A respeito do colapso da civilização, aquele iminente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de Abril de 2014

A respeito do colapso da civilização, aquele iminente

Estocado em Manuscritos

Este relato é a parte 1 de 8 da série O gerenciamento da esperança

Assim como nos dias antes do dilúvio, as pessoas comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento […] e não o perceberam, até que veio o dilúvio.
Mateus 24:38,39


A respeito do colapso da civilização cabe deixar uma nota, já que falamos aqui de coisas muito menos prementes e menos certas. Não deixa de ter uma simetria poética o fato de que ao longo da história as pessoas estiveram prontas a ouvir um maluco ocasional que anunciava sem qualquer fundamento o fim do mundo – que tenham vendido tudo, subido aos montes, raspado a cabeça, mudado de continente, anunciado o fim em bares, feito convertidos, vasculhado o céu em busca de sinais, tomado veneno e dado veneno aos filhos pequenos, – e que agora, quando uma multidão de pessoas sensatas anuncia com todo o fundamento o colapso da civilização industrial, ninguém se mostre disposto a acreditar e a mudar de vida.

Como está melhor escrito em As divinas gerações, a discussão sobre a questão ambiental está grosso modo dividida entre dois campos antagônicos: de um lado estão os catastrofistas, que enfatizam a enormidade do desastre presente e futuro causado ao patrimônio da Terra em nome da ideologia do progresso; do outro, os abundancionistas, que dispensam esses alarmes tomando-os por exagerados, ou por acreditar que não levam em conta a capacidade humana de encontrar saídas inteligentes para aparentes becos sem saída.

Eu, de minha parte, me alinho sem qualquer constrangimento aos catastrofistas – especialmente porque é muito fácil alinhar-se aos que têm razão. Eu na verdade me alinharia aos catastrofistas ainda que não houvesse tantos indícios mensuráveis de que estão certos.

Com todo o abuso que o homem ocidental neoliberal tem infligido à paisagem, às especies e às culturas humanas, o fim poderia ter chegado de inúmeras formas igualmente criativas. Ainda assim garantem-me os especialistas que a catástrofe que chegará antes das outras é o aquecimento global – inclusive porque ele está no meio de nós. Parafraseando o Dr. Jones (“why did it have to be snakes?“), tinha que ser logo o calor? Quem me conhece não ignora, e fique registrada minha preferência póstuma por uma era glacial.

Mas, Brabo, se o fim está próximo, porque não nos ajoelhamos aos pés do Claudio Oliver pedindo inclusão na sua comunidade? Por que gastamos tempo vendo tv que não seja The Walking Dead, que nos inicie nas artes do pessimismo e em técnicas rudimentares de sobrevivência? Por que não raspamos a cabeça e vivemos o resto da vida como faquires, escrevendo cartas aos habitantes do futuro, implorando o perdão de nossos filhos e dos filhos deles? Por que ainda compramos smartfones, baixamos aplicativos e atualizamos o Facebook? Na verdade, ainda que o fim não estivesse próximo, por que alguém faria coisas como comprar smartfones, baixar aplicativos e atualizar o Facebook? Qual incongruência em nós pode ser explicada?

Ninguém deveria ter de ser ensinado a ser pessimista, mas me dói ver que ainda há gente engatinhado nessa disciplina. Para seu benefício, a versão curta da lista de motivos pelos quais aqui no Monastério esperamos o pior:

1
Quando se trata do mal que os homens podem fazer aos outros e a si mesmos, ninguém nunca perdeu dinheiro apostando no pessimismo

Estamos prontos a esperar o mal de deuses vingativos e de asteroides fora de rota; imaginamos ameaças em monstros, invasões extraterrestres e fantasmas; chamamos a natureza de traiçoeira e os animais de perigosos, mas será tudo para nos distrair do fato de que o que vem fora do homem nem de longe nos ameaça como que vem de dentro.

Não será necessário revirar a história em busca de guerras, escravaturas, fogueiras, massacres, genocídios e holocaustos; o mal que fazemos aos outros só se pode comparar ao mal que estamos prontos a fazer a nós mesmos, e nisso cada um de nós estará suficientemente instruído.

Há uma estirpe de pessimismo que é amadora, e espera que a catástrofe venha de alinhamentos de planetas ou de embates de titãs. Permita-me guiar a sua mão: esperar o pior da ação do homem sobre o mundo não só é a modalidade comprovada de pessimismo, como tem outro nome – lucidez.

2
Ninguém perdeu dinheiro apostando que o homem queimará recursos que não tem como repor

Inclusive porque é esse o modo como o dinheiro é gerado em primeiro lugar. Explorar a terra, e portanto populações, é o motor do capitalismo.

É por esse motivo (e não é preciso ser cientista para entender isso) que os que negam o aquecimento global pendem politicamente para a direita. Este é o australiano Clive Hamilton, no lançamento do seu livro Requiem for a Species: Why we resist the thruth about climate change/Funeral para uma espécie: porque resistimos à verdade sobre as mudanças climáticas (2010):

Politicamente, os que negam o aquecimento global representam uma reação aos avanços fomentados pelos movimentos sociais da década de 1960, com a resultante desestabilização das estruturas e crenças sociais tradicionais – incluindo a crença no direito do ser humano de aproveitar-se do mundo natural. Isso explica porque seus ativistas são em sua grande parte gente de idade: indignar-se com as conclusões da climatologia se encaixa perfeitamente na visão de mundo, estilo, audiência e faixa demográfica de populistas de direita.

É por isso que os que negam o aque­ci­mento global pendem poli­ti­ca­mente para a direita.

Para a direita, o capitalismo deve ser protegido a todo custo, mesmo que seja ao custo da verdade1. Ainda Hamilton: “para os que negam o aquecimento global, aceitar as conclusões dos climatologistas seria admitir que o capitalismo sem rédeas está colocando em risco o nosso futuro, que ampla intervenção governamental é necessária e que o movimento ambientalista tinha razão desde o início.”

E, como se sabe, não há nada que a direita resista com mais paixão2 do que a “uma ampla intervenção governamental”. O capitalismo é um cavalo que só vence as apostas quando corre sem rédeas.

3
Entre 80 e 90% do calor gerado pela emissão de gases estão sendo absorvidos pelos oceanos

Basta o aquecimento global ser mencionado para alguém contribuir: que balela, vi ontem mesmo que [tal local] estava debaixo de neve.

Não basta, aparentemente, entender que a década passada foi a mais quente das registradas pelo homem – e que este último verão foi aparentemente mais quente do que qualquer coisa que a década passada teve para oferecer.

Certo, não sei se o cidadão comum pode ser condenado por não saber o que repetem em seus relatórios os climatologistas: que só 3 ou 4% do calor acumulado são transferidos para a atmosfera. Uma parte vai para a crosta, mas o bojo da coisa é absorvido pelos oceanos, onde vai remoendo um mal que é só recentemente que tem começado a subir à superfície.

Enquanto conversamos a acidez dos oceanos é maior do que jamais foi nas eras dos homens, as criaturas marinhas que não morreram alteram suas rotas migratórias em busca de alguma brisa suboceânica, e os gelos de ambas as calotas derramam-se como libação (liberando no processo material orgânico, que se decompõe e acaba introduzindo mais gases no sistema).

O Apocalipse tinha razão, e o mar está dando seus mortos; o que a narrativa se esquiva de mencionar é que fomos nós a matar o mar.

4
São 15 milhões de anos de retrocesso – e isso na melhor das hipóteses

Sobre a questão ambiental, é quase liberador ouvir quem sabe do que está falando, porque são pessoas que já passaram pelos cinco estágios do luto e vivem agora em regime de madura e maturada resignação. Assim é conversar com o Claudio Oliver (ouça o cara aqui), assim é ouvir o professor Clive Hamilton.

São sujeitos que olham para suas estatísticas e gráficos e concluem que, se tudo der certo e as emissões de gás carbônico por parte do homem já alcançaram o seu pico (isto é, se daqui para a frente só tendem a diminuir – certo, primeiro de abril foi ontem), entre 2050 e 2070 a Terra estará quatro graus mais quente do que é agora.

Isso se tudo der certo.

Quatro graus nem é muito, estou até ouvindo você dizer porque foi o que eu disse também, isso até ser lembrado que em termos globais isso representa uma Terra sem gelo (an iceless planet), com os oceanos elevando-se 50 metros nas previsões mais otimistas (visite Veneza, tipo agora. Aproveite e visite também o Rio de Janeiro).

Quatro graus nem parece muito, até você ser lembrado que estamos falando de uma Terra que só foi quente desse jeito no Mioceno > há quinze milhões de anos.

Há questão de dias um painel de climatologistas do mundo todo, reunido no Japão, apresentou um cenário que o New York Times descreveu da seguinte forma:

O relatório salientou o risco de morte e lesões em larga escala, provável dano às estruturas de saúde pública, deslocamento de indivíduos e migrações em massa […] mencionando ainda a possibilidade de conflitos violentos sobre a posse de terra, água e outros recursos.

Numa palavra, The Walking Dead. E como se trata de um painel, é provável que o consenso entre os cientistas tenha produzido um relatório que apesar de tudo é ainda conservador em suas conclusões.

5
São os países mais pobres que sofrerão mais

E isso pela contingência de estarem dispersos pelo cinturão do Equador. Impossível não notar, é claro, que são esses os povos e países menos responsáveis pelo aquecimento global em primeiro lugar. Ah, como faríamos para que os mais pobres pagassem pelos destemperos do mais ricos, se não fosse o capitalismo?

Ainda o relatório de climatologia de março deste ano:

Ao longo do século XXI projeta-se que o impacto das mudanças climáticas diminuirá o crescimento econômico, tornará mais difícil a redução da pobreza e acentuará o problema da segurança na alimentação, prologando as armadilhas de pobreza existentes e criando armadilhas novas.

Como se, como as coisas estão, a redução da pobreza fosse coisa fácil de se conseguir.

6
É uma catástrofe com ancestrais antigos, mas que nasceu há coisa de 60 anos

Um dos aspectos mais desconcertantes dessa crise é que foi só muito recentemente, em termos históricos, que o ser humano angariou o poder de desequilibrar irreversivelmente a ecologia do planeta em nosso prejuízo e arruinar o futuro – e, naturalmente, tratamos de usar esse poder imediatamente. Pare de culpar os colonizadores: a maior parte das florestas do mundo foi derrubada nos últimos 60 anos, período em que subiram também as chaminés da maior parte das fábricas e roncaram pela primeira vez o grosso dos automóveis.

Quantas vezes vou ter de repetir: seremos lembrados ao longo das eras como aqueles que poderiam ter feito alguma coisa para evitar ou minimizar a catástrofe, e ficamos cada um no seu canto jogando Candy Crush Saga. Delicious!

Sessenta anos de ganância cega e fizemos o planeta retroceder 15 milhões de anos – gerando no processo um problema que deve demorar milênios (ver abaixo) para começar a se dissipar. Temos nas mãos não só o sangue das espécies animais extintas e dos seres humanos desalojados pelo capitalismo; pesa sobre nós o sofrimento impensável de gente que ainda está para nascer.

7
Ouça quem sabe do que está falando

Se você quer abraçar o pessimismo como um profissional, deve ouvir quem assiste a esse desfile a partir do camarote da desilusão. Se quer ser convencido que o aquecimento não é mais opcional, fique muito à vontade para ouvir a opinião dos próprios climatologistas. É desilusão garantida ou a sua ingenuidade de volta.

realclimate.org
Climate science from climate scientists/Climatologia pela mão de climatologistas

Skeptical Science
Getting skeptical about global warming skepticism/Duvidando dos que duvidam do aquecimento global

The Consensus Project
The Debate is Over/O debate acaba aqui

8
Nada pode ser feito

Pode haver pessimismo mais satisfatório do que aquele que diz respeito ao que não se pode reverter?

O consenso entre os climatologistas é que o aquecimento global causado pelo homem é irreversível: está escrito em pedra, devendo se alastrar por séculos, talvez milênios. Com toda a seriedade desse mundo, esses cientistas explicam que as emissões de CO2 desde a Revolução Industrial suprimiram a era do gelo que deveria ocorrer daqui a mais ou menos 50.000 anos, e que as emissões futuras poderão suprimir qualquer glaciação pelos próximos 500.000 anos. Hamilton:

Nada do que os seres humanos já fizeram chega aos pés do caráter momentoso desse fato. Nossas atividades alteraram de tal modo o futuro climático que eliminamos do mapa uma ou quem sabe diversas eras do gelo. A Terra levará dezenas de milhares de anos para alcançar um novo equilíbrio depois do pulso de emissões de carbono mandados para a atmosfera pelos seres humanos nos séculos vinte e vinte e um. Só então a era de um aquecimento global induzido pelo homem chegará ao fim.

Os pessimistas dentre os climatologistas pregam um credo de três pontos: não se pode conter, não se pode minimizar, não se pode adaptar. Os otimistas entre eles creem que o estrago ainda pode ser minimizado – mas isso requereria, nas palavras de outro estudo recente, “uma mobilização global comparável à dos países aliados durante a Segunda Guerra Mundial.”

Querendo dizer, não vai acontecer.

Que fique registrado portanto esse paradoxo adicional da história humana, com a ressalva de que pode ser o último: quando finalmente alguém que sabe do que está falando anuncia o fim iminente do mundo, ninguém acredita.

Como diz meu amigo Claudio Oliver, diante de uma crise incontornável dessa magnitude só interessa a resposta que iremos dar. É só o que interessa, porque a resposta fala de nós.

A resignação, incrivelmente, pode ser coisa maior do que o indignação, e mais útil. Porque, quando entendemos que são só as nossas consciências que podem ser salvas, salvá-las se torna coisa importantíssima. A resignação pode gerar milagres como a gentileza com o próximo; pode até nos inspirar a viver queimando o mundo o menos possível – de modo a poupar das chamas pelo menos a nossa consciência. Como disse o anjo, neste mundo não falta gente bem-intencionada: o que falta é gente desiludida.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. O discurso “todos ganham com o capitalismo”, por exemplo, recusa-se a morrer, quando todas as evidências apontam na outra direção. []
  2. Veja-se por exemplo a opinião de Dana Rohrabacher, membro do congresso norte-americano, de que o aquecimento global é “uma completa fraude, projetada para originar um governo global que controle por completo as nossas vidas, inclusive a nossa escolha de meios de transporte.” Rohrabacher arbitrou ainda que os cientistas receberam do governo tantos fundos para pesquisa climatológica que “utilizam-no agora para intimidar aqueles que discordam da sua tentativa de nos levar a abandonar, pela via do medo, a liberdade que temos de fazer escolhas”. É sem tirar nem por o discurso neoliberal de direita: defender os abusos do capitalismo sob o pretexto da liberdade individual. []

 

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