A verdade na assembleia dos discordantes • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de outubro de 2014

A verdade na assembleia dos discordantes

Estocado em Manuscritos

O rabinismo babilônico derrotou a dialética, promovendo a noção de que todas as articulações da verdade são fundamentalmente contingentes.

Daniel Boyarin

 

Não há no Novo Testamento qualquer indício de que seus autores esperavam para o seu movimento um futuro que fosse de algum modo separado da história e da vocação do judaísmo de que faziam parte. Jesus era judeu, seus discípulos eram judeus; o apóstolo Paulo – muitas vezes acusado de inventar o cristianismo como coisa à parte do judaísmo – era formidavelmente judeu, e em suas exaltações descrevia no movimento de Jesus a vitória universal do judaísmo em vez da sua supressão 1.

O cristianismo passou a considerar a dissensão e o debate público como ameaças à verdade em vez de um caminho até ela.

Porém a divisão entre judaísmo e cristianismo veio, veio rápido, e passados quase vinte séculos não dá qualquer sinal de não ter sido definitiva.

De todas as posturas que os dois movimentos foram criando e reforçando para diferenciar-se um do outro, já a partir do primeiro século, poucas são mais contrastantes do que o modo que cada um escolheu como adequado para apresentar a verdade.

Os cristãos estabeleceram que a verdade pertence ao dogma, os judeus estabeleceram que a verdade pertence ao diálogo.

Cristianismo: no princípio era o diálogo, mas não depois

Curioso é entender que as posturas opostas do cristianismo e do judaísmo com respeito à exposição da verdade começaram a partir de um terreno comum, o da tradição dialética (isto é, referente ao diálogo) da filosofia mediterrânea.

Muito antes de Jesus, os filósofos gregos já haviam estabelecido a noção de que o debate racional é o instrumento por excelência para se determinar a verdade. Nos diálogos de Platão (427-347 a.C.), Sócrates desarma seus oponentes e ilumina seus amigos simplesmente conversando com eles – fazendo e respondendo perguntas, questionando preconceitos, requerendo esclarecimentos e rebatendo argumentos. No fim do processo a verdade é revelada somente porque tudo foi conversado: todos os argumentos foram examinados, todas as noções falhas ou insuficientes foram descartadas e só restou um cerne de verdade impossível de contradizer ou de melhorar.

Muitos pensadores cristãos dos primeiros séculos operaram a partir desse modo de ver as coisas. A fim de demonstrar ao mundo a superioridade do cristianismo, não se deram ao luxo de descartar qualquer ferramenta, e em suas apologias partem do pressuposto de que o debate racional nos moldes gregos é um caminho válido para se determinar a verdade – uma verdade com a qual qualquer entidade racional que reexamine (através do diálogo) os mesmos argumentos acabará concordando.

Porém isso mudou (como tudo muda) assim que mudou a balança do poder no quarto século, e o cristianismo deixou de ser uma seita que precisava se explicar e se defender para tornar-se a religião oficial do império. A partir desse momento o cristianismo passou a considerar a dissensão e o debate público como ameaças à verdade em vez de um caminho até ela. A verdade passou a ser cada vez mais questão de hierarquia, ligada à autoridade de quem havia falado e estava falando, e cada vez menos dependente da independência intelectual de quem ouvia. O debate foi marginalizado, e estavam inventados o dogma, a teologia e a profissão de fé.

Ficava estabelecido que a verdade é única, imutável e acima de tudo – como ficou encapsulado debaixo do peso da palavra dogma – não sujeita a debate. A fé passou a ser a atividade de não fazer perguntas.

Judaísmo: a discordância como método

Mesmo antes de entrarem em contato com a cultura grega os judeus já demonstravam afinidade com a ideia de uma verdade apresentada pelo diálogo. Testemunha disso é a própria composição e variedade da Bíblia hebraica, formada por textos muito diversos que apesar disso dialogam continuamente entre si, apresentando uma revelação que não é fechada ou sistemática mas polifônica: composta por muitas vozes.

Para os cristãos a verdade pertence ao dogma, para os judeus pertence ao diálogo.

Um dos resultados dessa riqueza está em que na época de Jesus e nas primeiras décadas do cristianismo havia por assim dizer muitos judaísmos, cada um com sua própria ênfase na conversação com uma tradição comum.

Com a destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C. as manifestações contrastantes do judaísmo foram eclipsadas, restando essencialmente o judaísmo de tradição rabínica (o qual, ao contrário dos demais, havia nascido no exílio e estava pronto para uma vivência sem templo).

Porém o judaísmo rabínico, com sua dinâmica de mestres e discípulos, tinha uma afinidade particular com o diálogo. Sua tradição consistia, na verdade, no registro de uma rica e ininterrupta conversação histórica a respeito da justa interpretação da Torá.

Durante séculos esse diálogo entre os luminares do pensamento judaico aconteceu e foi transmitido de modo oral ou, como diríamos hoje, offline. Foi só a partir da destruição do templo que esse legado e esse método passou a ser registrado por escrito, primeiro na Mishná e em seguida no seu comentário, o Talmude (concluído entre 400 e 600 d.C.).

Provavelmente Borges estava certo e o propósito do universo é a diversidade: porque que ao mesmo tempo em que o cristianismo rejeitava por completo o diálogo como caminho para a verdade, o judaísmo rabínico assumia a postura oposta, afirmando não apenas a legitimidade mas a suficiência do diálogo.

Para os gregos e cristãos o diálogo tinha sido uma ferramenta, um instrumento mais ou menos retórico no caminho para o que era tido como realmente desejável: uma concordância, uma verdade única sobre a qual todos pudessem concordar. No judaísmo de tradição rabínica o diálogo deixou de ser um instrumento e passou a ser considerado um fim; o diálogo deixou de ser um caminho e passou a ser considerado um destino. A concordância que os gregos tomavam por desejável foi declarada insatisfatória, e ficou estabelecido que a verdade só pode ser vislumbrada na tensão entre opiniões que discordam a respeito dela.

Enquanto o cristianismo estabelecia a verdade como unitária, imutável e não sujeita a debate, o judaísmo estabelecia que a verdade é plural e dinâmica – uma verdade que se pode chegar a ser conhecida é durante o debate, nunca depois dele e muito menos sem ele.

Para o judeu da tradição rabínica, a fim de se encontrar a verdade (e não só isso, também a fim de se ensiná-la) é preciso adentrar e aprender a habitar um mundo de deliberações abertas, um mundo de tradições e autoridades que se respeitam mas se contradizem, um universo interligado e indeciso de interlocutores. Nesse universo, discordar, fazer perguntas e questionar respostas não será jamais visto como insubmissão ou incômodo. Nesse mundo, o questionamento sistemático não é visto apenas como o único modo de se encontrar, mas também de se expor a verdade.

Cada página do Talmude é um tributo a esse método dinâmico de se tratar a verdade e uma explicação dele. Página após página o texto retraça cada laborioso passo sucessivo num processo de argumentação e contra-argumentação a respeito de toda mínima questão.

Porém a originalidade do Talmude e do método que representa não está na apresentação de posições contrárias e na exposição dos pontos fracos e fortes de cada uma (operações que o Direito não desconhece) mas na sua recusa em apontar uma decisão final ou superior. Todos os pontos de vista são apresentados (e isso um cristão poderia tolerar, se não compreender), mas as questões e decisões permanecem em aberto, aguardando o engajamento e o posicionamento de um novo interlocutor: o próprio leitor e sua época. Debaixo dessa ortodoxia generosa as autoridades não servem para decidir em nosso lugar, servem para nos ajudar a pensar.

Ou melhor: fica claro que pensar em todos os aspectos e pontos de vista é atividade muito superior a fechar a questão (e portanto a mente) a respeito das coisas.

Daniel Boyarin:

O talmude babilônico elabora um terceiro paradigma, que não é nem a dialética nem a rejeição do dialética como efetuada pelos cristãos, mas uma dialética sem telos/fim, propósito. Sem chegar jamais a um acordo e sem jamais buscá-lo, apresenta-se uma disputa que não pode chegar a ser resolvida, visto que ambos os santos rabis estão sempre certos mesmo quando contradizem diretamente um ao outro. A prática da dialética passa a ser uma pseudodialética, um ato devocional – ou mesmo litúrgico, conhecido como “o ato de ampliar a Torá e torná-la formidável”.

Do modo como o Talmude preservou essa tradição, o estudante não é meramente obrigado a conhecer e aprender a demonstrar a supremacia de uma decisão. Ele é convidado a retraçar, reconstruir e entender todos os raciocínios ligados a cada questão; aprende a pesar ambivalências e a conviver com contradições. É tremendamente custoso aproximar-se desse legado, porque ele requer não apenas fé, mas uma participação ativa na sua constituição. A fé que o método dinâmico do Talmude exige e pressupõe é a fé no intelecto humano, a fé na capacidade de julgamento das gerações posteriores.

Para dar uma ideia da ambivalência desse diálogo, inquiro um parágrafo tirado mais ou menos ao acaso do Talmude Babilônico. Saliento os interlocutores apenas para apontar a sua abundância:

Ora, quanto a R. Johanan, por que ele sustenta que no ponto de vista dos rabinos inclinar o corpo em prostração deve ser considerado uma ação, mas o movimento dos lábios não deve? Raba disse: O caso da blasfêmia é diferente, porque a ofensa reside na intenção. R. Zera contestou: Falsas testemunhas estão dispensadas [da necessidade de oferecer uma oferta pelo pecado se causaram ofensa inadvertidamente], porque sua ofensa não envolve uma ação. Mas por que é assim? A ofensa nesse caso não depende da intenção? Raba respondeu: O caso de falsas testemunhas é diferente, porque sua ofensa é causada pelo som. Mas R. Johanan não considera o som uma ação? Não foi dito que se alguém assustar um animal com a voz, R. Johanan disse que ele está sujeito a punição, porque o movimento dos lábios é uma ação, enquanto Resh Lakish deliberou que não? Raba respondeu deste modo: O caso de falsas testemunhas é diferente, porque sua ofensa é causada pela visão.

E outro do Gênesis Rabá:

Quando foram criados os anjos? R. Johanan disse: Foram criados no segundo dia, como está escrito, És tu que pões nas águas os vigamentos da tua morada, (Salmo 104:3), seguido por, Fazes dos ventos teus mensageiros (v. 4). R. Hanina disse: Foram criados no quinto dia, pois está escrito, E voem as aves acima da terra no firmamento do céu (Gênesis 1:20), e está escrito, E com duas voava (Isaías 6:2). R. Luliani b. Tabri disse em nome de R. Isaac: Quer aceitemos a opinião de R. Hanini ou a de R. Johanan, todos concordam que nenhum anjo foi criado no primeiro dia, do contrário estaria dito que Miguel estendeu o mundo ao sul e Gabriel ao norte, enquanto o Santo, bendito seja, media no meio, mas [está escrito], Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra – quem estava comigo? (Isaías 44:24).

E assim por diante, porque o fio não se interrompe onde o deixei. Como se vê, a ideia subjacente não é resolver a discussão, mas perpetuá-la.

Os cristãos à beira do diálogo

Tomada como é, a Bíblia fornece pouco fundamento para a noção da verdade como dogma adotada pelo cristianismo. Adotar o dogma é partir do pressuposto de que a verdade pode ser, de forma suficiente e perfeita, articulada em palavras2 – isso quando o Novo Testamento (especialmente nas vozes de Jesus e de Paulo) insiste na insuficiência da Lei e dos conceitos formulados através de palavras. O espírito confere vida, mas sopra onde quer: a gaiola dos conceitos e das palavras simplesmente não pode confiná-lo.

A verdade como diálogo, postulada pelo judaísmo, está muito mais próxima da visão (ou das visões) de mundo da Bíblia. Há ecos dela na decisão de canonizar não um mas quatro evangelhos; nas discussões de Jesus com os fariseus e com os discípulos; nos raciocínios e memórias biográficas de Paulo; na decisão do concílio de Jerusalém (Atos 15), cujo resultado exigiu o convívio entre gente que discordava sobre coisas que considerava de importância absolutamente vital.

Em particular, a formulação evangélica o Verbo se fez carne estabelece uma verdade dinâmica, viva, que só pode ser experimentada através de relações. Se a letra mata, não é de admirar que a verdade dogmática tenha produzido uma história de derramamento de sangue.

Com seria um cristianismo que aprendesse a abraçar o diálogo em vez de rejeitá-lo? Como seria um cristianismo não-dogmático? A ruptura da Reforma, mãe de uma infinidade de outras rupturas, teria sido evitada se Lutero tivesse concordado em discordar? Se o dogma e a teologia tivessem sido julgados menos importantes do que a convivência, a igreja seria ainda uma?

Foram necessários quase dois milênios, mas algumas manifestações do cristianismo estão tomando os primeiros passos no caminho de adotar a maturidade que o judaísmo rabínico enxerga desde sempre como sua vocação e como vocação da Bíblia. Se o judaísmo incentiva a convivência e o respeito mútuo entre gente que discorda a respeito de questões fundamentais, talvez o cristianismo possa aprender a fazer a mesma coisa.

As vozes do cristianismo contemporâneo que insistem na tolerância e no diálogo – e estão em todo lugar, nas denominações protestantes e na Igreja Católica – não devem ser acusadas de modernas ou progressistas, porque procuram na realidade recuperar uma conversa que é tão antiga quanto a sua tradição, uma conversa na qual a sua tradição na verdade consiste.

Bíblia é uma palavra plural: em grego se diz βιβλία/os livros.

A tradição que gerou a Bíblia dá testemunho de que uma única mente, uma única teologia, um único livro, uma única linha de pensamento não bastam para esgotar todas as faces da verdade. Em contraste como o dogmatismo adotado pela cristandade, a Bíblia não teme a contradição. Porque alguém deveria temer?

Se o Verbo se fez carne, a verdade deve ser vista como tão multiforme, contraditória e ambivalente quanto qualquer pessoa. Para preservar a natureza da verdade será necessário manter debaixo de uma única tradição todas as vozes que discordam a respeito dela. A verdade fugirá dos polos e da convergência, e residirá na tensão não resolvida entre os que divergem.

Uma versão preliminar deste documento,
com o mesmo título mas conteúdo muito diferente,
foi publicado nesta Bacia em 13 de dezembro de 2010

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. É claro que, como explicou-me o judeu Daniel Boyarin em A Radical Jew, ao universalizar o judaísmo Paulo contribuiu mais para drenar a importância do judaísmo do que para promovê-la. Dizer que em Jesus todos são (ao menos potencialmente) judeus sem que se afiliem ao judaísmo é quase o mesmo que dizer que ninguém mais é judeu, ou que a categoria deixou oficialmente de representar qualquer distinção importante. []
  2. Sobre esse assunto, ver a primeira seção de As divinas gerações. []

 

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