As persistentes persuasões do desenvolvimento • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de julho de 2016

As persistentes persuasões do desenvolvimento

Estocado em Manuscritos

O que o PT e o capitalismo têm em comum? A crença de que de uma produção crescente brotará naturalmente a justiça.

Foi precisamente essa perda de contato com o passado, nosso desenraizamento, que deu origem aos “descontentamentos” da civilização, a uma pressa e uma agitação tão grandes que vivemos mais no futuro com suas quiméricas promessas do que no presente, cujo passo acelerado nosso pano de fundo evolucionário não aprendeu ainda acompanhar. Precipitamo-nos impetuosamente novidade adentro, guiados por um senso cada vez mais acentuado de insuficiência, de insatisfação e de inquietação. Não vivemos mais daquilo que temos, vivemos de promessas; deixamos de viver à luz do presente e passamos a viver nas trevas de um futuro que, esperamos, trará o aguardado amanhecer. Recusamo-nos a reconhecer que toda coisa melhor é comprada ao preço de uma coisa pior.

Carl Jung em Memories, Dreams and Reflections (1957)

 

Como todo mundo, minha tendência é pensar na esquerda como um movimento político concebido com a finalidade de contrapor e anular os excessos do capitalismo. O socialismo, no mundo dos meus sonhos, deveria ser capaz de consertar tudo que é patentemente injusto, insensato e irresponsável no liberalismo econômico: em primeiro lugar, é claro, as devastadoras injustiças sociais patrocinadas pelo capitalismo, mas não só isso. Deveria ter também como prioridade rejeitar os dogmas ancestrais que representam a base e o combustível do capitalismo, especialmente a fé pública e inabalável na trindade suprema do lucro, do consumo e da produtividade – especialmente porque é esse doutrinamento que acaba produzindo as injustiças sociais em primeiro lugar. A situação política ideal, para mim, é aquela em que a injustiça social é anulada porque todos abandonam a obsessão circular e ilusória com o dinheiro, com o consumo e com a produção.

Cara, que idiota que sou. O governo do PT bastou para demonstrar que a esquerda petista é para todos os efeitos a minha direita. Não creio que os petistas sejam mais desonestos do que o político brasileiro mediano, mas por certo não são os reformadores da realidade com que cheguei por um momento a sonhar.

Ao contrário do que agouravam muitos de seus detratores, o governo do PT permaneceu moldando o país numa lubrificada e implacável potência econômica – um da meia dúzia de lugares do mundo em que dizer investimento era quase o mesmo que dizer retorno.

Naturalmente, o PT faz avançar esse projeto com mais responsabilidade social do que os governos anteriores, mesmo porque era impossível agir com irresponsabilidade maior. As reformas sociais colocadas em andamento pelo PT foram a meu ver muito reais e muito necessárias; eram urgentes décadas antes de serem colocadas em prática. Porém, ao mesmo tempo, não há como não enxergar na política econômica petista uma indisfarçada inveja do pênis capitalista.

De modo menos sutil (e, segundo alguns indicadores, com eficácia maior) do que os governos de direita que o precederam, o governo petista permaneceu obcecado em aumentar o escopo, a eficiência e o impacto da produção nacional. O PT quis demonstrar de modo espetacular que a sua estirpe de esquerda é economicamente viável, que produz e dá lucro – e no processo acabou endossando espetacularmente o artigo maior da confissão de fé capitalista, de que é o lucro (e não, digamos, uma maior equidade na distribuição de renda) a medida pela qual se deve pesar o sucesso de um país, de um governo ou de qualquer empreendimento.

Para o PT, a situação política ideal é aquela em que a produção reine suprema e desimpedida, desde que livre do embaraço da desigualdade social. Uma vez que se garanta um patamar mínimo de justiça social, a ênfase deve ser voltada para a produção, tomando-se as devidas providências para que não pare de crescer.

É evidente que há maior mérito em entronizar a produção acompanhada da equidade social, como procurou fazer o PT, do que, como faz o liberalismo econômico, deixar que o culto à produção e ao capital esmague todo traço de justiça. Porém a esta altura já deve ter ficado claro que o pressuposto econômico mais fundamental do PT é idêntico àquele do capitalismo: a noção de que a obsessão com a produção e com a produtividade não é incompatível com a justiça social. Na verdade, tanto o PT quanto o capitalismo creem que a produção é efetivamente o caminho para a justiça. Nos dois credos, o mundo só permanecerá viável enquanto as pessoas produzirem (isto é, consumirem) cada vez mais e de modo mais eficiente.

Para a esquerda da qual estou falando, o crescimento econômico é uma missão tão sagrada quanto é para o neoliberalismo. Uma vez definido como missão, tudo que se coloca no caminho do aumento da produção pode ser muito literalmente posto abaixo. Coisas como florestas, leis ambientais, tribos indígenas e senso de proporção. Ou seja, derrubamos coisas que tem um preço, mas com a conveniência de que são as próximas gerações que terão que pagar.

Não é, portanto, acurado dizer – como vejo que estávamos habituados a fazer, com um definido ar de superioridade moral – que países como Espanha, Portugal e Itália estão “vivendo uma grande crise”. Eles estão vivendo o futuro, e nós estamos vivendo como se não houvesse amanhã. Eles são países maduros enfrentado os limites e os desafios da maturidade, e nós somos adolescentes mimados gastando uma fortuna que não é nossa. Que fique então claro: o Brasil experimentou um boom econômico não é porque somos por natureza ou por upgrade mais competitivos, criativos e competentes do que espanhóis ou italianos: é porque, ao contrário desses caras, temos um país inteiro para queimar.

E, sem sombra de dúvida, o estamos queimando.

A esta altura já será lugar-comum (isto é, uma ideia de que todos somos culpados) dizer que, descoberto o Brasil, os portugueses “levaram o nosso ouro, mataram os nossos índios, derrubaram as nossas matas” e só se dobraram a nos conceder a independência quando não havia mais riqueza visível ou viável para raspar.

Que levaram muito ouro e diamantes, os quais hoje definem sabe-se lá qual desconcertante obra de arte europeia, não se discute. Mas também é indiscutível que na integridade das nossas matas os colonizadores europeus deixaram pouco mais do que um arranhão. Na verdade, tivessem continuado ao longo dos séculos a explorar as nossas florestas naquele ritmo original, teríamos (na faixa litorânea que em termos populacionais representa o grosso do Brasil) ainda muita natureza intocada para nos definir e abraçar. Dizer “mataram os nossos índios” é quantitativamente mais acurado, porém, do mesmo modo que derrubar as matas, é um serviço que deixaram inconcluso e nos ocupamos até hoje em tentar completar.

É parte essencial do lugar-comum dizer que, ao contrário do que fizeram os ingleses na América do Norte, os portugueses foram entre nós mais exploradores do que colonizadores. Senhores, bom dia: poderíamos até dizer uma coisa dessas, se não estivéssemos explorando o Brasil como os velhos portugueses jamais sonharam fazer.

Pelas estimativas mais otimistas, da Mata Atlântica – que bordava a curva extensíssima do nosso litoral, como nenhuma outra mata em nenhum outro continente do mundo ousou fazer – resta 10% da cobertura original (em determinadas regiões, menos de 3%). Porém a constatação verdadeiramente desconcertante é que pelo menos metade desse estrago aconteceu não sob a guarda dos colonizadores europeus, mas em quatro ou cinco décadas do século XX. Ou seja, a beleza singular e irrecuperável que sobreviveu a todas as ganâncias ao longo de mais de quatrocentos anos, nós conseguimos dizimar em quarenta.

Na Amazônia e o pantanal mato-grossense, desnecessário lembrar, essa herança de desolação permanece muito viva no momento em que escrevo. E, daqui de casa mesmo, enxergo a Mata Atlântica do leste paranaense (uma das mais preservadas do Brasil) sendo dia após dia encurralada por pedreiras, indústrias e conjuntos habitacionais. E como eu gostaria que esse “dia após dia” fosse apenas retórico. O meu testemunho é este: em seis meses brota uma indústria numa área que a floresta demoraria 100 anos para ocupar – uma área que, para todos os efeitos, nunca voltará a pertencer à natureza da qual a tomamos.

De onde, meu Deus, surgiu essa ideia de que é tudo bem consumir o país inteiro em chaminés, de que é tudo bem apagar florestas em fábricas, riachos em estacionamentos, pantanais em pastos, cascatas em represas e pradarias em campos de soja – isso tudo num ritmo de tsunami, que as mais diligentes atualizações do Google Earth não conseguem acompanhar?

Essa pergunta, infelizmente, é fácil de responder. Achamos tudo isso mais ou menos normal porque fomos devidamente programados pela doutrina do desenvolvimentismo – a conveniente ideia de que todos os países admiráveis são iguais: que são ricos, no sentido que gastam selvagemente todos os seus recursos no ralo da produtividade. Esse doutrinamento nos faz fechar os olhos a todos os custos pessoais, sociais e ambientais envolvidos na expansão industrial e agrícola, porque cremos que há virtude inerente em ver “o país crescer”. Essa resignação está mesmo gravada em palavra de ordem na nossa bandeira.

Meu amigo subversivo e insuportável Cláudio Oliver gosta de dizer que “desenvolvimento”, como o entendemos hoje, é um dos únicos conceitos que tem data precisa de nascimento. A ideia veio ao mundo por ocasião do discurso de posse do segundo mandato do presidente norte-americano Harry Truman, em 20 de janeiro de 1949. Foi naquele discurso que Truman explicou pela primeira vez que a maior parte do planeta era composta por “áreas subdesenvolvidas”. Dizendo assim, o presidente deixava imediatamente claro que todos os países sensatos do mundo deveriam perseguir o mesmo alvo: o do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, ele não deixou dúvidas quanto ao que entendia com a palavra.

“Todos os países, incluindo o nosso,” explicou Truman, “irão beneficiar-se grandemente de um uso mais eficaz dos recursos humanos e naturais do planeta. A experiência demonstra que o nosso comércio com outros países se expande na medida em que esses países progridem industrialmente e economicamente”. Magnanimamente, tendo em vista essa parceria compensadora para todas as nações, Truman esboçou ali mesmo um programa de assistência destinado a “atenuar o sofrimento desses povos através de atividades industriais e de um padrão de vida mais elevado”. Ficava inaugurada o dogma, em grande parte não questionado mesmo entre gente pensante, da cura das nações através da indústria. Porque, afinal de contas, “uma maior produção é a chave para a prosperidade e para a paz”.

Metade dos países do mundo, mesmo aqueles mais antigos e veneráveis, acordou no dia seguinte debaixo de um novo estigma e de uma inesperada inadequação, a do subdesenvolvimento. Wolfgang Sachs:

“O imperativo de desenvolvimento de Truman queria dizer que as sociedades do terceiro mundo deixavam de ser vistas como possibilidades únicas, vivas e diversificadas de arranjos humanos, e passavam a ser encaixadas numa única ‘trilha de progresso’, sendo julgadas mais ou menos avançadas a partir do critério das nações industriais do ocidente.”

E esses critérios, como não ignoramos eu e você e como não ignora a esquerda petista, são industrialismo e materialismo. O mundo de infinitos destinos, variedades e matizes foi reduzido oficialmente ao mercado. Iluminados retroativamente por vinte minutos de Truman, entendemos ainda hoje que a mais elevada aspiração para uma nação é chegar a ser os Estados Unidos.

A maldição da abundância está sobre nós: mesmo quando um governo brasileiro rouba muito (se você está entre os que acreditam que o PT rouba mais do que os outros) restam em circulação tantos recursos disponíveis que permanece impossível domar o frenesi do nosso crescimento. Este é um dos motivos pelos quais não estou interessado em comparar o desempenho de Fernando Henrique ao dos petistas que o sucederam. A fila já andou e o PT deixou de ser interessante ou relevante; o que quero é gente que entenda que conter o crescimento não equivale a perder em justiça, mas precisamente o contrário.

O Brasil precisa ser ainda [des]colonizado, e restam entre nós pouquíssimos índios e europeus que nos ensinem a viver.


Uma versão deste relato foi publicada na Forja Universal em 05 de dezembro de 2012

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A ponte para o futuro menor possível

Paulo Brabo @saobrabo

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