As variedades da experiência capitalista • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de agosto de 2004

As variedades da experiência capitalista

Estocado em Fé e Crença · Manuscritos

A fim de manter a sua supremacia por um período significativo de tempo, um sistema religioso precisa sustentar valores e ideias que parecem evidentes por si mesmos à maior parte dos membros de uma sociedade. As principais ideias de um sistema religioso têm de ser naturalmente transferíveis às novas gerações, sem que precisem ser ensinadas diretamente; os desvios da norma, os hereges, devem por sua vez ficar evidentes e ser excluídos por um mecanismo instintivo de rejeição logo que se manifestam.

Há pelo menos três séculos o cristianismo como sistema religioso formal da civilização ocidental foi substituído pela crença universal no capitalismo. O capitalismo (leia-se, e em inglês, way of life) provou-se por todos os critérios o sistema de crenças mais bem sucedido da história.

Isso porque, como qualquer muçulmano radical pode facilmente apontar, o capitalismo é uma religião como qualquer outra – apenas mais enraizada e muito mais difícil de converter. Embora a história do sucesso do cristianismo e do capitalismo ocidental andem até certo ponto de mãos dadas, os sistemas de segurança e multiplicação do capitalismo Para o cristão, o mundo é justo porque qualquer pessoa pode alcançar o paraíso. Para o capitalista, o mundo é justo porque qualquer pessoa pode ficar rica.como sistema de fé são infinitamente mais estanques e bem amarrados do que os do cristianismo jamais foram.

Alguns valores subjacentes ao cristianismo (como, digamos, a ênfase na humildade e no sacrifício pessoal) nunca tiveram apelo diante do cidadão comum como as seduções embutidas no capitalismo.

Os mecanismos de defesa e autopropagação das duas religiões, no entanto, são muitos semelhantes e denunciam uma origem comum. Durante o período de supremacia do cristianismo institucional qualquer cidadão que ousasse propor uma alternativa ao cristianismo ortodoxo era imediatamente taxado, condenado e convenientemente eliminado da discussão como herege; nos dias de hoje, qualquer cidadão que ouse propor uma alternativa ao capitalismo ortodoxo (como fazem, por exemplo, os proponentes do software livre e os que advogam leis menos restritivas de copyright) é imediatamente taxado, condenado e convenientemente eliminado da discussão como comunista.

Já foi dito e comprovado que em outro tempo as esperanças instiladas pelo cristianismo permitiram que ele servisse como instrumento de dominação e controle por parte das classes superiores. O homem comum que acreditava na felicidade numa vida futura não precisava revoltar-se contra as injustiças desta vida. Enquanto o cristianismo era a religião das multidões, diz esse raciocínio, as multidões eram fáceis de controlar e de apaziguar: diante de qualquer insatisfação com uma injustiça presente, bastava acenar com a garantia da justiça eterna.

A verdade é que, com esperanças ainda mais artificiais (e garantias pelo menos tão irreais), o capitalismo alcançou sucesso ainda maior como religião. A diferença de ênfase do capitalismo é na verdade sutil, mas como sistema de domínio da população sua eficácia é infinitamente maior. O homem comum dos dias de hoje não precisa revoltar-se contra as injustiças desta vida porque ele acredita que o sistema é livre e eficiente, e nada impede que ele ascenda na escala social e econômica ainda nesta vida. Esta promessa de mobilidade social, com que lhe acena a sociedade “livre”, é a sua fé inviolável. Não importa quão poucos sejam os que de fato ascendem socialmente como resultado da livre iniciativa (talvez um ainda menor número dos que no regime anterior subiam ao céu), mas para a permanência dos sistema basta que a ilusão persista.

As multidões hoje em dia são fáceis de controlar e de apaziguar porque, diante de qualquer insatisfação com uma injustiça presente, basta acenar com a liberdade e a justiça inerentes ao sistema: “se você não chegou ate onde eu cheguei”, dizem em silêncio as classes dominantes, “é porque não tem a mesma garra e a mesma competência que eu. Você poderia ter se esforçado mais, e na verdade ainda pode: a culpa pelo seu fracasso é sua e somente sua”.

Segundo o cristianismo, o mundo é justo porque qualquer pessoa, desde que realmente queira, pode alcançar o paraíso na eternidade. Segundo o capitalismo, o mundo é justo porque qualquer pessoa, desde que realmente queira, pode ficar rica. Acenando com promessas diferentes, os dois sistemas produzem resultado semelhante e que tende a manter o estado de coisas. No final das contas, quem crê nas promessas do capitalismo é pelo menos tão manipulável e conformado com a sua sorte quanto o mais devoto cristão.

O menor sucesso do capitalismo não foi ter apagado do próprio cristianismo qualquer traço de originalidade. Não importa que o Novo Testamento defenda, de uma a outra capa, a humildade, o altruísmo e o comedimento; não importa o “bem-aventurados os pobres” e o “ai dos ricos” de Jesus. O alvo de qualquer cristão ocidental contemporâneo está sincronizado com o capitalismo, não com a ousada mensagem de contracultura que permeia o Novo Testamento.

Para verificar o sucesso definitivo do capitalismo como sistema de crenças basta ver que até mesmo as seitas cristãs alteraram as suas ênfases ideológicas a partir do sucesso irresistível do seu antagonista. Hoje em dia nenhum sistema religioso cristão bem-sucedido ousa acenar com promessas para a vida futura. Para serem ouvidos, incansáveis mensageiros evangélicos despejam em rádios e programas de televisão as mesmas esperanças de prosperidade financeira e pessoal oferecidas pelo capitalismo.

Uma felicidade que não seja para esta vida não interessa aparentemente a ninguém, mas a felicidade prometida para esta vida pode controlar quem quer que seja.


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O título deste artigo é chupado do instigante The Varieties Of Religious ExperienceAs Variedades da Experiência Religiosa, do psicólogo americano William James, publicado pela primeira vez em 1902. Para fins do seu estudo de “religião natural”, James definia religião como “os sentimentos, atitudes e experiências dos indivíduos na sua esfera privada, no que diz respeito à posição em que eles avaliam-se estar em relação ao que quer que seja que considerem o divino”.

James ficaria surpreendido com o rumo que o seu campo de estudo assumiu nas últimas décadas. O divino hoje em dia é o capital – o nirvana, o crédito ilimitado.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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