobre a primazia da tolerância e da misericórdia.

A superjustiça não tem de ouvir o que Jesus teria a falar a respeito de qualquer uma dessas coisas, porque os cristãos trataram de soterrar a sua subversão debaixo das intolerâncias e ódios que cuspiram em seu nome ao longo de milênios e ao mundo continuam a infligir sem pausa.

Silenciosamente, porque a todos silenciamos, esses e outros anti-super-heróis nos dizem a mesma coisa: que podemos ser talvez salvos da superjustiça, e quem sabe salvar dela um ou outro, se como o Deus do Talmude aprendermos a rezar para não desejá-la.
 

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Nesse molde se encaixam mesmo os heróis sem superpoderes como Zorro, Dexter e Batman, super-heróis mais do que honorários pela naturalidade com que operam na esfera da superjustiça/divina retribuição. []
  2. É natural que o molde americano pode ser importado e constantemente o é. O protagonista de Tropa de Elite opera na esfera da superjustiça e é sem tirar nem por um super-herói brasileiro, talvez o primeiro. O capitão Nascimento é também a encarnação do brasileiro de direita, que toma os Estados Unidos como modelo e sonha com super-heróis que sujeitem a realidade do Rio de Janeiro e do Brasil em Disneylândia, como fosse coisa possível ou desejável. Para os brasileiros não convertidos ao capitãoamericanismo o capitão Nascimento é um boçal e um canalha, mas precisamente nisso somos para ele a ameaça a ser eliminada. Não é a nossa admiração o que ele quer. []
  3. Ninguém deveria permitir que o peso arbitrário da expressão “diálogo de Platão” o separasse da experiência de estar sozinho com esta jóia e outras da mesma origem. Não há leitor que ame a literatura e não ame Sócrates mesmo sem saber: em lucidez, genialidade, humildade, dureza e gentileza ele é honroso antecessor de Jesus, Tolstoi, Borges, João Grilo, Hamlet, São Francisco, José Fabro e Sherlock Holmes. []
  4. Isso porque não há tempo aqui para falarmos dos filósofos cínicos, meus absolutos favoritos e os mais desalinhados precursores das galhardias do Filho do Homem []
Este relato faz parte da série

Até onde você quer ir com a justiça

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