A mística da desqualificação • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de Maio de 2016

A mística da desqualificação

Estocado em Brasil · Política

 

Quem tem autorização para se indignar? Pegue a sua senha

O impeachment nem foi ainda sancionado e já é um anticlímax. Na tempestade perfeita das exaltações políticas do Brasil, não há quem não se sinta perplexo, não há quem não se sinta refém. Dentre as coisas que eu tinha esquecido está que numa crise a moeda mais cara é a da alocação da culpa. Se é fácil olhar o cenário e encontrar alguma falta, mais difícil é encontrar paz na atribuição retroativa de responsabilidades.

Digamos que o governo interino seja um desastre: a culpa pelo desastre é dos que promoveram o impeachment ou dos que colocaram Dilma (e o seu vice) no poder? Digamos que o governo interino seja a melhor coisa: a culpa pela reação negativa do mercado e do mundo ao novo governo é dos sabotadores que não estão deixando o homem trabalhar ou da patente ilegitimidade da nova direção?

Organizando direitinho todo mundo pode se indignar

Grosso modo, a direita atribui à esquerda os eventuais insucessos (via boicote) e a própria existência (via eleições de 2014) do governo interino; a esquerda atribui à direita os excessos e retrocessos (via conservadorismo) e a própria existência (via impeachment) do novo governo. De quem exatamente é a culpa? Quem tem autorização para se indignar legitimamente?

Na tarefa da alocação da culpa, estratégia vital é a da desqualificação: quem é você para dizer alguma coisa, se você Numa palavra, antes que você possa criticar ou opinar, todos os lados vão lhe pedir as credenciais.

Parte da direita decidiu que quem apoiou o PT não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque aconteceu só que tomou posse o vice eleito com Dilma. O que você esperava?

Parte da esquerda decidiu que quem apoiou o impeachment não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque está apenas colhendo o que muito claramente plantou. O que você esperava?

Parte da direita decidiu que quem é de esquerda, mesmo se se opunha ao PT, não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque o PT é de esquerda. O que você esperava?

Parte da esquerda que se opunha ao PT decidiu que quem é de esquerda não tem autorização para se indignar com o governo interino, porque Dilma já havia feito alianças sacrílegas com as elites e o agronegócio, sendo para todos os efeitos um governo de direita. O que você esperava?

E assim por diante. Ciro Gomes não tem direito a opinar porque vem de uma família de políticos profissionais. Glenn Grenwald não tem direito a opinar porque é estrangeiro. Diogo Mainardi não tem porque mora na Itália. Paulo Brabo não tem direito a opinar sobre processos constitucionais porque já prescreveu que a anarquia é a única forma de governo. Luis Fernando Veríssimo não tem direito a opinar porque é escritor e sei lá, Lei Rouanet.

O anarquista dentro de mim preferiria não ter de defender uma instituição, mas tomando-se a democracia como ilusão útil, deve ser tomada pelo que diz: nesse universo de combinação somente o voto é irreversível, e num certo sentido, somente o voto é sagrado. Todo o resto precisa ser e espera-se que seja continuamente questionado, refinado, explicado, qualificado, justificado, trazido à luz, criticado e reformulado – sem que de antemão se saiba se o que vamos cavar daí é convivência, resistência ou aquele amargo misto das duas que é o preço e a recompensa da democracia1. A boa e a má noticia é que não há quem saiba como fazer isso por todos. Dito de outro modo, todos em qualquer circunstância estão qualificados para opinar, porque muito claramente não há um só que esteja.

Se deixarmos que todos os desqualificados falem e se ouçam quem sabe acabemos empurrando uns aos outros a ocupar os espaços viciados da democracia com arranjos mais vitais, locais, legítimos e representativos, coisas que nem nome talvez ainda tenham e que só pela metade aprendemos a desejar.
 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

NOTAS
  1. Nesse cenário até os picaretas e canalhas devem poder falar, especialmente pela conveniência de que falando revelam quem são. []
Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas tem o direito de ficar calada