A ponte para o futuro menor possível • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de Maio de 2016

A ponte para o futuro menor possível

Estocado em Manuscritos

 

Escolhemos o câncer como o modelo do nosso sistema social.
Ursula K. Le Guin

 

É inveja.

Invejamos os protagonistas de séries como The Walking Dead e Mad Max porque a realidade deles é uma crise mais pura e depurada do que a nossa. O paradoxo do Apocalipse é que com a sua chegada a realidade se torna mais crítica, mas também mais simples e – numa infinidade de sentidos – menos exigente. Os habitantes do fim do mundo estão ao mesmo tempo vivos e livres de tudo que é acessório: não há condição que secretamente desejemos com maior intensidade, embora lutemos contra ela todos os dias.

E aparentemente não é que vamos ter de esperar muito. O sistema deste mundo – vamos chamá-lo de capitalismo por conveniência, mas neoliberalismo, fundamentalismo de mercado e abominação da desolação são termos teológicos igualmente precisos – quebrou o mundo, e não temos peça de reposição.

Não sei quantos modos vou encontrar de repetir: é surreal ver uma maioria equilibrada e fundamentada apontando desapaixonadamente que o fim está próximo, quando ao longo dos milênios o Apocalipse foi oferecido levianamente, de acordo com a demanda, por insensatos e fanáticos. Ignoro se alguém foi capaz de antecipar a reversão do atual cenário, em que os fanáticos, os levianos e os insensatos são aqueles que não estão sendo pessimistas o bastante.

Os fanáticos e levianos, naturalmente, são (e somos) os que permanecem defendendo e patrocinando o capitalismo no momento em que o capitalismo, achando desnecessário continuar a usar qualquer máscara, revelou-se a causa e a permissão secreta de todos os abismos, chagas e fraturas da presente era, do aquecimento global à falência das democracias.

George Monbiot chama o neoliberalismo de “doutrina zumbi” – uma ideologia que não há quem ignore ser ultrapassada, contagiosa e mortalmente inadequada para a presente condição do mundo, mas que continua avançando como se estivesse viva porque ninguém encontrou modo de conter a sua maldita inércia.

Para levantar o exemplo ao mesmo tempo mais banal e mais inescapável, hoje em dia não há gente sensata que ignore que as contas mais pessimistas a respeito do aquecimento global estão certas (é na verdade possível que as contas mais pessimistas estivessem por demais otimistas). 2015 foi o ano mais quente registrado nas eras dos homens, e 2016 começou já mais quente do que 2015. O aquecimento global é um exemplo útil em que não há como ignorar que este é só o começo das dores. O março mais tórrido das memórias das gentes é o emblema adequado das primeiras e ainda muito gentis cobranças de apenas uma das promissórias do capitalismo: uma dívida de que não começamos ainda a pagar sequer os juros, de que ignoramos o valor principal e que continuamos a ampliar como se houvesse amanhã.

O aquecimento do planeta e suas previstas (e impensáveis) consequências podem ser traçadas de volta ao capitalismo através de uma infinidade de rotas, da queima de combustíveis fósseis à conversão das diversidades amazônicas em pasto para gado de corte, mas está longe de ser a sua única culpa. Deus me perdoe, talvez não seja a sua culpa maior.

O dogma de que o mercado justifica toda causa em que põe a mão possibilitou, ao preço de tudo que achamos conveniente, horrores em escala planetária. A mera possibilidade de que Donald Trump se torne presidente dos Estados Unidos devemos a um mundo regido pela crença de que não há outro Deus além do mercado. Sem a ideia de que o mercado tudo justifica não haveria o desastre de Mariana, não haveria Belo Monte, não haveria o desmatamento da Amazônia, não haveria a farsa das soberanias nacionais anuladas pela realidade soberana das multinacionais, não haveria o vácuo lovecraftiano deixado por irrecuperáveis culturas e modos de fazer queimados na vala comum do desenvolvimentismo.

Foi em Viveiros de Castro que encontrei a noção genial de que o capitalista trata os seres humanos (e culturas) não-capitalistas do mesmo modo que o homem ocidental trata os animais e a natureza: com o mesmo senso arbitrário de superioridade, a mesma curiosidade superficial e canalha, a mesma ânsia de se definir como diferente, a mesma convicção de que tem o direito e a missão de explorar, de corrigir, de reconfigurar, de domesticar, de consumir, de rotular, de descartar, de tornar produtivo e de incorporar.

Isso quer dizer que o capitalismo – que você pode com igual imprecisão chamar de ocidente, de progresso, de desenvolvimento, de Anticristo e de Antibuda – avançou e avança [1] queimando o diferente, um diferente que [2] entende ter todo o direito de queimar.

Avanço, naturalmente, é a ideologia do capitalismo numa palavra. O capitalista vai dizer (e de fato acredita) que a lama no Rio Doce, o desmatamento da Amazônia, a acidificação dos oceanos e a torrefação do planeta são todos inconvenientes gerenciáveis num caminho que é justificado pelos seus avanços – avanços tecnológicos, científicos e (se o cabra for realmente cara de pau) sociais e políticos. Imperialista e militarista em sua origem, o uso da palavra não esconde (e portanto esconde) que avançar é essencialmente pisotear e destruir, e que não há nada “gerenciável” ou “sustentável” em continuar avançando como se fosse possível fazê-lo para sempre.

Tratando-se, como apontou Ursula K. Le Guin, da apropriação ideológica dos desejos e dos métodos do câncer (que não aspira a outra coisa, ele também, além de avançar), nenhum outro sistema de dominação mostrou-se mais eficaz e mais resistente do que o capitalismo – talvez porque nenhum estabeleceu para si projeto mais bombástico e justificativa mais pobre. O projeto do mercado, sua declaração de missão, é crescer sem pausa até sujeitar à produtividade cada centímetro, cada movimento e cada organismo do planeta, quem sabe do universo – como se a plena produtividade fosse algo possível e, muito mais sério, como se fosse algo desejável.

É claro que o sistema vai falir muito antes de alcançar esse pesadelo de escatologia realizada. É claro que um sistema que é um câncer vai se inviabilizar muito antes de ter incorporado tudo que gostaria, mas o que conta é que os avanços mais destruidores serão os últimos, aqueles que estão ainda por vir.

Mesmo fazendo água em todas as frentes, não é agora que o capitalismo vai flertar com a moderação. O mercado não vai ter vergonha de continuar operando com as suas fraturas publicamente expostas: a diferença é que agora tem muita pressa, mais do que jamais teve.

O sistema capturou no ar a conclusão de que é hora de um esforço concentrado. É preciso raspar o fundo do tacho da Terra antes que o acúmulo das inconveniências denunciem o fim da festa. As palavras de ordem são fazer-se de louco e acelerar. No Brasil, onde ao contrário de outros lugares da Terra temos quase tanta natureza para queimar quanto a que já queimamos, isso quer dizer ignorar de caso muito pensado os danos do desastre de Mariana e o risco muito real de desastres novos; quer dizer celebrar Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco como sucessos a serem multiplicados, em vez da Hiroshima e Nagasaki que são; quer dizer chamar de ponte para o futuro derrubar as provisões da lei que moderam o uso de selva e cerrado ancestral, com a intenção de sujeitar a terra a monoculturas como pasto e soja; quer dizer chamar o extrativismo de progresso e a morte de rios de desenvolvimento; quer dizer salvar bancos em vez de florestas; quer dizer priorizar o agronegócio e criminalizar modos de vida não-predatórios; quer dizer dar a tudo que é destruição o nome de avanço.

Em particular, aqui mas em todo lugar do mundo, quer dizer eliminar a competição.

O capitalismo é singular em sua capacidade de incorporar os seus críticos e no fato de, estando baseado na competição, beneficiar-se da existência de competidores em vez de perder com a presença deles. Isso quer dizer que num sentido importante o capitalismo não tem competidores e não tem cura. O único modo de vencer o capitalismo é/seria/permanece ignorá-lo em vez de combatê-lo, mas essa sorte de descolonização é tremendamente difícil de efetuar na vida real. O capitalismo se beneficia do fato de que é fácil ensinar as pessoas a desejar, é difícil ensiná-las a deixar de desejar.

A única verdadeira competição que o capitalismo enfrenta, portanto, é da parte dos que decidiram que não precisam dele, ou decidiram que dele precisam minimamente: índios, sertanejos, ribeirinhos, caiçaras, quilombolas, caipiras, beiraqueras, preguiçosos, saltimbancos, subsistentes, maloqueiros, encantados, maltrapilhos, desalinhados, hobbits: gente da rua, da beira da estrada, da orla do rio e do pé da serra. Esses homens e mulheres, que ousam desejar outra coisa – qualquer outra coisa, – representam uma verdadeira ameaça ao capitalismo no simples fato de existirem. O discurso do capitalismo é onipresente e para todos os efeitos todo-poderoso, mas o modo de vida de gente livre e autônoma pode, incrivelmente, ainda mais: pode até “servir” para descolonizar gente cativa da sua servidão.

É por isso que nos estertores do sistema os senhores do mercado estão fazendo um esforço muito deliberado no sentido de barrar, desativar, desarmar, conter, criminalizar, cercear, conter e eliminar essa sorte de competição: a competição de quem para o capitalismo ousa estar se lixando. Viveiros de Castro vai alertar sobre a última ofensiva do mercado/agronegócio contra os índios e indígenas, mas a mesma sorte de cerco e desativação sistemática estão sofrendo todos os marginalizados deste mundo1.

Os rumores dessa guerra não vão, naturalmente, chegar até os seus ouvidos. Em parte porque ela se desenrola nas margens, e eu e você somos o tipo de gente que ninguém barra na entrada do shopping. Também porque as vozes dos meios de comunicação, como não poderia deixar de ser, operam sob o cabresto dos interesses do mercado, e despejam incessantemente em favor dele ruído útil.

O ruído é incessante porque tem por tarefa convencer você de que o Estado é corrupto porque se deixa vender, o mercado a coisa mais pura porque toma a iniciativa de comprar. O ruído vai tentar convencer você de que o problema singular do Brasil (que nos destaca vergonhosamente no cenário mundial e entrava todos os nossos sucessos) é a corrupção, quando a corrupção é inerente ao sistema no mundo todo e o problema singular do Brasil é a desigualdade na distribuição de renda, que está entre as dez maiores do mundo. O ruído vai tentar convencer você de que no Brasil há muita desigualdade porque há pouco capitalismo, no preciso momento em que o mundo inteiro se obriga a reconhecer que o capitalismo acentua todas as desigualdades em vez de gradualmente atenuá-las.

Em particular, o ruído vai tentar convencer você de que é tarefa importante e factível aumentar a esfera do mercado e diminuir a esfera do Estado, como se mercado e política não tivessem uma relação de mútua dependência desde as origens.

O que deveríamos estar urgentemente discutindo e projetando (com a ajuda dos índios, maltrapilhos e desalinhados que criminalizamos porque dominam esse modo de vida) é uma vida inteira e um mercado mínimo.

Porque impensável é a alternativa; impensável é não pensar nisso. O mercado mínimo é a estreitíssima ponte para o menos injusto, o menos letal, o mais gentil dos futuros possíveis.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Marginal, naturalmente, é uma invenção e uma ideologia, um discurso útil na criminalização de quem ousa querer ser deixado em paz. []
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