Um dia a MPB vai salvar o mundo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de Março de 2016

A sorte de justiça que fomos quase capazes de prover ao mundo

Estocado em Brasil · Manuscritos

Este relato é a parte 4 de 7 da série Até onde você quer ir com a justiça

«Um dia», me disse o Giovanni num bar da Itália, «a música popular brasileira vai salvar o mundo.»

Era a minha primeira vez fora do Brasil e eu estava numa papelariazinha de Florença comprando um caderno decorado. O italiano que me atendia entregou o troco e aproveitou aquele último momento para arriscar:

– Ma lei è brasiliano?

Quando respondi que sim, testemunhei pela primeira vez A Transformação. O cara, que tinha se mostrado até ali cordial mas muito na dele, se encheu de uma alegria ao mesmo tempo solene e indisfarçável, o tipo de alegria que se abre no coração quando você recebe a notícia de que vai ter um filho, ou quando você esbarra no seu artista favorito e ele se mostra um cara muito gente boa e te dá um minuto da sua atenção.

– Ma io ho tanti amici brasiliani, lei lo sa?! — me disse o sujeito, abrindo o mais desarmante dos sorrisos. Disse que os brasileiros são gente formidável e me acompanhou até a porta da loja para indicar, na geografia do seu bairro na cidade medieval, onde exatamente moravam e trabalhavam os amigos brasileiros de que ele podia se orgulhar.

Saí dali sorrindo sozinho e para me proteger da ternura pensei tem cada doido.

Meu problema é que aquela foi só a primeira vez. Não dá pra contar o número de vezes que recebi na Itália tratamento de superstar pelo mérito único e singular de ser brasileiro. Canalha e sacana que sou, nunca cheguei a me acostumar ao sorriso de simpatia sem nenhum traço de cinismo que se abre no rosto de um italiano quando alguém te apresenta com um “este é o Paulo, ele é brasileiro”. Às vezes eu me ofendia um pouco e pensava “mas esse sujeito/essa guria nem me conhece e já gosta de mim”. Era irritante ser amado só por ser brasileiro, quando um canalha como eu espera ser amado pelo que tem de singular.

Mas não: o brasileiro recebe na Itália uma deferência que precede o conhecimento pessoal. É como quando você curte o trabalho de um artista e faz questão de adiantar a sua admiração mesmo antes de saber se o sujeito bate na mulher ou tem inclinações fascistas.

Garantem-me que não é só na Itália que o simples fato de ser brasileiro é tomado como credencial. Este é Luiz Zanin1:

Vivi na França e pude testemunhar a admiração que os franceses tinham por nós. Como se, apesar de nossos óbvios problemas, fôssemos emissários de alguma boa nova, de uma possibilidade de alegria incomum num mundo triste.

Fato é que quase entendo o que os italianos admiram nos brasileiros, embora não seja capaz de arrebanhar as palavras para expressar. Não se trata de Carnaval, não se trata de samba ou simpatia ou cordialidade. Os italianos não são burros e sabem que os brasileiros podem ser tão corruptos quanto qualquer italiano e mais cruéis, menos confiáveis, mais egoístas e mais perigosos.

Mas como o Giovanni, que no mesmo bar italiano em que o conheci me disse “um dia a música popular brasileira vai salvar o mundo”, esses caras enxergam que a boa nova residual da qual somos portadores paira acima de qualquer uma das nossas limitações.

O bizarro é que é possível que não estejam de todo enganados. O bizarro é que o ameríndio e o sertanejo e o nordestino e o carioca e acrescente aqui o seu clichê teriam de fato como oferecer ao mundo e a si mesmos uma sorte singular de justiça fundamentada no cinismo, na desconfiança, na malandragem, na preguiça, na falta de ambição, no conformismo, na luxúria, na cachaça, na roda de samba, na lealdade líquida, no sarau, no jeitinho, no despacho, no sarro, no repente, na gambiarra, na pelada, no cordel, na encantaria, na capoeira, no flozô e em uma série de vícios interligados e complementares, vícios escolhidos a dedo para contrapor virtudes que, o mundo já entendeu ou intuiu, podem resultar em injustiças desfigurantes e avassaladoras.

O mérito que o mundo nos atribui, em grande parte, é o mérito de não desejar o que o resto do mundo deseja. Podem ter nos diagnosticado com algum acerto, mas não contavam que buscássemos para a nossa singularidade uma cura.

Mundo, é oficial: aquilo que prometemos não seremos capazes de entregar.

Trocamos os vícios que nos redimiam pelas virtudes que irão nos destruir. O discurso da luta pela corrupção só faz sentido num mundo em que faz sentido a ganância, e a ganância só faz sentido num mundo não redimido pela preguiça. O ameríndio que não cessamos de cercar, cercear e eliminar, é ele é o verdadeiro portador da boa nova, e articulado em pobres palavras a boa nova é não cobiçar outra coisa além de ser deixado em paz. Essa autossuficiência refletida ou residual o brasileiro transmite por onde passa, e em todo o lugar ela é tomada como credencial, exceto aqui.

O brasileiro nunca existiu além da promessa, mas era uma promessa muito real porque estava fundamentada no não-desejo e no despoder. Grande e rico é quem não precisa de nada e, meu Deus, como já fomos grandes. Meu Deus, como já fomos ricos.

Giovanni, acho provável, acho quase certo, que a música popular brasileira vá um dia salvar o mundo.

Só não vai ser hoje.

Só não vai ser aqui.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Num artigo que você a propósito precisa ler imediatamente. []
Este relato faz parte da série

Até onde você quer ir com a justiça

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