A máquina no céu • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de julho de 2016

A máquina no céu

Estocado em Manuscritos

Podemos supor que, do mesmo modo que o inconsciente nos afeta, um acréscimo no consciente afeta o nosso inconsciente.

Carl Jung em Memories, Dreams, Reflections

 

A chuva era universal, ocupando o espaço da cidade sem pausa e sem trégua havia dois ou três dias, como se o dilúvio fosse o estado natural das coisas.

O livro que ele pousou em cima da mesa, entre o cinzeiro e a garrafa de Chianti, eu já conhecia, o último dele, publicado quatro anos antes. O desenho da capa mostrava uma cena clássica de abdução: um homem num descampado surpreendido pelo círculo de um facho de luz que descia de um disco voador vários metros acima dele.

– Estou pronto a dar a resposta que você quer ouvir – ele puxou o cigarro aceso do cinzeiro e acomodou-se com naturalidade na poltrona: – Sim, perdi o interesse no estudo da ufologia porque finalmente descobri do que se trata. Ria o quanto quiser, descobri o segredo dos discos voadores.

– Se posso retribuir a sinceridade — eu disse, pousando temporariamente a taça de vinho sobre o sapato da perna cruzada, – você descobriu o que todo homem sensato sabe, que são uma ilusão e uma farsa. Só não entendo porque não teve a hombridade ou o senso comercial de publicar uma retratação. Imagino que venderia bastante, a retratação pública de um ufólogo famoso.

Ele sorriu muito menos cinicamente do que eu esperava.

– Imagino que venderia bastante, tenho de concordar. Mas acredite, pode ter sido coisa mais embaraçosa pra mim entender que os discos voadores são coisa muito real.

– Na minha opinião, o que você descobriu foi bem o contrário: que sua posição oficial, de que os ovnis são uma realidade física, foi ficando cada vez mais difícil de sustentar. Mais de cinquenta anos de pesquisa e ninguém conseguiu produzir uma única evidência convincente. Uma única foto inequívoca. Um único parafuso. Você finalmente entendeu isso e saiu de cena de fininho, levando toda a dignidade que conseguiu recolher dos destroços. Seria muito custoso admitir publicamente a verdade: que os discos voadores são um sonho que as pessoas inventaram na tentativa de construir um significado cósmico para a realidade depois que todos os significados cósmicos foram publicamente ridicularizados. Como dizia Jung, que são o mito do século XX.

Ele sorriu e olhou-me nos olhos, aparentemente deleitado com a minha sinceridade, mas deu uma baforada sem acrescentar nada ao sorriso.

– Estou errado? – insisti.

– Muito – ele esmagou o cigarro no cinzeiro. – Para começar, você ficaria surpreso com as coisas que Jung tinha a dizer sobre a realidade dos mitos. Depois, está errada a sua interpretação barata do meu recolhimento. Se abandonei o campo não foi porque entendi que uma evidência física seria impossível de produzir, embora em retrospecto realmente o seja. A coisa decisiva foi… que a própria natureza da minha descoberta levou-me a perder imediatamente qualquer interesse em fazê-la pública. Digamos que descobrir a resposta ao mistério fez de mim um cínico, não um convertido.

– Você jogou bem – admiti. – Jogou muito bem: saiu de cena sem perder o charme e evitou o constrangimento de oferecer uma verdadeira resposta. Em particular, seu cinismo recém-adquirido funciona como uma camada protetora. Você não vai me contar o grande segredo nem mesmo se eu implorar, e vai poder sempre me dizer que está me protegendo de uma realidade que para mim poderia se mostrar terrível demais.

– Mais um engano seu. Não vejo porque você deva morrer sem saber. Não que vá fazer qualquer diferença.

– Estou pronto – reclinei-me. – Ainda melhor se não vai fazer diferença.

Ele mordeu os lábios e serviu-se de vinho, como se estivesse usando o intervalo para medir as palavras ou achar o melhor caminho para a intervenção.

– Há pouco – ele finalmente entrou em acordo consigo mesmo – você disse que os discos voadores são um sonho que as pessoas inventaram para dar um significado ao mundo. Digamos que está tudo aí.

– Então você concorda comigo que são um sonho? Está admitindo que não passam da projeção de um anseio?

– Você é um cara estudado – ele apertou a borda da taça contra o bigode. – De onde vem os sonhos?

– Sonhos em geral?

– Sonhos. Sonhos. Aqueles que as pessoas têm quando dormem. De onde vêm?

– Vamos ter mesmo essa conversa? Você quer uma resposta do século XX? Do inconsciente. Os sonhos são mensagens do inconsciente para o consciente.

– E que vocabulário o inconsciente usa para se expressar?

– São mensagens em código. O inconsciente, por ser inconsciente, não tem como se expressar diretamente, por isso usa nos sonhos um vocabulário simbólico tirado da mitologia pessoal de cada um.

– Você não usou o termo técnico que eu queria ouvi-lo repetir, projeção, mas sua explicação é justa. Você diria então que nos sonhos comparecem imagens da memória e da realidade física, retrabalhadas ou re-significadas pelo inconsciente de modo a indicar uma coisa oculta.

– Essa é a teoria.

– E é claramente uma teoria articulada pelo ego, pelo consciente, porque ao mesmo tempo consegue ponderar a verdade e deixa de lado a verdadeira revelação.

– A revelação que você seguramente vai dividir comigo só depois de adiar o quanto puder.

– De jeito nenhum. Veja, estamos acostumados a pensar que os sonhos são projeções imperfeitas da realidade; que são confusos ou misteriosos porque o inconsciente é incapaz de apropriar-se da realidade com a competência e a capacidade de organização da mente consciente. Na nossa cabeça, o consciente é lúcido e esperto e lida com a realidade; o inconsciente é um asilo de loucos e um inferno e um caos: uma casa de espelhos de parque de diversões, que lida não com o real mas com fantasmagorias. Só conseguimos pensar no inconsciente como um mundo subterrâneo, como uma não-existência em que flutuam sem nexo e sem ordem elementos que são ao mesmo tempo projeções e distorções daquelas porções da realidade que apreendemos com os sentidos e com a mente consciente. É revelador que pensemos no inconsciente como povoado por projeções do conteúdo que o consciente recolhe da realidade, porque na verdade é precisamente o contrário.

– Como assim?

– A verdadeira não-existência é aquela da mente consciente, claro. O ego é que é uma construção. O inconsciente não é povoado por projeções: a mente consciente, bem como aquilo que o ego constrói como realidade, é que são projeções do inconsciente.

Concedi à coisa toda o silêncio que merecia e bebi um gole de vinho antes de voltar à carga.

– E o que isso tem a ver com o nosso assunto? Você está tentando dizer que os discos voadores são eles mesmos mensagens do inconsciente? Que são sonhos que invadem a realidade física, por assim dizer… já que para você a realidade é uma projeção do inconsciente?

– Creia-me, não é nem de longe o que estou tentando dizer. Pense assim: se não houvesse espelhos as pessoas provavelmente nunca chegariam a entender que existe uma diferença, uma vírgula ou um abismo, entre elas mesmas e o mundo. Um espelho é um acidente revelatório na vida de cada um. Ver um disco voador é ter um encontro semelhante com uma revelação vertiginosa que, de outro modo, poderia ficar para sempre oculta. E exige uma conclusão tão portentosa que achamos absolutamente necessário revertê-la na tentativa de anulá-la.

Ele recolheu o livro, atirou-o mais para perto de mim sobre a mesa e apontou para o desenho da capa.

– O que você está vendo? O desenho, o que está mostrando?

– Uma cena de abdução – cedi, impaciente. – O sujeito está para ser sugado para dentro do disco voador pelo raio de luz. Spielberg. Hollywood.

– Olhe de novo, que está tudo aí.

– Não estou vendo o que você vê – insisti. – Você precisa aprender a deixar de contar com o meu brilhantismo. Sou um cara obtuso, especialmente se sinto que estou sendo guiado para uma conclusão.

– Você não vê? – ele inclinou-se para a frente e fez o dedo percorrer o desenho. – O homem no chão, o facho de luz projetando-se da máquina no céu em direção à terra? Trata-se de iconografia que muito claramente existe para ocultar a verdade em plena luz do dia.

– Não entendi – mas a essa altura talvez já tivesse.

– Há muito tempo temos descartado os discos voadores como se fossem projeções do inconsciente. Você mesmo não usou outro argumento desde que chegou. Meu caro, o ego insiste com tanta fúria neste ponto porque não quer admitir que na realidade é o contrário. As projeções não são a máquina no céu. Aqueles que avistam um disco voador são os que por algum deslize do sistema acabam contemplando diretamente, por alguns instantes, o projetor.

Meus olhos voltaram instintivamente para o desenho cru na capa do livro: a silueta do homem lá embaixo definida pelo facho de luz que se despejava de uma abertura circular numa máquina no céu.

– Os discos voadores não são a projeção – ele foi inclemente e achou que devia dizer com todas as letras: – A projeção somos nós.


Este relato foi publicado na Forja Universal em 31 de dezembro de 2012

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas já disse a mesma coisa mais de uma vez