Ainda sobre a ameaça muçulmana • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de novembro de 2009

Ainda sobre a ameaça muçulmana

Estocado em Divino preconceito

A versão curta:

Nada há para temer.

 

A versão longa:

Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando — aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira de uma produção norte-americana — é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.

Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham a máscara da acusação e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente do mal; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.

Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque semear o medo é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância — e, como bônus — controlar as massas.

Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.

Não havia ainda o Youtube, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. Der Ewige Jude (“O judeu eterno”, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que O mundo está mudando demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).

Der Ewige Jude alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; O mundo está mudando profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.

O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de O mundo está mudando os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados — se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados.

O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é “nossa cultura”. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado “para nossas crianças” os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.

É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.
Os judeus se alastram pela Europa e pelo mundo, no paranóico e perverso Der Ewige Jude (1940) da propaganda nazista

O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de “milenares”, e não por causa do peso de “igrejas”.

Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares — como descobri nesta passagem pelo norte da Itália — foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, em) templos romanos que estavam ali muito antes delas.

Para resumir: não vejo como uma eventual Europa “muçulmana” poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos — país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de “cristão”. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.

O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor mas não fazemos o que ele diz.

Fora nossa própria hipocrisia, nada há que temer.

Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa, a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.

Veja também:
Gli altri siamo noi
A guerra contra os turcos
Os estrangeiros que são todos
O último cristão
A raça superior
A regra do argueiro da fé
Der Ewige Jude, versão integral para download

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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