A revolução da leitura • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de junho de 2007

A revolução da leitura

Estocado em Fé e Crença · História

A hora de guardar silêncio passou;
chegou a hora de falar, como diz Eclesiastes.
Martinho Lutero, numa carta introdutória
ao seu Discurso à Nobreza Alemã

Uma coisa leva à outra.

A revolução técnica de maior impacto na história cultural da humanidade foi resultado da conjunção de fatores que, isolados, já estavam disponíveis na Europa há alguns séculos: o papel, a prensa de uvas, a tinta à base de óleo e a engenhosidade da classe mercantil. Devidamente combinados na oficina experimental de Johannes Gutenberg por volta do ano 1450, esses ingredientes produziram um sistema de impressão em larga escala de eficiência e economia sem precedentes.

Até aquele momento da história a transmissão do conhecimento havia sido marcada por gravíssimas limitações. Ainda no tempo de Jesus, como vimos, grande parte das informações eram transmitidas e preservadas oralmente: quer dizer, dependiam da fidelidade da memória dos ouvintes e de sua boa vontade em compartilhá-la. Mesmo quando era colocada por escrito a informação não tinha como transpor o enorme obstáculo que podia representar o custo de uma única cópia. Considere as seis colunas da Hexapla de Orígenes, por exemplo. É atordoante estimar o que cada cópia requeria em termos de mão-de-obra; tratava-se, afinal de contas, de um volume com o Velho Testamento inteiro, escrito à mão de ponta a ponta, em seis versões diferentes. Não é de se admirar que não tenha restado nenhuma cópia completa.

Qualquer que fosse a sua natureza, a informação era sempre transmitida um a um: pessoa a pessoa, cópia por cópia.
Pois nas mãos sujas de graxa dos empregados de Gutenberg passaram as primeiras páginas do segundo capítulo dessa história.

Admirável mundo novo

Antes de Gutenberg, verdade seja dita, o livro já existia como objeto cultural e de consumo, muitas vezes em formas bastante sofisticadas. A oficina de Gutenberg não inventou o livro, e não seria exato dizer que ela o tenha melhorado. O mérito de Gutenberg não foi ter inventado a imprensa; foi ter criado, no frigir dos ovos, o leitor contemporâneo e o admirável mundo novo que veio no rastro dele. Somos todos, eu e você, crias dessa revolução.

Tecnicamente falando o que Gutenberg fez foi resolver um quebra-cabeças de paradigmas de produção, uma fórmula que contava com pelo menos três variáveis: papel, tinta e impressão. Resumindo, ele trocou o consagrado pergaminho pelo então controverso papel, trocou as onipresentes tintas à base d’água pela tinta à base de óleo com pigmento de fuligem, e amarrou tudo com a invenção dos tipos móveis, que podiam ser reaproveitados de um livro para outro.

Foi uma manobra feliz. O papel podia não durar tanto quanto o pergaminho, mas a tinta à óleo não descoloria com o tempo, como acontecia com a outra. A tinta à base de óleo havia sido colocada de lado porque não se fixava adequadamente à superfície lisa do pergaminho, mas mostrou-se inteiramente ajustada à superfície fibrosa do papel. A prensa de livros já estava em uso há algum tempo, mas com o surgimento dos tipos móveis as matrizes não precisavam mais ser elaboradas em bloco, uma trabalhosa página não-reaproveitável de cada vez.

Gutenberg inventou o leitor contemporâneo.

É até feio, no entanto, ater-se a essas tecnicalidades, quando o que estava de fato acontecendo era uma revolução do espírito, o desaferrolhar silencioso de uma trava ancestral – a liberação de uma corrente represada há tanto tempo que ninguém saberia dizer ao certo qual era sua natureza ou extensão.

Mesmo hoje em dia, do nosso privilegiado ponto de vista, é difícil estimar a dimensão do que estava acontecendo. Somos tão dependentes da revolução da leitura que nos tornamos praticamente incapazes de avaliar em retrospecto a importância dela. O que pode ser dito é que Gutenberg inaugurou um novo tipo de mundo, um mundo em que a demanda por leitores se tornaria finalmente maior que a demanda por livros: o mundo da leitura silenciosa, do assombro individual, da livre circulação de idéias.

A prensa ensebada da oficina de Mainz deu um tremendo e inimaginado impulso em favor da democratização da informação – mais ou menos como a internet está fazendo hoje, e na mesma escala sem precedentes.

Idade das trevas

Antes disso, na primeira porção da Idade Média, a alfabetização era dom excepcionalmente raro no ocidente, limitado quase que exclusivamente ao clero.

Os livros que havia eram em sua maior parte os floreados manuscritos que sobreviviam copiados à mão nos mosteiros da Europa. Esses manuscritos eram, no entanto, tão raros e de reprodução tão custosa que permaneciam a maior parte de sua vida útil austeramente trancados em suas bibliotecas, em nada afetando a vida do ser humano lá fora. Não é na verdade de espantar que não houvesse bibliotecas abertas ao público, porque não havia também escolas públicas, não havia enciclopédias, não havia dicionários.

Inúmeros reis de cujos nomes dão testemunho os livros de história se mostrariam, se fosse o caso, totalmente incapazes de reconhecer o próprio nome no papel. Em grande parte dos casos as cortes dependiam inteiramente dos membros do clero para gerenciar tarefas como arquivos e correspondência.

Se isso era verdade a respeito da nobreza, a situação era ainda mais sem esperança para o homem comum, que via-se privado de todas as oportunidades às quais a onipresença do conhecimento nos habituaram.

Verdade é que antes de Gutenberg a bússola da história já começava a apontar outro rumo. Para começar, os cruzados voltaram ao ocidente trazendo na bagagem um embrionário e inesperado Graal: os textos da literatura grega e romana a que os europeus não tinham acesso há séculos. Instigado por essa herança cultural recuperada, o movimento da Renascença passou a varrer a Europa a partir da Itália, e tinha no conhecimento sua ferramenta e sua etiqueta de marca. Saber ler tornava-se de repente credencial de sofisticação e ferramenta de inusitada mobilidade social.

Além disso, o surgimento das primeiras universidades abria um precedente para a secularização e a democratização do ensino. A primeira universidade européia foi fundada em 1119, em Bolonha. No final do século XIII já havia universidades em Paris, Pádua, Lisboa, Oxford e Cambridge. O monopólio do conhecimento mantido pela Igreja medieval recebia seus primeiros golpes.

A agonia desse sistema duraria ainda algumas centenas de anos; apesar disso, mesmo que ninguém tenha percebido de imediato, a invenção da imprensa foi já o golpe misericórdia.

A Bíblia na linguagem de ontem

Não foi à toa que a Reforma Protestante nasceu bem sincronizada com a novidade introduzida por Gutenberg.

Cem anos antes Wycliffe (1330-1384) já havia causado grave perturbação na Inglaterra produzindo uma tradução para o inglês da Vulgata latina.

A Igreja medieval, opinava Wycliffe, usava o latim e o monopólio do texto bíblico como ferramenta de dominação e controle. As pessoas nas ruas falavam em inglês, mas a liturgia do culto era em latim, e a Bíblia (quando) lida era em latim. Na prática as pessoas iam à igreja para assistir um espetáculo do qual nada compreendiam, e do qual nada podiam aproveitar.

Homens e mulheres cristãos, jovens e velhos, deveriam estudar atentamente o Novo Testamento, e nenhum homem simples de bom senso deveria temer indevidamente o estudo do texto da Escrita sagrada. O orgulho e a cobiça dos clérigos são a causa de sua cegueira e heresia, e impedem-nos de compreender verdadeiramente a sagrada Escritura. O Novo Testamento é pleno de autoridade, e aberto à compreensão do homem comum no que diz respeito aos pontos mais necessários à salvação.

A tradução de Wycliffe sofreu tremenda oposição, tanto da nobreza quanto da Igreja institucional. O cronista Henry Knighton registrou a sua reação diante da idéia de uma Bíblia na língua do povo.

John Wycliffe traduziu o evangelho, que Cristo confiou aos clérigos e doutores da igreja, a fim de que eles pudessem administrá-lo de forma conveniente aos leigos e a pessoas de menor envergadura de acordo com as necessidades do momento e a condição da sua audiência (…) Como resultado, o que era antes conhecido apenas por clérigos eruditos e por aqueles de bom entendimento tornou-se comum, disponível aos leigos – na verdade até mesmo a mulheres que saibam ler. Como resultado as pérolas do evangelho foram espalhadas e expostas diante dos porcos.

Quando Knighton escreveu isso praticamente todos que sabiam ler na Inglaterra teriam concordado com ele. A Revolução da Leitura não havia ainda criado o leitor que saberia discordar.

Verdade é que a essa altura os idiomas nacionais estavam suficientemente desenvolvidos em todos os países da Europa: na Inglaterra o povo falava o inglês, na Alemanha o alemão. A língua latina permanecia preservada artificialmente, remanescente de um universo que no dia-a-dia não existia mais.

O latim subsistia unicamente como o idioma da igreja, da diplomacia e da erudição. Mesmo gente lúcida como Erasmo e Thomas More ainda defendia o uso do latim como língua erudita internacional. O idioma era recurso sofisticado de cosmopolitas, a língua dos tratados teológicos e científicos e do debate acadêmico, o idioma franco das universidades da Europa (Erasmo, que não falava inglês, dava sem maiores problemas palestras em Cambridge).

Fora desses limitados círculos, no entanto, o latim já era língua morta há muito tempo. A condição era tal que praticamente nenhum cidadão comum, em toda a Europa, tinha acesso à Bíblia – e, se tivesse, não seria capaz de entendê-la. A Vulgata, a alternativa da época, era literalmente a Bíblia na linguagem de ontem.

O próprio Gutenberg, depois de achar um investidor para cobrir o custo assombroso da confecção dos tipos móveis, debruçava-se feliz sobre a tinta fresca das provas do seu primeiro grande projeto: a Bíblia em latim.

Mesmo antes da Reforma de Lutero não faltavam vozes reivindicando uma mudança nesse estado de coisas. Em 1503 o Manual do Soldado Cristão do mesmo Erasmo demandava uma reforma em que o futuro da igreja seria tirado das mãos do clero e colocado nas mãos do leigos. A difusão e o acesso à Bíblia, ele argumentava, seriam peça-chave dessa reforma.

Discordo totalmente daqueles que não concordam que as Sagradas Escrituras devam ser traduzidas na linguagem do dia-a-dia e lidas por pessoas incultas. Cristo deseja que os seus mistérios sejam conhecidos tão amplamente quanto possível. Eu gostaria mesmo que todas as mulheres lessem os evangelhos e as cartas de São Paulo. Meu desejo é que eles sejam traduzidos em todos os idiomas de todos os povos cristãos – que possam ser lidos e conhecidos não apenas por escoceses e irlandeses, mas até mesmo por turcos e sarracenos. Meu desejo é que o camponês possa cantar parte deles ao arado, que o tecelão possa cantarolá-los no seu tear, que o viajante encontre alívio da sua fadiga recitando-os.

Esse tipo de raciocínio era, na época, tremendamente ousado, inovador e ameaçador. Mas foi escrito em latim.

As muralhas ruirão

A diferença está em que, na época de Erasmo, o mundo já sofria os primeiros efeitos liberadores da Revolução da Leitura. O Manual do Soldado Cristão foi traduzido para diversos idiomas vivos e virou best-seller em todos eles. O homem comum havia sido atingido por uma nova graça: estava em andamento a revolução da leitura, do alfabetização, da independência intelectual.

Embora teologicamente ainda muito moderadas, as 95 teses iniciais de Lutero foram copiadas, traduzidas, impressas e divulgadas na Alemanha e por toda a Europa em poucos meses. Quando Lutero começou de fato a protestar, já existia o leitor preparado para concordar com ele:

A segunda muralha [que a Igreja medieval construiu ao redor de si] é ainda mais frágil e insignificante. Eles desejam ser os únicos senhores das Sagradas Escrituras, muito embora durante toda a vida não tenham aprendido com elas coisa alguma (…) Acima de tudo, a matéria de estudo mais destacada e primordial, tanto nas escolas superiores quanto primárias, deveria ser as Sagradas Escrituras, e para os jovenzinhos o evangelho (…) Não deveria todo cristão no seu nono ou décimo ano de idade conhecer por completo o evangelho do qual deriva o seu nome e sua vida? Uma fiadeira ou costureira ensina à filha o seu ofício quando ela é ainda muito jovem; mas agora nem mesmo os grandes e cultos prelados e bispos conhecem o evangelho.

Isso Lutero escreveu em bom alemão, na sua Carta Aberta à Nobreza Cristã. Ele havia começado a sua campanha em latim, mas quando falhou em chamar a atenção do mundo acadêmico para as suas denúncias contra os abusos da Igreja, fez como o indignado Paulo em Atos 13.46 e resolveu voltar-se para os “gentios”.

Em 1520 Lutero comecou a escrever em alemão. Sua Carta Aberta, escrita nesse ano, acusa a Igreja de construir muros de exclusão ao redor da Bíblia, muralhas que impediam o cristão comum de ler e interpretar o texto bíblico por si mesmo. Outra dessas muralhas de exclusão, ficava implícito pela escolha do alemão no qual a Carta foi publicada, era a absurda fixação com o latim.

A imprensa e a liberdade de imprensa foram, no final das contas, alavancas fundamentais da Reforma. Não havia censura nem copyright, e os panfletos e livros de Lutero e de Erasmo começavam a ser reeditados e traduzidos assim que chegavam às ruas. Não apenas as idéias reformistas começavam a correr livremente, mas no vernáculo em que começavam a circular podiam ser entendidas – coisa nunca vista e de conseqüências impensáveis – por camponeses e príncipes.

As muralhas estavam fadadas a cair. Lutero cria que o monopólio espiritual e cultural da Igreja medieval podia ser revertido pela produção de uma Bíblia popular na linguagem do povo.

O povo, naturalmente, precisava aprender a ler. Ao mesmo tempo em que sonhava com uma boa Bíblia em alemão, Lutero dava início ao que se tornaria uma longa tradição reformista de campanhas de alfabetização. Os reformadores, ficou logo claro, apostavam pesado na educação. A chave da reforma seria a Bíblia, numa língua viva, nas mãos de leigos que pudessem entendê-la.

Lutero estava certo de que a tradução da Bíblia mudaria o mundo. Ele estava certo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas já não é mais a mesma