A invasão do mundo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de julho de 2008

A invasão do mundo

Estocado em Fé e Crença · História

Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.

A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam o mundo e a Escritura. Eram um povo apontado para um presente glorioso e um futuro certo; eram um país protegido sobrenaturalmente do destino arbitrário ou vergonhoso que definia o percurso de nações menos afortunadas. Eram a cabeça, e não a cauda.

Então as coisas começaram a dar errado, e os filhos de Israel viram-se obrigados a reavaliar, vez após outra, a sua invulnerabilidade. Primeiro vieram os assírios, 720 anos antes de Cristo, e numa campanha certeira literalmente apagaram do mapa dez das doze tribos que compunham a família original de Israel. O reino do Norte virou pó, e as duas tribos remanescentes aquartelaram-se em Jerusalém, buscando a proteção de seu rei e de seu templo — os quais recebiam, por sua vez, proteção direta da mão divina.

As tribos negligentes e pecadoras do norte haviam sido eliminadas (o que era visto como coisa ao mesmo tempo inevitável e lamentável), mas Jerusalém era uma fortaleza inabalável e o centro do mundo. Aqui nada tinha como dar errado.

Então, 586 anos antes de Cristo, os habitantes de Judá testemunharam o impensável: os babilônios pisaram o lugar santo, onde o próprio Deus descansava os seus pés, destruíram o inviolável templo de Jerusalém, tomaram para si as relíquias sagradas e acorrentaram o rei. E, como se não bastasse, a própria população de Judá, reduto dos últimos defensores da verdade da Torá no vasto universo, foi arrancada da Terra Prometida e condenada a viver no exílio em diferentes pontos do império babilônico. Tiveram arrancados de si o seu coração, e foram condenados a viver longe do corpo. Perderam, diante de si mesmos e dos olhos de todo o mundo, sua terra, sua segurança, sua promessa.

Não é de admirar que tenham-se vistos obrigados a rever o seu triunfalismo. Israel, a nação isolada e singular, havia sido invadida pelo mundo e finalmente engolida por ele. Habitava agora suas entranhas.

A nova condição alterou marcadamente o modo pelo qual os judeus interpretavam o mundo e — ainda mais importante, no caso deles — sua própria Escritura. Talvez, viram-se forçados a ponderar, não tivessem entendido da primeira vez o que Deus queria realmente deles. E, se é que podiam sonhar com uma segunda chance, seria necessário vasculhar as Escrituras e reinterpretá-las à luz da nova situação. Era preciso encontrar novas revelações onde pensara-se durante tanto tempo estar cimentadas as antigas.

Essa mudança de paradigma fica evidente nos escritos dos profetas. Esses não apenas refletem os dilemas da nação isolada diante da impensável internacionalização, mas propõem maneiras radicalmente novas de se interpretar a vontade tradicional de Deus. Olhando para a mesma Torá e para as mesmas tradições, os profetas encontram a imagem de um Deus que não se sonhava residir ali. Que havia sido o pecado a ocasionar a derrocada da nação todos concordavam. Os profetas, no entanto, contornavam os pecados da religiosidade tradicional e apontavam transgressões mais sutis; destilavam uma moralidade mais refinada que, garantiam eles, Deus exigira desde o começo.

Uma nova espiritualidade nasceu, dessa forma, dos dissabores do exílio. Como não dispunham do templo, os judeus da dispersão passaram a reunir-se em sinagogas; aqui não tinham como apresentar os sacrifícios regulares previstos no código de Moisés, mas ofereciam constantes orações, súplicas e louvor. Descobriram que nessas casas de oração podiam manter acesa a sua vocação espiritual, estudando a Torá e buscando nela a relevância necessária para o momento. Vendo-se privados do seu insubstituível Lugar de adoração, intuíram com o passar do tempo a vertigem de que Deus não está preso a lugar algum e pode ser eficazmente buscado e encontrado seja onde for. Não é necessário, ousaram concluir, estar no templo certo, com o sacerdócio certo, o ritual certo ou no país certo. A nova espiritualidade era menos legalista, mais generosa e universal; o cativeiro revelara, paradoxalmente, um Deus maior.

Os exilados não encontraram apenas uma nova religiosidade mas ainda, e de forma inusitada, a prosperidade e a paz. Tornaram-se, em particular, comerciantes bem-sucedidos nas rotas de comércio babilônicas. O perfil do novo judeu era o de alguém fiel às suas raízes, mas ao mesmo tempo plenamente adaptado ao seu novo ambiente. Quando Ciro permitiu que os judeus dispersos pelo império retornassem à Palestina para reconstruir o templo e retomar o seu modo de vida (isso foi em 539 a.C.), muitos preferiram ficar.

A maioria, no entanto, escolheu o retorno à Judéia, onde os libertos e suas gerações reconstruíram o templo e os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Um novo e improvável sol de esperança brilhara sobre Judá, e seu Deus agora era ainda mais singular por não ser limitado pelo espaço.

Porém não demorou e veio o indomável Alexandre, e no rastro dele os gregos. Israel saberia, agora sim, o que é ser efetivamente invadido por uma cultura. Logo o mundo judeu estaria falando em grego, e mesmo essa não seria a mudança mais radical.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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