A punição dos anjos caídos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de julho de 2008

A punição dos anjos caídos

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NOÉ: A punição dos anjos caídos

Quando atingiu a maturidade Noé seguiu os passos de seu avô Matusalém, enquanto todos os outros homens voltaram-se contra esse piedoso rei. Longe de obedecerem os seus preceitos, perseguiram a inclinação maligna de seus corações e perpetraram toda sorte de feitos abomináveis.

Em grande parte foram os anjos caídos e sua posteridade de gigantes que ocasionaram a depravação da humanidade. O sangue derramado pelos gigantes clamava da terra até o céu, e os quatro arcanjos acusaram os anjos caídos e seus filhos diante de Deus, pelo que ele deu-lhes uma série de ordens. Uriel foi enviado a Noé para anunciar que a terra seria destruída por um dilúvio, e ensiná-lo como salvar sua própria vida. A Rafael foi dito que acorrentasse o anjo caído Azazel, arremessasse-o num poço com pedras pontiagudas e perfurantes no deserto de Dudael, e cobrisse-o de trevas, para que assim permanecesse até o grande dia do julgamento, quando seria jogado num poço ardente do inferno, e a terra seria curada da corrupção que ele havia intentado contra ela. Gabriel foi encarregado de agir contra os ilegítimos e réprobos, os filhos que os anjos haviam gerado com as filhas dos homens, precipitando-os em conflitos mortais uns contra os outros. A descendência de Shemhazai foi colocada nas mãos de Miguel, que levou-os em primeiro lugar a testemunharem a morte de seus filhos em combate sangrento uns contra os outros, e em seguida amarrou-os e fixou-os debaixo das montanhas da terra. onde permanecerão por setenta gerações, até o dia do julgamento, quando serão carregados dali ao poço ardente do inferno.

A queda de Azazel e de Shemhazai aconteceu da seguinte forma: quando a geração do dilúvio começou a praticar idolatria Deus ficou profundamente entristecido. Os dois anjos, Shemhazai e Azazel, então levantaram-se e disseram:

— Ó, Senhor do mundo! Aconteceu o que foi previsto por ocasião da criação do mundo e do homem: “Que é o homem, para que te lembres dele?”

E Deus disse:

— E o que será do mundo sem o homem?

Responderam os anjos:

— Ocuparemo-nos nós dele.

E Deus disse:

— Sei muito bem disso, e sei que se habitassem sobre a terra a inclinação maligna tomaria conta de vocês, e vocês seriam mais perversos ainda do que os homens.

Os anjos suplicaram:

— Dê-nos permissão de habitar entre os homens, e o senhor verá que honraremos o seu nome.

Deus concedeu o seu pedido, dizendo:

— Desçam e habitem entre os homens.

Quando chegaram à terra e contemplaram a beleza e a graça das filhas dos homens os anjos não conseguiram conter sua paixão. Shemhazai viu uma moça chamada Istehar e perdeu por ela o coração. Ela prometeu que se entregaria a ele depois que ele lhe ensinasse o Nome Inefável, por meio do qual ele se alçava até o céu. Ele concordou. Porém assim que tomou conhecimento do Nome ela o pronunciou, e ascendeu ao céu ela mesma ao céu, sem cumprir sua promessa ao anjo. E Deus disse:

— Por ter-se mantida longe do pecado, darei a ela um lugar entre as sete estrelas, para que os homens nunca a esqueçam.

E ela foi colocada na constelação das Plêiades.

Shemhazai e Azazel, no entanto, não abandonaram a idéia de entrar em alianças com as filhas do homem, e o primeiro teve dois filhos. Azazel começou a projetar os adereços e os ornamentos através dos quais as mulheres seduzem os homens. Diante disso Deus mandou Metraton dizer a Shemhazai que tinha resolvido destruir o mundo e provocar um dilúvio. O anjo caído começou então a chorar o destino do mundo e de seus dois filhos. Se o mundo viesse abaixo o que eles iriam comer, eles que careciam diariamente de mil camelos, mil cavalos e mil novilhos?

Os dois filhos de Shemhazai, chamados Hiwwa e Hiyya, tiveram sonhos. Um deles viu uma grande pedra coberta de terra, e a terra estava toda marcada com linha após linha de escrita. Um anjo então veio, e com sua faca obliterou todas as linhas, deixando sobre a terra apenas quatro letras. O outro filho viu uma alameda aprazível plantada com toda sorte de árvores. Mas os anjos vieram trazendo machados e derrubaram as árvores, deixando uma única árvore com três de seus galhos.

Quando acordaram, Hiwwa e Hiyya foram até seu pai, que interpretou-lhes os sonhos:

— Deus trará um dilúvio, e ninguém escapará com vida a não ser Noé e seus filhos.

Quando ouviram isso os dois começaram a gritar e chorar, mas seu pai confortou-os:

— Calma, calma, não se aflijam. Todas as vezes que os homens cortarem ou erguerem pedras, ou lançarem embarcações, os nomes de vocês será invocados: Hiwwa! Hiyya!

Esta profecia os aplacou.

Shemhazai então fez penitência. Posicionou-se suspenso entre o céu e a terra, e nesta posição de pecador penitente ele paira até hoje. Azazel, no entanto, persistiu obstinadamente em seu pecado de desencaminhar a humanidade através de atrativos sensuais. Por essa razão dois bodes eram sacrificados no Templo no Dia do Perdão, um por Deus, para que perdoasse os pecados de Israel, o outro por Azazel1, para que levasse os pecados de Israel.

Ao contrário de Istehar, a donzela piedosa, Naamah, a atraente irmã de Tubal-Caim, desencaminhou os anjos com sua beleza, e da sua união com Shamdon nasceu o demônio Asmodeu. Ela era despudorada como todos os descendentes de Caim, e como eles propensa a indulgências bestiais.

As mulheres e os homens cainitas tinham o costume de andarem nus em todo lugar, entregando-se a todo tipo concebível de prática libidinosa. Tais foram as mulheres cuja beleza e charme sensual tentaram os anjos para longe do caminho da virtude. Os anjos, por outro lado, mal haviam-se rebelado contra Deus e descido à terra quando perderam suas qualidades transcendentais, sendo investidos de corpos sublunares, de modo que a união com as filhas dos homens tornou-se possível.

O fruto dessas alianças entre os anjos e as mulheres cainitas foram os gigantes, conhecidos por sua força e pecaminosidade; como indica o próprio nome que receberam, Emim/aterrorizantes, os gigantes inspiravam temor. Tiveram além desse muitos outros nomes. Às vezes eram chamados Refaim/fantasmas, porque bastava olhar para eles para enfraquecer o coração; ou eram chamados simplesmente de Gibborim/gigantes, porque eram tão enormes que suas coxas mediam dezoito varas; ou pelo nome Zamzummin, porque eram grandes mestres da guerra; ou pelo nome Anakim/pescoçudos, porque tocavam o sol com seus pescoços; ou pelo nome Ivim, porque, como a serpente, sabiam julgar as qualidades do solo; ou, finalmente, pelo nome Nefilim/caídos, porque, ao ocasionarem a queda do mundo, eles mesmos caíram.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Levítico 16:8-10 []
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